| “Jornalistas
Literários:
Narrativas da Vida Real por Novos Autores Brasileiros”,
de Sergio Vilas Boas (org.)
Summus Editorial, 315 págs., 2007
Coleção
de 16 narrativas sobre pessoas reais e suas experiências.
Todas foram produzidas por alunos de pós-graduação
lato sensu (especialização) em Jornalismo
Literário da ABJL, turmas de São
Paulo, Campinas, Brasília e Porto Alegre, entre o final de
2005 e o início de 2007. Algumas histórias receberam
minha orientação direta, outras se ergueram segundo
as diretrizes ou do professor Edvaldo Pereira Lima ou do professor
Celso Falaschi.
O talento
da turma reunida aqui é indiscutível. O modo como
trabalharam é nada menos do que JL na veia: intensivo trabalho
de campo (em campo), movendo muito as pernas e conversando ativamente,
acurado senso de detalhe, pesquisa constante, técnica de
expressão depurada e uma mentalidade (uma maneira de ver
a natureza e o ser humano) perfeitamente adequada aos desafios de
hoje.
Do
ponto de vista conceitual, temos aqui narrativas temáticas
e biográficas. Explico: temáticas são aquelas
em que há vários personagens cujas histórias
pessoais ajudam a lançar luzes sobre um tema. As biográficas,
em que se incluem os perfis (gênero conhecido da maioria dos
leitores de jornais e revistas), são aquelas que enfocam
um sujeito – e seus “coadjuvantes”, claro. Basta
ler para perceber. Não tem erro.
São
histórias encantadoras, honestas, corajosas, sem pieguices
nem disfarces. Os autores realmente se atiraram no mundo individual-social
que os intrigava, criando empatia conosco de várias maneiras:
pela inspirada observação de padrões cotidianos;
pela recuperação de memórias aparentemente
perdidas; pelo contato com mundos diferentes dos seus; ou pela incursão
certeira rumo ao entendimento de coisas que estavam bem debaixo
de seu nariz. Tudo isso sem ter de re-re-inventar a roda. Tudo isso
apenas resgatando o que o jornalismo mais sabe (ou deveria saber)
fazer: reportar em profundidade – e com criatividade.
Notem
que, além de métodos, técnicas e autoconhecimento,
os autores aqui reunidos têm fome de entendimento. Sabem,
sentem que não basta apenas identificar mazelas sociais.
Sabem, sentem que é preciso dar voz àqueles que têm
soluções viáveis a apresentar ou que já
as experimentaram concretamente. O Jornalismo de um país
com iniqüidades gritantes como o Brasil não deveria
dispensar os ferramentais da reportagem narrativa em profundidade,
esta que a ABJL estuda, pratica e ensina.
(SVB)
“Cicatriz
da Reportagem: 13 histórias que fizeram um repórter”
de Carlos Azevedo
Editora Papagaio, 404 págs., 2007
“Quando faço uma reportagem grande,
me apaixono completamente e passo a viver com aqueles personagens.
Às vezes, a gente até aluga a existência do
outro para viver um pouco a vida dele.” Para checar se essa
declaração do jornalista Carlos Azevedo, 67 anos,
é procedente, principalmente para aqueles que não
conhecem o seu extenso trabalho como repórter das revistas
“Realidade”, “Quatro Rodas” e “Caros
Amigos”, entre outros veículos, ele mesmo tirou do
armário um projeto guardado desde 1997.
Reuniu 13 reportagens que ele diz terem realmente
lhe rendido “cicatrizes”.
Sempre colocando em pauta as vozes dos excluídos, Azevedo
conseguiu traçar diferentes segmentos de um Brasil extremamente
conservador ao longo dos 36 anos de carreira, o período de
tempo em que as reportagens foram publicadas.
Carlos foi integrante da primeira equipe de profissionais
da lendária “Realidade”, onde produziu textos
marcantes, contundentes, bons exemplos de Jornalismo Literário,
apesar dos holofotes dos censores militares de então.
Todas as histórias do livro estão
amarradas por “making ofs”, situando os leitores sobre
as variadas circunstâncias de produção. Um documento
histórico, com textos humanizados e criativos, que em nenhum
momento esconde ou camufla o seu engajamento político.
“A
indústria cultural foi monopolizada e isso acabou bloqueando
a presença de talentos mais contestadores. Agora o que vemos
é um clima de hegemonia total, onde cada vez mais o texto
do repórter se torna impessoal, sem vida”, sentencia
o militante comunista, que viveu sua clandestinidade em Campinas
(SP). (Gustavo Abdel Massih).
“A
Longa Marcha”,
de Sun Shuyun
Arquipélago Editorial, 336 págs., 2007
Os ventos do capitalismo e da flexibilização
política que tangem o ressurgimento chinês deste início
de século não vêm produzindo apenas a conhecida
inundação de bens industriais de baixo preço
pelos quatro cantos do mundo. Também a história da
grande nação e, em particular, um de seus capítulos
mais espetaculares — a retirada do Exército Vermelho,
comandada pelo Partido Comunista, em 1935, no episódio conhecido
como a Longa Marcha — é revista com equilíbrio,
sensibilidade e talento narrativo pela produtora de tevê e
documentarista chinesa Sun Shuyun.
Como ela lembra no prefácio do livro, a Longa
Marcha é o mito fundador da China comunista — ação
grandiosa que conduziu durante dois anos cerca de 200 mil pessoas
por mais de dez mil quilômetros, desde suas bases na província
de Jiangxi, no sul, até o infértil platô da
Terra Amarela, no noroeste do país, acossados pelas tropas
mais numerosas e muitíssimo bem financiadas do general nacionalista
Chiang Kaishek. Façanha freqüentemente comparada pelos
historiadores ao êxodo bíblico dos judeus conduzidos
por Moisés desde o Egito.
Passados setenta anos da epopéia, a jovem
Sun (nascida em 1963) refez o trajeto da Longa Marcha. Dos 40 mil
sobreviventes originais, saiu à procura dos cerca de 500
deles que talvez ainda estivessem vivos em 2004, com idades em torno
dos 80 anos ou mais. Sua tarefa: conferir, pelos depoimentos dessas
testemunhas, a veracidade de relatos muitas vezes terríveis
sobre fome, deserções, execuções em
massa e batalhas sangrentas nem sempre presentes nos livros escolares
ou na história oficial contada pelo Partido Comunista.
Na
China, os livros sobre este tema enchem metros de prateleiras. Mas
Sun, usando recursos da narrativa de não-ficção,
mergulha fundo no coração de um país cujo interior
às vezes desolado pouco mudou desde então. Ela sobe
montanhas, percorre aldeias, revisita campos de batalha e dedica
dias inteiros às entrevistas com os veteranos dessa guerra
— soldados rasos, hierarcas do partido, pessoas simples ou
famílias inteiras cujas vidas opacas foram arrastadas pelo
turbilhão assustador da construção do socialismo
num ancestral país de camponeses. Como revela Sun, são
personagens que tocam o âmago da Longa Marcha: “toda
a bravura e todo o sacrifício, os revezes e os sofrimentos,
as feridas auto-infligidas. A razão pela qual tantos apoiaram
a causa comunista também ficou muito clara, assim como a
razão para muitos não o terem feito”. (Sebastião
Aguiar)
“Os
Jornais Podem Desaparecer?
