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Regras
rompíveis do Jornalismo Literário
Mark Kramer *
O
professor, escritor e jornalista literário Mark
Kramer esteve no Seminário Brasileiro de Jornalismo
Literário, realização pioneira da ABJL/TextoVivo,
nos dias 22 e 23 de outubro de 2007, no Novotel Jaraguá,
em São Paulo (SP). Em uma de suas palestras, forneceu um
panorama do Jornalismo Narrativo na imprensa diária dos Estados
Unidos; noutra, juntamente com Anne
Hull, repórter do “The Washington Post”,
Mark falou sobre o trabalho de campo.
O
texto a seguir foi escrito por Mark para a introdução
da coletânea “Literary Journalism: A New Collection
of the Best American Nonfiction” (Ballantine Books, 1995),
da qual ele é co-organizador, juntamente com Norman Sims.
Aqui, Mark reflete sobre tópicos decisivos no campo da narrativa
de não-ficção, como a imersão, a humanização
e a exatidão. Além disso, sugere uma espécie
de pacto “anti-hipocrisia” entre os jornalistas literários
e leitores.
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Quando
escritores, leitores, professores de inglês, bibliotecários,
vendedores de livros, editores e críticos literários
discutem narrativas extensas e digressivas de não-ficção,
tendem a chamá-las de Jornalismo Literário. O termo
antecedente que já esteve em circulação era
o litigioso “Novo Jornalismo”. Surgido no meio da rebeldia
dos anos sessenta (do século 20), o estilo foi muitas vezes
tratado com firmes tons irônicos e caiu em desuso por ser
um gênero não muito diferenciado em relação
a algumas velhas maneiras de se fazer jornalismo. Ou seja, não
era exatamente uma novidade.
Jornalismo
Literário é uma ainda expressão mais indefinida.
Sua virtude talvez seja sua inocuidade. Como alguém engajado
no assunto, vejo a palavra “literário” como uma
forma de autocongratulação e “jornalismo”
uma maneira de mascarar a criatividade dessa modalidade. Jornalismo
Literário, no entanto, possui uma exatidão inacabada.
As palavras compostas cancelam-se mutuamente e apontam o tipo de
não-ficção em que estilos artísticos
e construção narrativa, há tempos associados
à ficção, nos ajudam a aprofundar os acontecimentos
— a essência do jornalismo.
De
fato, esse jornalismo tem uma linhagem própria. Daniel Defoe,
escrevendo logo após o ano de 1700, é o mais antigo
nome citado por Norman Sims, um dos poucos historiadores desse campo.
A lista de nomes ainda inclui Mark Twain no século 19 e Stephen
Crane, no começo do século 20. Antes e logo após
a Segunda Guerra Mundial, James Agee, Ernest Hemingway, A.J. Leibling,
Joseph Mitchell, Lillian Ross e John Steinbeck tentaram formas de
escrever ensaios narrativos. Já Norman Mailer, Truman Capote,
Tom Wolfe e Joan Didion seguiram adiante e, em determinado momento,
o gênero ganhou vida — ou seja, seus autores começaram
a identificar-se como parte de um movimento; e este começou
a suscitar discussões e atrair escritores. A consciência
pública de que se trata de um gênero diferente dos
outros também cresceu, embora lentamente.
Nos
anos 1970, John McPhee, Edward Hoagland e Richard Rhodes —
entre outros, com seus cinqüenta e sessenta anos de idade neste
1995 — abrangeram a forma, acompanhados nos anos 1980 por
dezenas de (naquela época) jovens influenciados como Tracy
Kidder e Mark Singer. Richard Preston e Adrian Nicole LeBlan, os
jovens desta coletânea, começaram a publicar aos vinte
anos, e ambos haviam estudado Jornalismo Literário em seminários
— um sinal certeiro de que um novo gênero estava surgindo.
Outro sinal foi a mudança do modo como os editores de críticas
literárias passaram a tratar esse tipo de narrativa. Antes,
costumavam passar as resenhas para especialistas nos respectivos
assuntos das histórias — geólogos para resenhar
“Basin and Range” (1981), de McPhee, programadores de
computador para criticar “The Soul of a New Machine”,
de Tracy Kidder — nenhum deles qualificado para a análise
das técnicas narrativas e da destreza dos autores com o texto.
Hoje, os editores estão mais inclinados a encaminhar esse
tipo de material para outros escritores e críticos.
Novas
formas de escrita que aparecem e permanecem são ocorrências
literárias raras. Ainda assim, escritores sempre irão
buscar caminhos através das limitações, entrando
nos “gêneros-primos” — narrativas de viagem,
memórias, ensaios etnográficos e históricos,
algumas ficções e até mesmo semificções
ambíguas provenientes de fatos reais –, sendo que todos
estes tentam se encaixar dentro de um campo rodeado por cercas frágeis.
O Jornalismo
Literário tem crescido, e milhares de leitores o procuram.
Mas o que ele tem sido realmente é o “você-sabe-quando-você-vê”.
A lista a seguir, com peculiaridades definidas, deriva do trabalho
desta antologia e de trabalhos de outros autores já citados.
Reflete as práticas comuns de escritores, assim como as “regras”
de harmonia ensinadas nas aulas de redação, que costumam
refletir os hábitos dos autores. Mas, por mais cuidadosas,
os protocolos para a prática de uma arte serão sucessivamente
reinventados e modificados.
1.
