TextoVivo - Narrativas da vida real

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05/01/2010 | enviar a um amigo | imprimir | a-   a+

Professores aprendendo


Sibélia Schuler Zanon*


O aprendizado da vida deve dar consciência de que “a verdadeira vida”, para usar a expressão de Rimbaud, não está tanto nas necessidades utilitárias – às quais ninguém consegue escapar -, mas na plenitude de si e na qualidade poética da existência, porque viver exige, de cada um, lucidez e compreensão ao mesmo tempo, e, mais amplamente, a mobilização de todas as aptidões humanas.
Edgar Morin


- Pode ser um corredor estreito, ladeado por altos muros, desde que do chão se possa voar até a copa das árvores que se perdem em meio à fileira dos telhados. - Fernanda lê o livro “Quintais”, de Cris Tavares.

Enquanto os quintais de Cris Tavares são palco do nosso encontro, minha mente escapa e a pequena menina se vê em seu próprio quintal: uma rampa comprida que desce até a rua rodeada por grama e árvores. Atrás da casa, o pessegueiro preferido do pai. Coletar sementes e morangos silvestres ou se entregar ao ócio da colcha azul estendida sobre a grama? Cris me chama de volta aos seus quintais. Vejo as pessoas a minha volta. Não são crianças, são mulheres. Seis mulheres, entre os 20 e os 40 anos sentadas em cadeiras pequenas, cadeiras geralmente ocupadas por meninos e meninas de três a cinco anos. Será que elas ficaram com Cris o tempo todo ou, assim como eu, escaparam para os quintais dos tempos em que havia pouca perna para muito mundo?

A vida cresce, engorda, alonga e sugere que existe um mundo coerente para o tamanho das nossas pernas. Mas não é essa a sensação. Muitas vezes somos criaturas frágeis e cambaleantes num universo de titãs. Adultos às vezes se sentem assim. E como será que crianças entre um e cinco anos experimentam o cotidiano na escola? Como pintar com cor, entrar nas brincadeiras, criar as oportunidades de crescimento, gerar a sensação de proteção e o prazer dentro da escola? É esse jogo reflexivo que Fernanda queria despertar ao ler sobre as lembranças dos quintais:

– É bom a gente lembrar a nossa infância gostosa para pensar na infância dos nossos pequenos, resgatar as coisas boas que temos dentro da gente.

Fernanda é formadora do Projeto DICA, um programa que atua há seis anos na capacitação continuada dos professores da rede de ensino de São Caetano do Sul (SP). A Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Marilene de Oliveira Larocca é uma das escolas que ela costuma visitar. Sentadas nas cadeiras das crianças, em volta de duas mesas azuis baixinhas, estão a professora Marcia e cinco auxiliares de uma mesma turminha de crianças de um a dois anos. Uma vez por mês, em data previamente agendada, Fernanda tem um encontro com essas educadoras, todas do Grupo 1. A cada mês muda o tema e o estilo da reunião: Fernanda traz uma nova proposta de atividade baseada nas experiências atuais, nos desejos e dúvidas das professoras e naquilo que parece enriquecedor para o momento.

A leitura de “Quintais” abriu o encontro que hoje será pautado na reflexão de tópicos práticos de sala de aula. Com o semestre chegando ao fim, muitas situações cotidianas já foram trabalhadas. Através de um jogo de verdadeiro e falso, Fernanda propõe que as professoras se dividam em duplas e sinalizem com “V” ou “F” as frases que ela elaborou, para depois compartilharem os resultados com o grupo. As vivências práticas de sala de aula, retratadas no papel, envolvem ações rotineiras como o sono, o abandono das fraldas, experiências motoras e sensoriais, comunicação entre escola e família, conflitos, alimentação e... a mordida. Ah, a mordida.

Mordida? Sim, crianças que mordem. Mordem e geram conflitos entre coleguinhas, pais e saias-justas entre professoras. Fernanda conta que o irmão dela era um desses “mordedores” quando pequeno. E o ponto alto é que não eram só mordidas de aborrecimento. Havia as de felicidade também. Quem mais recebia os agrados dele era a vovó Ivone.