Como Salvar o Jornalismo na Era da Informação”,
de Philip Meyer
Editora Contexto, 268 pags., 2007
“Descubra
a verdade e publique-a. O bordão histórico de Jack
Knight - o publisher fundador de um dos maiores complexos de comunicação
dos Estados Unidos, a Knight-Ridder – talvez devesse ser reformulado
para: “descubra a verdade e publique-a... na Internet”.
A estocada
é uma das muitas que o veterano jornalista Philip Meyer,
um analista rigoroso da perda de influência do jornal diante
da concorrência exercida pelas novas mídias, oferece
neste seu livro mais recente.
Meyer,
que foi colaborador de Jack Knight durante anos e hoje leciona na
Universidade da Carolina do Norte, já entra no assunto com
a mordacidade que lhe é peculiar, constatando que “se
acreditarmos nos analistas de Wall Street, os jornais estão
no ramo de expor leitores aos anunciantes”.
Com
a autoridade de quem já ganhou o pão freqüentando
tanto o pulsante ambiente das redações, produzindo
noticiário, quanto os mais silenciosos e bem decorados gabinetes
corporativos, nos quais as importantes decisões editoriais
são engendradas, ele avalia: “O motivo pelo qual os
jornais não são tão bons quanto na era de ouro
não é a divisão entre Igreja e Estado. É
que a decisão necessária para solucionar o conflito
entre lucro e prestação de serviço era responsabilidade
de um indivíduo com espírito público, o publisher,
que controlava os dois lados da parede e era rico e confiante o
bastante para fazer o que lhe aprouvesse”.
Pena
que os publishers – que ele chama de “os reis-filósofos
da mídia moderna” – tenham saído de cena
para dar lugar a executivos cujos empregos dependem dos resultados
financeiros que possam exibir aos seus acionistas. A esse respeito,
Meyer lembra uma situação que presenciou: “Frank
Hawkins era diretor de relações corporativas da Knight
Ridder em 1986, ano em que o grupo ganhou sete prêmios Pulitzer.
No dia do anúncio dos prêmios, o valor das ações
da empresa caiu. Hawkins chamou um dos analistas que acompanhavam
a companhia e perguntou o motivo. ‘Porque vocês ganham
prêmios Pulitzer demais’, respondeu o analista. ‘O
dinheiro gasto nesses projetos deveria ser poupado para entrar no
resultado financeiro’”.
Em
outro momento da história já um tanto remota da imprensa
norte-americana – o da queda do presidente Nixon –,
ele defende que o apoio dado por Katherine Graham aos editores e
repórteres do “The Washington Post” que revelaram
os crimes de Watergate não foi motivado pelo lucro, mas pelo
senso de dever cívico. “No entanto”, escreveu,
“ter lucro permitiu a ela o luxo de cumprir esse dever, embora
fosse modesta quanto a isto”.
Meyer
mostra que, até por volta de 1980, os jornais punham seu
prestígio editorial e poder de influência à
frente dos resultados financeiros imediatos, apesar de já
não serem nem sombra do que haviam sido nas primeiras décadas
do século, quando praticamente detinham o monopólio
da veiculação de publicidade. Em 1946, na aurora da
era da televisão, os jornais tinham 34% do mercado publicitário.
Na segunda metade do século 20, essa participação
havia caído para 20%, mas ainda assim os jornais ganhavam
dinheiro porque o mercado publicitário havia crescido.
Mas
a TV e, depois, a Internet mudariam drasticamente o cenário.
Entre um golpe e outro, as empresas jornalísticas ainda se
transformaram em sociedades de capital aberto, geridas por profissionais,
não mais por figuras carismáticas, em algum sentido
comprometidas com as comunidades que as viram nascer. Por isso,
diz Meyer, o executivo de plantão concentra sua atenção
mais no desempenho de curto prazo das corporações
do que em seu portfolio.
Os
estudos citados por Meyer mostram que o declínio mais acentuado
da confiança nos jornais aconteceu entre 1991 e 1993. Se
continuasse no mesmo ritmo, atingiria o zero, segundo os gráficos,
em 2015. E a leitura do jornal diário, na mesma escala, já
não existiria em 2043. “Desde que a geração
dos baby boomers envelheceu” — ele notou – “sabemos
que os jovens lêem menos jornais do que os mais velhos. Durante
anos nos consolamos achando que eles se tornariam parecidos conosco
e adotariam o hábito de ler jornais quando fossem mais velhos,
mas isto nunca aconteceu”.
Então,
os jornais têm ou não salvação? “A
maneira ideal de garantir o futuro dos jornais”, responde
Meyer, “seria conservar sua influência e pagar os custos
das experiências radicais, necessárias para aprendermos
quais novas formas de mídia serão viáveis”.
Readquirir influência social, segundo ele, depende da prática
do bom jornalismo, que por sua vez é um pré-requisito
para o sucesso financeiro, criando-se assim um círculo virtuoso.
(Sebastião Aguiar)
“Leituras
da Revista ‘Realidade’ (1966-1968)”,
de Letícia Nunes de Moraes
Alameda, 252 págs., 2007
A revista
“Realidade”,
inspirada no New Journalism e com reportagens ousadas na forma e
no conteúdo, obteve sucesso imediato num Brasil sem grande
tradição de leitura; enfrentou temas-tabus, cobriu
guerras e abordou dramas sociais até então pouco discutidos
por outras publicações e pela própria sociedade
brasileira. Impulsionada e influenciada por efervescência
política e pela contracultura,
“Realidade”
sofreu com a repressão da ditadura militar que, na época,
se consolidava no Brasil.
Neste
livro, a autora (jornalista e historiadora) se debruça sobre
o relacionamento da revista com os leitores; sobre como os leitores
reagiam às matérias veiculadas - em sua maioria de
grande impacto e, não raro, escandalizando certos setores
da sociedade. A participação do leitor é analisada
por meio de mais de 700 cartas, todas datadas da primeira (e mais
importante) fase da revista, que vai de seu surgimento, em abril
de 1966, até a instituição do AI-5, em novembro
de 1968.
A contribuição
deste livro está exatamente nesse “estudo de recepção”.
No mais, algumas questões levantadas pela autora já
haviam sido melhor detalhadas por outros pesquisadores, como José
Salvador Faro em “Realidade, 1966-1968: Tempo da Reportagem
na Imprensa Brasileira”. Outro aspecto louvável: não
nos esquecermos de que o Jornalismo Literário (do qual o
New Journalism é o “clímax”) foi praticado
no Brasil de maneira errática ao longo do século 20,
diferentemente de outros países; sob esse ponto de vista,
“Realidade” é incontroversa, pois honrou a tradição
americana de um jornalismo visceral-experimental.
(SVB)
“Resgate
Cultural Estrada Real”,
de Sergio Vilas Boas e outros
Sebrae/MG, 260 págs., 2007
Este
livro reúne dez narrativas (acompanhadas de ensaios fotográficos,
cinco deles meus) sobre manifestações culturais e
ofícios tradicionais em risco de desaparecimento ao longo
do eixo da Estrada Real. A Estrada Real, hoje, é o nome de
um projeto turístico que abrange as rotas do ouro e dos diamantes
abertas a partir do final do século 18, e que se ligavam
Minas Gerais ao mar. Em sentido norte-sul, a “estrada”
começa em Diamantina e atinge Ouro Preto, dái bifurcando-se
para o Rio de Janeiro ou Parati. O ípsilon (de cabeça
para baixo) formado por esse tecido de trilhas lendárias
abriga a maior parte do patrimônio histórico e artístico
de Minas Gerais e teve tráfego intenso de tropeiros até
o final do século 19. Utilizando-se de métodos e técnicas
do Jornalismo Literário, o editor executivo do TextoVivo,
Sergio Vilas Boas, escreveu seis dos dez textos da coletânea.
