TextoVivo - Narrativas da vida real

busca procurar em:
02/02/2010 | enviar a um amigo | imprimir | a-   a+

Quartos para moças

Marcos Fidalgo *

A casa é bem localizada. Nas cercanias há uma padaria, uma farmácia, bares, lanchonetes, um ponto de táxi e dois de ônibus, um para cada sentido. De carro até a estação Vila Mariana do metrô são cerca de cinco minutos. De ônibus, dez. Enfim, é uma casa perto de tudo, em um dos melhores bairros de São Paulo, a Vila Mariana. Assim seria sua propaganda em um programa de anúncios imobiliários, desses que passam em horários e canais não muito convencionais.

Mas a casa não está à venda. Tão pouco para alugar. O que se aluga nela são os quartos. No momento resta apenas um. Os demais estão ocupados. E ocupados por quatro mulheres: Dona Marlene (a dona da casa), Rosana (filha de Dona Marlene), e Renata e Viviane, que pagam o aluguel de um dos quartos.

Na casa não entram homens, exceto para serviços técnicos. Sequer bichos machos são bem-vindos. O macho de uma tartaruga recém-nascida foi despejado. Para minha sorte, aquela segunda-feira de maio, quente apesar do outono, fui uma exceção. Cheguei à casa por meio do cotovelo de Renata.

Explico. Eu a conheci no metrô quando ainda era verão. A caminho das catracas da estação São Judas ela ofereceu-me ajuda, e mesmo não precisando, resolvi aceitar. No trajeto, contou-me um pouco de sua vida e da casa em que dormia nos dias de semana. Foi ela que negociou minha ida. Foi ela que abriu o portão para eu passar. Era um portão da altura de minha cintura, raros de se ver nesses tempos de cercas elétricas e câmeras 24-horas.

Passando o portão, mais alguns passos pelo corredor, e chegamos à porta que abre para a sala. Renata gira a chave e entramos. Na TV passava um programa policial, estilo Datena. Dona Marlene me cumprimentou, atentando-me para a tela: “Marcos, você viu o acidente do avião que caiu na Bahia?”.

Sentadas no sofá as mulheres discutiam qual seria o melhor lugar para comprar a panela elétrica que Dona Marlene havia visto na televisão. “Dá pra fazer arroz nela, pimentão, abobrinha... Quando fica pronto ela desliga e mantém o calor por dois dias!”, explicou. Renata sugeriu pesquisar na internet, nos sites que de tudo vendem. Talvez fosse mais barato. Vivi se ofereceu para pesquisar. Já Rosana não via necessidade no utensílio. “Não sei por que ela quer essa bendita dessa panela?”

Todas reunidas. Um momento de exceção, tal como a presença do homem de bengala e gravador na mão. Por conta dos diferentes horários de cada uma, dificilmente se vêem. Mesmo assim, vivem em família, acredita Dona Marlene. “Aqui ninguém critica, ninguém fala mal da outra.”

Mas quando o assunto é a cor da fachada da casa as mulheres divergem. Para Viviane, é creme. Já Renata acha que é Rosa. Dona Marlene a enxerga “amarelinha”, e para os olhos castanhos de Rosana, não é rosa, nem creme, tão pouco amarelinha. É “fruta-cor”.

- Fruta-cor?- Pergunto.
- Fruta-cor é a mistura de todas as cores... - Definiu Rosana.

Fechei os olhos e imaginei todas as cores que vi na vida. Na confusão de pincéis não cheguei a nenhuma conclusão.


Por uma visão de dentro

Já dentro, a sala é de uma claridade perfeitamente imaginável. “Ela é toda branquinha! Tem uma escada bem no meio dela, uns armários em mármore com as coisas da Rô, dois sofás cor de vinho, estampados de lilás...”, descreveu-me Dona Marlene.
       
Antes de ser moradia a casa era um enorme salão de beleza, todo coordenado por Rosana. Nos fundos da sala, a pia, o espelho e a cadeira giratória ainda são lembranças táteis daquela época. Quando por ali passam, as mulheres param, se olham, ajeitam o cabelo e seguem. Havendo um pouco mais de tempo usam o secador que ainda ventila.

