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“A
Vida Que Ninguém Vê”
entrevista com Eliane Brum
Eliane
Brum,
vencedora do prêmio Jabuti categoria “livro de reportagem”
com o seu “A
Vida Que Ninguém Vê” (Arquipélago
Editorial), esteve no Seminário Brasileiro de Jornalismo
Literário, realização pioneira da ABJL/TextoVivo,
nos dias 22 e 23 de outubro de 2007, no Novotel Jaraguá,
em São Paulo (SP). Ela emocionou a platéia com suas
reflexões sobre “a extraordinária vida comum”
dos personagens reais de seu livro e de algumas reportagens feitas
para a revista “Época”.
Na
entrevista a seguir, concedida ao professor Edvaldo Pereira Lima,
Eliane fala dos bastidores da produção de suas reportagens
para a revista “Época” e de seus livros de não-ficção;
de como atua e se orienta em campo, diante do inusitado; de como
surgiu seu prazer de descobrir pessoas aparentemente comuns cujas
histórias de vida acabam se revelando incrivelmente extraordinárias;
e de como a literatura a influencia.
Seu livro ganhou o Prêmio Jabuti deste ano na categoria “Livro
de Reportagem”. Surpreendeu-a?
Foi
uma enorme surpresa porque eu estava em muito boa companhia. Havia
livros ótimos entre os dez finalistas. O livro de entrevistas
do Fernando Eichenberg, “Entre Aspas”, por exemplo,
é imperdível. As pessoas mais interessantes dessa
virada de milênio estão lá, em profundidade,
entrevistadas com inteligência. Isso, por um lado. Por outro,
meu livro é o primeiro de uma editora novíssima, a
Arquipélago Editorial, sediada em Porto Alegre, ou seja,
fora do que se chama de “centro” do país. Temos
enormes dificuldades para colocar o livro nas livrarias, porque
muitas redes (com exceção da Cultura e da Travessa,
que são ótimas e sempre foram muito receptivas) não
querem saber se o livro é bom, e sim quantos livros a editora
tem em seu catálogo. É uma lógica de números
apenas, de business, embora me pareça um jeito estúpido
de fazer negócios. E essa foi uma amarga descoberta. Há
redes de livrarias que não entramos porque a editora ainda
não tem dez livros no catálogo. Vá entender
que diferença isso faz! Então, o meu livro tem circulação
restrita a São Paulo, Rio, Brasília, Recife e Porto
Alegre. E meu sonho era que chegasse a todo o país. E só
conseguimos essa abrangência por causa da Cultura e da Travessa.
E da internet, por conta de sites como o Submarino. Anos atrás
isso seria impossível. Também por tudo isso foi uma
grande surpresa o prêmio Jabuti, sim.
Mas voltando à sua pergunta, acho importante
o fato de que o livro que ganhou o Jabuti na categoria reportagem
seja uma coletânea de reportagens sobre gente comum. O que
eu faço em “A Vida Que Ninguém Vê”
é importante - e o fato de ter sido premiado também
- porque pode levar a uma discussão sobre o que é
a pauta, em jornalismo.
E por
quê? Acredito profundamente que as grandes mudanças
são explicitadas na vida cotidiana de gente comum, que as
grandes mudanças estão radicalizadas nos pequenos
detalhes. E acho que o livro faz uma provocação interessante
também ao virar do avesso a idéia do que é
comum, do que é extraordinário. Esse eu acho um ponto
importante de reflexão à pauta que costuma ganhar
mais espaço em jornais e revistas. As histórias de
“A Vida Que Ninguém Vê” são todas
extraordinárias, embora todos os personagens sejam comuns.
E o
fato de justamente essa pauta, essa abordagem, essa escrita ter
sido reconhecida através de um prêmio tão importante
como o Jabuti é sensacional. Em 1999, a série “A
Vida Que Ninguém Vê”, publicada naquele ano,
na “Zero Hora” [jornal diário sediado em Porto
Alegre (RS)], ganhou o Prêmio Esso Regional. Isso mostra que
as pessoas estão abertas a uma outra forma de “reportear”
o mundo. Não que eu tenha inventado alguma coisa. Não
inventei nada. Embora tenha minhas particularidades, como qualquer
um, esse jornalismo é muito mais antigo do que eu, como vocês
do Jornalismo Literário sabem melhor do que ninguém.
Só faço parte de um grupo de repórteres que
continua brigando para fazer matéria pessoalmente, sem a
mediação de telefones e e-mails, prestando atenção
no que vê, sente, observa - e não apenas no que é
dito.
Qual
é a história por trás do livro? Como ele nasceu?
