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“Jornalistas Literários:
Narrativas da Vida Real por Novos Autores Brasileiros”,
de Sergio Vilas Boas (org.)
Summus Editorial, 315 págs., 2007

Coleção de 16 narrativas sobre pessoas reais e suas experiências. Todas foram produzidas por alunos de pós-graduação lato sensu (especialização) em Jornalismo Literário da ABJL, turmas de São Paulo, Campinas, Brasília e Porto Alegre, entre o final de 2005 e o início de 2007. Algumas histórias receberam minha orientação direta, outras se ergueram segundo as diretrizes ou do professor Edvaldo Pereira Lima ou do professor Celso Falaschi.

O talento da turma reunida aqui é indiscutível. O modo como trabalharam é nada menos do que JL na veia: intensivo trabalho de campo (em campo), movendo muito as pernas e conversando ativamente, acurado senso de detalhe, pesquisa constante, técnica de expressão depurada e uma mentalidade (uma maneira de ver a natureza e o ser humano) perfeitamente adequada aos desafios de hoje.

Do ponto de vista conceitual, temos aqui narrativas temáticas e biográficas. Explico: temáticas são aquelas em que há vários personagens cujas histórias pessoais ajudam a lançar luzes sobre um tema. As biográficas, em que se incluem os perfis (gênero conhecido da maioria dos leitores de jornais e revistas), são aquelas que enfocam um sujeito – e seus “coadjuvantes”, claro. Basta ler para perceber. Não tem erro.

São histórias encantadoras, honestas, corajosas, sem pieguices nem disfarces. Os autores realmente se atiraram no mundo individual-social que os intrigava, criando empatia conosco de várias maneiras: pela inspirada observação de padrões cotidianos; pela recuperação de memórias aparentemente perdidas; pelo contato com mundos diferentes dos seus; ou pela incursão certeira rumo ao entendimento de coisas que estavam bem debaixo de seu nariz. Tudo isso sem ter de re-re-inventar a roda. Tudo isso apenas resgatando o que o jornalismo mais sabe (ou deveria saber) fazer: reportar em profundidade – e com criatividade.

Notem que, além de métodos, técnicas e autoconhecimento, os autores aqui reunidos têm fome de entendimento. Sabem, sentem que não basta apenas identificar mazelas sociais. Sabem, sentem que é preciso dar voz àqueles que têm soluções viáveis a apresentar ou que já as experimentaram concretamente. O Jornalismo de um país com iniqüidades gritantes como o Brasil não deveria dispensar os ferramentais da reportagem narrativa em profundidade, esta que a ABJL estuda, pratica e ensina. (SVB)

“Cicatriz da Reportagem: 13 histórias que fizeram um repórter”
de Carlos Azevedo
Editora Papagaio, 404 págs., 2007

“Quando faço uma reportagem grande, me apaixono completamente e passo a viver com aqueles personagens. Às vezes, a gente até aluga a existência do outro para viver um pouco a vida dele.” Para checar se essa declaração do jornalista Carlos Azevedo, 67 anos, é procedente, principalmente para aqueles que não conhecem o seu extenso trabalho como repórter das revistas “Realidade”, “Quatro Rodas” e “Caros Amigos”, entre outros veículos, ele mesmo tirou do armário um projeto guardado desde 1997.

Reuniu 13 reportagens que ele diz terem realmente lhe rendido “cicatrizes”.
Sempre colocando em pauta as vozes dos excluídos, Azevedo conseguiu traçar diferentes segmentos de um Brasil extremamente conservador ao longo dos 36 anos de carreira, o período de tempo em que as reportagens foram publicadas.

Carlos foi integrante da primeira equipe de profissionais da lendária “Realidade”, onde produziu textos marcantes, contundentes, bons exemplos de Jornalismo Literário, apesar dos holofotes dos censores militares de então.

Todas as histórias do livro estão amarradas por “making ofs”, situando os leitores sobre as variadas circunstâncias de produção. Um documento histórico, com textos humanizados e criativos, que em nenhum momento esconde ou camufla o seu engajamento político.

“A indústria cultural foi monopolizada e isso acabou bloqueando a presença de talentos mais contestadores. Agora o que vemos é um clima de hegemonia total, onde cada vez mais o texto do repórter se torna impessoal, sem vida”, sentencia o militante comunista, que viveu sua clandestinidade em Campinas (SP). (Gustavo Abdel Massih).

“A Longa Marcha”,
de Sun Shuyun
Arquipélago Editorial, 336 págs., 2007

Os ventos do capitalismo e da flexibilização política que tangem o ressurgimento chinês deste início de século não vêm produzindo apenas a conhecida inundação de bens industriais de baixo preço pelos quatro cantos do mundo. Também a história da grande nação e, em particular, um de seus capítulos mais espetaculares — a retirada do Exército Vermelho, comandada pelo Partido Comunista, em 1935, no episódio conhecido como a Longa Marcha — é revista com equilíbrio, sensibilidade e talento narrativo pela produtora de tevê e documentarista chinesa Sun Shuyun.

Como ela lembra no prefácio do livro, a Longa Marcha é o mito fundador da China comunista — ação grandiosa que conduziu durante dois anos cerca de 200 mil pessoas por mais de dez mil quilômetros, desde suas bases na província de Jiangxi, no sul, até o infértil platô da Terra Amarela, no noroeste do país, acossados pelas tropas mais numerosas e muitíssimo bem financiadas do general nacionalista Chiang Kaishek. Façanha freqüentemente comparada pelos historiadores ao êxodo bíblico dos judeus conduzidos por Moisés desde o Egito.

Passados setenta anos da epopéia, a jovem Sun (nascida em 1963) refez o trajeto da Longa Marcha. Dos 40 mil sobreviventes originais, saiu à procura dos cerca de 500 deles que talvez ainda estivessem vivos em 2004, com idades em torno dos 80 anos ou mais. Sua tarefa: conferir, pelos depoimentos dessas testemunhas, a veracidade de relatos muitas vezes terríveis sobre fome, deserções, execuções em massa e batalhas sangrentas nem sempre presentes nos livros escolares ou na história oficial contada pelo Partido Comunista.

Na China, os livros sobre este tema enchem metros de prateleiras. Mas Sun, usando recursos da narrativa de não-ficção, mergulha fundo no coração de um país cujo interior às vezes desolado pouco mudou desde então. Ela sobe montanhas, percorre aldeias, revisita campos de batalha e dedica dias inteiros às entrevistas com os veteranos dessa guerra — soldados rasos, hierarcas do partido, pessoas simples ou famílias inteiras cujas vidas opacas foram arrastadas pelo turbilhão assustador da construção do socialismo num ancestral país de camponeses. Como revela Sun, são personagens que tocam o âmago da Longa Marcha: “toda a bravura e todo o sacrifício, os revezes e os sofrimentos, as feridas auto-infligidas. A razão pela qual tantos apoiaram a causa comunista também ficou muito clara, assim como a razão para muitos não o terem feito”. (Sebastião Aguiar)

“Os Jornais Podem Desaparecer?
Como Salvar o Jornalismo na Era da Informação”,
de Philip Meyer
Editora Contexto, 268 pags., 2007

“Descubra a verdade e publique-a. O bordão histórico de Jack Knight - o publisher fundador de um dos maiores complexos de comunicação dos Estados Unidos, a Knight-Ridder – talvez devesse ser reformulado para: “descubra a verdade e publique-a... na Internet”.

A estocada é uma das muitas que o veterano jornalista Philip Meyer, um analista rigoroso da perda de influência do jornal diante da concorrência exercida pelas novas mídias, oferece neste seu livro mais recente.

Meyer, que foi colaborador de Jack Knight durante anos e hoje leciona na Universidade da Carolina do Norte, já entra no assunto com a mordacidade que lhe é peculiar, constatando que “se acreditarmos nos analistas de Wall Street, os jornais estão no ramo de expor leitores aos anunciantes”.