Na parte de cima, um quarto era destinado à depilação, outro à limpeza de pele, e o outro era uma loja de produtos estéticos. Foi quando ainda era salão que a casa recebeu a sua primeira hóspede. Regina era uma jovem fina que estava doente. Seu namorado a traíra com sua prima. Veio por intermédio da irmã de Dona Marlene, querendo apenas uma cama e um pouco de colo. Dona Marlene lhe ofereceu um quarto nos fundos da casa. Regina veio, gostou e ficou por dezesseis anos. “Nós fomos muito bonzinhos com ela”, lembra Dona Marlene.

Aos poucos, porém, o salão foi perdendo força.  No chão da sala já não caíam tantos cabelos como antes. “Por que a senhora não aluga pra moças? Tenho várias amigas que gostariam de morar aqui”, sugeriu Regina à Dona Marlene. A sugestão foi aceita, e as amigas de Regina vieram. Saía o salão, erguia-se à pensão.

Quando as primeiras hóspedes devolveram as chaves, Dona Marlene e Rosana penduraram uma placa na frente da casa: “Aluga-se quartos para moças – Ambiente familiar”. E não basta ser moça, tem que ser moça bonita. “A Rosana só quer mulher bonita. Se for feia, falamos que já tá alugado”, contou.

Dona Marlene nunca teve grandes problemas com nenhuma hóspede. Para algumas que chegam, não precisa falar nada. Já para outras sente que precisa explicar as regras:

1. Proibido trazer namorado
2. Proibido namorar no portão
3. Proibido namorar no carro estacionado na frente do portão.

Enquanto as mulheres discutiam a panela, levantei-me e fui conhecer a casa, guiado pelos olhos de Renata. Primeiro fomos à cozinha na seqüência da sala. Na entrada, à esquerda, uma mesa pequena, redonda, onde me sentei para tomar uma água gelada. Em minhas costas, uma geladeira, de frente para outra. Uma é para Dona Marlene e Rosana, e a outra para os “hóspedes”. Mas tudo acaba se misturando. Apesar de serem quatro mulheres, não são lá tão metódicas como parecem ser. “Aqui temos horários rigorosos, tudo muito bem controlado”, disse-me Rosana cinicamente.

Terminei a água e seguimos entre as geladeiras até chegarmos ao fogão, ainda sem a panela elétrica de Dona Marlene. À direita do fogão, a pia; e atrás dele, as roupas no varal à espera de um vento que as secasse.

Desde quando entramos na cozinha podia-se ouvir um barulho de televisão vindo dos fundos da casa. “É a TV do quarto da Rosana”, diz Renata. O quarto está um passo além da lavanderia. Foi também o quarto de Regina. “O quarto é grande, tem computador lá dentro, tem o sofá, tem uma cômoda, a TV dela é grande, ela é em cima da cômoda...”, me contou Dona Marlene.

- A Rosana, Rê?
- A Rosana é cheinha. Ela bate aqui no seu ombro
- 1,65?
- Isso!
- Loira, morena?
- Loira!
- Loira tingida - ressaltou Dona Marlene.

Foi aos poucos que Rosana deixou de ser Morena. Foi com doze anos, quando trabalhava no salão do Hotel Hilton, o mais imponente prédio da avenida Ipiranga. Para a mãe não ter um choque, pedia para seu patrão colorir um pouco por dia. “Ela foi me enganando!” Mas Dona Marlene se acostumou e gostou: “A Rosana orna bem de loira...”.

Rosana tem ficado mais no quarto que em outra parte da casa. Por ter sido operada recentemente, precisa ficar deitada boa parte do tempo. Há dois anos fez uma cirurgia de redução de estômago. Porém, vieram complicações do peso de três quilos – o tamanho da hérnia que apareceu. A hérnia foi tirada e agora Rosana repousa deitada, às vezes sentada na sala, à espera da liberação dos médicos, o que não virá tão cedo. Disseram-lhe que precisa de repouso por um tempo indeterminado. Naquela segunda-feira, só a consideração por Renata a fez “receber o jornalista”.

