TextoVivo - Narrativas da vida real

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25/02/2010 | enviar a um amigo | imprimir | a-   a+

Os alfaiates de São Carlos

         
Roberto Nogueira Prioste *
 
           
O letreiro em “v” se lança à frente da fachada do prédio simples na rua José Bonifácio, no centro de São Carlos (SP), uma cidade  de porte médio a 234 quilômetros da capital. Está acima da cabeça de quem caminha pela calçada. A peça é suficientemente simples para chamar a atenção das poucas pessoas que passam pelo quarteirão. Se alguém se desse ao trabalho de desviar o olhar para o alto, poderia saber, pelas letras brancas sobre o fundo azul, que ali se exerce uma atividade em extinção: a alfaiataria. É a parte mais antiga do centro comercial. O estilo do casario remete à metade do século passado. Portas e janelas dão diretamente para a rua. Aqui e ali, uma casa comercial resiste. Quase sempre negócios tão antigos quanto aquele que se pratica no número 999b.

Ali funciona há 24 anos a Alfaiataria Peixe-Mascarin. Os dois sobrenomes – agora separados por um hífen na placa – já foram conhecidos em toda a cidade e sempre estiveram juntos. Representam uma estirpe de profissionais dedicados e outrora muito requisitados. Um manequim de madeira de um busto masculino dá boas vindas à clientela logo à esquerda do salão. Está vestido com um paletó, ainda sem mangas, apenas alinhavado por uma linha branca. A impressão é que está há anos para ser terminado.

Um antigo balcão de metal – desses típicos de escritório – separa os fregueses da área onde estão Roque Mascarin, 71 anos, e Sebastião Peixe, 74 anos. O salão forma um “L” e não tem mais que 30 metros quadrados. Nas prateleiras, ao lado esquerdo e ao fundo, peças de tecidos. No centro, lado a lado, duas máquinas de costura. E outros dois balcões de madeira. São antigos, de imbuia. “Tem mais de cem anos”, diria mais tarde seu Mascarin. São usados para riscar moldes e cortar tecidos. Um velho rádio, da Motorádio, está sintonizado numa emissora AM que toca Nelson Gonçalves quando eu chego. O aparelho completa a decoração do ateliê. É como se eu abrisse uma porta para o passado.

Seu Mascarin deixa a velha máquina PFAFF e vem em minha direção.

- Você deve ser o repórter. “Sim, eu que liguei hoje de manhã.”
- Eu só não sei o que você quer com dois velhos. Nós não temos muito para falar. Estamos no fim de carreira.

A carreira de Roque Mascarin tem mais de 60 anos. Aos 9, recém- chegado da roça, fez o que faziam os meninos ao concluir o grupo escolar. Era hora de procurar emprego, um ofício. Bateu na alfaiataria de Geraldo Adabo. Nessa época, por volta de1950, São Carlos tinha talvez centenas de alfaiatarias.

- Eram umas 200 – puxa pela memória seu Mascarin.
- 280. A voz fraca de Sebastião Peixe quebra o silêncio pela primeira vez para corrigir o colega. Foi na alfaiataria do Adabo que os dois se conheceram. Seu Peixe tinha 10 anos de idade. Os cabelos estão brancos. É um homem esguio, alto mesmo, quase um metro e noventa de altura. Mas o corpo arqueado denuncia os efeitos dos anos quando ele se levanta, para os cumprimentos. É homem frágil.
- Eu que conversei com você no telefone. Eu estou muito doente.

Seu Peixe caminha lentamente e com dificuldade. De volta a maquina de costura, por várias vezes interrompe o vai e vem dos pés no pedal. Para. O olhar se fixa e se perde em algum ponto. Parece querer relembrar fatos, pessoas, lugares e histórias enquanto seu Mascarin ativa na memória os tempos em que São Carlos era a capital dos alfaiates brasileiros.

 
Uma cidade elegante

A história desta São Carlos está arquivada numa sala da sede de campo da ABASC – a Associação Beneficente dos Alfaiates de São Carlos. A entidade foi criada em 1940 e ostentou por seis anos outra denominação, que demonstrava a abrangência e a importância da cidade para a moda masculina: Associação Beneficente dos Alfaiates do Estado de São Paulo. A entidade paulista foi criada num congresso com a presença de três mil profissionais.