Com a autoridade de quem já ganhou o pão freqüentando tanto o pulsante ambiente das redações, produzindo noticiário, quanto os mais silenciosos e bem decorados gabinetes corporativos, nos quais as importantes decisões editoriais são engendradas, ele avalia: “O motivo pelo qual os jornais não são tão bons quanto na era de ouro não é a divisão entre Igreja e Estado. É que a decisão necessária para solucionar o conflito entre lucro e prestação de serviço era responsabilidade de um indivíduo com espírito público, o publisher, que controlava os dois lados da parede e era rico e confiante o bastante para fazer o que lhe aprouvesse”.

Pena que os publishers – que ele chama de “os reis-filósofos da mídia moderna” – tenham saído de cena para dar lugar a executivos cujos empregos dependem dos resultados financeiros que possam exibir aos seus acionistas. A esse respeito, Meyer lembra uma situação que presenciou: “Frank Hawkins era diretor de relações corporativas da Knight Ridder em 1986, ano em que o grupo ganhou sete prêmios Pulitzer. No dia do anúncio dos prêmios, o valor das ações da empresa caiu. Hawkins chamou um dos analistas que acompanhavam a companhia e perguntou o motivo. ‘Porque vocês ganham prêmios Pulitzer demais’, respondeu o analista. ‘O dinheiro gasto nesses projetos deveria ser poupado para entrar no resultado financeiro’”.

Em outro momento da história já um tanto remota da imprensa norte-americana – o da queda do presidente Nixon –, ele defende que o apoio dado por Katherine Graham aos editores e repórteres do “The Washington Post” que revelaram os crimes de Watergate não foi motivado pelo lucro, mas pelo senso de dever cívico. “No entanto”, escreveu, “ter lucro permitiu a ela o luxo de cumprir esse dever, embora fosse modesta quanto a isto”.

Meyer mostra que, até por volta de 1980, os jornais punham seu prestígio editorial e poder de influência à frente dos resultados financeiros imediatos, apesar de já não serem nem sombra do que haviam sido nas primeiras décadas do século, quando praticamente detinham o monopólio da veiculação de publicidade. Em 1946, na aurora da era da televisão, os jornais tinham 34% do mercado publicitário. Na segunda metade do século 20, essa participação havia caído para 20%, mas ainda assim os jornais ganhavam dinheiro porque o mercado publicitário havia crescido.

Mas a TV e, depois, a Internet mudariam drasticamente o cenário. Entre um golpe e outro, as empresas jornalísticas ainda se transformaram em sociedades de capital aberto, geridas por profissionais, não mais por figuras carismáticas, em algum sentido comprometidas com as comunidades que as viram nascer. Por isso, diz Meyer, o executivo de plantão concentra sua atenção mais no desempenho de curto prazo das corporações do que em seu portfolio.

Os estudos citados por Meyer mostram que o declínio mais acentuado da confiança nos jornais aconteceu entre 1991 e 1993. Se continuasse no mesmo ritmo, atingiria o zero, segundo os gráficos, em 2015. E a leitura do jornal diário, na mesma escala, já não existiria em 2043. “Desde que a geração dos baby boomers envelheceu” — ele notou – “sabemos que os jovens lêem menos jornais do que os mais velhos. Durante anos nos consolamos achando que eles se tornariam parecidos conosco e adotariam o hábito de ler jornais quando fossem mais velhos, mas isto nunca aconteceu”.

Então, os jornais têm ou não salvação? “A maneira ideal de garantir o futuro dos jornais”, responde Meyer, “seria conservar sua influência e pagar os custos das experiências radicais, necessárias para aprendermos quais novas formas de mídia serão viáveis”. Readquirir influência social, segundo ele, depende da prática do bom jornalismo, que por sua vez é um pré-requisito para o sucesso financeiro, criando-se assim um círculo virtuoso. (Sebastião Aguiar)

“Leituras da Revista ‘Realidade’ (1966-1968)”,
de Letícia Nunes de Moraes
Alameda, 252 págs., 2007

A revista “Realidade”, inspirada no New Journalism e com reportagens ousadas na forma e no conteúdo, obteve sucesso imediato num Brasil sem grande tradição de leitura; enfrentou temas-tabus, cobriu guerras e abordou dramas sociais até então pouco discutidos por outras publicações e pela própria sociedade brasileira. Impulsionada e influenciada por efervescência política e pela contracultura, “Realidade” sofreu com a repressão da ditadura militar que, na época, se consolidava no Brasil.

Neste livro, a autora (jornalista e historiadora) se debruça sobre o relacionamento da revista com os leitores; sobre como os leitores reagiam às matérias veiculadas - em sua maioria de grande impacto e, não raro, escandalizando certos setores da sociedade. A participação do leitor é analisada por meio de mais de 700 cartas, todas datadas da primeira (e mais importante) fase da revista, que vai de seu surgimento, em abril de 1966, até a instituição do AI-5, em novembro de 1968.

A contribuição deste livro está exatamente nesse “estudo de recepção”. No mais, algumas questões levantadas pela autora já haviam sido melhor detalhadas por outros pesquisadores, como José Salvador Faro em “Realidade, 1966-1968: Tempo da Reportagem na Imprensa Brasileira”. Outro aspecto louvável: não nos esquecermos de que o Jornalismo Literário (do qual o New Journalism é o “clímax”) foi praticado no Brasil de maneira errática ao longo do século 20, diferentemente de outros países; sob esse ponto de vista, “Realidade” é incontroversa, pois honrou a tradição americana de um jornalismo visceral-experimental. (SVB)

“Resgate Cultural Estrada Real”,
de Sergio Vilas Boas e outros
Sebrae/MG, 260 págs., 2007

Este livro reúne dez narrativas (acompanhadas de ensaios fotográficos, cinco deles meus) sobre manifestações culturais e ofícios tradicionais em risco de desaparecimento ao longo do eixo da Estrada Real. A Estrada Real, hoje, é o nome de um projeto turístico que abrange as rotas do ouro e dos diamantes abertas a partir do final do século 18, e que se ligavam Minas Gerais ao mar. Em sentido norte-sul, a “estrada” começa em Diamantina e atinge Ouro Preto, dái bifurcando-se para o Rio de Janeiro ou Parati. O ípsilon (de cabeça para baixo) formado por esse tecido de trilhas lendárias abriga a maior parte do patrimônio histórico e artístico de Minas Gerais e teve tráfego intenso de tropeiros até o final do século 19. Utilizando-se de métodos e técnicas do Jornalismo Literário, o editor executivo do TextoVivo, Sergio Vilas Boas, escreveu seis dos dez textos da coletânea. (Patrícia Braga)

“O Nome da Morte”
de Klester Cavalcanti
Planeta do Brasil, 245 págs., 2006

É possível humanizar um matador de aluguel com quase 500 mortes no currículo sem condenar ou inocentar? Acho que Klester Cavalcante se equilibrou nos pilares do Jornalismo Literário para despir-se de preconceitos e contar a história de um assassino profissional.

Foram sete anos de conversas por telefone, ao longo dos quais Klester ganhou a confiança do personagem até poder conhecê-lo pessoalmente: encontrou um homem calmo, bem-humorado dedicado à família.

A trajetória do pistoleiro é narrada com correção e por pouco nos afeiçoamos pelo protagonista. Sua primeira transa, seus dissabores e a não menos romântica participação na prisão de José Genuíno, do PT, na guerrilha do Araguaia. Supõe-se que o silêncio dos coadjuvantes deriva do pacto entre repórter e personagem.

A história real do matador de aluguel Júlio Santana denuncia o Brasil submerso que fazemos questão de ignorar – um país onde uma vida vale uns quilos de arroz e umas garrafas de Coca-Cola.

Este livro é um bom exemplo de como o Jornalismo Literário pode percorrer caminhos difíceis e pouco explorados e ainda trazer à tona reflexões que a sociedade prefere asfixiar. (Angélica Vieira)

“Minhas Viagens com Heródoto”,
de Ryszard Kapuscinski
Companhia das Letras, 305 págs., 2006

Em tempos de jornalismo de cadeira – aquele que faz do glúteo dos repórteres algo tão importante quanto os seus calcanhares – almejar tornar-se correspondente internacional, ainda como foca, pode parecer petulância de adolescente. Mas é justamente este “ato místico e transcendental de atravessar a fronteira” que move o então jovem jornalista polonês Ryszard Kapuscinski a deixar o seu país de origem em busca de aventuras externas.