Numa
tarde do final de 1998, o diretor de redação da “Zero
Hora”, Marcelo
Rech
[que estará no Seminário de JL com a palestra “‘Zero
Hora’: uma experiência de renovação”],
me chamou na sala dele para me propor a idéia de fazer reportagens
sobre o cotidiano. Não sabíamos que formato teria
e a seção “A Vida Que Ninguém Vê”
foi encontrando sua forma na medida em que era feita. O que ele
me propôs foi um presente que qualquer repórter gostaria
de ganhar. (Vou morrer agradecendo a ele...) Eu tinha total liberdade
não só na escolha do tema como no jeito de escrever.
Foi um ano maravilhoso. Era uma angústia semanal maravilhosa.
No final do Provocações (TV Cultura), o Antonio Abujamra
diz para o convidado “enforque-se nas cordas da liberdade”.
Diga o que quiser. No meu caso era parecido: faça a pauta
que quiser, do jeito que quiser. Eu me enforcava semanalmente.
Você
prefere trabalhar com personagens anônimos, figuras da vida
cotidiana, evitando escrever sobre celebridades. Por quê?
Eu
gosto da vida comum exatamente porque não acredito que ela
seja comum. Eu nunca tive muita curiosidade por gente importante
e desde pequena lembro que ficava olhando as luzinhas nas janelas
das casas e tentando adivinhar o que aquelas pessoas estavam vivendo,
o que sonhavam, porque brigavam, sofriam etc. Sempre quis ter uma
boa desculpa para bater, entrar e perguntar. E a desculpa acabou
sendo o jornalismo. Mas acho que a questão aqui é
outra. Embora eu tenha mais curiosidade pela vida de quem não
vira notícia, eu acho que poderia ser muito interessante
fazer a vida comum das celebridades. O fato de as pessoas - e de
um certo tipo de pessoa - estar sempre sob os holofotes não
quer dizer que se saiba alguma coisa sobre a vida delas. Muitas
vezes o excesso de informações encobre. A gente pode
saber sobre todos os “selinhos”, casamentos e separações
de muitas das ditas celebridades que estão semanalmente nas
revistas. Mas o que a gente sabe realmente sobre elas? Muito pouco.
Acho que existe um tipo de jornalismo que mais encobre que revela,
em que o excesso de informações cega como os flashes.
O que não se vê sobre as celebridades certamente seria
bem interessante.
Como
surgiu essa predileção por essa forma de abordagem
e como você foi lapidando seu estilo de escrita da vida real?
Eu
sou basicamente intuitiva, então nunca planejo muito. Para
escrever é a mesma coisa. Se eu tiver de pensar o que botar
em cada parágrafo, perco a vontade de escrever. Quando penso
em escrever de um jeito, acabo escrevendo de outro. Em geral, fico
grávida da matéria, então acho que vai gestando
dentro de mim. Isso nas grandes, claro. Quando chega perto do dia
de escrever me sinto fisicamente gorda, eu sou muito literal. E
fico insuportável. Acho que a matéria fica se escrevendo
dentro de mim. Por isso que quando eu sento, em geral ela sai aparentemente
sem pensar. Porque já estava se pensando dentro de mim. Também
não penso muito no jeito de escrever. Mas leio e releio incansavelmente
até a hora de baixar. No dia do fechamento eu devo ler, sem
exagero, umas 15 vezes. Leio pela última vez bem tarde da
noite, depois do pessoal da revisão, a quem sou muito grata
por me suportar, porque eu fico o tempo todo indo e voltando, lendo
e relendo, achando pêlo em ovo. Conheço cada vírgula
do meu texto e sou muito chata com relação a ele.
Prefiro me arriscar a errar do meu jeito, com as minhas próprias
vírgulas.
Quanto à abordagem, tento, na medida do possível,
fazer coisas sobre as quais tenho curiosidade. É isso que
me move. E o que me deixa curiosa em geral não coincide muito
com a pauta mais tradicional da imprensa. Quanto ao estilo, se tenho
um deve ser a soma de tudo o que li - e leio – nesta vida.
Eu gosto mesmo é de literatura. Não vivo sem livros
de ficção. Preciso ler toda semana, todo dia, pra
viver outras coisas. Em geral não suporto muito o mundo.
Acho que quem escreve bem é porque lê muito. Acho que
ser repórter me ajuda a equilibrar essa dor do mundo. A escritora
Ana Miranda diz que “nem sempre a vida dói como uma
afta”. É uma frase ótima. Pra mim em geral a
vida dói como uma afta. Descobri que fazer jornalismo é
um jeito de elaborar isso, de ver como as outras pessoas lidam com
a dor do mundo (em geral muito melhor do que eu). E transformam
dor em criação, às vezes da própria
memória. Embora como leitora eu ame ficção
(e sonho com um dia escrever ficção), aprendi que
a realidade é imbatível. A ficção não
alcança a capacidade de invenção e reinvenção
da realidade. Por isso sou muito grata por ser repórter.
A
sua interação com os personagens parece intensa. Isso
é visível em matérias como a das parteiras
da Amazônia ou a dos velhinhos do asilo, no Rio de Janeiro.