- Quando ela chegava meu irmão ficava tão feliz que mordia a perna dela.

As duplas debatem cada afirmação e chega o momento da troca coletiva. Fernanda lê as frases escutando as reflexões das professoras e pontuando o que considera relevante. Todas sinalizam falso ao lado de: “A criança que morde é agressiva”.

- Como a criança não consegue ainda verbalmente negociar ou pedir um brinquedo, ela acaba mordendo. – Comenta a professora Marcia.
- E o que a gente faz com as crianças que mordem? - Fernanda pergunta. - A gente conversa.

Mas será que isso basta para resolver o problema?

- É complicado, algumas crianças recebem estímulos impróprios em casa. Um dos meus alunos senta em casa com o avô e fica assistindo bangue-bangue. Aqui ele morde e usa a bolachinha como arma – comenta Marcia.
- Acho que a questão da mordida também tem relação com o clima que a família está vivendo no momento. A criança pode estar presenciando brigas dos pais... – Sugere a loirinha Lili, auxiliar da classe.

Entre um “causo” de mordida e outro, Fernanda pontua que é importante socorrer primeiro a criança que foi mordida, depois conversar com o que mordeu e ir trabalhando a linguagem oral com ele. Afinal, desentendimentos sempre existirão, mas quando existe também a possibilidade de comunicação, as mordidas podem ser trocadas por palavras. E na vida tudo se aprende, inclusive as formas de pedir emprestado aquele brinquedo especial, que só um amiguinho tem.

A atividade é finalizada quando o sol de outubro já ocupa o ponto mais alto do céu. Mas na verdade... o dia na escola não começou exatamente conforme o planejado.


E o dia começa...

Ainda no carro, enquanto Fernanda dirigia para São Caetano, ela listava a rotina que nos aguardava: primeiro uma conversa com a diretora da escola para ajustar trabalho e falar sobre dificuldades. Essa conversa não ocorreu. Depois a dinâmica de falso e verdadeiro, com a professora e as auxiliares do Grupo 1. Na seqüência, a filmagem de uma atividade em classe planejada pela professora e; para finalizar, uma conversa com as mesmas profissionais do Grupo 1 sobre o “portfólio da classe”, que é um apanhado dos momentos mais significativos do ano.

Quando chegamos à escola, a primeira pessoa que vimos foi Clara, a diretora. Nadando num mar de demandas e papéis, ela tenta não se afogar. Pede desculpas. Esqueceu da reunião das 10h com a Fernanda e marcou uma outra, com os pais de alunos, no mesmo horário. A reunião que aguarda Clara promete ser um pouco estressante: ela vai falar com alguns pais e sugerir que seus filhos fiquem um ano a mais no infantil, em vez de seguirem para o fundamental. Ela acha que alguns pais não aceitarão a idéia de ter o filho “um ano atrasado”. Os pais têm pressa, esquecem da criança e idealizam “a idade certa” para o futuro adulto finalizar a faculdade.

Fernanda não se aborrece com o cancelamento da reunião. Querer resolver tudo rápido não dá certo, já que o trabalho dentro das escolas é cheio de imprevistos. Ela conta que as diretoras têm muito o que fazer: a parte pedagógica, a administrativa e a relação com os pais.

Aproveitamos o tempo livre para dar uma volta pela escola. Fernanda conversa informalmente com os professores e cumprimenta as cozinheiras da cantina. Abraça Marcia logo que a vê com o Grupo 1, no pátio da frente, na entrada da escola. Algumas crianças fazem a farra na grama enquanto outras puxam um lençol cor-de-rosa ou ninam bonecas na parte coberta do pátio.

- Fernanda, Fernanda, Fernanda – chama uma vozinha lá de baixo. A mensagem não chega lá em cima. Fernanda continua conversando com Marcia. O chamado vem de uma menina de olhos azuis, meias coloridas e uniforme azul royal. Juliana se aproxima e surpreende Fernanda com um “Búúúú” fantasmagórico e uma risada.
– Ju, tudo bem? – Fernanda sorri, desce até a altura da menina de dois anos, ganha um abraço e um beijo.