O acervo guarda documentos, cadastros e outros registros históricos. Como fotos, em que viúvas – ora sorridentes, ora saudosas – recebem das mãos de diretores cheques que lhes garantiriam o futuro. Os pecúlios eram concedidos em caso de morte, de doença e até de nascimento de filhos. A associação tinha seis mil integrantes. A categoria foi a primeira do país a ter um plano de previdência privada.

- Era um chamariz. Não existia plano como esse no Brasil. Então criamos um para angariar sócios. Quarenta por cento da mensalidade ia para o pecúlio.

A explicação é do homem que mais conhece a história dos alfaiates de São Carlos. Alberto de Medeiros, o Bertinho, nada tem da fragilidade do apelido que carrega desde menino. É um homem alto e forte. Tem 70 anos. O vigor físico, os cabelos ainda escuros e a voz firme o fazem parecer muito mais jovem. “Só em São Carlos tínhamos 500 sócios e o que fizemos foi atrair os profissionais de todos dos lugares”, completa.    

Este era o segredo da capital dos alfaiates. As contribuições dos associados garantiam ainda certa efervescência cultural. A associação realizava bailes, trazia shows de artistas populares, promovia encontros da categoria. São Carlos sediou três congressos, nos anos de 1948, 1952 e 1957. Os moradores saíam às ruas e embeveciam ante os desfiles de abertura dos encontros. Havia carros alegóricos, bandas marciais.

- Era uma grande atração. A cidade se agitava. Durante os encontros organizávamos desfiles de moda temáticos, como a moda dos anos 30, por exemplo. A cidade parava pra ver.

Em setembro de 1957, São Carlos realizou o terceiro Congresso dos Alfaiates do Brasil. A foto envelhecida pelo tempo fixou para sempre uma época em que os homens vestiam ternos impecáveis. Mais de 150 profissionais posaram em frente à antiga catedral de São Carlos Borromeu. São Carlos reunia alfaiates de todo o país. Nos dois encontros anteriores recebeu cinco mil congressistas.

- Como hospedar tanta gente?
- A solução era a mesma das cidades que hoje recebem eventos como os Jogos Abertos. Requisitar alojamentos em escolas públicas. E através do deputado Vicente Botta, que também era alfaiate, conseguimos com a secretaria estadual de Esportes três mil colchões.

Bertinho participou de dois congressos. Era um aprendiz de alfaiate. Preparava as entretelas, um aviamento feito de algodão usado para estruturar peças como lapelas, dando volume. Não chegou a dominar a arte do feitio de ternos. Nunca se tornou um oficial. Mas ainda hoje é capaz de identificar com o correr dos olhos um terno produzido pelas mãos de um profissional daquele produzido em série.

- É o caimento. É impecável. A roupa sob medida é uma perfeição.


Uma linha de manufatura

A memória do seu Mascarin viaja a uma época em que São Carlos costurava para todo o Estado. Em cada rua do centro havia pelo menos uma alfaiataria, a grande maioria tocada por imigrantes e descendentes de italianos. A ABASC tinha 147 estabelecimentos cadastrados em 1960. Em cada um trabalhavam em média três profissionais. Época em que a cidade teve o primeiro curso do Estado para formação de alfaiates. Funcionava na Escola Industrial Paulino Botelho, num prédio que existe até hoje na Vila Nery.

Peixe e Mascarin nunca frequentaram a escola dos alfaiates. Eram artífices forjados nas ante-salas das grandes alfaiatarias. Os dois trabalhavam nos fundos da alfaiataria do Geraldo Adabo. Ele era o oficial, o profissional que recebia os clientes, riscava o molde e cortava o tecido. A montagem das peças, como numa linha de produção, era trabalho para contramestres, oficiais, calceiros e camiseiros. A alfaiataria confeccionava 50 ternos por mês. 300 calças.

“O Geraldo cortava o serviço e passava para a gente costurar. Se o freguês vinha provar, ficava curto ou ficava comprido, passava para a gente, para fazer os ajustes”, conta Mascarin. Um terno completo, com calça, colete e paletó ficava pronto em uma semana. O serviço era usado por todos, ricos ou pobres. As alfaiatarias não produziam apenas as roupas bem cortadas. “Não era só terno. O sujeito ia trabalhar, mandava fazer uma calça, uma camisa. Se fosse um trabalho pesado, calça de brim. Fazíamos macacão, capa, guarda-pó”, lembra Mascarin.