Jornalistas literários imergem no universo do assunto e em
pesquisas de profundidade. Conversando em uma reunião
informal na Nieman Fellows, na Universidade Harvard, logo após
ter ganhado o Prêmio Pulitzer por “The Soul of a New
Machine”, Tracy Kidder enfureceu vários jovens jornalistas
com um comentário descuidado — ele disse que os jornalistas
literários são, acima de tudo, mais exatos do que
os jornalistas diários. Ele se lembra do que disse a eles:
“Isso é fato; nossa reportagem leva meses, e vocês
são mandados para captar uma história e escrevê-la
em três horas, e repetem isso mais duas vezes antes de voltar
para casa. Um jornalista privilegiado precisa de algumas semanas
para produzir seu texto”.
Jornalistas
literários têm contato com suas fontes por meses ou
até mesmo por anos, conforme o caso. Conforme descobri em
vários projetos, isso é exatamente a recompensa –
e o risco – do ofício. Passei um glorioso mês
de junho com um time de beisebol; perambulei durante os seis anos
da Perestroika pelas províncias da Rússia em meio
às incertezas da transição. Estive em quartos
de cirurgia de hospitais por um ano, e mais alguns outros anos pelas
plantações e escritórios de empresas rurais
dos Estados Unidos. Todos os autores desta antologia tiveram experiências
similares. O momento de reportar é pesado e entediante. Não
é um momento social. Alguns ficam atentos às importantes
reviravoltas da narrativa e aos personagens, e, ao mesmo tempo,
têm de pensar sobre como retratá-los e como manter
a atenção do leitor.
A grande
questão de jornalistas literários quando estão
em prolongadas imersões é a compreensão do
tema em um nível que Henry James chamou de “felt life”
(“vida sentida”)— o nível franco, o nível
livre de idealizações, que apresenta as diferenças
individuais, a fragilidade, a delicadeza, a sordidez, a generosidade,
a futilidade, a pompa, a humildade. Tudo nas devidas proporções.
Isso põe em confronto verdades premeditadas e explicações
burocráticas, deixa expostos maneirismos, autodecepções,
hipocrisias e encantos – características só
utilizadas quando a serviço de uma compreensão ainda
mais profunda.
Este
é o nível no qual pensamos nossas vidas todos os dias,
quando não estamos nos enganando. Sem dúvida, um nível
muito difícil de alcançar, quando se trata de outras
pessoas. É preciso confiança, tato, firmeza e tolerância
de ambas as partes – do escritor e da fonte. Na maioria das
vezes, isso ode levar semanas ou meses, incluindo o tempo para ler
assuntos relacionados, como economia, psicologia, política,
história e ciência. Jornalistas literários elaboram
notas contendo as palavras de citações, seqüências
de acontecimentos, detalhes que expõem a personalidade, atmosferas
e conteúdos sensoriais e emocionais. Temos mais tempo do
que os jornalistas diários. Tempo
para previsões e para retomar os estímulos iniciais.
Ainda assim, encontrar o sentido para tudo o que acontece —
escrevendo com humanismo, equilíbrio e pertinência
— é uma missão encantadora, intimista e nunca
plenamente alcançável.
2.
Jornalistas literários firmam pactos claros e abertos com
leitores e fontes no que se refere à exatidão.
Nada a ver com algo como um “Comitê de Atividades Jornalísticas
Não-Literárias”, a perseguir os cautelosos.
Jornalistas literários, diferentemente dos repórteres
de noticiários, trabalham a sós. Você pode verificar
os autores a seguir, que traçam a veracidade, já nos
primeiros parágrafos, por meio da franqueza e de vivências
práticas. São momentos importantes, que têm
implicação nas regras que o autor escolheu seguir.
Os leitores são os juízes definitivos. São
os leitores que apontam quais autores não jogam limpo. Em
diversos exemplos de publicações, as últimas
palavras têm sido a dos leitores. Duas preocupações
éticas sempre acabam ocupando as discussões sobre
os escrúpulos do Jornalismo Literário: (a) a relação
do autor com o leitor e (b) a relação do escritor
com suas fontes.
(a)
A relação do autor com os leitores
De
fato, alguns escritores do passado, que costumamos ligar ao Jornalismo
Literário, cometeram atos que, se cometidos hoje em dia,
seriam considerados pecaminosos: compunham e improvisavam cenas,
fundiam personagens, enfeitavam citações e, por outro
lado, alteravam a natureza de suas produções.
O que
os diferenciava de escritores de ficção talvez fosse
a simples intenção — presumivelmente, a intenção
de transmitir ao leitor um “senso” de realidade. De
fato, um dos maiores nomes do gênero, Joseph Mitchell, cujo
trabalho está nesta coleção, já escreveu
e assumiu, em entrevistas posteriores, ter usado composição
de personagens e cenas no seu clássico “Old Mr. Flood”,
de 1948. O autor de “Hiroshima”, John Hersey, fez o
mesmo com o personagem principal da reportagem “Joe is home
now”, de 1944 (entretanto, Hersey posteriormente se queixaria
dessa prática entre os jornalistas do Novo Jornalismo). Mitchell
nunca reclamou e nenhum dos autores voltaram a repetir essa prática.