“Você acha que eu ia atender um cara, às 8h da noite, para ficar falando da minha vida? Mas nem que você fosse o Alain Delon!”, brincou.

Rosana quer levantar. Quer voltar ao salão de beleza em que trabalha. Também pensa em novamente cortar cabelos sobre o chão da sala. Já são quase vinte e cinco anos de profissão. Desses vinte e cinco, catorze foram trabalhados no SBT preparando o cabelo dos artistas. Só com Hebe Camargo foram quase nove anos.

“A Hebe é normal, igual à gente.” Entre uma olhada no espelho e uma ajeitada no cabelo da apresentadora, ouvia relatos de sua vida cotidiana, como a quebra de um copo, uma dor de barriga ou uma briga em casa. Foram anos inesquecíveis. E as festas então? “Mãe, a senhora se lembra das festas?”

No salão, todos querem que ela volte. Não há ninguém como ela, ninguém que prepare uma noiva tão bem como ela. Esta é sua especialidade. Rosana presta consultoria às noivas. Diz o que a noiva deve e não deve fazer na semana que antecede o matrimônio, o que comer, o que não comer, até no dia em que a recebe para preparar seu cabelo e acalmar sua ansiedade. Ela sabe o quanto àquele instante é especial para a mulher ali sentada. “É um momento em que ela vai sempre se lembrar de mim.”

Rosana já esteve do outro lado. Já se sentou na cadeira de um salão, horas antes de se casar, para preparar seus cabelos, loiros como os de Hebe. Foi há vinte e três anos, quando tinha dezessete. Depois de sete meses de namoro, decidiram casar. “Era uma louca desvairada”. Foram seis anos de um casamento feliz. A loucura tinha razão de ser. Mas a cegueira do sogro, em decorrência de uma catarata, fez o marido querer voltar ao Rio Grande do Sul para ficar ao lado do pai. ”Você vem comigo?”, perguntou o marido a Rosana.

Ela não foi. Não quis a distância da mãe. Hoje não pensa mais em casar. Quer ficar apenas com seus problemas, seu salão e suas noivas.

Seguro no braço de Renata. De volta à cozinha, o cachorro da casa vem me cheirar. Parecia dócil. Decido agradá-lo. Abaixo minha mão direita para acariciar sua cabeça. Ele late. Late forte. Só não me mordeu porque era um vira-lata, ou melhor, uma vira-lata chamada Gabi. “Calma, ela não faz nada.”

Passamos pela sala, e subimos em direção aos quartos. “Marcos, cuidado com a escada”, me alertou Dona Marlene. “Renata, cuidado aí!” A escada é em caracol. Nos primeiros degraus não há corrimão, só o braço de Renata. Cheguei ao topo com segurança. Viramos à esquerda, alguns passos sobre o corredor de madeira, e chegamos ao quarto de Renata e Viviane. Renata dorme na cama da esquerda, sem travesseiros, abraçada a seu bichinho de pelúcia, um cachorrinho chamado Davi. “A Renata é linda de morrer! Ela é magrinha, roliça, cabelos negros, olho castanho, dentinho lindo, pezinho lindo...”, descreve-a Dona Marlene.

Davi foi um presente da amiga Helen quando Renata tinha dez anos. Por aqueles dias, Helen enviou-lhe uma carta. As duas gostam de se escrever.


Amigo, para mim, é isto: é a pessoa com quem a gente gosta
de conversar do igual o igual, desarmado

João Guimarães Rosa

Jujubinha, não é que me deu uma vontade de lhe escrever, que nem nos velhos tempos...

Foi em um domingo chuvoso de fevereiro de 2009, debaixo de um guarda-chuva, que Renata chegou a casa. Morara antes em uma quitinete, de frente ao Parque da Aclimação. Mas, apesar do verde da vista, as árvores não eram companhias suficientes. Sentia-se sozinha. Por várias vezes se viu chorando no banco da pracinha ali perto, ou agarrada a Davi, nas noites de vento forte.