As grandes alfaiatarias exploravam um mercado em crescimento. Confeccionavam roupas e uniformes para empresas como as Indústrias Matarazzo e a Cia Paulista de Estradas de Ferro. O ritmo era de uma linha de produção. “A gente entrada às seis da manhã e ia até as 11. Almoçava e depois ia até as seis da tarde, sem parar”, recorda seu Mascarin. Uma das imagens ainda viva é a dos funcionários das Indústrias Pereira Lopes – a extinta Companhia Brasileira de Tratores, a primeira empresa brasileira do setor – fazendo fila todo dia 10 na porta da alfaiataria para pagar a roupa comprada a prestação.

Os dois trabalharam com o seu Adabo durante 35 anos. Se aposentaram, mas continuaram a trabalhar por mais um ano e meio, até que a alfaiataria fechou. Abriram o próprio negócio. Levaram as máquinas de costura que até hoje usam, os balcões de imbuia e uma parte da clientela.


Ternos, trens e meninos

Da alfaiataria do Adabo, Peixe e Mascarin poderiam acompanhar – se quisessem – a movimentação na maior alfaiataria de São Carlos. Os estabelecimentos eram quase vizinhos. Mario Constanzo comandava o trabalho de 20 oficiais. A alfaiataria fazia os uniformes para os ferroviários da Estrada de Ferro Araraquarense. Terno azul marinho para os chefes de trem e de estação; amarelo ou cáqui para os escalões inferiores; e o branco, usado pelos garçons que serviam nos carros de passageiros.

Quem tem mais de 40 anos se lembra. Minha memória de menino fixou bem essa época nas intermináveis viagens pelos trilhos da Sorocabana. Chacoalhávamos durante 14, às vezes 17 horas, de Presidente Prudente a São Paulo. Passeio aguardado com ansiedade de quem vai descobrir mundos, inventar o futuro. Traquinagens nos corredores amplos ou entre bancos que se reclinavam de frente um para o outro. O terno escuro, o bolso bordado em dourado e o quepe azul com fita amarela junto à aba, impunham autoridade de polícia ao chefe do trem. Era preciso fazer tudo longe dele.

Os cobradores vinham em ternos cáqui, maquininha na mão, picotando as passagens que o pai guardava com cuidado. Filipetas estreitas e compridas, de papel duro, como um bilhete de metrô. A cada partida de uma estação, creck, creck. Os garçons trajavam paletó branco e traziam néctar. O gosto ácido adocicado do guaraná de tampinha com fundo de cortiça faz a boca salivar. O sabor da infância.

Alberto de Medeiros também tem as mesmas lembranças, as mesmas imagens. O advogado e presidente da ABASC olha para o passado, mas enxerga o presente. A sede de campo da associação se espalha por 23 hectares em área valorizada na rodovia para Ribeirão Preto. O terreno foi comprado em 1968. A sede foi inaugurada três anos depois. É um lugar amplo, com jardins bem cuidados, muitas árvores. O verde derrete tensões, arremete o olhar ao horizonte, pacifica a alma. Estreitas alamedas levam o visitante ao parque aquático.

O espelho d’água faz inveja a qualquer clube. São mais 1000 metros quadrados de águas azuis. Bertinho percorre as instalações como quem conhece cada centímetro, cada detalhe, cada particularidade. Afinal, a história do clube e a dele se confunde. Mas hoje tudo está vazio. Não há gente.

A pergunta surge naturalmente. Como artífices tão simplórios construíram um patrimônio tão imponente? 

- Primeiro construímos uma sede social na cidade. Quando decidimos construir a sede de campo, abrimos a associação para os não-alfaiates. Chegamos ter quatro mil sócios. Mas de 10 mil dependentes. Nossos bailes eram famosos. Hoje está tudo parado porque os bailes caíram de moda, como os alfaiates.


Cupins no balcão

O trabalho dos alfaiates começou a ser valorizado e reconhecido no século XIX e entrou em cheque a partir dos anos 1940, quando a indústria do prêt-à-porter – roupa pronta para vestir – ganha vida nos Estados Unidos. Era o início da massificação da moda. Os costumes começam a custar cada vez menos porque passaram a ser produzidos em escala. Ganharam novas matérias-primas. Os tecidos sintéticos podiam ser lavados e passados. Os novos maquinários eram mais rápidos e capazes de alavancar as produções em série. São dessa época as máquinas overloques e galoneiras.