Não
tenho dificuldade de compreender a liberdade que esses dois autores
tinham de fazer suas experimentações. Outros pioneiros,
incluindo George Orwell (em “Shooting an Elephant”)
e Truman Capote (em “A Sangue Frio”, 1966), claramente
remodelaram acontecimentos, e meu veredicto particular é
absolvê-los, também em virtude da antecipação
(e da elegância) de seus experimentos, e pela possível
ausência da real intenção de ludibriar. Nenhum
deles rompeu com as expectativas dos leitores em nome do gênero,
pois nem havia fortes expectativas — ou muito do gênero
em si — para romper.
Ainda
assim, caso você releia esses textos sabendo que eles retratam
acontecimentos elaborados pelos autores, você pode se pegar
tentando adivinhar o que é real e o que não é.
Não seria problema num romance. A ambigüidade distrai.
Mas, hoje, o Jornalismo Literário é um gênero
que os leitores reconhecem e lêem esperando um tratamento
correto. O poder da prosa depende da aceitação do
leitor em relação aos termos claramente expostos pelo
autor.
Há
uma lista de exceções, e eu diria que elas representam
exemplos que fogem ao entendimento moderno do que vem a ser Jornalismo
Literário. Na época em que publicou “A Canção
do Carrasco”, em 1979, livro sobre um assassino chamado Gary
Gilmore, Norman Mailer optou por esclarecer sobre sua liberdade
ao estritamente factual. Mas a sobrecapa do livro usou a indefinida
definição de “um romance sobre uma vida real”.
Apesar de tal “verdade evidente” não ter demarcado
explicitamente o que era ou não era verdade, é de
boa-fé avisar aos leitores que eles entraram num território
onde o comprometimento do escritor de não-ficção
pode ser um recorte ou um artifício, mas ainda assim insuficiente.
Isso levaria uma platéia inteira a não entender os
autodenominados “docudramas”, caso de “A Tênue
Linha da Morte” (sobre o qual Mark Singer escreve nesta coleção),
de Errol Morris, ou o tipo de “docudrama” feito por
Mailer. A maioria dos leitores irá engolir, ao invés
de saborear, seja como arte ou como entretenimento, a deliberada
figuração da realidade contra a fantasia, nesta freqüentemente
salutar mas sempre especial categoria de filmes e prosas que se
situam na fronteira do real com a ficção.
Entretanto,
em conversas com amigos escritores e em painéis de discussões
em conferências, convenceram-me de que jornalistas literários
passaram a compartilhar um acordo concreto e implícito com
os leitores, tão forte que vale um contrato: os escritores
fazem exatamente o que aparentam fazer, que é agarrar a realidade
o mais próximo que conseguirem, e não inventá-la.
Alguns deles, é claro, admitem momentos particulares de tentação,
momentos em que concluem que refinar a realidade poderia deixar
o texto mais excitante ou fazer a cena fluir melhor. Se alguns escritores
ainda fazem isso, eles não mais estão assumindos seus
atos diante dos amigos, e tampouco nas mesas de debates. Em anos
recentes, alguns jornalistas literários jogaram pesado contra
a confiança dos leitores. E este não é um assunto
sobre o qual os leitores se mantêm neutros.
As
convenções atuais para jornalistas literários
incluem: não usar cenas compostas; não deturpar a
cronologia; não conduzir a direção e a proporção
dos acontecimentos; não inventar citações;
não atribuir pensamentos às fontes a não ser
que elas tenham dito claramente o que está escrito; e não
fechar acordos com pessoas em troca de dinheiro ou interesses editoriais.
De vez em quando, muitos autores descartam o uso de nomes verdadeiros
e detalhes de identidade em troca de continuarem com um contato
livre com seus personagens, mas notificam o leitor disso. Essas
convenções todas ajudam a aumentar a credibilidade.
Ao adotarmos essas convenções, optamos por uma melhor
condução do processo.
Os
autores descobrem como aderir a essas convenções e,
apesar delas, produzem textos criativos. Não há razão
para um autor trocar uma cena que aconteceu na terça-feira
e relatá-la como se tivesse sido numa segunda-feira. É
fácil manter os leitores esclarecidos. Basta explicar-lhes
o que você está fazendo. Enquanto narra uma cena, o
jornalista literário pode desejar inserir uma citação
feita em outro contexto, ou encaixar cenas secundárias, ou
memórias pessoais; e é possível fazer isso
tudo muito honestamente, sem borrar ou distorcer o que ocorreu em
um dado lugar e num dado tempo; isso pode ser atingido simplesmente
explicando tudo ao longo do texto. Como outros jornalistas, descobri,
incomodamente, que quando detalhes inconsistentes ameaçam
a cena que estou tentando escrever, as inconsistências são
geralmente sinais de que minhas interpretações dos
acontecimentos precisam melhorar, porque ainda não consegui
esclarecer o que de fato ocorreu.
Para
deixar de lado a manipulação, é preciso entendimento.
Captar uma faceta da vida de maneira autêntica demanda flexibilidade
e muito trabalho. Leitores apreciam textos que cumprem o trabalho.
Não é por acaso que o crescimento do Jornalismo Literário
foi acompanhado por autores que respeitam essas convenções
universalmente, gerando confiança, textos verdadeiros e uma
companhia segura para os leitores.