Mas o autor não se limita em apresentar um relatório factual de suas viagens - é na interiorização de cada experiência que se encontra o ponto forte deste livro. Acuado pelo choque cultural que o assola em países como Índia, China e Congo, Kapuscinski mergulha na companhia solitária de um clássico: o livro “História”, de Heródoto.

Angustiado pela inércia de sua missão, o jornalista se prende em profundas reflexões, ora sobre o que presenciava, ora sobre a vida e a obra daquele que considera o precursor da reportagem. As imensas digressões que faz através de “História”, embora possam soar como didatismo desnecessário, serve justamente para reforçar a personalidade profundamente autocrítica do autor, como quando nos diz: “Jamais serei um visionário como Heródoto”.

De fato, “Minhas Viagens com Heródoto” não deve ser avaliado como uma pretensiosa busca de Kapuscinski em “se provar visionário”. Sem qualquer nostalgia, a visão do autor é sempre uma volta ao passado – de como se faz(ia) um bom jornalismo.

As viagens de Kapuscinski a países do Oriente são, de fato, um ato transcendental. Não só pelo fato de serem transportadas para este belo “road book”. O perene em sua narrativa está na observação de quem transcende a si mesmo a partir de uma vasta experiência de vida. (Henrique Nunes)

“O Imperador”,
de Ryszard Kapuscinski
Companhia das Letras, 200 págs., 2005

“O Imperador”, do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, é uma pérola do Jornalismo Literário. Para relatar a queda do regime de Hailé Selassié, imperador que comandou com mão de ferro a Etiópia entre 1920 e 1964, ele sai de cena e abre espaço para a voz de seus entrevistados: ex-funcionários da corte, gente pobre e humilde que viu de perto o funcionamento da burocracia governamental e cujo mundo caiu junto com o destronamento de seu amo.

Correspondente na África da agência estatal polonesa de notícias, a PAP, Kapuscinski conseguiu costurar com fluência os depoimentos colhidos a duras penas, em visitas noturnas e ocultas à periferia de Adis Abeba, a miserável capital etíope. A fala dos servidores fiéis a Selassié retrata com fidelidade o pensamento de um povo acostumado, décadas a fio, a uma vida de servidão.

Os entrevistados, com medo de retaliações dos novos governantes, são identificados apenas por suas iniciais, o que rendeu a Kapuscinski acusações de ele teria forjado os depoimentos. Bobagem: nenhuma mente seria tão fértil a ponto de inventar uma história tão rica e complexa. E, como o próprio Kapuscinski admitia anos depois da publicação, “O Imperador” não é apenas sobre o desmoronamento de um império africano, mas uma obra-prima universal sobre oprimidos e opressores – tanto que os líderes do Partido Comunista polonês proibiram que ele fosse transformado em peça.

“Meu trabalho vai além do jornalismo. É uma missão: fazer com que as pessoas descubram coisas importantes sobre o mundo e sobre si mesmas”, contou certa vez. Kapuscisnki morreu no início de 2007, aos 74 anos, e deixou outras grandes obras, como “Xá dos Xás”, sobre a queda do xá do Irã, Reza Pahlevi, e “Imperium”, que relata o fim da União Soviética, além de “Ébano” (leia abaixo) balanço de seus quase 40 anos como correspondente na África. (Fernando Cesarotti)

“Ébano – Minha Vida na África”
de Ryszard Kapuscinski
Companhia das Letras, 358 págs., 2005 (1ª reimpressão).

Quem toparia partir para a África e lá ser correspondente por 40 anos? Você!? Eu!? Antes de qualquer resposta, podemos aproveitar a iniciativa de Ryszard Kapuscinski. Este polonês, jornalista de mão cheia, foi para a África em 1957. E de lá, por quatro décadas, viu o que ninguém via. Ousou. Escreveu sobre quem não se escrevia.

Eis é um legítimo repórter. Desde a primeira ida ao continente sabia o que queria e o que não queria. Partiu disposto a cumprir uma abordagem diferenciada do jornalismo, o que, na prática, se traduzia na procura de situações “alternativas”. Gostava de pegar carona, saía à procura dos nômades e de camponeses. Evitava, dizia, “caminhos oficiais, palácios, pessoas importantes e a alta política”. Estava focado no humano: “E, finalmente, a descoberta mais importante – os africanos”.

Ele ter vivido na África (entre outras atividades) foi um privilégio para nós, leitores, que temos em mãos uma obra profunda, verdadeira, em que o autor traz à tona momentos reais e diversos sobre o mesmo cosmo. Este universo chamado África, tantas vezes e por tanto tempo relegado, abandonado, explorado, maltratado, incompreendido.

Para Ryszard, não. Ele esteve lá. Viveu. Mergulhou, envolveu-se, observou, captou, sentiu, conversou. Anotou tudo. A partir daí escreveu relatos sobre várias áfricas, do ponto de vista dos africanos. Quem são? Como se vestem? O que pensam? Como agem? Em que acreditam? O que há em seu redor? “Ébano” é um mosaico sobre este continente tão plural quanto anônimo. São histórias, lendas, vivências, impressões – um universo, enfim, e tudo o que está sutilmente integrado a ele. (Pedro Ulsen)

“Dentro da Floresta”
de David Remnick
Companhia das Letras, 575 págs., 2006.

A revista semanal “The New Yorker” – que, dizem, inventou o gênero perfil –, continua publicando jornalismo aprofundado e humanizado como nos bons tempos. Um dos grandes jornalistas da nova geração é David Remnick, que honra os grandes mestres dos anos 1960 e 1970, como Gay Talese e Truman Capote.

Nesta coletânea, Remnick constrói o perfil de personagens célebres e poderosos e realiza algumas reportagens interessantes. O olhar fotográfico do autor pode ser visto nos vinte e três textos. Escreve a fundo, com detalhes, sabedoria, vivência e pesquisa sobre poder, literatura, boxe, Rússia e Oriente Médio. Vai à sede do governo britânico, academias, desertos; janta ao lado de Putin, encontra-se várias vezes com o escritor russo Soljenitsyn.

O perfil de Tony Blair mostra uma fratura fina na convicção do poder; Blair fica desconcertado com as perguntas engraçadas e “inocentes” de dois fedelhos chamados Little Ant e Little Dic, apresentadores de um programa de TV inglês. Entre as perguntas mais “cândidas” estão: “Quando seus filhos são malcriados, o senhor alguma vez diz: ‘Como ousam falar com o primeiro-ministro desta maneira!?’”.

A atenção minuciosa e a observação apurada de Remick fica evidente, por exemplo, no ao mostrar o lado humano de Al Gore, que parecia relegado ao ostracismo. Reminck revela o homem e os sentimentos por trás de seus objetos. Tocante a frase “o telefone que nunca toca”.

Remnick também viu Kid Dynamite, o Mike Tyson, arrancar um pedaço da orelha de Evander Holyfield, e nos mostra como o boxeador encarava a vida naquele momento. Tyson criava tigres e leões em casa e brigava com eles, dava carros caríssimos de presente no dia de seu aniversário, batia em mulheres. “Tyson contraiu os olhos. Suas mãos se agitaram de indignação. ‘Ah, fodam-se todos’, xingou. ‘Não sou obrigado a chupar o pau de vocês para mostrar que sou um bom sujeito. Ouçam bem, caras. Sou um homem! Não costumo implorar ninguém que me adore’.”

Remnick é editor-chefe da “The New Yorker”, mas continua repórter, acima de tudo. Um repórter que suja os sapatos (elegantes) e que possui ótimos pares de olhos e ouvidos. (Francilene de Oliveira)

"O Ano do Pensamento Mágico"
de Joan Didion
Nova Fronteira, 221 págs., 2005.