A industrialização trouxe, contudo, a padronização. Na década de 1960, os alfaiates costumavam dizer aos clientes que nas vitrines das poucas lojas era possível encontrar três cores de ternos: cinza bancário, azul missa e marrom enterro. Alexandre Mirkail faz a brincadeira e solta uma gargalhada do outro lado do telefone. Esta é uma das piadas preferidas do diretor da Associação dos Alfaiates e Camiseiros do Estado de São Paulo. Aos 70 anos, ele ainda mantém a alfaiataria no bairro de Moema, em São Paulo. Aprendeu o ofício com o pai e abriu o próprio negócio quando a roupa industrializada chegava ao mercado brasileiro.

Apesar da grande concorrência se estabeleceu. “Tínhamos muitos profissionais, trabalhávamos com tecidos importados. Éramos muitos. Hoje, o número de alfaiatarias não passa de 1.500“, diz. “A maioria dos profissionais parou no tempo, sequer tira os cupins do balcão.” Ele, ao contrário, procurou se modernizar. Seguiu modas e tendências. Acompanhou o comportamento dos consumidores. Faz tudo de forma artesanal, sem desrespeitar o ritmo da vida no século XXI. Se for preciso vai até o escritório do cliente e diminuiu o prazo de entrega das roupas. Costura para banqueiros, juízes, empresários, gente que gosta de uma roupa bem feita. Seus costumes custam em média 3 mil reais, isso com o tecido oferecido pelo freguês. Faz 20 ternos por mês. “Formei meus dois filhos, moro em uma casa confortável, tem até piscina”, diz.

 
Industrialização, informalidade e resistência

Ainda hoje, o terno é sinônimo de poder e status em muitas áreas. Menos no mundo da economia criativa – como a dos publicitários, artistas e da informática. Os grandes empresários da web não usam ternos em ocasião alguma e são valorizados por isso. “Quanto mais informal for o visual, mais são percebidos como modernos e ligados ao universo tecnológico”, diz Miti Shitara, professora de história da moda da Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo. A moda masculina caminhou para a casualização, para a praticidade. Abriu-se um novo espaço para o guarda-roupa nas empresas. Ao mesmo tempo, os jovens impuseram um novo visual, cada vez mais informal ao ambiente corporativo. 

Esta é apenas uma das explicações para o desaparecimento dos alfaiates, mas não a única. “A industrialização praticamente acabou com a classe dos alfaiates”, diz o presidente da ABASC. Como os alfaiates, algumas categorias profissionais desaparecem no mesmo ritmo em que seu Chico, ou melhor Francisco de Santis, empresário bem sucedido de São Carlos e um dos mais antigos da cidade, traça a giz linhas sobre o tecido a ser cortado. Lentamente. São sapateiros, datilógrafos, telefonistas, mecânicos de máquinas de escrever. Outras parecem surgir na mesma velocidade dos motoboys. A Classificação Brasileira de Ocupações, uma lista com 2.422 atividades – de prostituta a senador da República – ainda mantém o alfaiate entres as profissões oficialmente reconhecidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Mas é impossível saber quantos eles são.

Em São Carlos restam quatro alfaiatarias. Pouco mais de 20 profissionais na ativa. Uma atividade exercida por amor. “O segredo para fazer uma roupa bem feita é gostar da profissão”, ensina seu Chico. “Não conheci um alfaiate que não fosse inteligente. É uma profissão como a medicina ou a advocacia. É preciso muitos anos de estudos”, completa.

- E qual o futuro da profissão, seu Chico?

A pergunta lhe parece uma provocação. A resposta vem no mesmo tom:

- Enquanto houver homem baixo e gordo, ou alto e magro, a roupa sob medida vai existir. Ou você acha que esses homens compram roupas feitas?

 
De volta ao passado

O semblante sereno de seu Chico, dos altos dos seus 89 anos, é um convite para entrar num espaço surpreendente. Ele me recebe ao lado da mulher, dona Lurdes, numa casa confortável, no Largo São Benedito, onde fica uma das igrejas mais tradicionais da cidade. A decoração é austera. Os móveis são antigos, finos e de bom gosto. Na vizinhança quase não há residenciais. Por todos os lados, apenas lojas comerciais.