(b)
Relação do autor com as fontes:
O acompanhamento
aprofundado das fontes pode trazer dificuldades. A extrema necessidade
do autor em buscar um relacionamento intenso com as pessoas envolvidas
inevitavelmente irá gerar problemas éticos. Continuar
conquistando acesso contínuo é sempre uma tarefa difícil,
pois a maioria dos potenciais personagens estão vivendo em
paz, sem nenhum autor por perto, têm suas vidas emaranhadas
a outras e muitos dramas pessoais. Jornalistas literários,
ao tentar atingir em alto grau a tal “felt life” (“vida
sentida”), tentam extrair verdades mais apuradas geralmente
dos respectivos colegas de trabalho e amigos próximos. Mas
limites sociais e legais amarram maridos, mulheres, companheiros
e amigos, e dificultam a exposição pública
do mundo privado. Por outro lado, as motivações honrosas
que os jornalistas literários possuem exigem deles o máximo
de discurso público possível.
Durante
os meses em que o autor fica ao lado dos personagens, com uma relação
sincera (que se iniciou com uma carta de intenções,
às vezes até com a assinatura de acordos, apresentações
de exemplos de nossas reportagens ou livros publicados), é
até provável que brote um sentimento de amizade, ou
até um casamento. As perguntas escorregadias que caem em
nossas mãos, então, são as seguintes: o personagem
se vê revelando informações a um “amigo”
enquanto o autor se vê como quem ouve uma “fonte”?
E qual é a responsabilidade do autor pelas conseqüências
dessa percepção?
Os
bons autores tentam todos os caminhos para conseguir um bom acesso
sem falsear suas intenções. A forma mais óbvia
é escrever sobre pessoas que não se importam ou que,
na verdade, gostam de ser retratadas. Antropólogos dizem
que “acesso de cima para baixo” é mais fácil
do que “acesso de baixo para cima”. Jornalistas literários
(incluindo eu próprio) conseguiram acesso contínuo
e cordial a pessoas distantes do mundo dos livros, pessoas que simplesmente
gostavam de estar com o autor por causa das intenções
do projeto — incluindo passageiros errantes de trens, trabalhadores
imigrantes cruzando a fronteira, pescadores, prostitutas adolescentes,
jogadores colegiais de futebol, camponeses simplórios.
Outra
categoria, a dos personagens exemplares — um professor enérgico,
um habilidoso cirurgião, uma equipe de excelentes carpinteiros,
um ágil construtor de canoas, um executivo de uma grande
empresa rural — também nos dão atenção
às vezes porque se interessam em divulgar suas causas pessoais,
como o aumento dos lucros de uma escola, a diminuição
do descaso em relação aos pacientes ou os subsídios
favoráveis ao plantio.
Minha
própria regra tem sido mostrar meus trabalhos publicados,
esclarecer sobre a exposição pública, explicar
os comprometimentos meus e da editora com tempo e dinheiro, deixar
claro que os personagens não podem editar os originais. Daí
sigo adiante — se depois disso ainda for bem-vindo, o que
muitas vezes não acontece. Em certos casos, duvidei de que
minhas fontes me entenderam suficientemente bem para aceitar minhas
intenções e as possíveis conseqüências
de aceitá-las; ou desconfiei que o consentimento havia sido
influenciado por ordens superiores (por exemplo, as enfermeiras
de uma sala de cirurgia onde meu personagem trabalhava). Então,
decidi que agiria com boas intenções. Por sorte, pude
escrever o que queria, sem ter que cortar algum trecho essencial.
Todos os gêneros, seja Jornalismo Literário, jornalismo
diário, poesia ou ficção, dependem integralmente
da integridade do autor.
3.
Jornalistas literários escrevem quase sempre sobre acontecimentos
rotineiros. O ambiente de acessos convenientes impelem
jornalistas literários aos acontecimentos rotineiros, em
detrimento dos extraordinários. O trabalho de conquistar
acessos legítimos por longos períodos força
os autores a procurarem seu material em lugares abertos à
visitação e, indo contra seus próprios anseios,
evitar os lugares restritos. A dificuldade de acesso é tão
grande que acaba por determinar os esforços dos jornalistas
literários.
O objetivo
durante a “reportagem” ou o “trabalho de campo”
não é se sociabilizar como se fosse um interno, como
se fosse o próprio funcionário que tem uma função
na empresa. Na verdade, o objetivo é saber o que esses internos
pensam, a fim de conhecer suas experiências e perspectivas
e entender como é a rotina deles. De início, quando
passei tempos com cirurgiões, sangue era algo que me assustava
— um comportamento anticirurgião, diga-se. Depois de
um ano presenciando toda aquela confusão organizada, meu
olhar havia mudado. Pela própria reação do
médico, eu sabia quando um sangramento era algo normal, e
passei a reconhecer os raros momentos em que isso alarmava os médicos.
Minha reação de principiante não era relevante
para os cirurgiões; e minhas reações posteriores
me ajudaram a compreender os pontos de vista deles.
Rotina
não quer dizer monotonia. A vida de quase todo mundo, descoberta
em sua profundidade e com um olhar compassivo, é interessante.
Alguns temas muito corriqueiros, no entanto, ainda não foram
enfrentados, e são vistos como impermeáveis pelos
envolvidos. Infelizmente, o aspecto jurídico é uma
limitação decisiva. Com a procuração
de uma revista em mãos fui até um advogado conhecido
por fazer defesas de vários suspeitos de assassinato. Ele
se sentiu atraído pela idéia de um artigo sobre seu
trabalho. Adiantei-lhe que o acesso que precisaria incluía
assistir às suas reuniões com (ou sobre) os clientes.