A vida muda rápido. A vida muda num instante. Você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente. Este ensaio pessoal fala de perda, existência, luto e de como a autora teve de continuar a vida depois da morte do marido Jonh, com quem foi casada quarenta anos. Como atravessar – racionalmente ou não – momentos em que tudo o que conhecíamos e amávamos deixa de existir?

Jonh morreu de repente na mesa de jantar enquanto Joan Didion misturava a salada. Primeiro parecia uma brincadeira para aliviar a tensão da preocupação, pois a única filha do casal estava internada com choque séptico no CTI do hospital Beth Israel North. Mas não era brincadeira. Jonh morreu naquela noite.

No decorrer do livro, Joan Didion repete trechos e acontecimentos porque ela quer mesmo voltar ao passado. Voltar os acontecimentos é uma maneira de vivê-los novamente, marcar um ano inteiro lembrando do ano anterior, quando Jonh estava vivo. Foi o ano mágico de volta ao passado e às memórias.

A autora escreve para se libertar da dor, como uma função curativa. A memória está associada ao passado e às suas reflexões. Joan pretende resignificar profundamente os acontecimentos para poder enfrentá-los. Entrega-se ao seu mundo psicológico e se desnuda diante dos leitores colocando sentimentos, fatos e pensamentos interiores.

Joan viveu do passado por um ano. A cada dia lembrava o que estava fazendo com Jonh no ano anterior, até que os 12 meses se foram e ela se deu conta de que naquele dia do ano passado Jonh não vivia mais. Era preciso continuar sua vida sozinha, era preciso soltar-se do “ano do pensamento mágico”. (Francilene de Oliveira)

“Augusto & Lea - Um caso de (des)amor em tempos modernos”
de José Carlos Sebe B. Meihy
Editora Contexto, 172 págs., 2006.

Confesso que li o livro em apenas uma manhã, simplesmente porque não podia parar. Durante a tarde, à noite e até agora estou pensando nele e na complexidade dos personagens e da vida. É uma história recente de uma família da elite paulistana. Lea foi infectada pelo marido pelo vírus HIV. Até então, ela nunca havia desconfiado da vida “dupla” de Augusto, e dedicava-se à casa, aos filhos e a si mesma.

Fiquei pensando na enormidade de temas e matérias que este caso denota: questões familiares, sociais, relações de gênero, papéis profissionais, todos complexos como o ser humano. Somos forçados a tentar compreender, a nos colocar no lugar de cada um que faz parte desta história. Questionei e sofri tentando fazê-lo. Se Augusto sabia que já estava com o vírus antes de infectar a mulher por que não evitou a noite fatídica na fazenda, em Minas Gerais? Por que não contou nada a Lea mesmo vendo-a emagrecer, tossir e com manchas na pele? De repente, entranhei-me no universo dos dois. Imagine ser casado com uma pessoa há mais de 25 anos e dizer que é homossexual, que tinha vida dupla, estava com o vírus HIV e transmitiu-o para a mulher. Uma tortura psicológica, com certeza.

Neste livro intenso, o historiador José Carlos Sebe dá voz a mais seis personagens, além de Augusto e de Lea. Sebe entrevista os dois filhos, Marcos, que não perdoa o pai; Rafael, que se tornou o ponto de equilíbrio da família; Leta, esposa de Rafael e amiga de Lea; Greta, a enfermeira; Martha, amiga de infância; e Marieta, empregada da casa há mais de 25 anos.

Apesar de parecer ficção (na forma), a história é real e contada com “rigor científico”. Apenas alguns dados como os nomes dos personagens são fictícios para que não houvesse identificação imediata da família retratada. Nas últimas páginas, o historiador fala sobre seu projeto, da idéia inicial, da metodologia de pesquisa utilizada, das dúvidas sobre a construção do texto e do uso do caderno de campo.

Não se trata apenas de Jornalismo Literário, mas também de História Oral. Porém, os mecanismos de captação das informações são bem parecidos: pactos com os entrevistados, imersão, humanização, exatidão, responsabilidade. Está tudo misturado nesta obra de escrita deliciosa que nos leva à reflexão sobre a sociedade e os indivíduos. (Francilene de Oliveira)

“A Vida Que Ninguém Vê”
de Eliane Brum
Arquipélago Editorial, 205 págs., 2006.

O livro nasceu das páginas do jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre, resultado
da coluna de mesmo nome que Eliane Brum assinou por quase onze meses nas edições de sábado. As crônicas-reportagem da autora, que tratam de pessoas “comuns” e situações corriqueiras, demonstram o talento de Eliane para perceber o extraordinário dentro do ordinário, o importante dentro do “aparentemente” desimportante e discutir questões universais nas trajetórias de vidas que teimam em não ser esquecidas.

O que dizer do doce velhinho dos comerciais que também é vítima do Holocausto? Do menino que teve a cabeça a prêmio por lutar por seu sonho, a paixão pelos cavalos? Da senhora que mora na Câmara de Vereadores e que acabou se apaixonando por um deles? E de Adail, o carregador de malas de aeroporto que nunca voou?

Eliane tem o olhar de uma repórter sem travas, que gira o pescoço para os mais variados lados e até o abaixa, para compartilhar com todos a história de Sapo, o mendigo da Rua da Praia. É uma profissional da estirpe dos que endossam com naturalidade o movimetno atual, dentro do jornalismo, pelo retorno da “arte de sujar os sapatos”, pois o repórter precisa encontrar seus personagens na vida real, constatar seus gestos, capturar seus silêncios, romper com a camada de papel celofane que se forma diante de nossos olhos depois de tantas rotinas e decepções.

A autora nos oferece, graciosamente, lentes de aumento que nos fazem ver de fato o que seus personagens são: heróis do cotidiano. Os leitores gostavam muito da coluna. Enquanto existiu, reagiam entusiasmados, enviando cartas e e-mails, contando suas histórias, descobrindo o quão especial é a vida. Escritos com estilo bem pessoal, publicados num jornal diário importante – o que já é uma vitória – os textos também desempenham um bonito papel transformador. Fazem-nos refletir sobre a sociedade em que vivemos e sobre nosso papel de cidadãos num mundo que pode ser muito, muito melhor. (Francilene de Oliveira)

“Na pior em Paris e Londres”
de George Orwell
Companhia das Letras, 255p., 2006.

Quando Eric Arthur Blair escreveu este livro, ele ainda não era George Orwell e, claro, não havia escrito os clássicos “1984” e “A Revolução dos Bichos”. Em uma arriscada aventura, o autor decidiu que viveria como um jovem miserável pelas cidades de Paris e Londres, usando roupas de segunda mão e procurando empregos direcionados para pessoas naquela condição social. Às vezes teve de comer pouco (quando era possível) e destinava o dinheiro que sobrava para pagar aluguel de seu cubículo (“infestado de percevejos”) ou de repulsivos albergues. Descobriu tanto o que é fome e vergonha assim como o tédio de ser pobre. Para recompensar os dias que passava apenas com um pão, o jovem escritor teve de enfrentar condições extremas de trabalho como lavador de pratos (plongeur) num hotel parisiense ou mendigar por refeições na capital londrina. O resultado desses dias de dureza é um texto de memória e não uma reportagem em si. Mas Orwell imergiu naquele meio e narrou suas experiências mesclando cenas, diálogos e reproduzindo histórias de personagens que encontrou. Esses elementos servem de inspiração direta para textos de Jornalismo Literário. (Fred Linardi)

“Um Adivinho me Disse: Viagens pelo Misticismo do Oriente”
Tiziano Terzani
Editora Globo, 448págs., 2005.