Criam-se situações delicadas, de intimidade, confiança
mútua e respeito. Mas a fronteira ética entre amizade
e o compromisso do relato fiel da realidade é delicada. Como
você lida com essa questão?
É ao mesmo tempo a melhor e a pior parte
de uma reportagem. Acho que existem vários tipos de matérias.
As que eu geralmente faço não vejo como não
me envolver com as pessoas. É uma relação de
confiança mútua, de entrega mútua. Sinto uma
responsabilidade terrível quando alguém aceita contar
a sua vida para mim. É maravilhoso e é um peso. Nada
pode ser pior do que uma pessoa não se reconhecer numa matéria.
Não só não reconhecer suas palavras como seu
jeito, seu cheiro. Mesmo que sempre vai ser o meu olhar sobre um
outro, o outro tem de se ver no meu olhar ou há alguma coisa
errada. E sei o que uma reportagem equivocada pode causar na vida
de uma pessoa. Então fico muito tensa, tenho insônia.
E vivo aquelas experiências todas. Não tem uma regra,
tem bom senso em cada caso. Nem sempre acerto.
Mais
recentemente você também fez um documentário.
Você acha que levou para o documentário a mesma postura
e os mesmos procedimentos básicos que adota quando escreve
uma matéria de fôlego?
Fiz um documentário: “Uma História
Severina”. E fiz do mesmo jeito que faria uma reportagem,
ou seja, contei uma história. Talvez não seja o melhor
jeito, acho que as pessoas que fazem documentários discutem
linguagens, têm outras preocupações. Eu só
pensei em contar a história do melhor jeito. Teria feito
a mesma coisa se estivesse fazendo uma matéria escrita. Usei
a única coisa que eu tinha, que era minha experiência
de repórter. Para mim, era só um outro jeito de contar
uma história que precisava ser contada. Fiz um documentário
que acabou ganhando 12 prêmios, mas não sou uma documentarista.
Hoje tenho me interessado em pensar mais sobre maneiras de fazer,
sobre o que é documentário, acho que pode ser um desafio
interessante, que exige uma outra radicalidade. Por outro lado,
um documentário é um trabalho muito mais coletivo
do que uma reportagem escrita. Nesse, éramos duas diretoras.
Então o resultado é uma mediação de,
no mínimo, dois olhares. Mas há outros. E não
há como ser diferente. Precisei escrever depois sobre nuances
que me pareciam essenciais e não estavam lá porque
as vozes não me deixavam dormir.
De
todas as suas matérias, gostaria que você destacasse
uma, escolhendo em função do desafio, da imersão,
da convivência com os personagens e da escrita em si. Enfim,
uma experiência que a tenha modificado como escritora e ser
humano...
Eu
vivo cada matéria como se fosse a única. Tem gente
que acha que é um exagero, eu sofro por matérias pequenas,
no jornal sofria por matérias do dia. Mas é o meu
jeito. Naquele momento é tudo o que importa. Eu mergulho,
submerjo e depois é preciso emergir, o que só acontece
depois de publicar. Isso é difícil para quem convive
comigo, sou muito absorta. Quando mexem no meu texto, sinto no meu
corpo. E, antes que alguém pense em sugerir, faço
terapia há milênios. Então, todas me mudam.
Mas é claro que algumas são mais intensas. Acho que
as que mais mexeram comigo, além de “A
Vida Que Ninguém Vê”, foi a da Coluna Prestes,
a dos velhinhos no asilo do Rio, a do Povo do Meio, a de Castelo
de Sonhos, a da Brasilândia e, mais recentemente, a dos Novos
Antropófagos, os escritores da periferia de São Paulo.
Cada
uma por motivos diferentes, que posso contar no Seminário
de Jornalismo Literário, porque senão vou me estender
muito. Isso cria algumas dificuldades extras. Porque são
raros os editores que entendem que você não entra e
sai de matéria como se fosse uma linha de montagem. Não
é disso que se trata. É preciso de um tempo que, em
geral, a gente tem cada vez menos. Não estamos “produzindo”,
nosso trabalho não se mede em quantidade. Se essa for a medida,
há algo de muito errado com a imprensa. Quando volto de uma
viagem dessas, seja uma viagem literal ou não, fico muda,
não consigo falar, preciso de uns dias dentro de mim. Eu
ando, como, falo coisas corriqueiras, mas de verdade não
estou. Estou elaborando dentro de mim porque foram coisas que mexeram
muito comigo, que me transtornaram. Ao mesmo tempo que é
um privilégio entrar nessas realidades que de outro jeito
não teríamos acesso, é um preço alto,
um custo pessoal alto. Não me canso de dizer que ninguém
entra na vida do outro impunemente. Se nada se passou, eu acho,
é porque apenas passou pela realidade, pela vida, mas não
entrou.
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