O advogado acabou desistindo. Ele me explicou que, nesse caso, eu
entraria em cena em situação de privilégio
em relação aos clientes, e poderia ser posto em xeque,
ou até ser intimado por ter presenciado conversas esclarecedoras.
Ou seja, os clientes dele poderiam me processar por má-conduta
profissional.
Acesso
desimpedido aos altos postos de grandes empresas durante uma negociação
importante também tem-se mostrado quase impossível,
principalmente porque os envolvidos entendem que a permanência
de um jornalista pode exceder o grau de confidencialidade e pode
influenciar no resultado da negociação. Além
disso, empresários vivem dentro de ambientes de confiança,
sendo que, se um jornalista passa a caminhar por esses ambientes,
o circulo de confiança pode quebrar-se. De vez em quando,
autores conseguem quebrar essa barreira. Algumas informações
privadas já foram escritas por participantes da negociação.
E reconstruções literárias “post-factum”
às vezes recriam os dramas de negociações complexas.
As
narrativas sobre crimes também reconstroem eventos “post-factum”.
Assassinos costumam não colaborar com autores. Esses casos,
no entanto, costumam abrir as portas para a maioria dos lugares
secretos, começando no momento em que o ato é revelado.
Suspeitos por cumplicidade que buscam liberdade, ou perdão,
parentes que buscam justiça, e registros bem feitos do tribunal
têm levado autores muito além do escondido universo
do “pós-fato”.
Autores
de não-ficção estão fadados a chegar
mais tarde. Algo que um jornalista literário pode fazer apenas
em primeira pessoa, com o faro atinado, depois que o acaso o tenha
levado ao destino, é escrever sobre alguém prestes
a ser pego, alguém a escorregar numa casca de banana, ou
encontrar um pote de ouro. De vez em quando, algo desfavorável
acontece com o autor, e os leitores podem acabar presenteados com
a desgraça do próprio autor. Vem-me à mente
“The Incidente of Naples” (publicado na revista “The
New Yorker” em 1986), de Francis Steegmuller. Steegmuller
descreve-se sendo roubado e ferido durante um feriado. Talvez seja
para testar seus limites que autores escolhem se aventurar assim
— por exemplo, navegar em correntezas e viver para contar,
caçar nas savanas da África até o limite de
aproximação com as feras. Antes de acontecer o desastre
que acabou com a vida de Christa MacAuliff e os astronautas da Challenger,
a Nasa havia aberto inscrições para jornalistas interessados
em viajar ao espaço. Entre os interessados também
estava Tracy Kidder, que queria estar lá ao invés
de escrever sobre acontecimentos passados.
4.
Jornalistas literários escrevem com uma “voz interior”
informal, sincera, humana e irônica. No Jornalismo
Literário, o narrador não é um expositor impessoal
e obediente à escrita acadêmica, que apresenta materiais
de pesquisa cuidadosamente mas sem pensar no leitor; tampouco o
jornalista literário é um escritor objetivo e factual,
ou um imparcial informante ortodoxo de um noticiário. O narrador
em Jornalismo Literário tem uma personalidade, é uma
pessoa complexa, profunda, franca, irônica, oblíqua,
confusa, judicativa e até auto-irônica – qualidades
que os acadêmicos e repórteres do dia-a-dia evitam
com veemência como se tais posturas fossem antiprofissionais
e não-objetivas. Os repórteres do dia-a-dia são
treinados para não revelar suas reações e não
expor nenhuma visão pessoal. De acordo com a perspectiva
de instituições e tradições intelectuais,
essa prosa se apóia em razões cívicas, comerciais,
científicas — em detrimento da percepção
do observador. O resultado desse modelo acadêmico, ao qual
o jornalismo diário tenta se filiar, é a apresentação
ao leitor do que parecem ser “os fatos”, “fatos”
entregues sem vida, sem individualidade, convencionalizados e, por
isso, sob uma voz presumivelmente justa e neutra. Obviamente, muita
coisa é deixada de lado.
A marca
registrada do jornalista literário é a sua personalidade,
a voz íntima e individual de um sujeito honesto, que não
representa, defende ou fala em nome de instituição
alguma, seja essa instituição um jornal, uma corporação,
um governo, uma ideologia, uma corrente de pensamento, uma câmara
de comércio, um destino de viagem. É a voz de alguém
despido de abrigos burocráticos, alguém que reflete
sobre as próprias experiências, sem ser excêntrico,
desvirtuado, duvidoso, e que não dispensa emoções
genuínas, como tristeza, alegria, ansiedade, raiva, amor.
O poder do gênero chamado Jornalismo Literário é
a força da voz do autor. É uma força sem subordinações
sociais — apesar de sua prática acabar sendo benéfica,
na maioria dos casos. É uma das poucas ocasiões em
que o grande público pode consumir declarações
pessoais ilimitadas, verbalizadas em nome de ninguém menos
que o próprio autor em plena ousadia.
Essa
voz raramente é aberta e desimpedida, acusatória ou
confessional, mas alguns autores — Tom Wolfe vem-me à
mente — preferem um tom assim. Na maioria dos casos de Jornalismo
Literário, porém, a voz que emana do autor é
informal, competente e reflexiva. Uma voz que espelha — no
geral, apenas indiretamente, de maneira implícita —
o autoconhecimento do autor, seu auto-respeito e sua consciência.
