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Texto de
junho de 2008
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Narrativas

Loucos pela inserção social *

  • Pequenos passos

    Quem revelou o homem como único condicional
    não ensinou a trair, não ensinou humilhar,
    não ensinou tirar. Ensinou ajudar.

    (Estamira - no documentário homônimo de Marcos Prado.)

Um homem de andar frágil e lento, trajando calças jeans claras e uma camiseta promocional amarela, dobra a esquina do outro lado do grande terreno da antiga oficina de trens. Com o olhar voltado para o chão, uma bolsa de um evento municipal sobre saúde na mão, um ar sereno no rosto, o senhor de cabelos grisalhos ralos e sem dentes na arcada dentária superior invade o campo gramado em frente à velha estação da Fepasa.

Camilo Leite, 52 anos, caminha tranqüilo pela estreita trilha poeirenta aberta entre a grama ressecada pelo calor escaldante e a temerosa falta de chuva que atingia Assis, cidade a 440 quilômetros de São Paulo, nos meses de agosto e setembro de 2007.

Ele atravessa a rua sem se preocupar com o trânsito das 8h40 de quinta-feira, dia 20. Pára sobre a calçada e, com a mão espalmada, seca o suor que corre na parte frontal da testa. Sereno, Camilo mexe a cabeça de um lado para o outro. Olha para o céu como que em busca de algo e se perde nesse olhar. Observa o infinito azul sem nuvens. Vê o marasmo da rua. Apenas uma bicicleta passa. Contrai as maçãs do rosto e aperta a vista em direção ao sol. A luz ofusca. Não vê mais nada. Cai de volta ao chão. “Mai tá um calor, né?”, diz ao expor seu sorriso banguela, dirigindo a palavra a mim.

Ao mesmo tempo, aponta no fim da rua uma pequena mulher. Ombros caídos, cabelo tipo Joãozinho e passos arrastados carregados de tédio. Olhar voltado aos próprios pés avermelhados de pó e sol. Suspiro. Bermudinha, chinelo e camiseta. “Bom dia, Camilo.” Suspiro. Angelinha encosta na parede do prédio – saca um maço amassado de cigarros TE. Suspiro. Acende um. Olha para o chão. Suspiro. E solta um trago descomprometido. Suspiro.

O silêncio gritante de Angela e a busca sem fim dos olhos de Camilo terminam somente com a chegada da estudante do quinto ano de psicologia da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Sônia Romeiro Costa, 24 anos.

– Bom dia, Camilo! Bom dia, Angelinha! Vamos lá? – diz sorridente a moça de estatura baixa e cabelos negros encaracolados.

Poucos minutos antes das 9h, a porta do prédio já está aberta. O galpão é semelhante a uma velha oficina mecânica. A pintura coberta pela poeira e a porta de metal, que está sempre fechada, dão um tom de desuso ao local. Na área interna, o grande espaço vazio faz ecoar qualquer chiado. As paredes estão carregadas de ilustrações e frases de protesto escritas ao léu em tinta spray. Num canto, há uma estante baixa cheia de livros doados ao cursinho pré-vestibular que, assim como a capoeira de Angola, o teatro e alguns shows de bandas punk, também é realizado ali.

O número reduzido de participantes na reunião daquela manhã – somente sete pessoas – se espalha entre as cadeiras escolares postas em volta de uma mesa improvisada com uma lâmina de madeirite.

– Gente, o que vocês acham que podemos fazer hoje? – pergunta Sônia. – Vamos produzir mais material ou vamos nos organizar para ver como faremos no próximo evento?
– Vamos falar sobre a barraca na feira! – Sugere Célia Rangério ao arregalar os olhos, franzir a testa e comprimir os lábios inferiores. – Sabe por quê? Porque todo mundo me pergunta onde pode comprar as coisas que a gente vende, mas ninguém sabe onde tá nossa barraca, daí que dá a impressão que a gente é tudo louco e não vende de verdade, sabe? – A negra de 52 anos e postura firme demonstra uma suspeita quanto à real existência da produção do grupo.
– Ué! Tá aqui no Galpão, ué! – Responde o líder José Alfredo, num tom de resposta óbvia. – Tá tudo aqui no armário! É só falar pra vir aqui! – O ex-padeiro de 38 anos possui grandes entradas nos cabelos grisalhos, que dão a impressão da idade mais avançada. Zé tem olhos comprimidos, usa óculos de aros finos e tem o lábio superior maior do que o inferior. Também é dono de uma fala simples do interior do Estado, com erre puxado e tom sincero (talvez um pouco desconfiado).

