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Seminário Brasileiro de Jornalismo Literário
Um marco histórico

Cristiane Del Gaudio

  • Multiplicadores

O estandarte segue erguido. Sinal de combate à afirmação de que o leitor não gosta de textos longos e não dedica tempo à leitura. Empunhando-o, os quatro cavaleiros, na definição de um deles (o professor Celso Falaschi), lançaram-se num grande desafio: organizar o primeiro Seminário Brasileiro de Jornalismo Literário, um marco histórico que consagraria outro grande objetivo já alcançado: a própria criação da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL) e do portal TextoVivo.

Edvaldo Pereira Lima, Sergio Vilas Boas, Celso Falaschi e Rodrigo Stucchi puderam concretizar, diante de trezentos participantes – estudiosos, praticantes ou simples entusiastas –, o poder do Jornalismo Literário, que hoje se reapresenta com uma das alternativas viáveis para a oxigenação da reportagem escrita no Brasil. Encorajados por desbravadores brasileiros e estrangeiros, os quatro cavaleiros demarcaram novos territórios, ampliaram seus horizontes e seduziram novos adeptos.

“Oportunidade inovadora, atitude atrevida”, como disse o cavaleiro Celso. A ABJL/TextoVivo batalhou por patrocínio durante dois anos até tornar possível esse encontro memorável (o primeiro do gênero na história do jornalismo brasileiro). A cidade escolhida foi São Paulo, principal metrópole da América Latina, ponto de convergência para congressistas vindos de todo o Brasil.

Foi uma grande chance de divulgar nacionalmente a narrativa da realidade. Além de ser o cerne dos cursos de pós-graduação da ABJL, o tema da narrativa de não-ficção (ou jornalismo narrativo) vem ganhando vulto, dia a dia, em jornais, revistas, documentários audiovisuais (para cinema e TV) e coleções de livros.

Com o empenho dos quatro cavaleiros e o patrocínio da Petrobras (com o apoio da ANJ, TAM e Travel Ace Assistance), foi possível convocar Mark Kramer (da Nieman Foundation, vinculada à Universidade Harvard), Anne Hull (do “Washington Post”), Paulo Moura (do diário português “Público) e profissionais brasileiros premiados como Eliane Brum, Caco Barcellos, Ricardo Kotscho, Helio Campos Melo e Marcelo Rech.

Durante dois dias, essa turma toda, enriquecida pelas sabedorias de Edvaldo, Sergio e Celso, instigaram novos multiplicadores para o Jornalismo Literário, também conhecido como Jornalismo Narrativo (nome que Harvard, por exemplo, prefere usar).

  • Seres narrativos

Na manhã do dia 22, uma segunda-feira instável, de um cinza praticamente comum em São Paulo, o saguão de recepção dos participantes do evento ia se movimentando com a chegada de jovens jornalistas, em sua maioria, mas também veteranos e veteranas. Todos cheios de curiosidades. Cumprimentam-se. Aos poucos, formam-se grupos, que chegam juntos, excitados para ouvir e falar de experiências com narrativas.

Esses “seres narrativos” estavam ansiosos pelos ensinamentos dos convidados, e dispostos a engrossar o exército de aventureiros da reportagem criativa, sem fórmulas, produzida e revelada com recursos da literatura. Alguns olhares buscavam Caco Barcellos, nome em evidência pelo posto ocupado na televisão. Outros queriam identificar Eliane Brum, a gaúcha franzina, tímida, misturada entre os estudantes, mas habilidosa, trazendo na bagagem o Prêmio Jabuti de “melhor livro de reportagem” de 2006: “A Vida que Ninguém Vê”.

O Seminário atraiu gente de vários pontos do país interessada em absorver o que os professores da ABJL haviam preparado. Jornalistas como Ricardo Kotscho e Helio Campos Melo, ganhadores de tantos prêmios Esso, e Marcelo Rech, diretor de redação do terceiro maior jornal do Brasil – e o que já pratica Jornalismo Narrativo há algum tempo.

Professores universitários organizaram grupos de alunos e redações de jornais, revistas, portais, TVs e rádios enviaram repórteres e editores para aperfeiçoamento. Quase trezentas vagas foram ocupadas no lotado auditório do Novotel Jaraguá, em São Paulo, bem pertinho das famosas esquinas da Ipiranga com a São João.

Nesse cenário metropolitano estavam os novos dissipadores da narrativa da realidade, gente a fim de lutar por um jornalismo mais humanizado, no qual a jornada de personagens reais tenha preponderância sobre as estatísticas e os didatismos. Contra a “pirâmide invertida”? Sim, claro.

