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Fatos
e ficções a sangue frio
Imagine-se
detalhando os bastidores de suas ações
concretas e de suas omissões; imagine-se dizendo
às pessoas tudo o que realmente pensa sobre elas;
imagine o que seria de você se contasse aos outros
o que acha de si mesmo; imagine-se produzindo um livro-reportagem
quilomético, dentro do qual houvesse uma meta-reportagem
e nela você revelasse os porquês de cada
palavra escrita e não escrita, relatasse as opções
feitas, as alternativas descartadas, os seus passos
e os seus tropeços.
Esqueça.
O único resultado possível dessa divagação
será admitir que nossa curta trajetória
de indivíduos não é feita de verdades,
nada mais que verdades. Se fôssemos rigorosamente
autênticos minuto a minuto a vida seria impossível.
Para vivermos em sociedade (ou mesmo na mais absoluta
solidão), criamos versões, interpretações
e ficções. Viver é editar, e vice-versa.
Diariamente narramos um novo conto sobre nossa existência,
tendo sempre a faculdade de aumentar ou diminuir um
ponto.
No
fundo, sabemos também que seres humanos perfeitos
e livros perfeitos ainda não nasceram. A Companhia
das Letras prometeu relançar "A Sangue Frio",
de Truman Capote (1924-1984), dentro da coleção
Jornalismo Literário, inaugurada em setembro
de 2002 com "Hiroshima", de John Hersey. "A
Sangue Frio" é uma obra estupenda, espelho
das possibilidades de fusão entre a arte (insisto
que o Jornalismo Literário é uma arte,
ainda que condicionada pelos fatos) e a chamada vida
real.
Há
um dado importante, raramente mencionado, sobre "A
Sangue Frio": Capote inventou a cena final em que
Alvin Dewey encontra-se casualmente com Susan Kidwell
no cemitério de Garden City, onde os mortos da
família Clutter estavam enterrados. Esta informação
(confessada) está em "Capote - Uma Biografia"
(1988), de Gerald Clarke.
Quem
(não) conhece bem o lendário "A Sangue
Frio" pode estar meio perdido a essa altura. Situemo-nos.
Lançado originalmente nos EUA em 1966 (Capote
já havia publicado alguns capítulos na
revista "The New Yorker"), o livro reconstitui
a história do sinistro assassinato dos quatro
integrantes da família Clutter. Herbert, Bonnie,
Nancy e Kenyon foram amarrados, amordaçados e
baleados na cabeça, dentro de casa, na noite
de 15 de novembro de 1959. O crime ocorreu na obscura
cidadezinha de Holcomb, Kansas. Os dois principais suspeitos
- os assaltantes Perry Smith e Dick Hickock - foram
presos em Las Vegas, julgados e enforcados em 1965.
Quem
eram os dois personagens do encontro casual inventado
por Capote? Alvin Dewey foi o investigador que trabalhou
no caso e auxiliou imensamente as pesquisas de Capote;
Nancy Kidwell, a melhor amiga de Nancy Clutter, uma
das vítimas. Conta o biógrafo Gerald Clarke
que Truman Capote, obcecado pelo livro, ao qual já
havia dedicado cinco anos, hesitou entre terminá-lo
com o enforcamento dos dois condenados ou com uma cena
de alívio do suspense, daquelas de que o cinema
policial usa e abusa. Após narrar o enforcamento
em detalhes, então, Capote inventou uma cena
em que Dewey encontra Susan e mantêm um curto
diálogo reflexivo.
Há
muitas controvérsias e especulações
sobre os bastidores de "A Sangue Frio". O
próprio Gerald Clarke foi posto sob suspeita,
já que a biografia saiu depois da morte de Capote.
Certo é que em livro ou em revista a história
arrebatou multidões. As quatro edições
da "New Yorker" dedicadas ao caso Clutter
bateram recordes de vendas. O livro, rotulado de "romance
de não-ficção", logo se tornou
um dos maiores best-sellers dos anos 1960 em vários
países.
O
painel intrigante e meticuloso montado em "A Sangue
Frio" comprova (ainda comprova) que a não-ficção
pode ser tão artística quanto a ficção,
e que esse gênero - que recorre às ferramentas
narrativas do romance - só era considerado uma
espécie inferior de literatura por ser escrito
por jornalistas, que, teoricamente, "não
estavam aptos a explorá-la", diziam os críticos.