Marcia chama os quinze pequenos para uma história logo ali, no mesmo lençol cor-de-rosa. Eles chegam no agito da brincadeira, do empurra-empurra e da falação. Um chora de dor de ouvido e ganha um colinho da professora auxiliar, outro boceja com o nariz escorrendo.  A história de uma gatinha, chamada Meg, começa e o fala-fala continua. Mas, de repente, alguma coisa deixa-os hipnotizados. Reina o silêncio. A dor de ouvido é esquecida e o mundo da Meg agora é deles. O mundo da Meg também é meu. Meg vai à escola. Meg passeia de barco. Meg gosta de comer.



Gostosura de hora

Oba! Hora do almoço! O sol encontra o ponto alto do céu. Lelê parece gostar de ganhar uma colherada na boca. Quando ele pega sozinho a comida, pesca desajeitado o arroz e o feijão do meio da alface. Se uma alface desavisada aparece na boca, ele tira rápido e limpa o dedo na mesa. Mas quando ele ganha uma colherada da Fernanda, ele nem liga, come com alface e tudo. Ele espera paciente a próxima bocada, enquanto Fernanda brinca com Gabriela de jacaré guloso: abre e fecha as mãos imitando a boca do bichano.

“Olha, o Leandro parece um jacaré, faz um bocão assim, NHACT!” E lá vai mais uma colherada.  A merendeira passa com um pote cheio de rodelas de banana e oferece às crianças de um a dois anos, sentadas na grande mesa do refeitório. Tudo indica que Giovani não gostou. Ele cospe a banana na mesa e uma voz fala: “Ah, porque você cuspiu a banana?”. Ele faz uma cara de príncipe que, por imperícia do escritor, foi colocado na história do lobo mau.

Um pouco depois, enquanto almoçamos - dessa vez em uma mesa de gente grande, junto com a Marcia e algumas outras professoras – sentimos a escola silenciar. O Grupo 1 vai para a soneca e as outras quatro turmas da escola estão hoje fora, em excursão.

Fernanda e Marcia seguem para a “classe de reuniões”, para conversar a respeito do portfólio, mas eu sou raptada por uma cena. Pela janela que deixa espiar a sala de aula, vejo as crianças. Sapatinhos guardados na prateleira da classe. Cada um desmaiado num colchão, embrulhado no lençol azul. Entro na sala e sento ao lado de duas auxiliares. Enquanto uns dormem gostosamente, outros começam a espreguiçar. Cada um vai acordando a seu tempo e ganha uma mamadeira de leite morno. Chupeta na boca, cara de sono. E não é que a Gabriela (aquela que gosta de brincar de jacaré guloso) já acorda rindo? Ela não é a única! Coisas de criança feliz.

Fernanda se prepara, busca a câmera, os cabos e filma meia hora da atividade de música planejada pela Marcia. A dinâmica funciona da seguinte forma: Fernanda filma a atividade e leva a fita para casa. Ela assiste à fita e envia por escrito uma análise reflexiva sobre a atividade conduzida pela professora. A professora também assiste à fita e elabora uma resposta, comentando sua prática. Fernanda retorna com uma conclusão. A idéia é refletir sobre a atuação cotidiana, achar alternativas para eventuais problemas inquietantes e aproximar teoria e prática.


Visitando Noca
 

A teoria aliada à prática permeia todo o trabalho das capacitadoras do DICA. DICA quer dizer Didática, Informação, Cultura e Arte. O programa foi criado especialmente para a rede de ensino de São Caetano pela empresa Movimenta, que presta serviços em educação. Ana Claudia Rocha, que trabalha há 14 anos com formação docente, recebeu em 2002 o convite da prefeitura de São Caetano para comandar o programa de formação continuada na rede de ensino. Ela já havia liderado esse programa anteriormente, quando integrava a equipe da Escola da Vila (SP).  Um pouco depois de se desligar da escola, Ana Claudia recebeu a proposta de encabeçar o projeto e assim nasceu o Movimenta e o DICA.

