.
“Menos
perguntas, mais observação”
entrevista com Anne Hull *
Anne
Hull, repórter especial do “The
Washington Post”, esteve no Seminário Brasileiro de
Jornalismo Literário, realização pioneira da
ABJL/TextoVivo, nos dias 22 e 23 de outubro de
2007, no Novotel Jaraguá, em São Paulo (SP). Em uma
de suas palestras, ela abordou o tema “reportagens seriadas
em jornais”; noutra, juntamente com Mark
Kramer, autor de vários livros narrativos de não-ficção,
Anne falou sobre o trabalho de campo.
Na
entrevista a seguir, concedida ao jornalista e professor dinamarquês
Ole Soennichsen, ela diz que, embora repórteres devam fazer
perguntas, é importante também ser silencioso e discreto:
“Isso exige muita disciplina, pois a maioria dos repórteres
quer controlar a situação fazendo perguntas e dirigindo
a conversa”.
O que torna a reportagem narrativa diferente da reportagem do jornalismo
convencional?
De certa forma, as habilidades são as mesmas.
A diferença está, na verdade, na escrita. Não
importa o tipo de matéria que se procure fazer. Alguns procedimentos
— observação, ouvido para o diálogo,
um estado de alerta para sentir as coisas, fazer as perguntas certas
— deveriam ser universais. Há algumas diferenças,
porém. Fazer reportagens narrativas envolve muito mais silêncio
da parte do repórter. Não dá para ficar interrompendo
o fluxo dos acontecimentos com perguntas. Você deve assistir
ao desenrolar da ação, sem intervir. Você deve
estar dentro e, ao mesmo tempo, fora.
Você
disse uma vez que uma das coisas mais subestimadas ao se fazer reportagem
é a observação - a arte de observar. Por quê?
Você precisa esculpir seu trabalho e não
ser percebido. Nosso impulso natural é sempre fazer perguntas,
mas isso às vezes é errado: isso o torna o centro
das atenções, em lugar do seu personagem. Na quietude
vem a humildade. Isso honra a pessoa que você está
tentando observar.
As perguntas também são uma forma
de controle. É uma maneira de ser o contra-regra. É
claro que jornalistas devem fazer perguntas. Observar, no entanto,
significa segurar suas curiosidades e deixar o assunto simplesmente
viver. Silêncio e liberdade são essenciais. Assim como
o melhor repórter fotográfico, você deve olhar
para o que está fora das atenções. Quando isso
acontece, você enxerga, ouve e sente o cheiro de elementos
que pergunta alguma poderia conseguir.
Como
aprendemos a ser “uma mosca na parede” e não
uma parte explícita da matéria?
Identificar suas fraquezas ajuda muito. Se descrever
roupas não é seu ponto forte, escreva no seu bloco
de notas “roupas”. Isso o lembrará de anotar
o que alguém está vestindo. Você pode lembrar
a si mesmo de prestar atenção em tudo quanto é
tipo de coisa. Quase sempre é difícil não expor
sua opinião, ou não reformular a ação.
Se você está num ponto de ônibus com seu personagem
e o ônibus chega, mas o personagem não se levanta para
pegá-lo, é difícil não dizer “Ei,
este não é o seu ônibus?”. Só que
você não pode. Você precisa ver o seu personagem
perder o ônibus.
Por
favor, vamos falar mais sobre observar — estar simplesmente
quieto, assistindo a algo. Como você desenvolve essa habilidade
e como explicar às pessoas que você as está
acompanhando? Quanto tempo leva para conquistar uma aproximação
suficiente para que elas aceitem isso?
Não existe técnica para você
ser silencioso. Isso exige é disciplina, pois a maioria dos
repórteres quer controlar a situação fazendo
perguntas e dirigindo a conversa. Eles em geral têm pouco
tempo para cumprir suas pautas. Mas algumas matérias exigem
paciência e observação. Veja o trabalho do repórter
fotográfico. Ele se torna invisível, movimentando-se
pelo ambiente, em volta de seu assunto, subindo, descendo, afastando-se.
Um repórter pode fazer o mesmo. Assistir ao desenrolar de
toda a ação. Lembre-se de ficar em silêncio.
Seja paciente. Vá ficando por lá.