Segundo Gerald Clarke, os bons ficcionistas americanos
dos anos 1960 desdenhavam a reportagem, e os repórteres,
por sua vez, não escreviam boa ficção.
Capote
nunca foi um repórter de notícias e tampouco
figura na lista dos mais apreciados ficcionistas americanos
do século 20. Mas abriu espaço para o
"novo gênero" (o romance como história,
a história como romance, conforme dizia Norman
Mailer). Com Capote, a narrativa não-ficcional
definia seu lugar e consolidava a idéia de que
o melhor romance social era o livro-reportagem com vestimenta
romanesca.
"A
Sangue Frio" é mesmo monumental em seu processo.
Capote entrevistou, bisbilhotou, esmiuçou, interpretou;
relacionou-se com os policiais e com os criminosos;
reconstruiu em detalhes diálogos, geografias,
feições, pensamentos, temperamentos e
lembranças; foi iluminado tanto quanto iluminou
o provinciano e conservador ambiente de Holcomb, no
condado de Garden City. (Imaginem Capote, baixinho,
gay e afetado no meio de personagens que deviam lhe
parecer recém-saídos de um filme de caubóis.)
Capote
não acreditou que podia dar conta do trampo sozinho,
apesar de sua experiência de escritor emprestada
ao jornalismo. Tanto que pediu ajuda a Nelle Harper
Lee, que se tornou sua secretária de pesquisa.
Capote e Nelle nunca foram vistos anotando ou gravando
o quer que seja. Em conversas aparentemente casuais,
os personagens iam se revelando. A idéia é
exatamente esta: misturar-se com as pessoas - de preferência
sem alardear e sem falsificar suas intenções
- e ficar atento às falas reveladoras.
Vale
contextualizar a "polêmica" da cena
final e atualizar o entendimento sobre a atitude de
Capote. Sem puritanismos, minha opinião é
a seguinte: Capote escorregou. No TextoVivo, defendemos
a exatidão, doa a quem doer. Se Capote reconstituísse
a cena baseado em alguma evidência ou registro,
tudo bem. Mas não parece ter sido o caso. Clarke
levanta suspeitas de invenção mesmo. E
o único mandamento de qualquer narrativa de não-ficção
é exatamente "não inventar situações,
lugares, objetos e pessoas".
Passados
mais de 35 anos, contudo, esse pecado não deverá
derrubar o mito criado em torno de Capote e sua obra.
Certas informações vieram à tona
talvez já sem efeito. Mesmo na época do
lançamento do livro não havia grandes
expectativas estéticas em relação
aos chamados livros de não-ficção.
Nos anos 1960 não existia uma Literatura de Não-Ficção
(socialmente aceita, como hoje) com regras e princípios.
Os
ataques mais pesados ao Jornalismo Literário
vêm exatamente dos ideólogos da objetividade,
os falsos modernizadores do jornalismo, que consolidaram
a supremacia dos textos burocráticos, pobres
de espírito, de vocabulário e de história.
O jornalismo diário assim segue tentando imitar
o que pensa ser a vida: um eterno comer, beber, dormir
e trabalhar, não necessariamente com a consciência
limpa e nesta ordem. No fim das contas, o caráter
tendencioso dos noticiários termina obscurecido
por um véu de neutralidade.
Reportagens
ditas objetivas de hoje, baseadas em "aconteceu
ontem" ou "fulano disse", não
raro enfrentam reações iradas das fontes.
Mas, nesse caso, seus autores não têm como
se defender alegando que "apenas estavam experimentando
uma linguagem elaborada". Alguns personagens de
"A Sangue Frio" queixaram-se de cenas, diálogos,
pensamentos e atitudes que não batiam com suas
lembranças. Já os dois protagonistas da
cena final inventada, ao que se sabe, nunca espernearam.
Estranho.
Enquanto
isso, a fama de jornalista literário de Capote,
que chegou a merecer 18 páginas da revista "Life"
na época, escapou ilesa. Suas qualidades de fanfarrão,
imiscuído nos altos escalões sociais,
e sua história de vida conturbada propiciaram
muito mais munição a seus detratores do
que seus supostos deslizes como jornalista. Além
do mais, os tempos são outros. Transposta para
os dias atuais, a revelação da fraude
da cena final de "A Sangue Frio" talvez nem
fosse alvo de celeumas. Ou seria? Difícil saber.