O professor Edvaldo Pereira Lima – ou simplesmente Ed, como ele é conhecido (e como ele próprio se refere a si mesmo) – apresentou a história, conceitos-chaves e panoramas na palestra “Jornalismo Literário: paisagem em três ambientes”.
Ed parecia imbuído de empolgação semelhante à da platéia. Ele já esteve do outro lado. Lembra-se de quando participou da Nieman Conference on Narrative Journalism em 2003, em Boston (EUA).

Ed falou sobre pesquisa social apurada; sentidos receptivos aliados a simbologias e uso de metáforas; consciência e visão de mundo ampla, aberta. “O Jornalismo Literário vem com a necessidade de transformar o mundo, por meio do mergulho sincero, genuíno, na realidade”, afirmou. “Atuamos como um campo de força, de energia, na sintonia do que houve, do que há, e do que está por vir.”

  • Sutilezas

Os semblantes dos participantes estavam meditativos. A cada relato dos palestrantes, a cada referência à possibilidade de renovação do jornalismo impresso, a cada chamada por novas metodologias e técnicas de expressão ouviam-se sinais de alívio do tipo “agora não tenho mais dúvidas” ou de apoio incondicional do tipo “estou no lugar certo”.

Em seguida ao Ed veio o irreverente Mark Kramer, com sotaque gutural bostoniano. Mark é uma espécie de embaixador mundial do Jornalismo Narrativo. Ele integrou durante dez anos uma instituição focada em um jornalismo diferenciado e humanizado: a Nieman Foundation, braço da Universidade Harvard, e que reúne anualmente milhares de participantes do mundo todo em congressos sobre Jornalismo Narrativo.

A tradução simultânea ditava o ritmo das anotações dos ouvintes. Entre outras coisas, Kramer falou da necessidade de os jornalistas narrativos evitarem o sentimentalismo e a pieguice. “Há que se valorizar especialmente a ‘voz’ de quem escreve, o estilo autoral. Usar audição, tato, visão e olfato diante do que se quer reportar, a fim de obter uma produção rica, clara e sincera.”

O painel na seqüência do almoço exigia dinamismo e energia. Sergio Vilas Boas, cavaleiro da ABJL, que participou da Nieman Conference on Narrative Journalism em Boston em 2005, foi anunciado. Ele discorreu com segurança e agilidade, despertando e excitando a platéia, literalmente.

Seu tema era uma das especificidades da narrativa de não-ficção: “O biografismo e o biográfico – construindo perfis”. Sergio mostrou o quanto essas produções podem ser fascinantes, à medida que os relatos de histórias de vida promovem o reconhecimento do “herói” arquetípico (não hollywoodiano) presente em qualquer indivíduo humano.

“Nossas percepções de mundo e do outro se constroem com sutilezas. O Jornalismo Literário não pode existir sem pessoas, ou seja, sem personagens reais, vistos e compreendidos em seus mundos, em suas maneiras de ser, sejam elas quais forem. Os principais ingredientes do Jornalismo Literário são a imersão no mundo do ‘outro’ e a existência de personagens, que são a razão de ser das matérias.”

Durante os intervalos, nos coffe breaks e almoços, o que se degustava, mesmo, eram os conceitos, métodos e técnicas aprendidos. As falas inspiradoras. Idéias reverberantes. Os comentários giravam em torno dos modos de aplicação de tudo o que se dizia, com vistas a um jornalismo mais dinâmico e atraente para leitores, telespectadores, ouvintes e internautas.

Na seqüência (ainda no dia 22/10), Anne Hull, repórter especial do “The Washington Post”, apresentou detalhes sobre as inúmeras reportagens que a levaram a ser finalista de cinco prêmios Pulitzer. Ela ficou conhecida por seu trabalho competente durante a devastação provocada pelo furacão Katrina em New Orleans (EUA) e a tragédia do 11 de Setembro. Altiva e delicada, Anne também chamou a atenção por sua serenidade e disponibilidade para esmiuçar seus processos de escrita e suas preocupações sociais.