Para explicar isso, apenas diga no começo
do processo da reportagem que, como repórter, você
vai fazer um monte de perguntas. Você vai entrevistar várias
pessoas, mas haverá momentos em que você vai apenas
querer observar e entender. De início, as pessoas estão
inclinadas a agir performaticamente, ou elas ficam tão preocupadas
que apenas ficam mais caladas. Mas logo que se sentem mais confortáveis,
tendem a relaxar e voltam a se comportar normalmente. Algumas pessoas
agem naturalmente e logo já falam de seu mundo, mesmo com
a presença de um espectador. Outras não se sentem
tão confortáveis e exigem mais adaptação
à presença do repórter.
Suas
reportagens são feitas com pessoas comuns e não com
fontes oficiais. O que isso representa? Você age de maneira
diferente?
Pessoas comuns são geralmente as mais sinceras,
mas também as mais vulneráveis. Como repórteres,
nós temos a responsabilidade de não deixá-las
esquecer que estamos observando, escutando e tomando notas. Eles
não podem confundir essa companhia com uma conversa de amigos.
Essas relações podem ser calorosas e leves, mas estamos
lá por uma razão, geralmente: para conseguirmos fazer
uma matéria e fazê-la corretamente. Eu diria que essa
é a maior diferença entre entrevistar pessoas comuns
e as fontes oficiais.
Soube
que você quase nunca usa um gravador. Por quê?
Transcrever gravações consome muito
tempo. Prefiro fazer anotações, a não ser que
eu esteja numa coletiva e preciso saber cada uma das palavras. Eu
também uso o gravador quando a entrevista é sobre
algo extremamente técnico ou não familiar para mim,
para que eu possa anotar tudo e mais tarde escutar o gravador para
compreender melhor.
Como
você se lembra dos detalhes e das cenas longas?
Eu anoto tudo. Tudo. Diálogos, a atmosfera,
as horas, o clima etc. Tudo.
Você
anota tudo mesmo ou faz uma seleção quando já
está em campo?
Anoto a maioria das coisas, incluindo impressões
ou como algo me toca. Naquele momento, coisas do tipo “aqui
eu ri” ou “isso me fez chorar”. Talvez seja apenas
uma reação nervosa do meu próprio íntimo.
Mas é algo que eu faço.
Como
você evita que a relação com as fontes se torne
muito pessoal, já que você quer que elas se aproximem
de você? Que tipo de acordo se deve fazer com as fontes para
evitar problemas éticos? Em uma cena crítica, quanto
tempo um repórter deve esperar para começar a ajudar?
Nenhum jornalista deveria, em função
de uma matéria, ficar esperando e apenas assistindo a um
perigo ou um sofrimento aumentarem e espalharem-se. Ao mesmo tempo,
estamos ali para documentar a realidade. O que faz uma correspondente
na África, quando anda num campo de refugiados famintos,
com as mãos estendidas em sua direção? O que
você faz com sua garrafa de água no Sudão, ao
ficar rodeado por pessoas famintas e sedentas, a centímetros
de você? Estas são perguntas difíceis, mas os
cenários são extremamente reais. Eu escrevi sobre
uma família no Kentucky que estava com uma filha com febre
alta. Eles não tinham carro para levá-la ao médico.
Meu carro alugado estava estacionado perto dali. Mas não
ofereci para levá-los rapidamente. Precisava ver como eles
resolveriam aquele dilema, pois transporte e apoio médico
fazem parte de uma longa história da pobreza. Mas quero ser
clara: se a garota se encontrasse em sérios riscos, eu a
teria levado ao hospital, sem dúvida alguma. Por sorte, o
pai descobriu uma solução antes de chegarmos às
providências mais severas.
Qual
é a sua opinião sobre empregar diálogos que
você não tenha ouvido pessoalmente?
Parafrasear geralmente é a melhor opção,
e depois esclarecer de onde veio a informação. Isso
pode ser resolvido ao dizer “lembrado vagamente” ou
“o modo em que foi mais ou menos lembrado”. O diálogo
direto é sempre o ideal, mas se você está reconstruindo,
o uso das sentenças sugere que você ouviu cada uma
das palavras e está transmitindo-as exatamente ao leitor.
Se você usa citações, as palavras contidas devem
ser exatas. Você tem certeza que elas são?
*
Entrevista concedida a Ole Soennichsen, jornalista e professor de
Jornalismo Literário/Jornalismo Narrativo na Dinamarca. Versão
reduzida, editada e preparada por Edvaldo Pereira Lima. Tradução
de Fred Linardi. Reproduzida com autorização. Versão
original e completa disponível no Nieman
Narrative Digest.
|