(Patrícia Braga)
“O
Nome da Morte”
de Klester Cavalcanti
Planeta do Brasil, 245 págs., 2006
É
possível humanizar um matador de aluguel com quase 500 mortes
no currículo sem condenar ou inocentar? Acho que Klester
Cavalcante se equilibrou nos pilares do Jornalismo Literário
para despir-se de preconceitos e contar a história de um
assassino profissional.
Foram sete anos de conversas por telefone, ao longo dos quais Klester
ganhou a confiança do personagem até poder conhecê-lo
pessoalmente: encontrou um homem calmo, bem-humorado dedicado à
família.
A trajetória
do pistoleiro é narrada com correção e por
pouco nos afeiçoamos pelo protagonista. Sua primeira transa,
seus dissabores e a não menos romântica participação
na prisão de José Genuíno, do PT, na guerrilha
do Araguaia. Supõe-se que o silêncio dos coadjuvantes
deriva do pacto entre repórter e personagem.
A história
real do matador de aluguel Júlio Santana denuncia o Brasil
submerso que fazemos questão de ignorar – um país
onde uma vida vale uns quilos de arroz e umas garrafas de Coca-Cola.
Este
livro é um bom exemplo de como o Jornalismo Literário
pode percorrer caminhos difíceis e pouco explorados e ainda
trazer à tona reflexões que a sociedade prefere asfixiar.
(Angélica
Vieira)
“Minhas
Viagens com Heródoto”,
de Ryszard Kapuscinski
Companhia das Letras, 305 págs., 2006
Em
tempos de jornalismo de cadeira – aquele que faz do glúteo
dos repórteres algo tão importante quanto os seus
calcanhares – almejar tornar-se correspondente internacional,
ainda como foca, pode parecer petulância de adolescente. Mas
é justamente este “ato místico e transcendental
de atravessar a fronteira” que move o então jovem jornalista
polonês Ryszard Kapuscinski a deixar o seu país de
origem em busca de aventuras externas.
Mas
o autor não se limita em apresentar um relatório factual
de suas viagens - é na interiorização de cada
experiência que se encontra o ponto forte deste livro. Acuado
pelo choque cultural que o assola em países como Índia,
China e Congo, Kapuscinski mergulha na companhia solitária
de um clássico: o livro “História”, de
Heródoto.
Angustiado
pela inércia de sua missão, o jornalista se prende
em profundas reflexões, ora sobre o que presenciava, ora
sobre a vida e a obra daquele que considera o precursor da reportagem.
As imensas digressões que faz através de “História”,
embora possam soar como didatismo desnecessário, serve justamente
para reforçar a personalidade profundamente autocrítica
do autor, como quando nos diz: “Jamais serei um visionário
como Heródoto”.
De
fato, “Minhas Viagens com Heródoto” não
deve ser avaliado como uma pretensiosa busca de Kapuscinski em “se
provar visionário”. Sem qualquer nostalgia, a visão
do autor é sempre uma volta ao passado – de como se
faz(ia) um bom jornalismo.
As
viagens de Kapuscinski a países do Oriente são, de
fato, um ato transcendental. Não só pelo fato de serem
transportadas para este belo “road book”. O perene em
sua narrativa está na observação de quem transcende
a si mesmo a partir de uma vasta experiência de vida. (Henrique
Nunes)
“O
Imperador”,
de Ryszard Kapuscinski
Companhia das Letras, 200 págs., 2005
“O
Imperador”, do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski,
é uma pérola do Jornalismo Literário. Para
relatar a queda do regime de Hailé Selassié, imperador
que comandou com mão de ferro a Etiópia entre 1920
e 1964, ele sai de cena e abre espaço para a voz de seus
entrevistados: ex-funcionários da corte, gente pobre e humilde
que viu de perto o funcionamento da burocracia governamental e cujo
mundo caiu junto com o destronamento de seu amo.
Correspondente
na África da agência estatal polonesa de notícias,
a PAP, Kapuscinski conseguiu costurar com fluência os depoimentos
colhidos a duras penas, em visitas noturnas e ocultas à periferia
de Adis Abeba, a miserável capital etíope. A fala
dos servidores fiéis a Selassié retrata com fidelidade
o pensamento de um povo acostumado, décadas a fio, a uma
vida de servidão.
Os
entrevistados, com medo de retaliações dos novos governantes,
são identificados apenas por suas iniciais, o que rendeu
a Kapuscinski acusações de ele teria forjado os depoimentos.
Bobagem: nenhuma mente seria tão fértil a ponto de
inventar uma história tão rica e complexa. E, como
o próprio Kapuscinski admitia anos depois da publicação,
“O Imperador” não é apenas sobre o desmoronamento
de um império africano, mas uma obra-prima universal sobre
oprimidos e opressores – tanto que os líderes do Partido
Comunista polonês proibiram que ele fosse transformado em
peça.
“Meu
trabalho vai além do jornalismo. É uma missão:
fazer com que as pessoas descubram coisas importantes sobre o mundo
e sobre si mesmas”, contou certa vez. Kapuscisnki morreu no
início de 2007, aos 74 anos, e deixou outras grandes obras,
como “Xá dos Xás”, sobre a queda do xá
do Irã, Reza Pahlevi, e “Imperium”, que relata
o fim da União Soviética, além de “Ébano”
(leia abaixo) balanço de seus quase 40 anos como correspondente
na África.
(Fernando Cesarotti)
“Ébano
– Minha Vida na África”
de Ryszard Kapuscinski
Companhia das Letras, 358 págs., 2005 (1ª reimpressão).
Quem
toparia partir para a África e lá ser correspondente
por 40 anos? Você!? Eu!? Antes de qualquer resposta, podemos
aproveitar a iniciativa de Ryszard Kapuscinski. Este polonês,
jornalista de mão cheia, foi para a África em 1957.
E de lá, por quatro décadas, viu o que ninguém
via. Ousou. Escreveu sobre quem não se escrevia.
Eis
é um legítimo repórter. Desde a primeira ida
ao continente sabia o que queria e o que não queria. Partiu
disposto a cumprir uma abordagem diferenciada do jornalismo, o que,
na prática, se traduzia na procura de situações
“alternativas”. Gostava de pegar carona, saía
à procura dos nômades e de camponeses. Evitava, dizia,
“caminhos oficiais, palácios, pessoas importantes e
a alta política”. Estava focado no humano: “E,
finalmente, a descoberta mais importante – os africanos”.
Ele
ter vivido na África (entre outras atividades) foi um privilégio
para nós, leitores, que temos em mãos uma obra profunda,
verdadeira, em que o autor traz à tona momentos reais e diversos
sobre o mesmo cosmo. Este universo chamado África, tantas
vezes e por tanto tempo relegado, abandonado, explorado, maltratado,
incompreendido.