Mesclando trabalho e lazer nesta sua única semana de férias do trabalho – coisa que o Brasil pôde lhe proporcionar -, Anne falou sobre as “reportagens seriadas para jornais”, outra de suas especialidades. A tradução nos headfones acelerava as canetas para anotar frases como “desenvolver a observação ao máximo, estar no background e avaliar o que é realmente relevante” ou “a cronologia está sempre à disposição e, em caso de dúvida, a regra é começar do começo”. Anne sintetizou o tema de seu painel ao dizer que “é preciso transmitir ao leitor uma nova experiência a cada frase, pois fui eu quem presenciou, experimentou. Eu estive no local dos acontecimentos, e tenho que compartilhar isso”.

  • Segundo dia

Começa a segunda etapa do Seminário, todos de volta ao grande auditório, dessa vez para conhecer o que Marcelo Rech tinha a dizer sobre a trajetória do jornal “Zero Hora” e a opção pelo Jornalismo Narrativo e por reportagens seriadas desde a década de 1970. No painel “‘Zero Hora’: Uma experiência de renovação”, Rech expôs os fatores que fazem do tablóide gaúcho, berço de Eliane Brum, o terceiro maior jornal em vendas no Brasil. E afirmou: “Jornalismo de qualidade traz bons resultados para o setor como um todo”. A recente premiação recebida da Associação Mundial de Jornais, num congresso promovido em Amsterdã, Holanda, respaldava Marcelo.

Ele listou os princípios de “Zero Hora” para selecionar temas conforme a relevância e para uma dedicação adequada ao texto realmente valoroso, que merece, além de tudo, recursos gráficos e fotográficos de alto nível. “Experimentar, inovar, progredir”, encerrou Rech.

O Seminário teve boas reflexões sobre livro-reportagem ainda com Caco Barcellos e o painel “O livro ‘Abusado’: inspirações e elaboração”. Depois de uma breve explanação sobre outras duas produções, “A revolução das Crianças” e “Rota 66”, Caco descreveu inúmeras situações vividas em nome da imersão na narrativa da realidade. Foram cinco anos convivendo com personagens na favela do Morro Dona Marta (Rio de Janeiro) para elaborar “Abusado”.

As constatações do jornalista levam a questionamentos como o seguinte: “Por que o Brasil, que se declara contra a pena de morte, que é signatário de vários tratados pela defesa dos direitos humanos, se omite diante das milhares e milhares de mortes de gente pobre praticadas pela Polícia Militar?”.

Barcellos evidenciou a possibilidade de aprofundamento do livro-reportagem, que não limita o espaço de páginas e colunas, nem ao deadline, e ainda condenou a falta de interesse dos veículos pelas questões sociais; e foi enfático sobre o amplo contato com seus personagens: “Os protagonistas são muito importantes, porque conhecem os vários aspectos de sua condição. Já o poder público não conhece, e a imprensa, tampouco. Só o convívio proporciona a profundidade de entendimento”.

O desafio de manter concentradas centenas de pessoas interessadas em Jornalismo Literário estava sendo vencido com pontualidade e descontração. As plenárias para perguntas aos palestrantes trazia sempre uma demanda impossível de ser atendida uma a uma, o que colocou os hosts (anfitriões das mesas) diante da complexa tarefa de selecionar e endereçar as questões. Caco, por exemplo, recebeu mais de cinqüenta perguntas escritas, impossíveis de serem respondidas em meia-hora.

Com um bom humor peculiar, entrou em cena Paulo Moura, tentando demonstrar que criatividade e oportunismo são traços valiosos de um narrador da realidade. Em “Portugal: geração involuntária de escritores da realidade”, Moura contextualizou situações políticas e sociais que suscitaram o surgimento de jornalistas literários. Levou a platéia ao riso o tempo todo ao contar, com dinamismo narrativo e sotaque inconfundível, suas desventuras nas coberturas de várias guerras, que exigiram dele disposição e apuração. “Quando estamos dentro da história, participamos verdadeiramente dessa história, e é impossível não nos envolvermos profundamente”, disse.

Paulo Moura arrancou gargalhadas da platéia ao falar dos bastidores de sua reportagem intitulada “O Segredo da Cartuxa”, em que se propôs a conhecer a rotina de um dos mais rigorosos mosteiros portugueses. Ele e um fotógrafo freqüentaram a silenciosa e misteriosa instituição, conheceram figuras caricatas e viveram episódios surpreendentes. A reportagem integra uma coletânea de narrativas de não-ficção de Paulo que será lançada em breve.

  • Olhares femininos

O olhar predominantemente feminino da platéia buscava agora Eliane Brum, personificação de uma jornalista literária de sucesso. Jovem, discreta e muito tímida, Eliane tirou da bagagem diversas demonstrações de como conquistou o Prêmio Jabuti na categoria “livro de reportagem” com a coletânea “A Vida que Ninguém Vê” (Arquipélago Editorial).

