home   :   contato   
   Leia mais:
Vida que é arte
Fatos e ficções a sangue frio
As memórias de Gabo e as armadilhas do lembrar

 


versão para
impressão

Literatura da Realidade

  Sergio Vilas Boas  

  svilasboas@textovivo.com.br  

  [ Bio ]   [ Publicações ]  

Fatos e ficções a sangue frio

Imagine-se detalhando os bastidores de suas ações concretas e de suas omissões; imagine-se dizendo às pessoas tudo o que realmente pensa sobre elas; imagine o que seria de você se contasse aos outros o que acha de si mesmo; imagine-se produzindo um livro-reportagem quilomético, dentro do qual houvesse uma meta-reportagem e nela você revelasse os porquês de cada palavra escrita e não escrita, relatasse as opções feitas, as alternativas descartadas, os seus passos e os seus tropeços.

Esqueça. O único resultado possível dessa divagação será admitir que nossa curta trajetória de indivíduos não é feita de verdades, nada mais que verdades. Se fôssemos rigorosamente autênticos minuto a minuto a vida seria impossível. Para vivermos em sociedade (ou mesmo na mais absoluta solidão), criamos versões, interpretações e ficções. Viver é editar, e vice-versa. Diariamente narramos um novo conto sobre nossa existência, tendo sempre a faculdade de aumentar ou diminuir um ponto.

No fundo, sabemos também que seres humanos perfeitos e livros perfeitos ainda não nasceram. A Companhia das Letras prometeu relançar "A Sangue Frio", de Truman Capote (1924-1984), dentro da coleção Jornalismo Literário, inaugurada em setembro de 2002 com "Hiroshima", de John Hersey. "A Sangue Frio" é uma obra estupenda, espelho das possibilidades de fusão entre a arte (insisto que o Jornalismo Literário é uma arte, ainda que condicionada pelos fatos) e a chamada vida real.

Há um dado importante, raramente mencionado, sobre "A Sangue Frio": Capote inventou a cena final em que Alvin Dewey encontra-se casualmente com Susan Kidwell no cemitério de Garden City, onde os mortos da família Clutter estavam enterrados. Esta informação (confessada) está em "Capote - Uma Biografia" (1988), de Gerald Clarke.

Quem (não) conhece bem o lendário "A Sangue Frio" pode estar meio perdido a essa altura. Situemo-nos. Lançado originalmente nos EUA em 1966 (Capote já havia publicado alguns capítulos na revista "The New Yorker"), o livro reconstitui a história do sinistro assassinato dos quatro integrantes da família Clutter. Herbert, Bonnie, Nancy e Kenyon foram amarrados, amordaçados e baleados na cabeça, dentro de casa, na noite de 15 de novembro de 1959. O crime ocorreu na obscura cidadezinha de Holcomb, Kansas. Os dois principais suspeitos - os assaltantes Perry Smith e Dick Hickock - foram presos em Las Vegas, julgados e enforcados em 1965.

Quem eram os dois personagens do encontro casual inventado por Capote? Alvin Dewey foi o investigador que trabalhou no caso e auxiliou imensamente as pesquisas de Capote; Nancy Kidwell, a melhor amiga de Nancy Clutter, uma das vítimas. Conta o biógrafo Gerald Clarke que Truman Capote, obcecado pelo livro, ao qual já havia dedicado cinco anos, hesitou entre terminá-lo com o enforcamento dos dois condenados ou com uma cena de alívio do suspense, daquelas de que o cinema policial usa e abusa. Após narrar o enforcamento em detalhes, então, Capote inventou uma cena em que Dewey encontra Susan e mantêm um curto diálogo reflexivo.

Há muitas controvérsias e especulações sobre os bastidores de "A Sangue Frio". O próprio Gerald Clarke foi posto sob suspeita, já que a biografia saiu depois da morte de Capote. Certo é que em livro ou em revista a história arrebatou multidões. As quatro edições da "New Yorker" dedicadas ao caso Clutter bateram recordes de vendas. O livro, rotulado de "romance de não-ficção", logo se tornou um dos maiores best-sellers dos anos 1960 em vários países.