Para
Ryszard, não. Ele esteve lá. Viveu. Mergulhou, envolveu-se,
observou, captou, sentiu, conversou. Anotou tudo. A partir daí
escreveu relatos sobre várias áfricas, do ponto de
vista dos africanos. Quem são? Como se vestem? O que pensam?
Como agem? Em que acreditam? O que há em seu redor? “Ébano”
é um mosaico sobre este continente tão plural quanto
anônimo. São histórias, lendas, vivências,
impressões – um universo, enfim, e tudo o que está
sutilmente integrado a ele. (Pedro Ulsen)
“Dentro
da Floresta”
de David Remnick
Companhia das Letras, 575 págs., 2006.
A revista
semanal “The New Yorker” – que, dizem, inventou
o gênero perfil –, continua publicando jornalismo aprofundado
e humanizado como nos bons tempos. Um dos grandes jornalistas da
nova geração é David Remnick, que honra os
grandes mestres dos anos 1960 e 1970, como Gay Talese e Truman Capote.
Nesta
coletânea, Remnick constrói o perfil de personagens
célebres e poderosos e realiza algumas reportagens interessantes.
O olhar fotográfico do autor pode ser visto nos vinte e três
textos. Escreve a fundo, com detalhes, sabedoria, vivência
e pesquisa sobre poder, literatura, boxe, Rússia e Oriente
Médio. Vai à sede do governo britânico, academias,
desertos; janta ao lado de Putin, encontra-se várias vezes
com o escritor russo Soljenitsyn.
O perfil
de Tony Blair mostra uma fratura fina na convicção
do poder; Blair fica desconcertado com as perguntas engraçadas
e “inocentes” de dois fedelhos chamados Little Ant e
Little Dic, apresentadores de um programa de TV inglês. Entre
as perguntas mais “cândidas” estão: “Quando
seus filhos são malcriados, o senhor alguma vez diz: ‘Como
ousam falar com o primeiro-ministro desta maneira!?’”.
A atenção
minuciosa e a observação apurada de Remick fica evidente,
por exemplo, no ao mostrar o lado humano de Al Gore, que parecia
relegado ao ostracismo. Reminck revela o homem e os sentimentos
por trás de seus objetos. Tocante a frase “o telefone
que nunca toca”.
Remnick
também viu Kid Dynamite, o Mike Tyson, arrancar um pedaço
da orelha de Evander Holyfield, e nos mostra como o boxeador encarava
a vida naquele momento. Tyson criava tigres e leões em casa
e brigava com eles, dava carros caríssimos de presente no
dia de seu aniversário, batia em mulheres. “Tyson contraiu
os olhos. Suas mãos se agitaram de indignação.
‘Ah, fodam-se todos’, xingou. ‘Não sou
obrigado a chupar o pau de vocês para mostrar que sou um bom
sujeito. Ouçam bem, caras. Sou um homem! Não costumo
implorar ninguém que me adore’.”
Remnick
é editor-chefe da “The New Yorker”, mas continua
repórter, acima de tudo. Um repórter que suja os sapatos
(elegantes) e que possui ótimos pares de olhos e ouvidos.
(Francilene de Oliveira)
"O
Ano do Pensamento Mágico"
de Joan Didion
Nova Fronteira, 221 págs., 2005.
A vida
muda rápido. A vida muda num instante. Você senta para
jantar e a vida que você conhecia acaba de repente. Este ensaio
pessoal fala de perda, existência, luto e de como a autora
teve de continuar a vida depois da morte do marido Jonh, com quem
foi casada quarenta anos. Como atravessar – racionalmente
ou não – momentos em que tudo o que conhecíamos
e amávamos deixa de existir?
Jonh
morreu de repente na mesa de jantar enquanto Joan Didion misturava
a salada. Primeiro parecia uma brincadeira para aliviar a tensão
da preocupação, pois a única filha do casal
estava internada com choque séptico no CTI do hospital Beth
Israel North. Mas não era brincadeira. Jonh morreu naquela
noite.
No
decorrer do livro, Joan Didion repete trechos e acontecimentos porque
ela quer mesmo voltar ao passado. Voltar os acontecimentos é
uma maneira de vivê-los novamente, marcar um ano inteiro lembrando
do ano anterior, quando Jonh estava vivo. Foi o ano mágico
de volta ao passado e às memórias.
A autora
escreve para se libertar da dor, como uma função curativa.
A memória está associada ao passado e às suas
reflexões. Joan pretende resignificar profundamente os acontecimentos
para poder enfrentá-los. Entrega-se ao seu mundo psicológico
e se desnuda diante dos leitores colocando sentimentos, fatos e
pensamentos interiores.
Joan
viveu do passado por um ano. A cada dia lembrava o que estava fazendo
com Jonh no ano anterior, até que os 12 meses se foram e
ela se deu conta de que naquele dia do ano passado Jonh não
vivia mais. Era preciso continuar sua vida sozinha, era preciso
soltar-se do “ano do pensamento mágico”. (Francilene
de Oliveira)
“Augusto & Lea - Um caso de (des)amor em tempos modernos”
de José Carlos Sebe B. Meihy
Editora Contexto, 172 págs., 2006.
Confesso
que li o livro em apenas uma manhã, simplesmente porque não
podia parar. Durante a tarde, à noite e até agora
estou pensando nele e na complexidade dos personagens e da vida.
É uma história recente de uma família da elite
paulistana. Lea foi infectada pelo marido pelo vírus HIV.
Até então, ela nunca havia desconfiado da vida “dupla”
de Augusto, e dedicava-se à casa, aos filhos e a si mesma.
Fiquei
pensando na enormidade de temas e matérias que este caso
denota: questões familiares, sociais, relações
de gênero, papéis profissionais, todos complexos como
o ser humano. Somos forçados a tentar compreender, a nos
colocar no lugar de cada um que faz parte desta história.
Questionei e sofri tentando fazê-lo. Se Augusto sabia que
já estava com o vírus antes de infectar a mulher por
que não evitou a noite fatídica na fazenda, em Minas
Gerais? Por que não contou nada a Lea mesmo vendo-a emagrecer,
tossir e com manchas na pele? De repente, entranhei-me no universo
dos dois. Imagine ser casado com uma pessoa há mais de 25
anos e dizer que é homossexual, que tinha vida dupla, estava
com o vírus HIV e transmitiu-o para a mulher. Uma tortura
psicológica, com certeza.
Neste
livro intenso, o historiador José Carlos Sebe dá voz
a mais seis personagens, além de Augusto e de Lea. Sebe entrevista
os dois filhos, Marcos, que não perdoa o pai; Rafael, que
se tornou o ponto de equilíbrio da família; Leta,
esposa de Rafael e amiga de Lea; Greta, a enfermeira; Martha, amiga
de infância; e Marieta, empregada da casa há mais de
25 anos.
Apesar
de parecer ficção (na forma), a história é
real e contada com “rigor científico”. Apenas
alguns dados como os nomes dos personagens são fictícios
para que não houvesse identificação imediata
da família retratada. Nas últimas páginas,
o historiador fala sobre seu projeto, da idéia inicial, da
metodologia de pesquisa utilizada, das dúvidas sobre a construção
do texto e do uso do caderno de campo.
Não
se trata apenas de Jornalismo Literário, mas também
de História Oral. Porém, os mecanismos de captação
das informações são bem parecidos: pactos com
os entrevistados, imersão, humanização, exatidão,
responsabilidade. Está tudo misturado nesta obra de escrita
deliciosa que nos leva à reflexão sobre a sociedade
e os indivíduos. (Francilene de Oliveira)
“A
Vida Que Ninguém Vê”
de Eliane Brum
Arquipélago Editorial, 205 págs., 2006.