Um exemplo de como a literatura de viagem tem o poder de levar o leitor por terras e becos que tenderiam ao esquecimento. Terzani passou o ano de 1993 viajando pelo Oriente, onde trabalhava como correspondente internacional, e traçando seu roteiro apenas via solo. Fugiu de aeroportos, aviões e acabou se dirigindo a lugares onde escavou histórias de personagens locais. Viu-se diante de diferentes experiências. A premissa é um prato cheio para um belo registro que exemplifica um estilo de narrativa requintada, repleta de observações diretas e comparações de regiões como Malásia, Tailândia, Camboja e Cingapura. O destaque da narrativa surge quando o jornalista se coloca como protagonista de suas observações, adotando uma visão crítica sobre as culturas orientais e a transformação das atitudes e atividades de povos milenares. A narrativa se mescla a trechos ensaísticos e um humor apurado. Terzani detém-se em certos temas, oferecendo reflexões ao modo do Jornalismo Literário Avançado: lança questões sobre a direção que nós, humanos, escolhemos seguir e como isto nos distanciou de nossa própria natureza. Por meio de contatos diretos com pessoas e lugares, Tiziano conseguiu resgatar elementos que tendem a se perder gradativamente num mundo entregue à “modernização” ocidental. (Fred Linardi)

“Casa de Taipa: O Bairro Paulistano da Mooca em Livro-Reportagem”
Dimas A. Künsch (coord.)
Salesiana, 253 págs., 2006.

Os salesianos de Dom Bosco resolveram comemorar seus 70 anos de atividades na Mooca com a produção desta coletânea que constrói a história de um pedaço do mapa paulistano, com seu conflitos humanos, sociais e políticos. A “Moo oca” (“Faz Casa”), um bairro de 450 anos, é formado por grande contingente de imigrantes: húngaros, lituanos, espanhóis e, em sua maioria, italianos. É um lugar de contrastes. O lugar de Seu Pepe, o pipoqueiro que ainda hoje guarda no quintal o carrinho vermelho de pipoca que empurrou por mais de quarenta anos; dos operários do Cotonifício Crespi, que fizeram a Primeira Greve Geral de 1917; dos que conviveram com os alagamentos do rio Tamanduateí; dos que viram a chegada dos trilhos; de Dona Teresa, que colocava o coxão duro na panela junto com ervas colhidas no seu canteiro para fazer o molho de espaguete.

A Mooca rica e pobre, Alta e Baixa, da especulação imobiliária e dos cortiços, de arquitetura “um tanto” feia, mas histórica. Um bairro de tradição católica, mas que vê aumentar a presença de diferentes igrejas, religiões e filosofias; da festa de San Gennaro com suas fitinhas, comidas e confraternização. Ah, para não deixar tristes os torcedores, tem a Mooca do Juventus, que às vezes é o segundo time do coração de muitos paulistas, mas que, para Serjão, não tem essa de segundo time, não. Para ele, é Deus no céu e Juventus na terra.

Os autores (Bernardete Toneto, Christian Borges, Denise Casatti, Jaqueline Lemos, Magalhães Jr., Mônica Martinez e Renata Carraro) compuseram um mosaico do bairro com recursos do Jornalismo Literário. De maneiras diferentes, cada autor tenta temperar bem o seu prato. No fazer de “Casa de Taipa” houve três transformações: dos jornalistas, do bairro e dos personagens. O que faltou? Faltou um registro fotográfico mais rico. (Francilene de Oliveira)

“Berlim”
Joseph Roth
Companhia das Letras, 208 págs.

Em andanças, Roth traça as imagens da cidade que protagonizou anos decisivos da história do século 20: Berlim. Sempre ligado, aceso, pronto para enxergar o que os colegas não haviam reparado, vê na subjetividade a arte da vida. Considerado um precursores do Jornalismo Literário, Roth era pouco conhecido no Brasil. Em suas coberturas, ao contrário de outros jornalistas, não corria atrás de “furos” nem da “exclusividade”. Costumava dizer que escrevia para a posteridade. Mas saía das redações para encarar a vida. Nesta antologia podemos visualizar, como se estivéssemos “passeando”, a Berlim nos anos situados entre as duas guerras mundiais: seus desabrigados, ruas, parques, anônimos, imigrantes, refugiados, subúrbios, uma análise microscópica que compõe o mosaico da metrópole alemã. Chamo atenção para o texto sobre um criminoso solto após 50 anos de prisão, que dá a medida real da transformação pela qual a velha capital prussiana passou. Contudo, uma ressalva: Roth é descritivo e perceptivo, mas raso em suas conversações. Posfácio de Alberto Dines é esclarecedor sobre o tipo de texto de Roth no contexto de sua época. (Francilene de Oliveira)

““Filme”
Lillian Ross
Companhia das Letras, 307 págs., 2005.

Reportagem escrita com técnicas literárias originalmente publicada em capítulos na revista “The New Yorker” ao longo de cinco semanas. Lillian escolhe como personagens principais John Huston (diretor), Gottfried Reinhardt (produtor) e os executivos [da Metro-Goldwyn-Mayer] Dore Schary e L.B. Mayer. Huston e Reinhardt lutam pela produção do filme “A Glória de um Covarde”, baseado no livro “O Emblema Rubro da Coragem”, de Stephen Crane, sobre a guerra civil americana. Desde o começo, enfrentam dificuldades. Os grandes executivos da indústria cinematográfica querem filmes que dêem lucro. Para L.B Mayer, “A Glória de um Covarde” não tinha história nem estrelas. Poderia até ser artístico, mas arte em filmes não rende dinheiro. Lillian descreve as mutilações sofridas pelo filme para poder atender ao “gosto do público”. Durante quase dois anos, Lillian acompanhou todas as etapas de produção (do roteiro ao lançamento) para descobrir como Hollywood realmente funcionava. Sempre com olhos e ouvidos bem atentos, ela utilizou um método que os documentaristas de cinema viriam a chamar de “mosca na parede”, ou seja, Lillian apenas observou e captou atmosferas e temperamentos. Expôs a reportagem em cenas e, assim, permitiu que a história se contasse por si mesma (ou quase). (Francilene de Oliveira)

“Resgate Cultural da Bacia do Rio Itabapoana”
Vários autores
Sebrae/Faop, 252 págs., 2005.

Este é o título de um projeto realizado em 2004 que resultou em livro lançado neste 2005. Reúne 24 narrativas (acompanhadas de belos ensaios fotográficos) sobre 11 manifestações culturais e 13 ofícios tradicionais em risco de desaparecimento nos estados de Minas, Rio e Espírito Santo. Sergio Vilas Boas, editor do TextoVivo, é co-autor da obra, com nove textos (sobre moinhos, fumo-de-rolo, rapadura, folia de reis, balaios de bambu e outros) elaborados com recursos do Jornalismo Literário. A bacia do Itabapoana abrange parte do leste de Minas Gerais, o sul do Espírito Santo e o norte do estado do Rio de Janeiro. O rio nasce dentro do Parque Nacional do Caparaó (MG), que abriga o Pico da Bandeira, terceiro mais alto do Brasil. Na medida em que toma a direção sudeste, o Itabapoana divide o Rio de Janeiro do Espírito Santo até desaguar no Atlântico. Contatos para aquisição: Sebrae-ES – (27) 3331-5500 ou 0800-399192. (SVB)

“Radical Chique e o Novo Jornalismo”
de Tom Wolfe
coleção Jornalismo Literário
Companhia das Letras, 245 págs., 2005

Tom Wolfe projetou-se profissionalmente no início dos anos 1960 ao produzir um novo estilo de reportagem chamado por alguns de New Journalism, em que os textos jornalísticos ganham tratamento literário. Contrariando a tradição jornalística, Wolfe adaptava técnicas literárias aos fatos, dando-lhes visão mais humanitária. Ele se tornou um dos responsáveis pela consolidação dessa vertente jornalística, que já recebeu o nome de Jornalismo Literário e hoje é identificada também como narrativas de não-ficção, que o TextoVivo adaptou para Narrativas da Vida Real.

Apesar de ser internacionalmente conhecido pela proeza de se contrapor ao jornalismo convencional da pirâmide invertida, sua principal obra teórica, originalmente publicada em 1973 (“The New Journalism”, pela editora Harper and Row, de Nova York), somente neste ano ganhou sua versão em português: “Radical Chique e o Novo Jornalismo” integra a coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras.