Na Universidade de Boston, eu orientava meus alunos a encontrar
suas vozes imaginando-se narrando para amigos próximos, que
supostamente têm uma inteligência respeitável,
uma história sobre um incidente observado seriamente, ligado
a seus campos de estudo. O que vem à tona são vozes
sociáveis, cuidadosamente bem-humoradas, mas peremptórias
— típicas daquelas festas onde as pessoas contam piadas.
Ler isso me faz sentir bem.
Essa
voz é um componente usual para autores de narrativas, e não
uma preferência esquisita, e tampouco uma maneira de se deixar
levar pelo calor dos acontecimentos. Ela é uma ferramenta
eficiente para um duro trabalho. Permite ao autor caminhar ao redor
de visões aculturadas sobre relacionamentos ou questões
que geralmente estão guardadas atrás dos muros da
linguagem formal e das alianças institucionais ocultas. Os
poderes de uma voz clara e íntima são muitos, e incomodam
as pessoas que insistem em versões idealizadas da realidade.
A linguagem formal protege dogmas, crenças, tabus, aparências,
verdades oficiais. A voz interior despreza tais proibições,
e diz as coisas da mesma maneira que os especialistas dizem quando
conversam com os amigos após o trabalho. É uma voz
que revela como as pessoas e as instituições são
“de verdade”. É uma peça característica
do Jornalismo Literário, e uma novidade dentro do jornalismo,
sem dúvida.
Uma
repórter de um tradicional jornal me contou sobre uma entrevista
que ela fez com um oficial do departamento de trânsito. Ela
o achou estentóreo e autopromocional, despreparado para os
assuntos, mas um “bom-garoto” charmoso ocupando um posto
de poder. Ela gostou dele, mas percebeu qual era a do rapaz. Contudo,
seu texto no jornal, ela me disse, havia começado assim:
“Os esperados planos para uma nova saída da rodovia
foram liberados hoje pelo Oficial Gerente de Trânsito”.
As observações sobre o homem, as piadas que os amigos
dela fizeram no bar perto da redação depois do ocorrido
são o tipo de material que um jornalista literário
traz para uma narrativa sobre, digamos, a complexa realidade de
planejar e construir uma saída de rodovia — juntamente
com, talvez, um material sobre administração rodoviária,
ou sobre estruturas burocráticas, ou sobre finanças
municipais, ou psicologia do trabalho, ou sobre leis de reformas
publicas ou o significado de comandar e autopromover-se; ou mesmo
sobre o que significa a “boa-garotice” na vida da própria
autora.
Ao
ler Jornalismo Literário, o público é convidado
a ter expectativas complexas e descontraídas acerca do todo
e compartilhar algo excluído do convencional e das matérias
diárias — a visão irônica do autor. A
ironia — estratégia de direcionar leitores a entender
uma cena a partir de termos mais conhecidos do que os que encontramos
em outros autores — é um grande tabu em outras formas
de não-ficção. Dois exemplos me vêem
à mente e, em ambos, o Jornalismo Literário vem à
tona. O “The Wall Street Journal” é um dos principais
jornais americanos a publicar manchetes com termos irônicos
na primeira página. Isso se deve talvez ao fato de sua direção
considerar seus leitores como ricos, poderosos e antenados —
em suma, leitores “diferentes do restante”, por pertencerem
a um segmento elitizado à parte da comunidade como um todo,
e no topo, partilhando entre si visões de mundo que estão
sob seus pés. Os cadernos de domingo também oferecem
uma boa voz irônica, em matérias nas quais os narradores
apresentam experiências pessoais com uma sensível moral
pública — preconceito, doenças de tratamentos
caros, o peso da velhice e doenças mentais. Segue esse espírito
o trabalho de Walt Harrington, particularmente, sobre o crescimento
da tolerância inter-racial tanto do autor quanto do país.
Como o texto de Harrington comprova, a poder da ironia não
emana de sarcasmos ou maneirismos. A ironia pode unir uma comunidade,
simplesmente, ao expandir os contextos dos acontecimentos para além
daquele geralmente levado em consideração pelos atores
envolvidos.
5.
Estilo conta e ele tende a ser claro e respeitoso. Uma
marca do Jornalismo Literário que se pode identificar desde
o começo de um texto é sua linguagem eficiente, particular
e informal. Os autores aqui reunidos trabalharam sua linguagem até
que ficassem claras, estilosas, e sob seus domínios. Ouvir
talvez seja a última habilidade a ser aprendida pelo autor.
O objetivo central é a expressão elegante e simples,
algo que muitos poetas e romancistas também almejam.
“Se
você quiser enxergar o mundo invisível, olhe para o
mundo visível”, disse Howard Nemeroy em seu fabuloso
ensaio “Sobre a metáfora”. A melhor linguagem
do Jornalismo Literário é também a evocativa,
aquela que consegue entreter, pontuada por verbos ativos, poupada
de verbos abstratos, adjetivos, advérbios e as várias
formas indolentes, engessadas em seus próprios acoplamentos.
Tal estilo desprendido é agradável — limpo e
prazeroso por si só, e feito para levar os leitores não
apenas a imaginar, mas sentir os acontecimentos. Leitores resistem
à escrita pesada e fria muitas vezes sem saber o quê
há de errado. Mas se prendem à boa prosa, muitas vezes
até sem perceber. O sentimento é o que possibilita
transportar os leitores para outros universos – e de um modo
que a lógica por si só não é capaz.
6.