O livro
nasceu das páginas do jornal “Zero Hora”, de
Porto Alegre, resultado
da coluna de mesmo nome que Eliane Brum assinou por quase onze meses
nas edições de sábado. As crônicas-reportagem
da autora, que tratam de pessoas “comuns” e situações
corriqueiras, demonstram o talento de Eliane para perceber o extraordinário
dentro do ordinário, o importante dentro do “aparentemente”
desimportante e discutir questões universais nas trajetórias
de vidas que teimam em não ser esquecidas.
O que
dizer do doce velhinho dos comerciais que também é
vítima do Holocausto? Do menino que teve a cabeça
a prêmio por lutar por seu sonho, a paixão pelos cavalos?
Da senhora que mora na Câmara de Vereadores e que acabou se
apaixonando por um deles? E de Adail, o carregador de malas de aeroporto
que nunca voou?
Eliane
tem o olhar de uma repórter sem travas, que gira o pescoço
para os mais variados lados e até o abaixa, para compartilhar
com todos a história de Sapo, o mendigo da Rua da Praia.
É uma profissional da estirpe dos que endossam com naturalidade
o movimetno atual, dentro do jornalismo, pelo retorno da “arte
de sujar os sapatos”, pois o repórter precisa encontrar
seus personagens na vida real, constatar seus gestos, capturar seus
silêncios, romper com a camada de papel celofane que se forma
diante de nossos olhos depois de tantas rotinas e decepções.
A autora
nos oferece, graciosamente, lentes de aumento que nos fazem ver
de fato o que seus personagens são: heróis do cotidiano.
Os leitores gostavam muito da coluna. Enquanto existiu, reagiam
entusiasmados, enviando cartas e e-mails, contando suas histórias,
descobrindo o quão especial é a vida. Escritos com
estilo bem pessoal, publicados num jornal diário importante
– o que já é uma vitória – os textos
também desempenham um bonito papel transformador. Fazem-nos
refletir sobre a sociedade em que vivemos e sobre nosso papel de
cidadãos num mundo que pode ser muito, muito melhor.
(Francilene de Oliveira)
“Na
pior em Paris e Londres”
de George Orwell
Companhia das Letras, 255p., 2006.
Quando
Eric Arthur Blair escreveu este livro, ele ainda não era
George Orwell e, claro, não havia escrito os clássicos
“1984” e “A Revolução dos Bichos”.
Em uma arriscada aventura, o autor decidiu que viveria como um jovem
miserável pelas cidades de Paris e Londres, usando roupas
de segunda mão e procurando empregos direcionados para pessoas
naquela condição social. Às vezes teve de comer
pouco (quando era possível) e destinava o dinheiro que sobrava
para pagar aluguel de seu cubículo (“infestado de percevejos”)
ou de repulsivos albergues. Descobriu tanto o que é fome
e vergonha assim como o tédio de ser pobre. Para recompensar
os dias que passava apenas com um pão, o jovem escritor teve
de enfrentar condições extremas de trabalho como lavador
de pratos (plongeur) num hotel parisiense ou mendigar por
refeições na capital londrina. O resultado desses
dias de dureza é um texto de memória e não
uma reportagem em si. Mas Orwell imergiu naquele meio e narrou suas
experiências mesclando cenas, diálogos e reproduzindo
histórias de personagens que encontrou. Esses elementos servem
de inspiração direta para textos de Jornalismo Literário.
(Fred Linardi)
“Um
Adivinho me Disse: Viagens pelo Misticismo do Oriente”
Tiziano Terzani
Editora Globo, 448págs., 2005.
Um
exemplo de como a literatura de viagem tem o poder de levar o leitor
por terras e becos que tenderiam ao esquecimento. Terzani passou
o ano de 1993 viajando pelo Oriente, onde trabalhava como correspondente
internacional, e traçando seu roteiro apenas via solo. Fugiu
de aeroportos, aviões e acabou se dirigindo a lugares onde
escavou histórias de personagens locais. Viu-se diante de
diferentes experiências. A premissa é um prato cheio
para um belo registro que exemplifica um estilo de narrativa requintada,
repleta de observações diretas e comparações
de regiões como Malásia, Tailândia, Camboja
e Cingapura. O destaque da narrativa surge quando o jornalista se
coloca como protagonista de suas observações, adotando
uma visão crítica sobre as culturas orientais e a
transformação das atitudes e atividades de povos milenares.
A narrativa se mescla a trechos ensaísticos e um humor apurado.
Terzani detém-se em certos temas, oferecendo reflexões
ao modo do Jornalismo
Literário Avançado: lança questões
sobre a direção que nós, humanos, escolhemos
seguir e como isto nos distanciou de nossa própria natureza.
Por meio de contatos diretos com pessoas e lugares, Tiziano conseguiu
resgatar elementos que tendem a se perder gradativamente num mundo
entregue à “modernização” ocidental.
(Fred Linardi)
“Casa
de Taipa: O Bairro Paulistano da Mooca em Livro-Reportagem”
Dimas A. Künsch (coord.)
Salesiana, 253 págs., 2006.
Os
salesianos de Dom Bosco resolveram comemorar seus 70 anos de atividades
na Mooca com a produção desta coletânea que
constrói a história de um pedaço do mapa paulistano,
com seu conflitos humanos, sociais e políticos. A “Moo
oca” (“Faz Casa”), um bairro de 450 anos, é
formado por grande contingente de imigrantes: húngaros, lituanos,
espanhóis e, em sua maioria, italianos. É um lugar
de contrastes. O lugar de Seu Pepe, o pipoqueiro que ainda hoje
guarda no quintal o carrinho vermelho de pipoca que empurrou por
mais de quarenta anos; dos operários do Cotonifício
Crespi, que fizeram a Primeira Greve Geral de 1917; dos que conviveram
com os alagamentos do rio Tamanduateí; dos que viram a chegada
dos trilhos; de Dona Teresa, que colocava o coxão duro na
panela junto com ervas colhidas no seu canteiro para fazer o molho
de espaguete.
A Mooca rica e pobre, Alta e Baixa, da especulação
imobiliária e dos cortiços, de arquitetura “um
tanto” feia, mas histórica. Um bairro de tradição
católica, mas que vê aumentar a presença de
diferentes igrejas, religiões e filosofias; da festa de San
Gennaro com suas fitinhas, comidas e confraternização.
Ah, para não deixar tristes os torcedores, tem a Mooca do
Juventus, que às vezes é o segundo time do coração
de muitos paulistas, mas que, para Serjão, não tem
essa de segundo time, não. Para ele, é Deus no céu
e Juventus na terra.
Os autores (Bernardete Toneto, Christian Borges, Denise Casatti,
Jaqueline Lemos, Magalhães Jr., Mônica Martinez e Renata
Carraro) compuseram um mosaico do bairro com recursos do Jornalismo
Literário. De maneiras diferentes, cada autor tenta temperar
bem o seu prato. No fazer de “Casa de Taipa” houve três
transformações: dos jornalistas, do bairro e dos personagens.
O que faltou? Faltou um registro fotográfico mais rico.
(Francilene de Oliveira)
“Berlim”
Joseph Roth
Companhia das Letras, 208 págs.
