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Pequenos
passos
Quem
revelou o homem como único condicional
não ensinou a trair, não ensinou humilhar,
não ensinou tirar. Ensinou ajudar.
(Estamira - no documentário homônimo de Marcos
Prado.)
Um homem de andar frágil e lento, trajando calças
jeans claras e uma camiseta promocional amarela, dobra a
esquina do outro lado do grande terreno da antiga oficina
de trens. Com o olhar voltado para o chão, uma bolsa
de um evento municipal sobre saúde na mão,
um ar sereno no rosto, o senhor de cabelos grisalhos ralos
e sem dentes na arcada dentária superior invade o
campo gramado em frente à velha estação
da Fepasa.
Camilo
Leite, 52 anos, caminha tranqüilo pela estreita trilha
poeirenta aberta entre a grama ressecada pelo calor escaldante
e a temerosa falta de chuva que atingia Assis, cidade a
440 quilômetros de São Paulo, nos meses de
agosto e setembro de 2007.
Ele
atravessa a rua sem se preocupar com o trânsito das
8h40 de quinta-feira, dia 20. Pára sobre a calçada
e, com a mão espalmada, seca o suor que corre na
parte frontal da testa. Sereno, Camilo mexe a cabeça
de um lado para o outro. Olha para o céu como que
em busca de algo e se perde nesse olhar. Observa o infinito
azul sem nuvens. Vê o marasmo da rua. Apenas uma bicicleta
passa. Contrai as maçãs do rosto e aperta
a vista em direção ao sol. A luz ofusca. Não
vê mais nada. Cai de volta ao chão. “Mai
tá um calor, né?”, diz ao expor seu
sorriso banguela, dirigindo a palavra a mim.
Ao
mesmo tempo, aponta no fim da rua uma pequena mulher. Ombros
caídos, cabelo tipo Joãozinho e passos arrastados
carregados de tédio. Olhar voltado aos próprios
pés avermelhados de pó e sol. Suspiro. Bermudinha,
chinelo e camiseta. “Bom dia, Camilo.” Suspiro.
Angelinha encosta na parede do prédio – saca
um maço amassado de cigarros TE. Suspiro. Acende
um. Olha para o chão. Suspiro. E solta um trago descomprometido.
Suspiro.
O
silêncio gritante de Angela e a busca sem fim dos
olhos de Camilo terminam somente com a chegada da estudante
do quinto ano de psicologia da Unesp (Universidade Estadual
Paulista), Sônia Romeiro Costa, 24 anos.
–
Bom dia, Camilo! Bom dia, Angelinha! Vamos lá? –
diz sorridente a moça de estatura baixa e cabelos
negros encaracolados.
Poucos
minutos antes das 9h, a porta do prédio já
está aberta. O galpão é semelhante
a uma velha oficina mecânica. A pintura coberta pela
poeira e a porta de metal, que está sempre fechada,
dão um tom de desuso ao local. Na área interna,
o grande espaço vazio faz ecoar qualquer chiado.
As paredes estão carregadas de ilustrações
e frases de protesto escritas ao léu em tinta spray.
Num canto, há uma estante baixa cheia de livros doados
ao cursinho pré-vestibular que, assim como a capoeira
de Angola, o teatro e alguns shows de bandas punk, também
é realizado ali.
O
número reduzido de participantes na reunião
daquela manhã – somente sete pessoas –
se espalha entre as cadeiras escolares postas em volta de
uma mesa improvisada com uma lâmina de madeirite.
– Gente, o que vocês acham que podemos fazer
hoje? – pergunta Sônia. – Vamos produzir
mais material ou vamos nos organizar para ver como faremos
no próximo evento?
– Vamos falar sobre a barraca na feira! – Sugere
Célia Rangério ao arregalar os olhos, franzir
a testa e comprimir os lábios inferiores. –
Sabe por quê? Porque todo mundo me pergunta onde pode
comprar as coisas que a gente vende, mas ninguém
sabe onde tá nossa barraca, daí que dá
a impressão que a gente é tudo louco e não
vende de verdade, sabe? – A negra de 52 anos e postura
firme demonstra uma suspeita quanto à real existência
da produção do grupo.