Jornalistas literários escrevem de um ponto de vista flexível
e móvel, a partir do qual contam histórias, situam
e fazem os leitores girar em torno do tema. David Quammen,
como outros autores aqui reunidos, ocupa uma posição
estratégica em torno de seu assunto em “Strawberries
under ice”. Ele é o anfitrião. Ele entretém
contando a você um belo conto sobre acampamento de inverno,
imergindo você dentro dele até que você se sinta
próximo da história, do passado, do iminente futuro,
e do que está acontecendo no exato momento. Ele ainda nos
dirige, com um alcance social profundo e presumível, por
meio de sua apuração, às vezes saindo da história
para nos fornecer digressões informativas sobre geleiras
ou suas estratégias psicológicas, retornando à
ação novamente depois.
Leitores
acompanham com entusiasmo esse companheiro que conta uma história
bem narrada, repleta de conhecimento, engenhosa e cautelosamente,
em boa medida porque Quammen, o autor, não está preso
aos acontecimentos que relata. Ele descreve situações
(que aconteceram com o personagem Quammen) a partir de uma “plataforma
retrospectiva”, relembrando ações e considerando
seus aspectos, significados e repercussões metafóricas.
Essa
posição móvel do autor é outro elemento-chave
no Jornalismo Literário. Nesta antologia, cada autor conta
uma história ao mesmo tempo em que olha para o leitor, comenta,
digressiona, mostra pesquisas relativas ao assunto, apresenta contextualizações,
acontecimentos anteriores — não necessariamente pessoais
— para depois retomar a história outra vez. Quando
o autor nos devolve ao ponto onde a narrativa havia parado, você
se reencontra, familiarizado. “Minha nossa”, exclama
o leitor bem-acolhido ao perceber que a história está
de volta à sua tela. “Agora descobri o que acontece
no final.” O leitor a retoma com uma perspectiva intensificada
dos eventos, garantida pelo trabalho de digressão. O avanço
permanente aos limites da narrativa, dos quais partem as digressões
e os retornos, podem ser chamados de “ponto de mudança”
— um termo útil para analisar a estrutura de um texto.
Bons contadores de histórias geralmente digressionam bem
na hora em que a ação está iminente, e não
no momento em que está para ser concluída. Entre os
elementos essenciais para um jornalista literário construir
seus textos estão a narração lúcida,
a seleção criteriosa dos momentos para digressões
pertinentes e, claro, saber retornar ao “ponto de mudança”.
Essa
mobilidade de posição do jornalista não é
bem uma propriedade tomada emprestada dos ficcionistas — na
ficção, o leitor não tem completa certeza se
o autor recuou na história, tampouco consegue presumir se
os autores que mais saem dos enredos não estão, na
verdade, desenvolvendo uma nova camada da história. Quando
o jornalista literário digressiona e retorna à narrativa,
o conhecimento real do autor se justapõe à história.
Esse ponto de vista móvel é uma ferramenta incrível,
com um forte poder de atração para os leitores.
Os
autores desta antologia variavelmente trazem essa visão móvel.
Jane Kramer fala principalmente sobre cenas, conversando com os
leitores, mas em vários momentos específicos ela reconstrói
as cenas, mergulhando os leitores dentro da própria experiência.
Sua erudição e o alcance dos seus conhecimentos são
os elementos que infundem esses momentos específicos. Nós
vemos as cenas com um entendimento prazeroso. Tracy Kidder, por
outro lado, não faz quase nada a não ser contar as
histórias, suspendendo ações para comentários
apenas esporadicamente. A postura de ambos autores os auxiliam a
administrar o avanço experiencial dos leitores.
7.
Estrutura conta, na medida em que narrativa primária, histórias
e digressões se misturam para ampliar e para recompor fatos.
A maior parte do Jornalismo Literário é principalmente
narrativo, contando histórias, construindo cenas. Cada texto
aqui carrega o leitor ao longo de uma e às vezes duas ou
três linhas da história. “A family portrait in
black and white”, de Walt Harrington, entrelaça de
maneira não-cronológica diversas narrativas sutis
que exploram sua relação com o racismo, começando
num presente próximo e indo até os flashbacks. Harrington
relata fatos de seu próprio namoro e casamento, e ainda se
desdobra nas histórias de vários parentes de sua esposa,
assim como o processo de suavização da agressividade
racial americana.
A seqüência
de cenas e digressões — algumas tocaram no passado,
outras se detiveram por mais tempo — acompanhadas da movimentação
do autor em relação a essas histórias e contornos
– fazem parte da estrutura narrativa. Jornalistas literários
desenvolveram um tipo de texto que os permite esculpir histórias
e digressões com a mesma complexidade dos romancistas. A
qualquer momento o leitor poderá estar em um ponto da linha
de tempo de uma das ações que se desenrolam, ou em
outras que já se desenrolaram. “Strawberries under
ice”, à primeira vista um raro e delicioso texto científico
sobre geleiras, é, na verdade, uma narrativa elaborada reservadamente.
Nela, o autor lava sua alma e, assim, a história acaba sendo
sobre seu flerte e casamento; sobre o milagre do amor e suas expressões
metafóricas no efeito caloroso do gelo; sobre paradoxos e
metáforas intrínsecas; e, finalmente, sobre o renascimento
a partir do calor que emana de uma caverna de gelo. Devido à
habilidosa estruturação desses elementos, o texto
nos pega de surpresa. Quando autores tomam decisões sobre
a estrutura — a ordem das cenas, os “pontos de mudança”,
a intensidade dos elementos narrativos e as digressões —
estão levando em consideração também
os efeitos dessa ordem na experiência pessoal dos leitores.