O painel intrigante e meticuloso montado em "A Sangue Frio" comprova (ainda comprova) que a não-ficção pode ser tão artística quanto a ficção, e que esse gênero - que recorre às ferramentas narrativas do romance - só era considerado uma espécie inferior de literatura por ser escrito por jornalistas, que, teoricamente, "não estavam aptos a explorá-la", diziam os críticos. Segundo Gerald Clarke, os bons ficcionistas americanos dos anos 1960 desdenhavam a reportagem, e os repórteres, por sua vez, não escreviam boa ficção.

Capote nunca foi um repórter de notícias e tampouco figura na lista dos mais apreciados ficcionistas americanos do século 20. Mas abriu espaço para o "novo gênero" (o romance como história, a história como romance, conforme dizia Norman Mailer). Com Capote, a narrativa não-ficcional definia seu lugar e consolidava a idéia de que o melhor romance social era o livro-reportagem com vestimenta romanesca.

"A Sangue Frio" é mesmo monumental em seu processo. Capote entrevistou, bisbilhotou, esmiuçou, interpretou; relacionou-se com os policiais e com os criminosos; reconstruiu em detalhes diálogos, geografias, feições, pensamentos, temperamentos e lembranças; foi iluminado tanto quanto iluminou o provinciano e conservador ambiente de Holcomb, no condado de Garden City. (Imaginem Capote, baixinho, gay e afetado no meio de personagens que deviam lhe parecer recém-saídos de um filme de caubóis.)

Capote não acreditou que podia dar conta do trampo sozinho, apesar de sua experiência de escritor emprestada ao jornalismo. Tanto que pediu ajuda a Nelle Harper Lee, que se tornou sua secretária de pesquisa. Capote e Nelle nunca foram vistos anotando ou gravando o quer que seja. Em conversas aparentemente casuais, os personagens iam se revelando. A idéia é exatamente esta: misturar-se com as pessoas - de preferência sem alardear e sem falsificar suas intenções - e ficar atento às falas reveladoras.

Vale contextualizar a "polêmica" da cena final e atualizar o entendimento sobre a atitude de Capote. Sem puritanismos, minha opinião é a seguinte: Capote escorregou. No TextoVivo, defendemos a exatidão, doa a quem doer. Se Capote reconstituísse a cena baseado em alguma evidência ou registro, tudo bem. Mas não parece ter sido o caso. Clarke levanta suspeitas de invenção mesmo. E o único mandamento de qualquer narrativa de não-ficção é exatamente "não inventar situações, lugares, objetos e pessoas".

Passados mais de 35 anos, contudo, esse pecado não deverá derrubar o mito criado em torno de Capote e sua obra. Certas informações vieram à tona talvez já sem efeito. Mesmo na época do lançamento do livro não havia grandes expectativas estéticas em relação aos chamados livros de não-ficção. Nos anos 1960 não existia uma Literatura de Não-Ficção (socialmente aceita, como hoje) com regras e princípios.

Os ataques mais pesados ao Jornalismo Literário vêm exatamente dos ideólogos da objetividade, os falsos modernizadores do jornalismo, que consolidaram a supremacia dos textos burocráticos, pobres de espírito, de vocabulário e de história. O jornalismo diário assim segue tentando imitar o que pensa ser a vida: um eterno comer, beber, dormir e trabalhar, não necessariamente com a consciência limpa e nesta ordem. No fim das contas, o caráter tendencioso dos noticiários termina obscurecido por um véu de neutralidade.

Reportagens ditas objetivas de hoje, baseadas em "aconteceu ontem" ou "fulano disse", não raro enfrentam reações iradas das fontes. Mas, nesse caso, seus autores não têm como se defender alegando que "apenas estavam experimentando uma linguagem elaborada". Alguns personagens de "A Sangue Frio" queixaram-se de cenas, diálogos, pensamentos e atitudes que não batiam com suas lembranças. Já os dois protagonistas da cena final inventada, ao que se sabe, nunca espernearam. Estranho.

Enquanto isso, a fama de jornalista literário de Capote, que chegou a merecer 18 páginas da revista "Life" na época, escapou ilesa. Suas qualidades de fanfarrão, imiscuído nos altos escalões sociais, e sua história de vida conturbada propiciaram muito mais munição a seus detratores do que seus supostos deslizes como jornalista. Além do mais, os tempos são outros. Transposta para os dias atuais, a revelação da fraude da cena final de "A Sangue Frio" talvez nem fosse alvo de celeumas. Ou seria? Difícil saber. O mercado editorial é tão vulnerável ao escândalo e à fraude quanto Wall Street, só que de maneiras diferentes.