Em
andanças, Roth traça as imagens da cidade que protagonizou
anos decisivos da história do século 20: Berlim. Sempre
ligado, aceso, pronto para enxergar o que os colegas não
haviam reparado, vê na subjetividade a arte da vida. Considerado
um precursores do Jornalismo Literário, Roth era pouco conhecido
no Brasil. Em suas coberturas, ao contrário de outros jornalistas,
não corria atrás de “furos” nem da “exclusividade”.
Costumava dizer que escrevia para a posteridade. Mas saía
das redações para encarar a vida. Nesta antologia
podemos visualizar, como se estivéssemos “passeando”,
a Berlim nos anos situados entre as duas guerras mundiais: seus
desabrigados, ruas, parques, anônimos, imigrantes, refugiados,
subúrbios, uma análise microscópica que compõe
o mosaico da metrópole alemã. Chamo atenção
para o texto sobre um criminoso solto após 50 anos de prisão,
que dá a medida real da transformação pela
qual a velha capital prussiana passou. Contudo, uma ressalva: Roth
é descritivo e perceptivo, mas raso em suas conversações.
Posfácio de Alberto Dines é esclarecedor sobre o tipo
de texto de Roth no contexto de sua época. (Francilene
de Oliveira)
““Filme”
Lillian Ross
Companhia das Letras, 307 págs., 2005.
Reportagem
escrita com técnicas literárias originalmente publicada
em capítulos na revista “The New Yorker” ao longo
de cinco semanas. Lillian escolhe como personagens principais John
Huston (diretor), Gottfried Reinhardt (produtor) e os executivos
[da Metro-Goldwyn-Mayer] Dore Schary e L.B. Mayer. Huston e Reinhardt
lutam pela produção do filme “A Glória
de um Covarde”, baseado no livro “O Emblema Rubro da
Coragem”, de Stephen Crane, sobre a guerra civil americana.
Desde o começo, enfrentam dificuldades. Os grandes executivos
da indústria cinematográfica querem filmes que dêem
lucro. Para L.B Mayer, “A Glória de um Covarde”
não tinha história nem estrelas. Poderia até
ser artístico, mas arte em filmes não rende dinheiro.
Lillian descreve as mutilações sofridas pelo filme
para poder atender ao “gosto do público”. Durante
quase dois anos, Lillian acompanhou todas as etapas de produção
(do roteiro ao lançamento) para descobrir como Hollywood
realmente funcionava. Sempre com olhos e ouvidos bem atentos, ela
utilizou um método que os documentaristas de cinema viriam
a chamar de “mosca na parede”, ou seja, Lillian apenas
observou e captou atmosferas e temperamentos. Expôs a reportagem
em cenas e, assim, permitiu que a história se contasse por
si mesma (ou quase). (Francilene de Oliveira)
“Resgate
Cultural da Bacia do Rio Itabapoana”
Vários autores
Sebrae/Faop, 252 págs., 2005.
Este
é o título de um projeto realizado em 2004 que resultou
em livro lançado neste 2005. Reúne 24 narrativas (acompanhadas
de belos ensaios fotográficos) sobre 11 manifestações
culturais e 13 ofícios tradicionais em risco de desaparecimento
nos estados de Minas, Rio e Espírito Santo. Sergio Vilas
Boas, editor do TextoVivo, é co-autor da
obra, com nove textos (sobre moinhos, fumo-de-rolo, rapadura, folia
de reis, balaios de bambu e outros) elaborados com recursos do Jornalismo
Literário. A bacia do Itabapoana abrange parte do leste
de Minas Gerais, o sul do Espírito Santo e o norte do estado
do Rio de Janeiro. O rio nasce dentro do Parque Nacional do Caparaó
(MG), que abriga o Pico da Bandeira, terceiro mais alto do Brasil.
Na medida em que toma a direção sudeste, o Itabapoana
divide o Rio de Janeiro do Espírito Santo até desaguar
no Atlântico. Contatos para aquisição: Sebrae-ES
– (27) 3331-5500 ou 0800-399192. (SVB)
“Radical
Chique e o Novo Jornalismo”
de Tom
Wolfe
coleção Jornalismo Literário
Companhia das Letras, 245 págs., 2005
Tom
Wolfe projetou-se profissionalmente no início dos anos
1960 ao produzir um novo estilo de reportagem chamado por alguns
de New
Journalism, em que os textos jornalísticos ganham tratamento
literário. Contrariando a tradição jornalística,
Wolfe adaptava técnicas literárias aos fatos,
dando-lhes visão mais humanitária. Ele se tornou um
dos responsáveis pela consolidação dessa vertente
jornalística, que já recebeu o nome de Jornalismo
Literário e hoje é identificada também como
narrativas de não-ficção, que o TextoVivo
adaptou para Narrativas da Vida Real.
Apesar
de ser internacionalmente conhecido pela proeza de se contrapor
ao jornalismo convencional da pirâmide invertida, sua principal
obra teórica, originalmente publicada em 1973 (“The
New Journalism”, pela editora Harper and Row, de Nova York),
somente neste ano ganhou sua versão em português: “Radical
Chique e o Novo Jornalismo” integra a coleção
Jornalismo Literário da Companhia das Letras.
“Radical
Chique” resulta da junção (confusa) de partes
de três livros de Tom
Wolfe: “The New Journalism”, “The Kandy-Colored
Tangerine-Flake Streamline Baby – Heroes and celebrities”
e “Radical Chic & Mau-Mauing the Flak Catchers”.
É essa mescla de teorias, relatos e trechos de narrativas
de não-ficção que tornam esse livro indispensável
para os jornalistas que pretendem sair da mesmice dos relatos “objetivos,
concisos e imparciais”, tão comuns na imprensa brasileira.
Mas
fica um alerta:
Wolfe não é apenas genial na construção
de suas reportagens com “cara de romance”; ele é
sarcástico, polêmico e controverso em suas visões
do jornalismo e da imprensa. Portanto, se você procura um
guia de receitas prontas, como no jornalismo convencional, vai se
assustar. O choque, acredite, pode levá-lo a mudar suas concepções
profissionais. Mas não deixe de ler! (CF)
“O
Grande Bazar Ferroviário – De Trem pela Ásia”
de Paul Theroux
Objetiva, 453 págs., 2004.
“Livros de viagens são inúteis”,
afirma um dos milhares de sujeitos que o escritor Paul Theroux encontrou
em seu périplo nos trens Expresso do Oriente e Transiberiano.
“Por que inúteis?”, perguntou. “Porque
todo mundo viaja”, respondeu o passageiro (tão norte-americano
quanto Theroux). “Todo mundo trepa, mas isso não anula
o assunto sexo...”, respondeu-lhe o autor.
Publicada primeiramente em 1975 (mas só agora
em português), esta saborosa e elegante narrativa segue a
tradição dos relatos de viagem consolidada no século
XIX por autores como C.Dickens, R.L.Stevenson e Mark Twain. Paul
Theroux dá um show de descrições de rostos,
comportamentos e paisagens, partindo de Londres e passando pela
Itália, Iugoslávia, Bulgária, Turquia, Irã,
Afeganistão, Paquistão, Índia, Birmânia,
Tailândia, Malásia, Cingapura, Camboja, Vietnã,
Japão e União Soviética.
“Eu procurava trens; encontrei passageiros.”
