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“Longe da tumba”
entrevista com Paulo Moura

Paulo Moura, premiado repórter do jornal português “Público”, esteve no Seminário Brasileiro de Jornalismo Literário, realização pioneira da ABJL/TextoVivo, nos dias 22 e 23 de outubro de 2007, no Novotel Jaraguá, em São Paulo (SP). Com bom-humor e suspense, Paulo narrou para a platéia suas aventuras como correspondente em várias guerras e refletiu sobre como as terríveis circunstâncias de trabalho afetaram sua maneira de contar histórias reais.

Na entrevista a seguir, concedida ao professor Edvaldo Pereira Lima, Paulo Moura afirma que o futuro do Jornalismo Literário (ou Jornalismo Narrativo) depende, necessariamente, da internet e das novas tecnologias de comunicação.

“Há novos instrumentos para descrever e compreender a realidade que não estão a ser valorizados. Não podemos deixar que ‘nerds’ ou técnicos de publicidade tomem conta das novas linguagens. É tempo de os jornalistas literários se apropriarem delas. O livro ainda não morreu, mas, se isso acontecer (paz à sua alma) não queremos ir para a tumba com ele.”

Qual é o estado do Jornalismo Literário (ou Jornalismo Narrativo) em Portugal?

Há uma geração de jornalistas literários, embora essa geração ignore a si mesma. Estão nos jornais, mas também na televisão e no rádio. Ganham prêmios, têm fãs. Só os editores ainda não compreenderam a sua importância.

Há um histórico de prática dessa modalidade no jornalismo português?

Sim. Há escritores excelentes que praticaram o jornalismo (basta pensar em Eça de Queirós) e há jornalistas que vêm desenvolvendo uma arte específica, embora sempre no meio de grande adversidade e com objetivos concretos. Durante a ditadura de Salazar, era preciso ludibriar os censores e comunicar-se com uma elite culta e secretamente contestatória. Depois de 1974, foi preciso contrariar a tendência para a “estupidificação” da mídia imposta pelo mercado e a guerra das audiências.

Os livros-reportagem são um canal especial para o Jornalismo Literário. Esse tipo de produção tem presença forte no mercado editorial português? Os autores portugueses têm aproveitado esse potencial?

Não. As editoras não têm apostado em livros-reportagem. Só agora parecem estar a descobrir o potencial do gênero. Há novas editoras que estão a convidar jornalistas para escrever sobre temas que lhes são sugeridos, ou impostos. É um mercado que está a surgir e a criar novos leitores. Mas as editoras estão obcecadas com temas e títulos que possam se transformar em best-sellers instantâneos, e pouco atentas à qualidade literária dos textos.

Sua trajetória profissional, como praticante e professor de Jornalismo Literário, tem relação com sua experiência internacional de correspondente ou nasceu de um cenário favorável em Portugal mesmo?

O jornal onde trabalho, o diário “Público”, foi uma "pedrada no charco", quando apareceu, há 18 anos. Acreditava na reportagem literária e deu-me condições para desenvolver meu estilo. Depois, esse ambiente deteriorou-se e quase tudo o que aprendi e me influenciou veio do estrangeiro, principalmente dos EUA, onde vivi, como correspondente do “Público”.

Que mentores você teve nesse desenvolvimento, por que foram importantes e o que trouxeram de contribuição significativa para você encontrar seu próprio espaço no mundo do Jornalismo Literário?

Influenciaram-me romancistas americanos como Hemingway e os pais do Novo Jornalismo, como Tom Wolfe. Outros, sinto que me influenciaram, mas trata-se de uma memória falsa, porque só os conheci mais tarde, como o polonês Ryszard Kapuscinski. Na escrita, os meus gurus são sobretudo autores de ficção, como Nabokov ou Conrad, Bret Easton Ellis, Kurt Vonnegut ou Chuck Palaniuk. Mas também realizadores de cinema como Roman Polanski, músicos como Trent Reznor ou coreógrafos como Sacha Waltz. Nos temas, quem me influencia mais são os poetas, como José Gomes Ferreira. Talvez isto queira apenas dizer que, em termos de mentores, andei muito sozinho.

De suas experiências pelo mundo, trabalhando como escritor da realidade, destaque uma ou duas que tenham sido significativas no seu crescimento como autor.

Situações como a da Chechênia, o Afeganistão ou o Iraque marcaram a minha forma de descrever o real, por me fazerem sentir as contradições entre a perspectiva de um indivíduo e a narrativa global de um acontecimento. Percebi que a única estratégia honesta de contar estas histórias é "encenar", no mesmo texto, as perspectivas que geralmente são mantidas separadas. São situações que só se tornam inteligíveis através de uma espécie de "teatro do absurdo", que a reportagem de guerra propicia.

Como vê o futuro do Jornalismo Literário e de outras formas narrativas inovadoras, de não-ficção, em Portugal?

O Jornalismo Literário terá um grande futuro em Portugal e em todo o mundo, desde que consiga “aderir” à internet e às novas tecnologias de comunicação. Há novos instrumentos para descrever e compreender a realidade que não estão a ser valorizados. Não podemos deixar que "nerds" ou técnicos de publicidade tomem conta das novas linguagens. É tempo de os jornalistas literários se apropriarem delas. O livro ainda não morreu, mas, se isso acontecer (paz à sua alma) não queremos ir para a tumba com ele.

 
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