Ana Claudia Rocha tem humor e abraço generosos, gosta de pactos e detesta arbitrariedades. Aos quinze anos, ela foi atingida por uma faísca de inquietação. Começou a trabalhar como voluntária de movimentos sociais como a Pastoral dos Cortiços, da Arquidiocese de São Paulo. Passava algumas horas com crianças, contava histórias, fazia brincadeiras. Até o dia em que a faísca voltou a se manifestar. Ana Claudia sentiu que, para fazer a diferença, toda aquela prática precisava ser alimentada por fundamento teórico e orientação profissional. Ela foi estudar. Ainda hoje, um dos principais defeitos que ela vê nos professores é a idéia de que existe uma vocação ou uma missão para ser professor. Isso faz com que os tais missionários não se preocupem em se profissionalizar. Não basta gostar de criança, tem que se instrumentalizar, estudar, entender, agir conscientemente, fazer algo a mais.

- No ano que vem, vou fazer bodas de prata com a Emília Ferreiro. – Diz Ana Claudia, rindo de si mesma e referindo-se à educadora mexicana, ícone na pedagogia. Ana Claudia trabalhava na Escola da Vila, pioneira no construtivismo no Brasil, quando os escritos de Emília Ferreiro ainda não eram publicados aqui, mas já eram estudados na escola através de cópias, ainda em espanhol. E olha que as copiadoras naquela época não eram grande coisa, não!

A escola construtivista nasceu no final dos anos 70, tendo como marca o lançamento da “Psicogênese da Língua Escrita”, da professora Emília Ferreiro (orientada diretamente pelo professor Jean Piaget) e de Ana Teberosky. O Construtivismo foi oficializado no Brasil no início dos anos 90, nas duas gestões do presidente Fernando Henrique Cardoso e de Paulo Renato Souza, no Ministério da Educação (MEC). A década de 1970 estava impregnada pela liberação do pensamento humano, que eclodiu nos anos 60. Um novo olhar cercando a educação incentivava a criança a pensar e a produzir, sugerindo parâmetros diferentes daqueles propagados pela escola tradicional. Essa mudança na educação foi acompanhada por um grande investimento do MEC, que incentivou municípios a trabalharem com a capacitação de professores dentro dessa nova linha. Foi neste contexto que nasceram trabalhos como o que é feito em São Caetano do Sul. O município tem o mérito de perseverar, investindo na educação até hoje.

Foi numa manhã em que Fernanda e outras educadoras lidavam com cópias, CDs, livros, planejamentos, escritos e computadores teimosos que conheci Ana Claudia Rocha, na sede do DICA, centro de São Paulo. O nome dela já era familiar por causa dos comentários da Fernanda.  “Conseguir um horário na agenda da Ana Claudia tem sido pior do que na do Papa”, ou “ela é uma querida e é muito sabida”.

Fernanda ficou na fila para mim e conseguiu um horário com a psicóloga e professora. Chego no prédio antigo de três andares com fachada cor-de-laranja. Subo pelas escadas largas até o segundo andar, apartamento 22. Aguardo numa sala ampla, logo na entrada. Três mesas estão ocupadas com computadores e mãos que digitam agitadas. Uma mão se encolhe com sinais de tendinite, outra entra em litígio com o teclado. Lá de cima alguém chama, de baixo corre a resposta. Educadora desce, sobe a pilha de livros. A parede abriga um tipo de colcha de retalhos. Foi construída por crianças. Cada quadrado do painel colorido traz o desenho de uma brincadeira abaixo de seu referido nome: balanso (sic), corda, peteca, amarelinha.

Ana Claudia desce as escadas em preto-e-branco. O sorriso largo chega mais rápido. Subimos um andar do que se assemelha a um duplex residencial. A sala ampla tem uma grande mesa retangular branca no centro e vestígios de uma reforma que começou e se cansou, como acusam o lavatório e a bacia sem paredes, no canto direito. Obra de arte inspirada em Duchamp? Alusão à casa engraçada de Vinícius? Tanto faz. Importante mesmo é que ali, naquele palco, são decididas, pensadas e debatidas diretrizes que vão impactar a vida de professores e crianças do ensino infantil e fundamental da rede de ensino de São Caetano do Sul. Cerca de quarenta educadores sacodem suas idéias pelo salão semanalmente.