– Ué! Tá aqui no Galpão, ué!
– Responde o líder José Alfredo, num
tom de resposta óbvia. – Tá tudo aqui
no armário! É só falar pra vir aqui!
– O ex-padeiro de 38 anos possui grandes entradas
nos cabelos grisalhos, que dão a impressão
da idade mais avançada. Zé tem olhos comprimidos,
usa óculos de aros finos e tem o lábio superior
maior do que o inferior. Também é dono de
uma fala simples do interior do Estado, com erre puxado
e tom sincero (talvez um pouco desconfiado).
Apesar
da interferência, Sônia complementa a sugestão
de Célia:
–
Então, Célia! Isso é outra coisa que
a gente tem que conversar. Temos que ver como vamos enfeitar
a barraca, conseguir as partes dela que faltam e avisar
as pessoas onde vamos vender nossas coisas... Mas, para
isso, o pessoal tem que participar mais! – Antes que
alguém interrompa, Sônia acelera o passo da
conversa. – Então, gente, é o seguinte:
na semana que vem vai ter um evento na Unesp. É um
pré-congresso do que acontece em Buenos Aires, do
Congresso das Madres, que trata da Luta Antimanicomial.
Acho que podemos montar nossa barraca lá. O que acham?
– Acho bom! – Responde Adriana Simão,
uma negra corpulenta de 32 anos, que está sempre
com as mãos unidas entre as pernas e é dona
de uma vozinha fina e meiga como a de uma criança.
– Lá em Marília foi tão bom,
né? A gente vendeu bastante coisa lá!
– É, eu vendi! Eu fiquei na barraca lá
em Marília – diz Camilo ao me mostrar uma edição
do “Jornal de Assis” do dia 14 de setembro,
que trazia matéria anunciando a participação
do grupo no seminário no qual foram debatidas questões
como a inclusão de portadores de transtornos mentais
por meio do trabalho.
– É, foi bom! Mas eu não entendi muita
coisa, não! – Recorda Zé Alfredo. –
Lá eles tratavam a gente de “ele”, de
“o indivíduo”. Eu entendi umas coisas,
mas outras, que tem linguagem acadêmica, né?
Não entendi muito, não.
– Eles parece médico falano da gente! Parece
que trata com diferença, sabe? – Ataca Célia.
– Lembro quando eu tava lá. Era tratada só
com diferença! Quando eu tava lá...
– Sôôônia! – Interfere a pequenina
Angela com uma expressão de criança pidoncha.
– Póóósso ir embora?
– Mas já, Angelinha? Já tem pouca gente
hoje...
– Sabe o que é? É que eu preciso ir...
– Diz Angela enquanto Célia prossegue no assunto.
Tinha
uma janela e uma porta de grade, sabe? Daí vi que
tinha um home pintano a parede do lado de fora. Então
eu subi num banco e perguntei pra ele como tava o céu.
Eu só queria sabê como tava o céu! O
home saiu sem nem falar comigo. Depois veio a infermera
e aplicô uma injeção desse tamanho assim,
chama sussega-lião. Durmi até o otro dia.
Contei o que tinha acontecido pra minha irmã, daí
minha irmã disse pra eles que eu era muito assim
romântica, sabe? E que eu gostava de ver o céu.
Daí ela assinou um termo de responsabilidade e me
tirou de lá.
E
como um barquinho de papel que se afasta da margem do lago
num dia de vento, a cada intervenção a conversa
vai ficando mais distante de seu ponto de partida. E todas
as vezes que o papo começa a tomar outros rumos,
Sônia faz os marinheiros retomarem a rota de navegação.
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Gente, precisamos decidir como vamos fazer na semana que
vem. O que passou, passou, já faz parte da nossa
experiência. Agora precisamos ver o que fazer daqui
pra frente – reforça a garota de fala direta
e atitudes pacientes.