Aficionado por trens, Theroux vê neles uma vantagem sobre
o avião (que, em viagens, “se assemelha a um submarino”):
você pode assistir ao mundo como se estivesse diante da projeção
de um documentário, “sem o incômodo da trilha
sonora”.
Sinta
a divertida ironia de Theroux, pontuada por embarques, desembarques,
atrasos e contradições colecionadas ao longo de mais
de 50 mil quilômetros percorridos. Repare também no
sutil “ocidentocentrismo” do autor. A Ásia que
ele narra não existe mais. Muita coisa mudou nos últimos
30 anos. Mas o livro ainda vale ouro. (SVB)
"O
Povo do Abismo – Fome e Miséria no Coração
do Império Britânico: Uma Reportagem do Início
do Século XX"
de Jack London
Editora Fundação Perseu Abramo, 334 págs.,
2004.
O americano
Jack London (1876-1916) é mais conhecido (e reconhecido)
como autor de ficção. Sua obra é vasta. Seus
livros são freqüentemente incluídos em coleções
destinadas à formação de novos leitores. London
construiu boa parte de suas narrativas baseado em suas próprias
viagens pelo mundo. Mas antes de se tornar militante socialista
e best-seller, ralou um bocado: foi entregador de jornais, pescador
de lagosta, marujo de marinha mercante e operário fabril,
entre várias outras atividades que desempenhou para ajudar
a família.
Prolífico,
publicou nada menos que 51 livros. “O Povo do Abismo”
(1903) é sua mais importante narrativa de não-ficção,
uma das obras fundadoras do que mais de meio século depois
seria batizado de Jornalismo Literário.
Em 1902, fazendo-se passar por um marinheiro americano desempregado,
Jack comprou roupas usadas e alugou um quarto no East End londrino,
onde moravam, na época, cerca de 450 mil miseráveis
de toda (má) sorte. Um submundo semelhante ao que nós,
brasileiros, podemos ver bem de perto ainda neste 2004, 102 anos
depois de realizada a reportagem de Jack.
O convívio durante 86 dias com os excluídos
da Revolução Industrial foi decisivo no resultado
desta matéria estarrecedora. “Queria ser convencido
pela evidência dos meus olhos, e não pelos ensinamentos
de quem não havia visto, ou pelas palavras dos que tinham
visto e ido até lá anteriormente. Também levei
comigo alguns critérios simples para avaliar a vida no submundo:
o que resultava em mais vida, saúde física e espiritual,
era bom; o que significava menos vida, o que feria, apequenava e
deformava a vida, era ruim”, escreveu no prefácio.
“O Povo do Abismo” pode ser lido, hoje, sob perspectivas
diversas. Eterno, porém, é o seu realismo pungente.
(SVB)
"Hell's
Angels - Medo e Delírio Sobre Duas Rodas"
de Hunter S. Thompson
Conrad, 276 págs., 2004.
Temos
aqui um embrião do Jornalismo
Gonzo, ou talvez seja mais divertido dizer "New
Journalism na veia", literalmente: com seringas, agulhas,
álcool e muita, muita gasolina. Hunter S. Thompson, lendário
repórter da revista "Rolling Stone", se tornaria
um ícone da contracultura com este livro-reportagem. Para
realizá-lo, passou 18 meses com os motoqueiros marginais.
Foi testemunha e, de certa forma, cúmplice, das atividades
ilícitas da gangue.
Publicado
primeiramente em 1966 (uma reportagem de Thompson sobre o tema havia
saído em "The Nation" no ano anterior), "Hell's
Angels" não é apenas um exemplo de imersão
no bom e no mal sentido. Trata-se de um "livro-reportagem-proposta":
em primeiro plano, Thompson se propôs a demonstrar como o
sensacionalismo da imprensa ajudara a forjar a auto-imagem dos vândalos.
Sua outra "proposta" era, evidentemente, anarquizar o
New Journalism. Realizou ambas. (SVB)
"Adoniran,
Uma Biografia"
de Celso de Campos Jr.
Editora Globo, 606 págs., 2004.
Esta
biografia é resultado de três anos de pesquisa do jornalista
Celso de Campos Jr. para contar a vida do compositor valinhense
que retratou São Paulo de forma inigualável em clássicos
como "Saudosa maloca", "Trem das onze" e "Samba
do Arnesto". É exatamente graças a estes três
sambas de asfalto (o samba carioca é de morro) que a maioria
das pessoas se lembra de Adoniran, também imortalizado pelos
Demônios da Garoa e pela voz irrepreensível de Elis
Regina. Campos Jr. investigou documentos, partituras, recortes de
jornais e revistas; vasculhou o acervo do quase esquecido Museu
Adoniran Barbosa, no centro de São Paulo (quando esteve lá
pela primeira vez a recepcionista o informou que era a primeira
pessoa a entrar ali em dois anos) - santa memória cultural
- e entrevistou mais de 80 pessoas entre parentes, amigos, parceiros
e conhecidos, músicos, maestros, artistas, gente simples
das ruas e dos bares.
A investigação
permitiu ao autor trazer o artista por inteiro: ator de rádio,
cinema e televisão, e não apenas o velhinho simpático
de chapéu, paletó e gravata borboleta, ritmando sua
música na caixinha de fósforo, imagem que vem à
mente sempre que se pronuncia o nome Adoniran Barbosa ou se cantarola
uma de suas músicas. Há, sim, essa personificação,
pois, conforme descobriu Campos Jr., Adoniran se considerava um
palhaço, na acepção do termo: alegre por fora
e triste por dentro. Uma narrativa fluente e elegante. (CF)
"Fama
e Anonimato", de Gay Talese
coleção Jornalismo Literário
Companhia das Letras, 535 págs., 2004.
Fim
das peregrinações pelos sebos do país. Está
nas livrarias a coletânea de Jornalismo Literário mais
esperada dos últimos anos. Em vez de "Aos Olhos da Multidão",
aquela feia edição de capa alaranjada de 1973, tem-se
agora nova tradução, título acertado, dois
textos inéditos e um posfácio de Humberto Werneck
que honra tanto o volume em questão quanto o próprio
Jornalismo Literário. (Outro posfácio digno de nota
nesta coleção é o de João Moreira Salles
para "O Segredo de Joe Gould".)
Pois as reportagens e perfis de "Fama e Anonimato" foram
publicadas originalmente em periódicos (americanos). Talese
está esplêndido aqui. Talvez mais livre e solto do
que em suas densas obras monotemáticas "A Mulher do
Próximo" e "O Reino e o Poder", por exemplo.
Com um olhar astuto e uma escrita refinadíssima, ele desvenda
a Nova York que ninguém vê, convive com os operários
da construção de uma ponte e perfila sujeitos difíceis
como o superstar Frank Sinatra e o enigmático redator de
obituários do "The New York Times" Alden Whitman,
o "Sr. Má Notícia".