Como parceiros técnicos que interferem diretamente na rotina de todos, os formadores do DICA entram na Secretaria de Educação de São Caetano com a postura de convidados.

- Temos um respeito absoluto pela hierarquia, pelas posições que as pessoas ocupam em suas funções. Por mais que uma diretora faça tudo errado, ela é a diretora da escola. Se existe uma meta relativa à alfabetização anunciada pelo prefeito ou Secretaria, nenhum número sai de sala de aula antes de o professor da classe ver. Esse respeito é uma lei – decreta Ana Claudia.

Entre uma história e uma teoria, Ana Claudia não se importa em me guiar pelos caminhos da educação no Brasil para responder a uma única pergunta. Quando penso que ela se esqueceu da pergunta de fato, ela me surpreende. Depois de delimitar um histórico da educação nas últimas décadas, Ana retorna exatamente no ponto esperado. Não interessam informações monossilábicas e sem contexto. Ana Claudia não tem preguiça de ensinar. A professora não é uma acadêmica de gabinete. Ela não acredita em fórmulas que transformam sapos em príncipes, mas acredita na transformação de teorias abstratas em vida palpável dentro da sala de aula. Ela mesma já experimentou. Ana Claudia deu aulas por onze anos na educação infantil. Por isso ela fala em atitudes possíveis, mas que exigem consciência e postura. Em sua história profissional ou nas relações pessoais, respeito e combinados merecem prioridade.

Noca, como é chamada pelas pessoas mais queridas, convive bastante com Luís, de três anos. Juntos, os dois praticam alguns combinados. Se Noca precisa sair em quinze minutos, Luís, filho de uma amiga, é avisado antecipadamente. Ele sabe que não vai dar tempo de assistir ao desenho inteiro e escolhe: pode assistir apenas a uma parte do desenho, pode pegar um livro ou escolher um brinquedo.

- A criança está assistindo a um desenho, aí o adulto chega e desliga: “vamos sair agora, estamos atrasados”. Isso para mim é um ato de violência. A criança está fazendo uma coisa dentro do seu universo e aí vem um ser externo e comete uma arbitrariedade – Ana Claudia ri, misturando indignação e graça. - Ninguém faz isso com outro adulto. E o que você acha que vai acontecer com a criança? Ela vai berrar. Aí o adulto vai gritar e o caos vence. É preciso avisar, combinar. Antes de tudo, a criança é um ser humano. Ela não é uma pequena adjacência, não é um complemento que o adulto carrega para onde vai.

Luís parece já ter percebido que ele tem uma aliada no quesito combinados. Quando se sente vítima de alguma arbitrariedade pelo mundo, ele já avisa, não importa a quem: “vou contar para a Noca que você fez isso!”.

Se Luís e as formadoras do DICA me ajudassem a redigir as leis de Noca, acho que teríamos idéias como as que seguem:

•    É melhor ter que lavar as mãos sujas de tinta, do que não experimentar a pintura;
•    Não existe criança indisciplinada, mas professor carente de solução;
•    Construir respeito nas relações dá muito trabalho, mas vale a pena;
•    É imperdoável divertir-se à custa do trabalho equivocado do outro;
•    Pactos e combinados são sempre melhores do que imposições arbitrárias;
•    Muitas andorinhas unidas podem produzir transformação;
•    É proibido gritar com criança;
•    É mais difícil consertar a falta de valores humanos, decadentes no mundo, do que a falta do construtivismo.


A palavra é nossa

A proposta construtivista trouxe a idéia do professor reflexivo e colocou os holofotes na relação ensino – aprendizagem. Por este caminho segue o trabalho do DICA. Se às vezes ele se firma em leis de traçado reto, outras vezes se aventura por saberes cheios de curvas.