O ateliê de costura fica num quarto ao lado da garagem onde está estacionada uma kombi modelo 67. Intacta. Tudo original. O carro ainda o leva para os passeios nos fins de tarde. Antes de entrarmos no ateliê, a inspeção da relíquia é obrigatória. Seu Chico de Santis está em traje de gala. Veste um terno do mais puro tweed, cortado por ele mesmo. A gravata é de seda colorida. Muito colorida. No bolso da lapela, um lenço também de seda cuidadosamente arranjado. Estou diante de um gentleman. Um tipo de homem com o qual não se cruza com facilidade pelas ruas. A cabeleira de fios brancos, fininhos, lhe dá um ar de avô bonachão. E ele o é. O relógio de ouro no pulso esquerdo é a evidência que o alfaiate fez sucesso na carreira. Dono de uma rede de lojas de tintas, uma construtora também leva o seu nome. Hoj e, os negócios são administrados pelos filhos.

Nos últimos 12 anos é no ateliê de costura que ele se sente bem. O espaço é pequeno. Não mais que 20 metros quadrados. Caixas e mais caixas amontoadas pelos cantos, duas máquinas de costura, tábua de passar roupa, mesa, moldes e réguas pendendo pelas paredes diminuem ainda mais o espaço. A sensação é de aperto. Seu Chico decidiu reabrir a alfaiataria por puro prazer. Ele exerceu a profissão por 36 anos até que trocou tesouras e tecidos pelo comércio.

As economias foram usadas para abrir uma loja de tintas. O negócio prosperou e o filho de imigrantes italianos pobres decidiu se tornar construtor. Ergueu e vendeu 30 casas. Os filhos tomaram a frente das empresas e ele conheceu o tédio da aposentadoria por outros 10 anos. Até reabrir a alfaiataria.

- É o que eu mais gosto de fazer. Eu adoro sentar numa máquina e fazer um paletó.

A tesoura é a mesma. Pesada, feita em bronze. Faz cortes precisos. A lâmina grossa cinge os caminhos traçados pelo giz com segurança. O movimento fica refletido nas lentes levemente esverdeadas dos óculos. Tem a segurança dos mestres. Espelhos nas paredes enquadram o artífice em vários ângulos. Sentado na máquina de costura PFAFF – a indústria alemã sediada na cidade de Kaiserslautern é a maior fabricante de máquinas de costura do mundo – mãos hábeis guiam o tecido em direção à agulha que sobe e desce continuamente. O mecanismo é acionado pelo vai e vem do pedal, a plataforma onde estão repousados os pés. Conforme o ritmo que ele imprime aos pés, o motor acelera os processos na mesma proporção. O sincronismo é perfeito. Pés, mãos, máquina.

 
Os jovens aprendizes

Chico de Santis relembra emocionado os tempos de menino. Antes da primeira metade do século passado, os estudos terminavam cedo para os filhos das famílias pobres, dos operários e dos imigrantes. Aos 10 anos – levado pelo pai – o menino trocou os bancos escolares pelo ambiente insalubre de uma marcenaria. Uma semana depois ele desistiu. O barulho ensurdecedor das serras fez com que a arte dos marceneiros o perdesse: saiu e entrou numa alfaiataria.

Era uma das mais afamadas da cidade, a do imigrante italiano Eugenio Galluci. “Peguei gosto e com 14 anos já era oficial de paletós. Me apaixonei pela profissão”, lembra. O aprendizado foi rápido. Na época, os jovens aprendizes só se tornavam oficiais por volta dos 20, 25 anos de idade. Eram anos e anos de dedicação ao ofício. A recordação está enquadrada na parede do salão. Na foto em branco e preto de bordas desbotadas, cinco oficiais posam na sala ampla da alfaiataria Galluci, em meio a máquinas de costura e o balcão de madeira. Usam camisa branca de manga comprida, gravata e suspensório. Entre eles, 3 meninos, quase crianças ainda. Um deles é Chico de Santis.

A trajetória desses profissionais já foi mapeada pela professora Miti Shitara, e se cruza com os perfis dos velhos mestres de São Carlos. O estudo revela que os alfaiates brasileiros têm em torno de 70 anos e quase nenhum seguidor. O imediatismo da vida moderna descarta a possibilidade do surgimento de novos talentos. “Um bom alfaiate não se forma em menos de uma década”, diz a estudiosa. E arremata: “Os profissionais que existem hoje sobrevivem fazendo roupas para pessoas conservadoras, dispostas a pagar por um serviço exclusivo, com disposição para fazer uma, duas, três provas até ter a roupa acabada”.

Na alfaiataria Galluci, o rapaz continuou queimando etapas e aos 23 anos deu o grito de independência. Abriu a própria alfaiataria: “Desde aquele dia nunca mais trabalhei de empregado para ninguém”. A freguesia aumentou, ficou cativa. Logo surgiam clientes em Campinas, em Araraquara, em Jaboticabal. “Pelo menos uma vez por semana eu viajava para atendê-los. Me lembro que quase todos os funcionários do DER eram meus clientes”, diz.

