Gabriel Marquim *
O
ar-condicionado estava ligado e já fazia frio. Ouvíamos
uma música com ritmo forte e letra feroz incitando
à revolução, interpretada pela cantora
argentina, Mercedes Sosa. O carro havia sido lavado há
pouco mais de dois dias, estava com cheiro de limpeza. Os
vidros fechados, lógico, por causa do ar-condicionado.
Eu, no carro, perfumado com o perfume mais forte.
Entre
uma palavra e outra, olho para o lado e vejo uma cena: uma
mulher e um garoto catam lixo. Sem tempo para pensar muito,
resolvo parar o carro. Alguns passos depois, estava diante
deles. Soube que são mãe e filho.
“Boa
noite.” Este foi o primeiro tijolo posto para a construção
da ponte que separava (separa) os dois mundos; o mundo do
carro de vidro fechado do mundo de dona Lúcia, universo
de aventuras tortuosas, inimagináveis para quem está
do lado de dentro do carro.
Ela
respondeu e continuou catando lixo, enquanto eu e minha
amiga puxávamos assunto. De repente, vi que ela achou
um desodorante entre os entulhos e não resisti: “Um
desodorante do lixo? Não deve ter nada aí
e, mesmo que tenha, não serve”. Visão
de quem está dentro do carro.
Dona
Lúcia não disse muita coisa: “É
pra minha filha, ela precisa ir à escola amanhã”.
Dona
Lúcia e seu filho Ítalo tinham começado
a “varrer” as calçadas por volta das
seis da manhã. Já era quase sete da noite
e eles só voltarão pra casa lá pelas
dez ou onze da noite, quando fosse possível como
comprar pão. Fizemos um trato: levaríamos
os dois em casa e jantaríamos juntos. Foi assim que
os dois mundos se cruzaram.
Dentro
do carro, colocamos o que os dois conseguiram juntar; forte
cheiro de chorume. Destino: Alto do Pascoal, no Recife (PE).
Pelo caminho, muita gente, resto de feira de frutas, barulho
de buzinas e gente gritando (especialmente os ciclistas)
com medo de atropelar alguém. Depois de uma ladeira
íngreme, chegamos. A casa de dona Lúcia e
seus dois filhos é no quintal de outra casa. A sala
tem uma pequena mesa, duas ou três cadeiras e um aparelho
de som. A cozinha tem um fogão de duas bocas e pia,
além de recipientes para guardar o que usa. Não
entramos no quarto.
Na
parede está pendurado o último presente do
dia das mães que Luana e Ítalo deram à
dona Lúcia. No segundo domingo de maio, os dois não
tinham o que dar a ela, então, resolveram comprar
um coração de madeira no qual se lê,
em letras contornadas com purpurina: “Mamãe,
te amamos”. O único problema, segundo eles,
é que ainda não puderam pagar.
Junto
do coração de madeira deste 2008, está
o do ano retrasado. Ainda na parede estão pendurados
dois pequenos quadros: um de Jesus e outro de Maria, aquela
que, para dona Lúcia, é “minha mãe”.
Disputando o espaço da parede, mas não o coração
de dona Lúcia, está a foto de Che Guevara.
Com os olhos úmidos, ela diz que gostaria de ser
o guerrilheiro argentino.
Corremos
à padaria e compramos pão, queijo, presunto,
manteiga e café. Enquanto dona Lúcia esquentava
a água, nós cortávamos o pão
e “recheávamos”. Não havia garrafa
térmica para a água. Tomamos o café
e comemos, enquanto conversávamos.
Na
hora de nos despedirmos, dona Lúcia olhou profundamente
para os nossos olhos e disse: “Eu odiava vocês,
brancos”.