- A autonomia tem limites? – Pergunta uma auxiliar.
- Autonomia é independência e livre escolha. – Opina outra.

No decorrer de 2008, Fernanda e Heloísa - também formadora do DICA - trabalharam com um grupo de vinte professoras auxiliares da educação infantil. Foram ao todo seis encontros. Além de encerrar o ano, o sexto e último encontro teria como tema principal a “autonomia”.

É por causa deste encontro que enfrento ruas desconhecidas pela tarde de chuva grossa. Fernanda já está na escola em São Caetano e, por telefone, me ajuda a achar a direção. Depois de mais de duas horas, chego à Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Primeiro de Maio, ainda em tempo de presenciar o início da dinâmica. Senhoras e moças se dividem ao redor de cinco mesas retangulares baixinhas na classe que é emprestada dos pequenos. Elas vêm de diversas escolas do município.

Fernanda inicia a conversa de fim de tarde pedindo para cada professora colocar no papel algo que foi positivo ou não durante os encontros do ano: uma idéia que rompeu paradigmas, dúvidas que ficaram ou críticas que possam ser úteis para uma auto-avaliação dela e da Heloísa.

Ela relembra os temas dos encontros anteriores: leitura de histórias, espaços para brincar, construção de brinquedos, arte e brincadeiras de roda. Fernanda considera importante que as auxiliares tenham dicas práticas para os momentos em que a professora sai da sala de aula e elas assumem a classe.

Ela vai de mesa em mesa e cada professora escolhe um pedaço de cartolina na sua cor preferida para registrar suas impressões, sem a necessidade de se identificar. Passeando pelas mesas, escuta-se um zunzum. Heloísa, de camiseta preta, jeans e tênis, brinca:

- Ado, ado ado, cada um no seu quadrado – lembrando que o momento é de reflexão individual. Ela se vira e eu vejo várias nuvens brancas estampadas nas costas pretas de sua camiseta. Numa delas está pendurada uma cadeira com um homem se balançando. Na nuvem vizinha, um homem toma chuva. Viajo para o meu tempo de criança: chuva e balanço eram a combinação perfeita. Eu gostava de ficar em pé na cadeira de balanço. Quando balançava com força e o corpo ficava quase na horizontal, sentia a chuva bater no peito. Isso era a tradução mais próxima da palavra liberdade.

Fernanda pede que as professoras que ainda não entregaram, finalizem seus escritos. O pedido ecoa em protestos:

- Não pode levar para casa? Não sei fazer isso assim correndo! Preciso pensar. – Reclama Eliane, com o rosto emoldurado por um corte moderno e jeito adolescente.

Os papeluchos coloridos aterrissam na mesa grande trazendo boas impressões. A maioria deles não aponta para um aspecto específico, mas traz linhas genéricas de aprovação. Escuto o comentário que uma professora faz com a colega ao lado:

- A gente sai daqui com uma bagagem boa. É só querer, né?

Antes de falar sobre autonomia, tema do dia, Heloísa dá descanso para a seriedade. Ela projeta na lousa imagens que remetem a expressões idiomáticas. As professoras precisam adivinhar qual expressão se esconde por trás do desenho. Se no começo algumas se sentem como um peixe fora d’água, no final todas já têm a faca e o queijo na mão. Conforme Heloísa muda as imagens, saltam as expressões:

- Engolir o sapo!
- Pisar em ovos!
- Entrar pelo cano!

Depois da descontração, a sala está pronta para a atividade do dia. As professoras se reúnem em duplas, cada dupla recebe um texto, lê e destaca os tópicos mais importantes para apresentar à classe. São ao todo cinco textos diferentes, que falam direta ou indiretamente sobre autonomia.  A idéia de que as duplas apresentem o conteúdo para o grupo é fazer com que todas conheçam todos os textos.

Heloísa e Fernanda dão algumas dicas de como destacar as informações principais: grifar os trechos mais significativos, anotar palavras-chave, colocar uma estrela ao lado de idéias brilhantes ou uma interrogação em trechos que merecem maior aprofundamento. Esse tipo de dica incentiva as educadoras, facilitando o estudo e leitura de outros materiais.