“Eu tava injuriada. As mulheres lá eram muito barraqueiras. Tinha medo delas...”

Seu sonho é ser professora. Seu hobbie é escrever poesias. “Na minha janela...” é uma das suas.

Tudo é fantasia, os carros, os rios, a lua, o sol, e o meu eu em você!
Tudo fica guardado por trás de uma nuvem, onde o arco-íris é pintado à mão no céu, as flores são brancas, e o amor é o paraíso!

Tão inconstantes são os sentimentos moldados ao carinho, o abstrato pode ser quente ou gelado, depende da ocasião, depende da necessidade, depende do caminho!
Uns procuram perfeição, outros a simplicidade de um olhar calado.

Já perdi minha linha de raciocínio, não há espaço para os viajantes que deliram nos mares das veias. Não existe uma estrada o certa a seguir, mas existem pessoas que não há como não serem notadas!

Na inconstância dos meus dias eu vou trilhando o caminho,  vou testando minha coragem, sem procurar mais ninguém, sem acalentar qualquer outro alguém,
Sem deixar os ventos da neblina e dos afagos falsos do mundo me acalentarem...
Tudo é fantasia, tudo não passa de uma mera e tão sonhada miragem, o real está escondido por trás de um único  olhar, o seu olhar!

Debaixo da cama, uma mala com as roupas que ela leva e trás de Juquitiba. Nos finais de semana Renata volta a sua cidade, na grande São Paulo, para visitar os pais, sentir o ar puro do sítio em que cresceu e dar aula aos sábados para crianças com dificuldades de aprendizado.

Durante a semana, trabalha das 9h as 18h em uma distribuidora de DVDs no bairro do Campo Belo. Depois pega o metrô, ajuda algum deficiente visual que porventura está em seu caminho e segue para a faculdade de Letras, na rua Vergueiro. Tudo perto, sem precisar sair da zona sul.

"Eu fico tão feliz de ver que tá acontecendo tanta coisa linda na tua vida...”

Ao lado da mala de roupas, há uma caixa com livros da faculdade. Na cômoda ao lado da porta, um livro de Paulo Leminski, que apesar da distância de sua cama, é o seu de cabeceira. Ela o apanhou, abriu em uma página qualquer e me leu com voz de recital:

Parada Cardíaca

Essa minha secura
Essa falta de sentimento
Não tem ninguém que segure,
Vem de dentro.

Vem da zona escura
Donde vem o que sinto.
Sinto muito, sentir muito lento.

Paulo Leminski


Pelo desejo dos pais, Renata só sairia de Juquitiba para estudar Pedagogia em Taboão da Serra, cidade vizinha. Durante um ano, foi o que Renata fez. Mas não era o que queria. Ela nunca quis Pedagogia, Taboão ou Juquitiba para sempre. Ela queria as Letras e a cidade grande, com suas letras nos letreiros garrafais. “Você não vai conseguir”, disse-lhe o pai. Depois de mais de três anos e muitas lágrimas caídas, Renata vem provando o oposto. Entre seus braços, Davi que o diga. 

Engraçado que veio a distância para me separar da tua luz, deu aquele reboliço, nós ficamos mais fortes e, agora te sinto mais perto, enfim a Renata está inteira outra vez!
Carrego você comigo, pois estás em meu coração!
Amo você!
“Beijinhos da Alice (Helen)!” (Juquitiba- 9/05/09)

Ao lado da cama de Renata, está a de Viviane. “Eu sou a Vivi que fala muito, e que agüenta a Renata!”, apresentou-se. “A Vivi é alta, magra, corpo bom! Tem olhos verdes, e cabelo curto.”, descreveu Dona Marlene. “Curtinho e enroladinho”, detalhou Renata.

Vivi tem um leve sotaque nordestino, misturado com pitadas paranaenses, com aquele “E” bem aberto. É do tipo que fala: Leite quente. No Guarujá, quando a ouvem, pensam que é de algum outro lugar. Mas ela é mesmo de ali.