8.
Jornalistas literários desenvolvem sentidos porque criam
de acordo com as contínuas reações dos leitores.
Enquanto vivenciam um texto, os leitores são inclinados a
se importar sobre como se deu uma situação e o que
acontece logo em seguida com os personagens. Bons jornalistas literários
se preocupam em prender a atenção, claro. Quanto mais
profundas as intenções do autor, e quanto mais zelosa
e relevante a mensagem ou a análise em torno da narrativa,
mais o leitor se prenderá. Estilo e estrutura unem a história
e a idéia de modo sedutor.
Se
o autor faz tudo com narração, digressão e
uma estrutura hábil, os leitores passam a sentir que estão
caminhando com um propósito, que o trabalho de leitura tem
um destino compensador. Os tipos de lugares alcançados pelo
Jornalismo Literário tendem a associar sentidos infinitos
e cenas do dia-a-dia. “The mountains of Pi”, de Richard
Preston, por exemplo, liga os incômodos dias da vida de dois
tímidos matemáticos imigrantes russos e suas obscuras
buscas intergalácticas por ordem num universo caótico.
Os
leitores entram na viagem traçada pelos autores, que buscam
desvendar o inatingível e o usual; a viagem não chega
a lugar algum sem a imaginação participativa deles.
Para concluir, o que o autor cria não são parágrafos
empilhados, e sim seqüências emocionais, intelectuais
e até mesmo experiências morais que os leitores possam
captar. São experiências empolgantes e marcantes, semelhantes
às sensações cinematográficas, e não
à simples leitura de um livro. O que essas obras representam
não está, definitivamente, no papel.
O escritor
ilustra cenas sensoriais, confidencia num nível de familiaridade
que excita os leitores a partir de suas próprias experiências
e sensações, e constrói uma conexão
entre o texto e o nível psicológico dos leitores.
A realização dos leitores é, na verdade, algo
que autor e leitores construíram juntos.
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Por
que essa união entre fatos detalhados, narrativas e voz pessoal
cresceu tão fortemente no século 20?
Muitas
tradições que definiram comportamentos e crenças
no começo do século 20 começaram a se fragmentar
ou sumir. Em 1900, algumas centenas de categorias definiram rotinas
de trabalho, e vários padrões definiram o que é
a propriedade. Hoje em dia, há dez mil categorias de propriedade
e de rotinas de trabalho. No mesmo período, a ciência,
que havia prometido respostas, ordem e facilidades, produziu conturbações,
perigo e um vasto domínio de conhecimento que parece crucial
para todos, mas compreensível apenas para alguns. E numa
cultura calcada em especialistas e líderes conclamados a
pilotar destinos, as autoridades veneráveis se afundaram.
Presidentes, padres, generais a cavalo, acadêmicos em suas
torres de marfim – nenhum desses está apto a comandar
crenças coletivas nos dias de hoje.
Ainda
assim, o que se vê não é uma desesperança
generalizada. Uma grande multidão de cidadãos quer,
e estou certo de que com mais urgência do que nunca, ler livros
e matérias que compreendam a complexidade do que está
ocorrendo ao nosso redor. Eles pedem não apenas informações,
mas visões pessoais sobre como as coisas se encaixam, agora
que as estruturas centrais não mais se sustentam. O público
– que raramente assistiu ao imaginário íntimo
de vidas alheias na virada do século 19 para o 20 –
está agora devorando best-sellers sobre temas contemporâneos,
filmes e programas de TV que contam histórias reais, e devorando
também o próprio Jornalismo Literário.
O Jornalismo
Literário nos ajuda a encontrar essa nova complexidade. Se
isso não serve de antídoto para o transtorno, ao menos
une as experiências diárias — incluindo as emocionais
— a uma plenitude digna de informações que possam
ser aplicadas na vida prática. O Jornalismo Literário
alinha o fato frio com a participação pessoal. Tudo
na companhia humana de um autor. Isso amplia as possibilidades de
análise por parte dos leitores, permitindo que observem a
vida de outras pessoas geralmente posicionadas em contextos distantes
do deles. O processo mobiliza leitores e autores, em busca de realização,
compaixão e, nos melhores casos, de sabedoria.
Até
me arrisco a afirmar que há algo intrinsecamente político
— e fortemente democrático — no Jornalismo Literário.
Algo pluralista e pró-indivíduo, contrário
à hipocrisia e ao elitismo. Isso parece ser inerente às
praticas comuns dessa modalidade de jornalismo. O estilo informal
atravessa a ofuscante generalidade de crenças, países,
empresas, burocracias e especialistas. E as narrativas sobre as
vidas de pessoas comuns confrontam as idealizações
com os fatos. A verdade está nos detalhes das vidas reais.
*
Criador do programa de Jornalismo Narrativo da Nieman Foundation,
braço da Universidade de Harvard. Este ensaio introduz a
antologia “Literary Journalism: A New Collection of the Best
American Nonfiction” (Ballantine Books, 1995), da qual Mark
Kramer é co-organizador, juntamente com Norman Sims. Disponível
no Nieman
Narrative Digest. Reproduzido com autorização.
Tradução: Fred Linardi. Preparação e
revisão: Sergio Vilas Boas.
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