“Radical Chique” resulta da junção (confusa) de partes de três livros de Tom Wolfe: “The New Journalism”, “The Kandy-Colored Tangerine-Flake Streamline Baby – Heroes and celebrities” e “Radical Chic & Mau-Mauing the Flak Catchers”. É essa mescla de teorias, relatos e trechos de narrativas de não-ficção que tornam esse livro indispensável para os jornalistas que pretendem sair da mesmice dos relatos “objetivos, concisos e imparciais”, tão comuns na imprensa brasileira.

Mas fica um alerta: Wolfe não é apenas genial na construção de suas reportagens com “cara de romance”; ele é sarcástico, polêmico e controverso em suas visões do jornalismo e da imprensa. Portanto, se você procura um guia de receitas prontas, como no jornalismo convencional, vai se assustar. O choque, acredite, pode levá-lo a mudar suas concepções profissionais. Mas não deixe de ler! (CF)

“O Grande Bazar Ferroviário – De Trem pela Ásia”
de Paul Theroux
Objetiva, 453 págs., 2004.

“Livros de viagens são inúteis”, afirma um dos milhares de sujeitos que o escritor Paul Theroux encontrou em seu périplo nos trens Expresso do Oriente e Transiberiano. “Por que inúteis?”, perguntou. “Porque todo mundo viaja”, respondeu o passageiro (tão norte-americano quanto Theroux). “Todo mundo trepa, mas isso não anula o assunto sexo...”, respondeu-lhe o autor.

Publicada primeiramente em 1975 (mas só agora em português), esta saborosa e elegante narrativa segue a tradição dos relatos de viagem consolidada no século XIX por autores como C.Dickens, R.L.Stevenson e Mark Twain. Paul Theroux dá um show de descrições de rostos, comportamentos e paisagens, partindo de Londres e passando pela Itália, Iugoslávia, Bulgária, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, Índia, Birmânia, Tailândia, Malásia, Cingapura, Camboja, Vietnã, Japão e União Soviética.

“Eu procurava trens; encontrei passageiros.” Aficionado por trens, Theroux vê neles uma vantagem sobre o avião (que, em viagens, “se assemelha a um submarino”): você pode assistir ao mundo como se estivesse diante da projeção de um documentário, “sem o incômodo da trilha sonora”.

Sinta a divertida ironia de Theroux, pontuada por embarques, desembarques, atrasos e contradições colecionadas ao longo de mais de 50 mil quilômetros percorridos. Repare também no sutil “ocidentocentrismo” do autor. A Ásia que ele narra não existe mais. Muita coisa mudou nos últimos 30 anos. Mas o livro ainda vale ouro. (SVB)

"O Povo do Abismo – Fome e Miséria no Coração
do Império Britânico: Uma Reportagem do Início do Século XX"
de Jack London
Editora Fundação Perseu Abramo, 334 págs., 2004.

O americano Jack London (1876-1916) é mais conhecido (e reconhecido) como autor de ficção. Sua obra é vasta. Seus livros são freqüentemente incluídos em coleções destinadas à formação de novos leitores. London construiu boa parte de suas narrativas baseado em suas próprias viagens pelo mundo. Mas antes de se tornar militante socialista e best-seller, ralou um bocado: foi entregador de jornais, pescador de lagosta, marujo de marinha mercante e operário fabril, entre várias outras atividades que desempenhou para ajudar a família.

Prolífico, publicou nada menos que 51 livros. “O Povo do Abismo” (1903) é sua mais importante narrativa de não-ficção, uma das obras fundadoras do que mais de meio século depois seria batizado de Jornalismo Literário. Em 1902, fazendo-se passar por um marinheiro americano desempregado, Jack comprou roupas usadas e alugou um quarto no East End londrino, onde moravam, na época, cerca de 450 mil miseráveis de toda (má) sorte. Um submundo semelhante ao que nós, brasileiros, podemos ver bem de perto ainda neste 2004, 102 anos depois de realizada a reportagem de Jack.

O convívio durante 86 dias com os excluídos da Revolução Industrial foi decisivo no resultado desta matéria estarrecedora. “Queria ser convencido pela evidência dos meus olhos, e não pelos ensinamentos de quem não havia visto, ou pelas palavras dos que tinham visto e ido até lá anteriormente. Também levei comigo alguns critérios simples para avaliar a vida no submundo: o que resultava em mais vida, saúde física e espiritual, era bom; o que significava menos vida, o que feria, apequenava e deformava a vida, era ruim”, escreveu no prefácio. “O Povo do Abismo” pode ser lido, hoje, sob perspectivas diversas. Eterno, porém, é o seu realismo pungente. (SVB)

"Hell's Angels - Medo e Delírio Sobre Duas Rodas"
de Hunter S. Thompson
Conrad, 276 págs., 2004.

Temos aqui um embrião do Jornalismo Gonzo, ou talvez seja mais divertido dizer "New Journalism na veia", literalmente: com seringas, agulhas, álcool e muita, muita gasolina. Hunter S. Thompson, lendário repórter da revista "Rolling Stone", se tornaria um ícone da contracultura com este livro-reportagem. Para realizá-lo, passou 18 meses com os motoqueiros marginais. Foi testemunha e, de certa forma, cúmplice, das atividades ilícitas da gangue.

Publicado primeiramente em 1966 (uma reportagem de Thompson sobre o tema havia saído em "The Nation" no ano anterior), "Hell's Angels" não é apenas um exemplo de imersão no bom e no mal sentido. Trata-se de um "livro-reportagem-proposta": em primeiro plano, Thompson se propôs a demonstrar como o sensacionalismo da imprensa ajudara a forjar a auto-imagem dos vândalos. Sua outra "proposta" era, evidentemente, anarquizar o New Journalism. Realizou ambas. (SVB)

"Adoniran, Uma Biografia"
de Celso de Campos Jr.
Editora Globo, 606 págs., 2004.

Esta biografia é resultado de três anos de pesquisa do jornalista Celso de Campos Jr. para contar a vida do compositor valinhense que retratou São Paulo de forma inigualável em clássicos como "Saudosa maloca", "Trem das onze" e "Samba do Arnesto". É exatamente graças a estes três sambas de asfalto (o samba carioca é de morro) que a maioria das pessoas se lembra de Adoniran, também imortalizado pelos Demônios da Garoa e pela voz irrepreensível de Elis Regina. Campos Jr. investigou documentos, partituras, recortes de jornais e revistas; vasculhou o acervo do quase esquecido Museu Adoniran Barbosa, no centro de São Paulo (quando esteve lá pela primeira vez a recepcionista o informou que era a primeira pessoa a entrar ali em dois anos) - santa memória cultural - e entrevistou mais de 80 pessoas entre parentes, amigos, parceiros e conhecidos, músicos, maestros, artistas, gente simples das ruas e dos bares.

A investigação permitiu ao autor trazer o artista por inteiro: ator de rádio, cinema e televisão, e não apenas o velhinho simpático de chapéu, paletó e gravata borboleta, ritmando sua música na caixinha de fósforo, imagem que vem à mente sempre que se pronuncia o nome Adoniran Barbosa ou se cantarola uma de suas músicas. Há, sim, essa personificação, pois, conforme descobriu Campos Jr., Adoniran se considerava um palhaço, na acepção do termo: alegre por fora e triste por dentro. Uma narrativa fluente e elegante. (CF)

"Fama e Anonimato", de Gay Talese
coleção Jornalismo Literário
Companhia das Letras, 535 págs., 2004.