O mercado editorial é tão vulnerável
ao escândalo e à fraude quanto Wall Street,
só que de maneiras diferentes.
Para
haver debate aprofundado seria necessário, hoje,
um entendimento universal sobre os pilares do Jornalismo
Literário. No Brasil, reitero, esse entendimento
simplesmente inexiste. Pilares, que pilares? Costumo
evitar enumerações engessantes, mas dá
para afirmar com segurança que tais pilares são
seis: imersão total do autor no tema escolhido;
estrutura narrativa que capte a atenção
do início ao fim; linguagem aprimorada; exatidão;
responsabilidade; simbolismo (visão subjetiva
de mundo). Creio que várias outras características,
como criatividade, inovação, relação
de confiança com as fontes, compromisso com os
fatos, humanismo etc., decorrem daqueles.
Então,
Capote violou o mandamento que diz "pessoas reais,
em lugares reais, em situações reais".
Quem lê obras de Jornalismo Literário atualmente
sempre poderá se perguntar se aquilo aconteceu
mesmo (sim, às vezes a realidade supera a ficção)
e se foi daquele jeito. Algumas descrições,
diálogos, monólogos e digressões
feitas a partir de reconstituições responsáveis
podem parecer tão hiper-realistas quanto uma
obra de ficção premeditada.
Chegamos
ao ponto em que o círculo deste artigo tende
a se fechar. O que é fato? O que é ficção?
A fronteira entre ambos, que chegou a parecer bem definida
até às vésperas do surgimento de
"A Sangue Frio", ruiu com a chamada pós-modernidade.
Nas últimas décadas, as ciências
em geral começaram a ver que essa fronteira,
na verdade, esteve sempre aberta. Uma das evidências
disso, notaram os pesquisadores, eram exatamente as
narrativas que se situavam na zona de fronteira, as
que pretendiam, como é o caso de "A Sangue
Frio", fundir a História com a Arte.
Historiadores,
antropólogos, sociólogos e jornalistas
se acostumaram com o pressuposto de que lidavam com
fatos e de que seus textos refletiam a realidade. A
filosofia e a psicologia, especialmente, acabaram mostrando
que todos estamos mergulhados até o pescoço
no território da ficção. O real
e o imaginário são indissociáveis.
A realidade é uma construção simbólica,
engendrada individual e coletivamente. Acreditar que
se está oferecendo "o que realmente aconteceu,
nem mais nem menos" é um atestado de esquizofrenia.
Até
os trabalhos mais aparentemente científicos têm
poética, elemento estético construído
a partir de uma filosofia. Não quero dizer com
isto que tudo é permitido, que qualquer coisa
é qualquer coisa, que basta o Eu Querer. O Pensamento
Complexo em voga hoje nos conscientiza de certas armações
marqueteiras, como a de insistir na tecla de que "tudo
o que narrei é a verdade, nada mais que a verdade".
Se aspirasse às mais sólidas virtudes
do Jornalismo Literário (em franca evolução
nos EUA), Truman Capote não inventaria a cena
final em hipótese alguma.
Também
não se trata de dizer apenas, grosseiramente,
que a "luz apagou, a utopia sumiu, a noite esfriou"
(parafraseando o extraordinário poema "José",
de Carlos Drummond de Andrade). Ultimamente andaram
decretando o fim de tudo: da arte, das ciências,
da ética etc. Curioso que ninguém, que
eu saiba, decretou o fim do jornalismo convencional,
apesar de sua mais do que demonstrada incapacidade de
se renovar e de se manter lado a lado com as evoluções
deste nosso cada vez mais indecifrável mundo.
O
problema continua sendo as "representações
factuais", o modo como as mensagens são
construídas, embaladas e difundidas. Imparcialidades
mascaradoras, pretensão ao conhecimento absoluto
de conteúdos inaugurais, uso de estatísticas
para impressionar o leitor-telespectador-ouvinte, entre
outros recursos oportunistas, tentam forjar o real.
A realidade total, tal qual, é um objetivo impossível.
Nem por isso devemos desistir de nos aproximar de uma
verdade possível. Capote quebrou o contrato,
ficcionalizou deliberadamente, omitiu. Inspirou tanto
quanto decepcionou seus seguidores. Mas seu modo literário
de narrar continua sendo referencial para jornalistas-escritores.
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