Peças
seletas de Literatura da Realidade, expressão que o próprio
Talese prefere usar, essas matérias são um exercício
inconfundível de percepção, criatividade e
estilo. Como diz Werneck, Talese domina como poucos a "arte
de sujar os sapatos", ou seja, fazer jornalismo de cara com
a rua e com os pés no chão - andando, procurando,
encontrando. "Eu procuro seguir os objetos de minha reportagem
de forma discreta, observando-os em situações reveladoras,
atentando para suas reações e para as reações
dos outros diante deles. Tento apresentar a cena em sua inteireza,
o diálogo e o clima, a tensão, o drama, o conflito,
e então em geral a escrevo do ponto de vista da pessoa retratada,
às vezes revelando o que esses indivíduos pensam durante
os momentos que descrevo. Esse tipo de insight depende, naturalmente,
da cooperação total da pessoa sobre a qual se escreve,
mas se o escritor goza de sua confiança, é possível,
por meio de entrevistas, fazendo as perguntas certas nas horas certas,
aprender a reportar o que se passa na mente de outras pessoas",
escreve Gay Talese na abertura. Atenção, pessoal,
para os textos em que Talese fala um pouco sobre seu "método"
de trabalho. (SVB)
"Brasil
Fora de Si - Experiências de Brasileiros em Nova York"
de José Carlos Sebe Bom Meihy
Parábola Editorial, 383 págs., 2003
O pesquisador
José Carlos Sebe Bom Meihi atingiu a difícil meta
de perscrutar a vida real sem submetê-la a camisas-de-força
teóricas. Com atenção incomum, ouviu pacientemente
os brasileiros que vivem em Nova York. Entrelaçou as centenas
de falas e tocou o sistema nervoso central do fenômeno abordado:
afinal, por que tantos brasileiros trocaram - e tantos continuam
trocando - de solo? Quais as decorrências disso? Notem que
o Brasil e os brasileiros estão fora de si por dentro e por
fora, visceralmente. As distorções psicoculturais
podem ser "em si maiores" ou "em si menores",
mas sempre conflituosas, contraditórias; às vezes
trágicas e inspiradoras; noutras, burlescas. Os brasucas
se metem em um complicado enredo. Escapam-lhes as nuances entre
o real e o imaginário, o vivido e o lembrado, o embarque
e o desembarque, o desenvolvido e o sub, a brasilidade e a brasileirice.
Revelam-nos, assim, o gume de um problema social tão despercebido
pela academia quanto fantasiado pela mídia. Este livro é
uma das mais bem articuladas páginas de História Oral
de Vida em "língua brasileira", apesar do discurso
acadêmico que o subjaz. (SVB)
"Abusado
- o Dono do Morro Dona Marta"
de Caco Barcellos
Record, 557 págs., 2003
Como
autor, Caco deu um salto qualitativo impressionante. Sua obra anterior,
"Rota 66", é uma investigação jornalística
minuciosa que surpreende mais pelas inúmeras denúncias
revoltantes que traz à tona do que pelo modo como essas denúncias
são narradas. Já não é pouco. Mas "Abusado"
encanta porque nele vemos a Literatura da Realidade elevada ao cubo.
Um trabalho monumental. Embora ancorado na trajetória criminosa
de Marcinho VP, traficante assassinado em julho de 2003 (dois meses
depois do lançamento de "Abusado"), Caco não
restringe seu foco. Com a lanterna acesa em um túnel de trevas,
ele ilumina magnificamente tanto o alvo quanto os arredores, e reconstitui
em detalhes a ascensão e a queda de jovens traficantes cariocas
dos anos 1990, geração não contemplada nem
no romance nem no filme "Cidade de Deus". Então,
sinta o impacto dos diálogos. Caco respeita a linguagem dos
falantes. Observe como as localizações são
exatas e contextualizadas. Perceba como o numeroso tête-à-tête
(foram entrevistadas centenas de pessoas) fica ainda mais enriquecido
com a sólida pesquisa de fundo. E pense se faltou tentar
responder melhor à seguinte pergunta: "por que o tráfico
existe e é como é?". Caco insinua repetidamente
uma hipótese talvez simplista: mais empregos e salários
mais altos desestimulariam a entrada de adolescentes no mundo do
crime. Algo mais? Merecidamente, "Abusado" recebeu no
dia 27 de outubro de 2003 o Vladimir Herzog de Anistia e Direitos
Humanos em livro-reportagem (categoria criada exatamente nesta 25ª
edição do prêmio). (SVB)
"Cela
Forte Mulher"
de Antonio Carlos Prado
Labortexto, 216 págs., 2003
Antonio
Carlos Prado não tinha a intenção declarada
de escrever sobre o tema no qual imergiu durante sete anos voluntariamente.
Seu objetivo original era montar e dirigir um jornal dentro do sistema
carcerário feminino de São Paulo. O jornal foi implantado,
chegou a ter relativo sucesso mas não foi adiante. Enquanto
isso, suas experiências com os problemas, afetos, mentalidades,
frustrações e sonhos das presidiárias adquiriam
uma dimensão extra. Com um tesouro de confissões íntimas
nas mãos, resolveu torná-lo público. As mulheres
são co-participantes e co-autoras das pequenas histórias
que compõem esta coletânea. Algumas puderam escolher
até os pseudônimos com os quais protegem suas identidades.
O tratamento dado ao tema é primoroso, exemplo de respeito
e delicadeza. Perceba o lirismo conferido às mirabolâncias
e às rotinas das detentas. Elas parecem mesmo "imantadas".
Magnetizam e irradiam o viver umas das outras. O mérito é
também do narrador que lhes oferece o ombro e compreende.
Mas todas elas, sem exceção, dialogam numa gramática
tão impecável quanto improvável. Você
acha que Antonio Carlos acertou ao desconsiderar a maneira de falar
de suas personagens? "Cela Forte Mulher" recebeu no dia
27 de outubro de 2003 menção honrosa na categoria
livro-reportagem (categoria criada exatamente nesta 25ª edição)
do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. (SVB)
"Hiroshima",
de John Hersey
vol. 1 da coleção Jornalismo Literário
Companhia das Letras, 172 págs., 2002
Reportagem
clássica sobre a bomba atômica que destruiu a cidade
de Hiroshima e matou cerca de 100 mil pessoas em 1945. Hersey acompanha
seis sobreviventes em duas épocas distintas: um ano depois
da tragédia e 40 anos depois. Repare nas reconstituições
minuciosas de situações, pensamentos e sentimentos
dos personagens, cada qual lidando de maneira diferente com o inferno
que os rodeava; observe como a narrativa transcorre num ritmo de
tristeza, agonia e espanto. Comedido, Hersey consola o desatino
das lembranças dos "hibakushas" (nome dado às
pessoas atingidas pelos efeitos da bomba). O vigor desta reportagem
ajudou várias gerações a refletirem sobre as
conseqüências catastróficas das armas nucleares.
(SVB)
"O
Segredo de Joe Gould", de Joseph Mitchell
vol. 2 da coleção Jornalismo Literário
Companhia das Letras, 156 págs., 2003
Esta
obra é um certificado de disciplina, paciência e escuta
atenta. Senhor dos temas prosaicos, tanto quanto Gay Talese, Mitchell
jamais fez pouco caso dos relatos orais e nunca aceitou que seus
personagens fossem chamados de "pequenos". Ao contrário,
dedicava-lhes zelo e proteção tocantes. Eterno repórter
da lendária revista "The New Yorker", o autor aqui
segue os passos do culto, excêntrico e pirado Joe Gould, conhecido
no Village, em Nova York, como "Professor Gaivota". Perceba,
além da intrigante história de vida de Gould, como
a prosa de Mitchell é desafetada, talvez o exemplo mais evidente
de que para ser literário o jornalista não precisa
ser pomposo nem bombástico. (SVB)
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