Para haver debate aprofundado seria necessário, hoje, um entendimento universal sobre os pilares do Jornalismo Literário. No Brasil, reitero, esse entendimento simplesmente inexiste. Pilares, que pilares? Costumo evitar enumerações engessantes, mas dá para afirmar com segurança que tais pilares são seis: imersão total do autor no tema escolhido; estrutura narrativa que capte a atenção do início ao fim; linguagem aprimorada; exatidão; responsabilidade; simbolismo (visão subjetiva de mundo). Creio que várias outras características, como criatividade, inovação, relação de confiança com as fontes, compromisso com os fatos, humanismo etc., decorrem daqueles.

Então, Capote violou o mandamento que diz "pessoas reais, em lugares reais, em situações reais". Quem lê obras de Jornalismo Literário atualmente sempre poderá se perguntar se aquilo aconteceu mesmo (sim, às vezes a realidade supera a ficção) e se foi daquele jeito. Algumas descrições, diálogos, monólogos e digressões feitas a partir de reconstituições responsáveis podem parecer tão hiper-realistas quanto uma obra de ficção premeditada.

Chegamos ao ponto em que o círculo deste artigo tende a se fechar. O que é fato? O que é ficção? A fronteira entre ambos, que chegou a parecer bem definida até às vésperas do surgimento de "A Sangue Frio", ruiu com a chamada pós-modernidade. Nas últimas décadas, as ciências em geral começaram a ver que essa fronteira, na verdade, esteve sempre aberta. Uma das evidências disso, notaram os pesquisadores, eram exatamente as narrativas que se situavam na zona de fronteira, as que pretendiam, como é o caso de "A Sangue Frio", fundir a História com a Arte.

Historiadores, antropólogos, sociólogos e jornalistas se acostumaram com o pressuposto de que lidavam com fatos e de que seus textos refletiam a realidade. A filosofia e a psicologia, especialmente, acabaram mostrando que todos estamos mergulhados até o pescoço no território da ficção. O real e o imaginário são indissociáveis. A realidade é uma construção simbólica, engendrada individual e coletivamente. Acreditar que se está oferecendo "o que realmente aconteceu, nem mais nem menos" é um atestado de esquizofrenia.

Até os trabalhos mais aparentemente científicos têm poética, elemento estético construído a partir de uma filosofia. Não quero dizer com isto que tudo é permitido, que qualquer coisa é qualquer coisa, que basta o Eu Querer. O Pensamento Complexo em voga hoje nos conscientiza de certas armações marqueteiras, como a de insistir na tecla de que "tudo o que narrei é a verdade, nada mais que a verdade". Se aspirasse às mais sólidas virtudes do Jornalismo Literário (em franca evolução nos EUA), Truman Capote não inventaria a cena final em hipótese alguma.

Também não se trata de dizer apenas, grosseiramente, que a "luz apagou, a utopia sumiu, a noite esfriou" (parafraseando o extraordinário poema "José", de Carlos Drummond de Andrade). Ultimamente andaram decretando o fim de tudo: da arte, das ciências, da ética etc. Curioso que ninguém, que eu saiba, decretou o fim do jornalismo convencional, apesar de sua mais do que demonstrada incapacidade de se renovar e de se manter lado a lado com as evoluções deste nosso cada vez mais indecifrável mundo.

O problema continua sendo as "representações factuais", o modo como as mensagens são construídas, embaladas e difundidas. Imparcialidades mascaradoras, pretensão ao conhecimento absoluto de conteúdos inaugurais, uso de estatísticas para impressionar o leitor-telespectador-ouvinte, entre outros recursos oportunistas, tentam forjar o real. A realidade total, tal qual, é um objetivo impossível. Nem por isso devemos desistir de nos aproximar de uma verdade possível. Capote quebrou o contrato, ficcionalizou deliberadamente, omitiu. Inspirou tanto quanto decepcionou seus seguidores. Mas seu modo literário de narrar continua sendo referencial para jornalistas-escritores.

© Copyright 2003, TextoVivo - Narrativas da Vida Real
Melhor visualizado em 800 x 600 pixels - Aviso Legal