- Quantos clientes o senhor tem?

Seu Chico recorre à caderneta de capa cinza onde estão anotadas as medidas dos fregueses. Ele passa os olhos pelas páginas gastas do “fêche” – uma corruptela para a palavra francesa “fichier”, fichário – e contabiliza 40 nomes. Todos escolhidos a dedo. Nenhum deles escolheu seu Chico. Ele os escolheu. Entre os eleitos, o contabilista Fernando Celso Rizzo. Ele está no ateliê para mais uma sessão de provas. Veste o paletó risca de giz com as mangas apenas alinhavadas. É um modelo tradicional, três botões, tecido de cambraia, todo forrado. O bolso é clássico, com portinhola.

Fernando tem altura mediana. Porte atlético para um homem de mais de 60 anos. Os fios grisalhos lhe emprestam um certo charme. Veste-se com extremo bom gosto. Não dispensa o terno na maioria das ocasiões. Seu Chico faz os ajustes. A longa relação de negócios fez deles amigos. Fernando é responsável pela contabilidade da alfaiataria e das empresas dos Santis.

- Só não praticamos o escambo. Nunca trocamos terno por serviços - brinca. O contador não se lembra se este é o vigésimo ou trigésimo terno feito por seu Chico. Mas não se esquece do primeiro. O jaquetão de quatro botões transpassados do primeiro baile. Era um adolescente.
- Era um estilo portenho. Os argentinos sempre foram muitos elegantes e na época eram modelo para nós. Eu conheci o Chico acompanhando o meu pai, ainda de calças curtas. Meu pai vindo fazer as provas. Eu não me lembro da figura do meu pai sem ser de terno. Usava dia e noite, para trabalhar, em casa...

O contador vem à prova final do terno acompanhado do filho. Celso tem 37 anos e é advogado. Pertence à terceira geração da família que faz roupas com seu Chico. Como o avô – também um alfaiate – faz questão de roupas feitas sob medida. Segue o pai num modelo tradicional, de três botões, mas o tecido é um modal Carrara, em cinza clarinho. O costume, é claro, foi cortado pelas mãos do alfaiate. De seu Chico, guarda uma lição que o livrou para sempre do drama de tantos jovens.

- Foi ele quem me ensinou a dar o nó na gravata.

 
Cerzir, reformar e modernizar

Na alfaiataria Peixe-Mascarin, assim como no encontro com seu Chico, as histórias são relembradas em clima de nostalgia e a tarde passa vagarosa. Um casal jovem entra. Cliente? Não, apenas dois promotores de vendas do Banco do Povo. Entregam um folheto ao seu Mascarin. “É uma linha de crédito especial para comerciantes como o senhor, que tem o próprio negócio e está precisando de dinheiro para comprar equipamentos, material de consumo ou modernizar o negócio.” O texto é mecânico. Eles sequer percebem a ironia da oferta.

A única cliente da tarde chega por volta das 5 horas. A mulher bem vestida traz uma sacola de plástico na mão e dela retira uma calça masculina. A conversa é rápida. Do diálogo, apenas algumas palavras são ouvidas: barra, apertar, entrar... É um conserto!

- Essa é uma das minhas melhores freguesas – diz seu Mascarin, trazendo a peça amarfanhada nas mãos. A calça é logo estendida sobre o balcão de madeira. Giz, régua e tesoura entram em ação. A previsão se confirma. É uma reforma de uma peça usada. O tempo a deixou grande ou pequena. Já não cabe no corpo de quem a comprou numa loja de roupas prontas.
- O senhor não faz mais ternos?
- Terno aparece algum. Mas nós não estamos mais pegando. Calça a gente ainda pega. Mas o que aparece mais é conserto.

As seis décadas de trabalho de Roque Mascarin e Sebastião Peixe foram suficientes apenas para lhes dar o mínimo: filhos criados, uma casa simples, não mais que isso. Mas fizeram deles homens dignos. São os últimos representantes de uma profissão que se esvai, como um pano esgarçado pelo uso.

* Jornalista e pós-graduando em Jornalismo Literário pela ABJL (www.abjl.org.br), turma São Paulo 2009.
r. general jardim, 618 / 51 - são paulo / sp + 55 11 3129-8320