home   :   contato   
 


versão para
impressão

- - - -
Texto de
abril de 2008
- - - - - - - - -

Narrativas

Dona Lúcia é real e está viva

Gabriel Marquim *

  • Cruzamentos

O ar-condicionado estava ligado e já fazia frio. Ouvíamos uma música com ritmo forte e letra feroz incitando à revolução, interpretada pela cantora argentina, Mercedes Sosa. O carro havia sido lavado há pouco mais de dois dias, estava com cheiro de limpeza. Os vidros fechados, lógico, por causa do ar-condicionado. Eu, no carro, perfumado com o perfume mais forte.

Entre uma palavra e outra, olho para o lado e vejo uma cena: uma mulher e um garoto catam lixo. Sem tempo para pensar muito, resolvo parar o carro. Alguns passos depois, estava diante deles. Soube que são mãe e filho.

“Boa noite.” Este foi o primeiro tijolo posto para a construção da ponte que separava (separa) os dois mundos; o mundo do carro de vidro fechado do mundo de dona Lúcia, universo de aventuras tortuosas, inimagináveis para quem está do lado de dentro do carro.

Ela respondeu e continuou catando lixo, enquanto eu e minha amiga puxávamos assunto. De repente, vi que ela achou um desodorante entre os entulhos e não resisti: “Um desodorante do lixo? Não deve ter nada aí e, mesmo que tenha, não serve”. Visão de quem está dentro do carro.

Dona Lúcia não disse muita coisa: “É pra minha filha, ela precisa ir à escola amanhã”.

Dona Lúcia e seu filho Ítalo tinham começado a “varrer” as calçadas por volta das seis da manhã. Já era quase sete da noite e eles só voltarão pra casa lá pelas dez ou onze da noite, quando fosse possível como comprar pão. Fizemos um trato: levaríamos os dois em casa e jantaríamos juntos. Foi assim que os dois mundos se cruzaram.

Dentro do carro, colocamos o que os dois conseguiram juntar; forte cheiro de chorume. Destino: Alto do Pascoal, no Recife (PE). Pelo caminho, muita gente, resto de feira de frutas, barulho de buzinas e gente gritando (especialmente os ciclistas) com medo de atropelar alguém. Depois de uma ladeira íngreme, chegamos. A casa de dona Lúcia e seus dois filhos é no quintal de outra casa. A sala tem uma pequena mesa, duas ou três cadeiras e um aparelho de som. A cozinha tem um fogão de duas bocas e pia, além de recipientes para guardar o que usa. Não entramos no quarto.

Na parede está pendurado o último presente do dia das mães que Luana e Ítalo deram à dona Lúcia. No segundo domingo de maio, os dois não tinham o que dar a ela, então, resolveram comprar um coração de madeira no qual se lê, em letras contornadas com purpurina: “Mamãe, te amamos”. O único problema, segundo eles, é que ainda não puderam pagar.

Junto do coração de madeira deste 2008, está o do ano retrasado. Ainda na parede estão pendurados dois pequenos quadros: um de Jesus e outro de Maria, aquela que, para dona Lúcia, é “minha mãe”. Disputando o espaço da parede, mas não o coração de dona Lúcia, está a foto de Che Guevara. Com os olhos úmidos, ela diz que gostaria de ser o guerrilheiro argentino.

Corremos à padaria e compramos pão, queijo, presunto, manteiga e café. Enquanto dona Lúcia esquentava a água, nós cortávamos o pão e “recheávamos”. Não havia garrafa térmica para a água. Tomamos o café e comemos, enquanto conversávamos.

Na hora de nos despedirmos, dona Lúcia olhou profundamente para os nossos olhos e disse: “Eu odiava vocês, brancos”.

* Estudante de Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) e repórter da rádio CBN, no Recife (PE).

Leia mais  

volta ao topo

Cruzamentos
Três mortes
Problema triplo
Última cicatriz

© Copyright 2003, TextoVivo Edições - Aviso Legal
Melhor visualizado em 800 x 600 pixels