Fim das peregrinações pelos sebos do país. Está nas livrarias a coletânea de Jornalismo Literário mais esperada dos últimos anos. Em vez de "Aos Olhos da Multidão", aquela feia edição de capa alaranjada de 1973, tem-se agora nova tradução, título acertado, dois textos inéditos e um posfácio de Humberto Werneck que honra tanto o volume em questão quanto o próprio Jornalismo Literário. (Outro posfácio digno de nota nesta coleção é o de João Moreira Salles para "O Segredo de Joe Gould".) Pois as reportagens e perfis de "Fama e Anonimato" foram publicadas originalmente em periódicos (americanos). Talese está esplêndido aqui. Talvez mais livre e solto do que em suas densas obras monotemáticas "A Mulher do Próximo" e "O Reino e o Poder", por exemplo. Com um olhar astuto e uma escrita refinadíssima, ele desvenda a Nova York que ninguém vê, convive com os operários da construção de uma ponte e perfila sujeitos difíceis como o superstar Frank Sinatra e o enigmático redator de obituários do "The New York Times" Alden Whitman, o "Sr. Má Notícia".

Peças seletas de Literatura da Realidade, expressão que o próprio Talese prefere usar, essas matérias são um exercício inconfundível de percepção, criatividade e estilo. Como diz Werneck, Talese domina como poucos a "arte de sujar os sapatos", ou seja, fazer jornalismo de cara com a rua e com os pés no chão - andando, procurando, encontrando. "Eu procuro seguir os objetos de minha reportagem de forma discreta, observando-os em situações reveladoras, atentando para suas reações e para as reações dos outros diante deles. Tento apresentar a cena em sua inteireza, o diálogo e o clima, a tensão, o drama, o conflito, e então em geral a escrevo do ponto de vista da pessoa retratada, às vezes revelando o que esses indivíduos pensam durante os momentos que descrevo. Esse tipo de insight depende, naturalmente, da cooperação total da pessoa sobre a qual se escreve, mas se o escritor goza de sua confiança, é possível, por meio de entrevistas, fazendo as perguntas certas nas horas certas, aprender a reportar o que se passa na mente de outras pessoas", escreve Gay Talese na abertura. Atenção, pessoal, para os textos em que Talese fala um pouco sobre seu "método" de trabalho. (SVB)

"Brasil Fora de Si - Experiências de Brasileiros em Nova York"
de José Carlos Sebe Bom Meihy
Parábola Editorial, 383 págs., 2003

O pesquisador José Carlos Sebe Bom Meihi atingiu a difícil meta de perscrutar a vida real sem submetê-la a camisas-de-força teóricas. Com atenção incomum, ouviu pacientemente os brasileiros que vivem em Nova York. Entrelaçou as centenas de falas e tocou o sistema nervoso central do fenômeno abordado: afinal, por que tantos brasileiros trocaram - e tantos continuam trocando - de solo? Quais as decorrências disso? Notem que o Brasil e os brasileiros estão fora de si por dentro e por fora, visceralmente. As distorções psicoculturais podem ser "em si maiores" ou "em si menores", mas sempre conflituosas, contraditórias; às vezes trágicas e inspiradoras; noutras, burlescas. Os brasucas se metem em um complicado enredo. Escapam-lhes as nuances entre o real e o imaginário, o vivido e o lembrado, o embarque e o desembarque, o desenvolvido e o sub, a brasilidade e a brasileirice. Revelam-nos, assim, o gume de um problema social tão despercebido pela academia quanto fantasiado pela mídia. Este livro é uma das mais bem articuladas páginas de História Oral de Vida em "língua brasileira", apesar do discurso acadêmico que o subjaz. (SVB)

"Abusado - o Dono do Morro Dona Marta"
de Caco Barcellos
Record, 557 págs., 2003

Como autor, Caco deu um salto qualitativo impressionante. Sua obra anterior, "Rota 66", é uma investigação jornalística minuciosa que surpreende mais pelas inúmeras denúncias revoltantes que traz à tona do que pelo modo como essas denúncias são narradas. Já não é pouco. Mas "Abusado" encanta porque nele vemos a Literatura da Realidade elevada ao cubo. Um trabalho monumental. Embora ancorado na trajetória criminosa de Marcinho VP, traficante assassinado em julho de 2003 (dois meses depois do lançamento de "Abusado"), Caco não restringe seu foco. Com a lanterna acesa em um túnel de trevas, ele ilumina magnificamente tanto o alvo quanto os arredores, e reconstitui em detalhes a ascensão e a queda de jovens traficantes cariocas dos anos 1990, geração não contemplada nem no romance nem no filme "Cidade de Deus". Então, sinta o impacto dos diálogos. Caco respeita a linguagem dos falantes. Observe como as localizações são exatas e contextualizadas. Perceba como o numeroso tête-à-tête (foram entrevistadas centenas de pessoas) fica ainda mais enriquecido com a sólida pesquisa de fundo. E pense se faltou tentar responder melhor à seguinte pergunta: "por que o tráfico existe e é como é?". Caco insinua repetidamente uma hipótese talvez simplista: mais empregos e salários mais altos desestimulariam a entrada de adolescentes no mundo do crime. Algo mais? Merecidamente, "Abusado" recebeu no dia 27 de outubro de 2003 o Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos em livro-reportagem (categoria criada exatamente nesta 25ª edição do prêmio). (SVB)

"Cela Forte Mulher"
de Antonio Carlos Prado
Labortexto, 216 págs., 2003

Antonio Carlos Prado não tinha a intenção declarada de escrever sobre o tema no qual imergiu durante sete anos voluntariamente. Seu objetivo original era montar e dirigir um jornal dentro do sistema carcerário feminino de São Paulo. O jornal foi implantado, chegou a ter relativo sucesso mas não foi adiante. Enquanto isso, suas experiências com os problemas, afetos, mentalidades, frustrações e sonhos das presidiárias adquiriam uma dimensão extra. Com um tesouro de confissões íntimas nas mãos, resolveu torná-lo público. As mulheres são co-participantes e co-autoras das pequenas histórias que compõem esta coletânea. Algumas puderam escolher até os pseudônimos com os quais protegem suas identidades. O tratamento dado ao tema é primoroso, exemplo de respeito e delicadeza. Perceba o lirismo conferido às mirabolâncias e às rotinas das detentas. Elas parecem mesmo "imantadas". Magnetizam e irradiam o viver umas das outras. O mérito é também do narrador que lhes oferece o ombro e compreende. Mas todas elas, sem exceção, dialogam numa gramática tão impecável quanto improvável. Você acha que Antonio Carlos acertou ao desconsiderar a maneira de falar de suas personagens? "Cela Forte Mulher" recebeu no dia 27 de outubro de 2003 menção honrosa na categoria livro-reportagem (categoria criada exatamente nesta 25ª edição) do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. (SVB)

"Hiroshima", de John Hersey
vol. 1 da coleção Jornalismo Literário
Companhia das Letras, 172 págs., 2002

Reportagem clássica sobre a bomba atômica que destruiu a cidade de Hiroshima e matou cerca de 100 mil pessoas em 1945. Hersey acompanha seis sobreviventes em duas épocas distintas: um ano depois da tragédia e 40 anos depois. Repare nas reconstituições minuciosas de situações, pensamentos e sentimentos dos personagens, cada qual lidando de maneira diferente com o inferno que os rodeava; observe como a narrativa transcorre num ritmo de tristeza, agonia e espanto. Comedido, Hersey consola o desatino das lembranças dos "hibakushas" (nome dado às pessoas atingidas pelos efeitos da bomba). O vigor desta reportagem ajudou várias gerações a refletirem sobre as conseqüências catastróficas das armas nucleares. (SVB)

"O Segredo de Joe Gould", de Joseph Mitchell
vol. 2 da coleção Jornalismo Literário
Companhia das Letras, 156 págs., 2003

Esta obra é um certificado de disciplina, paciência e escuta atenta. Senhor dos temas prosaicos, tanto quanto Gay Talese, Mitchell jamais fez pouco caso dos relatos orais e nunca aceitou que seus personagens fossem chamados de "pequenos". Ao contrário, dedicava-lhes zelo e proteção tocantes. Eterno repórter da lendária revista "The New Yorker", o autor aqui segue os passos do culto, excêntrico e pirado Joe Gould, conhecido no Village, em Nova York, como "Professor Gaivota". Perceba, além da intrigante história de vida de Gould, como a prosa de Mitchell é desafetada, talvez o exemplo mais evidente de que para ser literário o jornalista não precisa ser pomposo nem bombástico. (SVB)

Filmes

"Capote" (filme)
Bennett Miller (diretor)
Prêmio de melhor ator no Oscar 2006: Philip Seymour Hoffman
EUA, 98 min., 2005

“Capote" (biografia)
de Gerald Clarke
trad. Lya Luft
Editora Globo, 516 págs., 2006

Em primeiro lugar, “Capote” é um filme importantíssimo para o Jornalismo Literário. Ele mostra que é possível fazer JL em qualquer editoria, ou seja, para qualquer caderno de um jornal, sobre qualquer assunto. Muitos acham que o JL só pode ser praticado em editorias mais “amenas”, como esporte, meio ambiente... Mas Truman Capote provou que se pode fazer um jornalismo mais sensível e humano até mesmo sobre atos desumanos como o massacre de uma família numa cidadezinha do Kansas, retratados nesse filme e em seu livro “A Sangue Frio”, considerada a melhor narrativa de não-ficção de todos os tempos. Sobre o filme? Achei excelente.