Vivi está em São Paulo há pouco mais de dois anos. Antes de chegar à pensão, em dezembro de 2008, morou de aluguel em uma casa em Santo André, e com uma amiga em São Bernardo. Também foi em dezembro que esteve à última vez com a família no Guarujá. No entanto, nesses cinco meses que não regressa, Vivi recebe, com intervalos de uns 15 dias, a visita da mãe por meio de cartas.

Hoje estou muito feliz pela resposta da sua carta.
Aqui estamos todos com saúde.
Desejo que estas duas linhas encontrem você com muita saúde e disposição.
Mando um abraço para dona Marlene.
Desejo muita sorte!
Que Deus esteja sempre com vocês, e que o sol brilhe no seu caminho.
No dia 10 do mês seis deposito dinheiro na sua conta.
Juízo!

Ah! Vivi como vai seu trabalho?
Como vai seu bem?
Como vai sua vida?
Me escreva
Um bom dia a Todos!”. (Guarujá 22/05/2009)

Na frente de sua cama Vivi tem uma televisão e uma pequena pilha de DVDs. De música, gosta de Ana Carolina. De filme, das comédias.

Ela está apaixonada por São Paulo. Nos fins de semana, gosta de ir à noite às baladas da Vila Olímpia, e na claridade, de ir fazer feira com Dona Marlene, e de passear com o amigo Jaderson.  Gostam de ir à Paulista, ao MASP, à Casa das Rosas. Quando sentem fome, param no Mac Donald’s.

- Vocês namoram? - Perguntei
- Não, ele tem 18 anos, tem idade pra ser meu filho!

Certa vez, indo de ônibus visitar a amiga de São Bernardo, viu da janela um prédio de uma empresa. Eram dois blocos na cor bege, com quatro andares cada, e com janelas de vidro pretas. Um prédio comum? Não para seu olhar. “Queria tanto trabalhar nessa empresa...”

O ônibus continuou. Fez mais duas paradas. Vivi Visitou a família no Guarujá, e entrou em um curso técnico de informática. Ao final do treinamento foi contratada. No entanto, nunca ouvira falar naquela empresa. Sequer sabia onde ficava. Pegou o endereço, e subiu no ônibus novamente. Quando desceu, estava de frente para os dois blocos beges. Seria verdade? Descera no lugar certo? Tirou da bolsa o papel dobrado com o endereço, e comparou com a sigla impressa na placa de aço da fachada. As três letras batiam. ”Vi que quando se acredita em algo que se quer muito, você consegue!” De sonhos, restam agora o de ver o filho Pedro nascer e o de erguer a casa de veraneio na praia de Pernambuco, que, para ela, é a mais linda do Guarujá.

Voltamos ao corredor, viramos para a esquerda. Ali está o banheiro de azulejos azuis. De frente para a porta está a pia; à direita, o bidê e a privada, e, mais ao canto, o box de mármore estático. Tudo muito limpo. Ali o cheiro da bagunça não sobe pelo ralo. “Aqui não é como aquelas pensões horrorosas com aquelas filas pra tomar banho. Aqui ninguém precisa ficar batendo na porta”, contou Dona Marlene.

-E ela, Rê?
-Ela tem 1,50m, cabelo ruivo curtinho, pele da cor da sua. Sendo assim, é mais uma que precisa se proteger diante dos raios de sol.


"Por que você está rindo?"

Seguimos no corredor até seu quarto.  É o último do corredor, à esquerda. “Meu quarto é grande. Tem uma divisória bem bonita de vidro. Tem duas camas de solteiro, uma de cada lado da separação.” Na semana que vem a amiga Sônia vem do interior para visitá-la. “Eu deixo uma cama justamente para quando ela  vem me visitar.”

Em 2007, por conta de dois AVCs, Dona Marlene dormiu dias em quartos estranhos de hospitais. O primeiro AVC foi no feriado de Tiradentes. Chovia forte as 18h30 na Vila Mariana. Dona Marlene estava sentada na sala quando os ossos de sua face começaram a entortar, contra sua vontade. Desesperada, Rosana a viu, e saiu com ela de carro para o hospital, desviando das árvores caídas pelas ruas do bairro sem luz. Chegaram a tempo.