Apesar da interferência, Sônia complementa a sugestão de Célia:

– Então, Célia! Isso é outra coisa que a gente tem que conversar. Temos que ver como vamos enfeitar a barraca, conseguir as partes dela que faltam e avisar as pessoas onde vamos vender nossas coisas... Mas, para isso, o pessoal tem que participar mais! – Antes que alguém interrompa, Sônia acelera o passo da conversa. – Então, gente, é o seguinte: na semana que vem vai ter um evento na Unesp. É um pré-congresso do que acontece em Buenos Aires, do Congresso das Madres, que trata da Luta Antimanicomial. Acho que podemos montar nossa barraca lá. O que acham?
– Acho bom! – Responde Adriana Simão, uma negra corpulenta de 32 anos, que está sempre com as mãos unidas entre as pernas e é dona de uma vozinha fina e meiga como a de uma criança. – Lá em Marília foi tão bom, né? A gente vendeu bastante coisa lá!
– É, eu vendi! Eu fiquei na barraca lá em Marília – diz Camilo ao me mostrar uma edição do “Jornal de Assis” do dia 14 de setembro, que trazia matéria anunciando a participação do grupo no seminário no qual foram debatidas questões como a inclusão de portadores de transtornos mentais por meio do trabalho.
– É, foi bom! Mas eu não entendi muita coisa, não! – Recorda Zé Alfredo. – Lá eles tratavam a gente de “ele”, de “o indivíduo”. Eu entendi umas coisas, mas outras, que tem linguagem acadêmica, né? Não entendi muito, não.
– Eles parece médico falano da gente! Parece que trata com diferença, sabe? – Ataca Célia. – Lembro quando eu tava lá. Era tratada só com diferença! Quando eu tava lá...
– Sôôônia! – Interfere a pequenina Angela com uma expressão de criança pidoncha. – Póóósso ir embora?
– Mas já, Angelinha? Já tem pouca gente hoje...
– Sabe o que é? É que eu preciso ir... – Diz Angela enquanto Célia prossegue no assunto.

Tinha uma janela e uma porta de grade, sabe? Daí vi que tinha um home pintano a parede do lado de fora. Então eu subi num banco e perguntei pra ele como tava o céu. Eu só queria sabê como tava o céu! O home saiu sem nem falar comigo. Depois veio a infermera e aplicô uma injeção desse tamanho assim, chama sussega-lião. Durmi até o otro dia. Contei o que tinha acontecido pra minha irmã, daí minha irmã disse pra eles que eu era muito assim romântica, sabe? E que eu gostava de ver o céu. Daí ela assinou um termo de responsabilidade e me tirou de lá.

E como um barquinho de papel que se afasta da margem do lago num dia de vento, a cada intervenção a conversa vai ficando mais distante de seu ponto de partida. E todas as vezes que o papo começa a tomar outros rumos, Sônia faz os marinheiros retomarem a rota de navegação.

- Gente, precisamos decidir como vamos fazer na semana que vem. O que passou, passou, já faz parte da nossa experiência. Agora precisamos ver o que fazer daqui pra frente – reforça a garota de fala direta e atitudes pacientes.

* Agradecimentos a Raquel Maria Nelli Nóbrega.

** Jornalista, redator da Central de Edição Compartilhada da rede de jornais BOM DIA; pós-graduado em Jornalismo Literário pela ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário), turma de São Paulo (SP), 2007.

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