Aos poucos, seu discurso denso foi cativando e envolvendo o público num silêncio altamente reflexivo. Fotos no telão ilustravam e davam cor ao contexto das reportagens que ela descrevia. Uma atmosfera de quase inveja provocava em cada um a vontade de fazer o que Eliane fez (faz). Eram expressões como “caramba, por que não fiz aquela tal pauta? Eu podia ter feito. Por que não fiz?”.

O que era aparentemente simples nos relatos de Eliane foi sendo desvendado nos traços de “O olhar insubordinado: jornalismo sobre a extraordinária vida comum”, título de sua palestra. O assunto, já um tanto previsível para quem havia acompanhado o Seminário até aquele momento, transformou-se em um sensível relato oral. Por se achar tímida demais, Eliane preferiu ler sua apresentação, ilustrando-a com fotos dos personagens de suas matérias premiadas. Era uma leitura narrativa, mas também meditativa.

Uma das afirmações de Eliane foi: “Nosso primeiro olhar não deve ser para fora e sim para dentro”. E tratou de expor ao leitor o que todos somos para identificar os interesses que temos pelas histórias do “outro”. Recorrendo ao poeta Ferreira Gullar, explicou: “O visível e o invisível no ‘ver’ do jornalista é a insubordinação necessária para o bom desempenho do trabalho”. O público reagia, de olhos arregalados, num misto de curiosidade e admiração.

Houve vários momentos de aplauso durante a apresentação de Eliane, que falou também sobre aproximar mundos e sobre a obrigação de abrir-se para o espanto. “Este é um desafio da imprensa. A realidade é impecável. Não há ficção que dê conta dela.” Por essas e outras constatações, Edvaldo (host de Eliane) ousou definir que ela é um exemplo do Jornalismo Literário brasileiro, pela maneira com que usa essa insubordinação para temas tipicamente nacionais.

Mark Kramer e Anne Hull retornam ao palco, juntamente com Edvaldo, para o último painel: “Autores em campo”. Mark aborda ponto a ponto as atitudes e movimentações do jornalista narrativo enquanto convive com os personagens e faz pesquisas. “Importante ir estruturando a história já em campo, durante o trabalho.” Anne, por sua vez, detalha o seu modo de processar as informações, interpretações e percepções. “Sou bastante organizada. Subdivido os assuntos e as histórias dos personagens em tópicos. Depois transcrevo tudo para o laptop, alimentando, classificando e hierarquizando cada tópico à medida que o meu projeto narrativo progride e ganha a forma o mais próxima possível do real que presenciei.”

Durante os agradecimentos de Edvaldo aos palestrantes, à equipe ABJL/TextoVivo e aos profissionais de retaguarda, que organizaram o evento impecavelmente, uma surpresa: Helen Francine (aluna de pós-graduação da ABJL, turma de Curitiba-2007), autodenominada jornalista e poetisa, não se contém e declama o poema “A lenda da rosa”, de Maria Dolores (jornalista e poetisa baiana que deixou o mundo na década de 1950). O poema fala do florescer, da semente que em breve será flor, numa metáfora emocionada da “menina de Santa Catarina contagiada do Jornalismo Literário”, e que contagiou todos com sua jovialidade e atrevimento.

Agora, analisando as proporções geográficas, dá para saber que os aplausos vieram de profissionais de São Paulo (capital, litoral e interior), Curitiba, Ponta Grossa, Maringá, Florianópolis, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Campos de Goytacazes (RJ), Vitória, Belo Horizonte, Maceió, Natal, Campo Grande, Cuiabá, Goiânia, Brasília, Salvador e Palmas.

Quem eram? Estudantes de graduação, estudantes de pós-graduação, jornalistas de empresas como “O Estado de S. Paulo”, “Folha”, Editora Globo, Editora Abril, “Correio Popular”, “A Tarde” (Salvador), “Zero Hora”, “Gazeta do Povo” (Curitiba), “Gazeta de Limeira”, entre outras; e professores de universidades de São Paulo, São Bernardo do Campo, Santos, Taubaté, Campinas, Limeira e Rio de Janeiro.

O Brasil todo agora está contaminado pela proposta de experimentar dinamicamente o Jornalismo Literário em suas diversas formas. Seja em redações de jornais, portais, revistas, TVs e rádios ou em universidades, onde, ao que parece, o entusiasmo acorda mais cedo.

 
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