Dia 8 de junho daquele ano Rosana recebeu uma ligação do consultório do médico de Dona Marlene. Durante a consulta, a voz de Dona Marlene ficou gaguejante e seu pescoço parou de girar. Era o segundo AVC. “Eu lembro de tudo, de tudo! ”

Já são vinte e dois anos naquela casa. Dona Marlene já era viúva quando ali chegou. “Meu marido morreu de câncer, com uns trinta e cinco anos. Ele era bonito! Era alto, cabelo preto e pele clarinha. Mas ele era muito chato...” Com ele, Dona Marlene não podia ir à praia. Sequer podia rir. “Se eu ria, ele perguntava: Por que você está rindo? Só voltei a sorrir quando ele morreu.”

O marido morreu jovem e em um tempo em que “o jovem não morria”. “Antigamente só morria velho. Hoje vocês morrem de tragédia, de trombada... Hoje vocês se matam...” Para ela, havia mais tempo naquele tempo, mais dinheiro, as pessoas eram mais honestas e os beijos eram escondidos para que depois ninguém comentasse na rua Costa Aguiar. “Morei minha vida inteira ali no Ipiranga...”

Dona Marlene gosta de transmitir boas mensagens por baixo das portas. A última que mandou às meninas foi uma mensagem de páscoa. Quando percebe que alguma menina não está bem, logo apanha um papel e uma caneta. “Eu sei quando elas entram se tão numa boa ou numa pior. Eu sei tudo. Sei a época em que elas estão tristes. Eu sei tudo, tudo. A Vivi outro dia. Coitada, tava tão cansadinha!”
 
Em uma manhã, na padaria Dona Marlene encontrou uma jovem senhora. Conversaram por alguns instantes na fila do pão o suficiente para Dona Marlene contar de seus dois AVCs e para a jovem presenteá-la com um livro de mensagens religiosas. Agradecida, Dona Marlene escreveu uma carta. Vai deixá-la pessoalmente na caixa postal da mais nova amiga. Mas prefere não entrar. “Lá eles são muito chiques. Lá é cheio de juízes, de gente importante. O marido dela é desembargador...”

- A senhora poderia me ler a carta? - Pedi.
- Claro!

Ela sentou-se ao meu lado, buscou saliva com a língua e leu-me:

Tomo a liberdade de te escrever. Espero que você se lembre de mim. Eu sou a senhora que conversamos por alguns minutos, e te contei que no ano de 2007 tive dois derrames cerebrais. Aí foi uma surpresa, ganhei um livro seu: “A Palavra Para Hoje”.

Fiquei muito emocionada, adorei o livro, ele chegou na hora certa. Minha filha foi operada e tive muita força. Nunca te esqueço, jovem e lindíssima. Não sei seu nome. Agora, olha como eu fui cara-de-pau: Bom, como o livro já venceu (os dizeres têm validade até maio), gostaria que me mandasse outro!

Ass. Maria Marlene Prieto


Desço as escadas com Renata. Dona Marlene estava sozinha na sala. Contou que comprou a panela em dez prestações. Antes de sair, mostrou-me na parede algo que minhas mãos ainda não haviam visto. Era um quadro da Santa Ceia, feito em auto relevo, pintado de dourado por Rosana. Por ser em auto relevo, fui até ele e o toquei. “Esse aí é Jesus”, disse-me Dona Marlene. Com minha mão direita segui percorrendo os apóstolos de gesso. Já estava de mochila nas costas, pronto para sair.

“Ah, Marcos, e no alto do quadro tá escrito em dourado: Que Deus abençoe Esta Casa.”

* Jornalista e pós-graduando em Jornalismo Literário pela ABJL (www.abjl.org.br), turma São Paulo 2009.
r. general jardim, 618 / 51 - são paulo / sp + 55 11 3129-8320