É realmente muito bem produzido e dirigido. A atuação de Philip Seymour Hoffman (interpretando Capote) é excelente! Não foi à toa que ele ganhou o prêmio de melhor ator no Globo de Ouro e no Oscar 2006. A direção de Bennett Miller (em seu segundo trabalho como diretor) é concentrada nas atuações (magníficas) de seus personagens e procura estabelecer um tom constantemente (e corretamente) frio e melancólico. Além dos vários planos gerais nos quais explora (ao lado do diretor de fotografia Adam Kimmel) o isolamento da cidade de Holcomb, o cineasta mantém as vozes de seus atores sempre numa modulação baixa e reservada. Talvez por isso os atores tiveram (a meu ver) atuações brilhantes, retratando as várias faces de personagens tão complexos e, o mais importante, sendo muito fiel ao livro “A Sangue Frio”.

É isso que torna o filme mais interessante, porque, na verdade, o roteiro de “Capote” (por Dan Futterman) foi escrito a partir do livro de Gerald Clarke, uma biografia de Truman Capote. Ao escrever este livro, Clarke escolheu um período da vida de Truman Capote, o período de mais de cinco anos em que o escritor trabalhou em “A Sangue Frio”. Fez isso porque, sem dúvida alguma, este foi o melhor período da vida de Capote. Uma biografia não precisa, necessariamente, conter a vida inteira do biografado, mas momentos que mostram ao leitor de quem estamos falando, quem de fato o biografado é ou foi. Assim como nesse livro (nessa biografia), o roteirista Dan Futterman não se preocupa particularmente com o crime bárbaro cometido por Smith e Hickock, e sim com o envolvimento entre o personagem-título e os dois homens, e, é claro, com o processo de criação da obra-prima, que exigiria um alto preço de Truman.

Concluindo, indico este filme não só aos amantes ou curiosos pelo JL, mas para pessoas que gostam de ver no cinema histórias retratadas muito bem, sem censura ou pré-julgamento sobre os “defeitos” de seus personagens, sejam eles “heróis” ou “anti-heróis”. Biografia e filme contam, entre outras coisas, um pouco da história de um dos períodos mais intensos do Jornalismo Literário: os anos 1960. (RS)

"Ser e Ter" ("Être et Avoir")
Nicolas Philibert (diretor)
Documentário, França, 104 min., 2002

Achado sobre educação de crianças e adolescentes. Com delicadeza e discrição, o diretor acompanha o ano letivo de alunos de uma pequena escola no interior da França. Os alunos têm entre 4 e 10 anos. Juntos, compartilham um aprendizado à base de experiências coletivas e diálogos sinceros, direitos e deveres. Notem que a escola possui uma única sala, onde não vemos objetos eletrônicos. Os muitos livros e materiais escolares visíveis ganham vida sob a orientação serena, gestos comedidos e perguntas precisas do educador Georges Lopez. Durante as quatro estações do ano, demarcadas por imagens sublimes da natureza local, as câmeras de Philibert acompanham a evolução dos alunos. Somos tocados pela espontaneidade desses personagens reais, que nos fazem esquecer as falsidades dos "unreality shows" da TV. Observem como Nicolas Philibert permite que a narrativa flua lenta e sensivelmente, no "timing" das crianças. O diretor respeita o outro tanto quanto o educador respeita as crianças e as estimula a respeitarem-se. Filme merecidamente selecionado no Festival de Cannes de 2002 e um inesperado (por ser documentário) sucesso de público na França. Esteve em cartaz em São Paulo (SP) em abril de 2004. Alugue-o ou compre-o se for capaz. (SVB)

"Eu Fui a Secretária de Hitler"
André Heller e Othmar Schmiderer (diretores)
Documentário, Áustria, 92 min., 2001

Câmera fixa diante de si durante todo o período de entrevistas (feitas entre abril e junho de 2001), a alemã Traudl Junge, então com 81 anos, recorda experiências incomuns. Ela foi nada mais nada menos do que uma das secretárias de Adolf Hitler de 1942 até a derrocada do regime nazista em 1945. Morreu de câncer em fevereiro de 2002, no dia seguinte à exibição deste filme no Festival de Berlim. No leito de morte, sussurrou: "estou me sentindo menos culpada agora". Note como a Sra. Junge esteve fisicamente próxima mas psicologicamente muito distante do homem que comandou uma das maiores carnificinas da história. Imponente e resolvida, no filme Junge reflete tanto sobre a gravidade do que vivenciou quanto sobre os fantasmas que a atormentavam. Sua memória extraordinária (e o ótimo trabalho de edição) nos mantém num "ritmo respiratório hipnótico". As palavras de Junge nos captam pelo essencial: o desejo de resignificar um sentimento de culpa terrível. Repare que também se trata de um filme sobre a memória, componente valioso para quem se interessa por histórias de vida, biografias, perfis. Pouco provável, infelizmente, que o documentário (em cartaz em São Paulo em outubro de 2003) seja exibido em massa. Mas tome nota e encontre-o. (SVB)

"A Sangue Frio"
Richard Brooks (diretor)
EUA, 134 min., 1967

A história real de um assassinato sinistro, escrita pelo controverso jornalista-escritor americano Truman Capote (1924-1984), foi adaptada brilhantemente neste sofisticado preto-e-branco. Um próspero e respeitado fazendeiro do Kansas, sua mulher e dois de seus filhos adolescentes são massacrados na noite de 15 de novembro de 1959. Os assassinos são dois ex-presidiários movidos pela dica de que Herbert Clutter, o fazendeiro, possuía muito dinheiro dentro de um cofre em sua casa. Perry Smith (Robert Blake) e Dick Hickock (Scott Wilson) não encontram cofre algum e resolvem exterminar as vítimas gratuitamente. Este filme (disponível agora somente em DVD), que tem trilha sonora assinada por Quincy Jones, vem se somar ao relançamento do livro homônimo pela editora Companhia das Letras dentro da coleção Jornalismo Literário. Ambos, livro e filme, têm praticamente o mesmo passo, a mesma seqüência de eventos, e ambos tentam penetrar nas mentes dos criminosos, criando um drama psicológico alucinante. Um ano depois da fuga, Perry e Dick foram presos, julgados e condenados à forca. O bordão "leia o livro e veja o filme" aqui se aplica. (SVB)

"Paulinho da Viola - Meu Tempo é Hoje"
Documentário, Brasil, 83 min., 2003
Izabel Jaguaribe (diretora)

Neste documentário, o perfil do cantor e compositor Paulinho da Viola é contado de forma leve e bem-humorada. Há muito espaço dedicado à obra do músico, com participações especiais de Marisa Monte e Zeca Pagodinho, entre outros. Contudo, o ponto alto da narrativa fica mesmo por conta da vida pessoal de Paulinho, compartilhada com generosidade por parentes e amigos. São estes depoimentos de pessoas próximas que permitem ao roteiro escrito por Zuenir Ventura resgatar com sensibilidade hobbies como a recuperação de carros antigos e o apre&cc