As duplas se espalham pelas mesas e pela escola. Fernanda busca uma água e se diverte ao ver duas professoras sentadas no chão, dentro da casinha de bonecas.

- Olha como elas trabalham! Não tem ninguém fofocando – comenta ao ver o grupo concentrado no tema. Depois de meia hora, a primeira dupla dirige-se até a frente da classe e tenta apresentar um resumo do texto. Não consegue. O que teria o objetivo de ser uma simples palestra expositiva – por causa do tempo curto – transforma-se em debate. Encontrar os limites entre promover a autonomia nas crianças, proteger e construir um ambiente propício para a aprendizagem preocupa as educadoras.
- Vamos supor que em vez de proibir, eu apenas fale: “se você subir na mesa, pode cair e bater a cabeça”. Aí a criança sobe, cai e quebra o pescoço. Como fica? – questiona Eliane.
– Há coisas negociáveis e outras não. – diz Fernanda. Precisamos construir a autonomia, criança não nasce com isso. Há limites que precisam ser postos para garantir a integridade física da criança e esses limites são lei, como não pular da janela e não mexer no fogão.

Algumas pessoas têm a concepção errônea de que os professores construtivistas são permissivos e de que o controle externo nunca ocorre em salas de aula construtivistas. Na verdade, qualquer professor precisa exercer controle externo em certas situações. (...) Contudo, sua utilização de controle externo é consciente e deliberada, e não impulsiva ou automática. (Rheta DeVries e Betty Zan)

Heloísa complementa:

- A diferença está em como essas regras são construídas e em como estabelecer os limites. Na escola construtivista, tentamos intervir a favor da construção da autonomia e não da repressão.

Há muito tempo temos sido a favor de permitir que as crianças pequenas criem as regras da sala de aula, argumentando que essas oportunidades são essenciais para uma sala de aula construtivista. Ao incentivar as crianças a criarem as regras da sala de aula, o professor minimiza o controle externo desnecessário e promove o desenvolvimento da autonomia moral e intelectual. (Rheta DeVries e Betty Zan)
 
De novo borbulha um rumor, envolvendo o espaço com histórias e emoção.

- As crianças são heterônomas. E o que é isso? É a necessidade de que os outros as regulem. O ideal é que durante a vida nos tornemos criaturas autônomas e isso é construído. – Pondera Heloísa.

As crianças caminham na direção da autonomia quando precisam tomar decisões por si próprias. Com o passar do tempo vão também incorporando princípios de adultos e professores significativos que encontram pela trajetória.

– O processo é gradativo – considera Fernanda. - A criança não sabe decidir tudo, mas precisamos dar espaço para ela decidir aquilo que ela é capaz.

Cada nova dupla que se apresenta é interrompida. Difícil resistir e ficar calado quando o tema ressuscita histórias e memórias, suscita dúvidas e dilemas. O tempo começa a pressionar a dinâmica da classe: nem todos os textos poderão ser apresentados. A escola tem horário para fechar.

O encontro chega ao fim antes do desejado, deixando como legado muitas reflexões, debates, dúvidas e grãos difusos de solução. Uma semente de inquietação foi plantada. Todos se apressam, um funcionário aguarda para fechar as portas do dia.

Entretanto, os textos e as informações do encontro poderão ser consultados em breve. Todas as escolas participantes recebem no final do ano vários CDs informativos, elaborados pela equipe do DICA. Todos os cursos e acompanhamentos ministrados pelo DICA geram material, que servem como registro e apoio. Em cada CD há textos para pesquisa, fotos do trabalho ou curso realizado, assim como dicas de livros e reflexões. Parte do material que integra esses CDs muitas vezes é produzido pelos professores da rede. Ana Claudia Rocha gosta disso. O educador local é autor do seu processo de trabalho e o material produzido por ele fica registrado e é consultado por seus colegas.

As educadoras se despedem de Fernanda e Heloísa. Algumas se emocionam.

- Tchau gente, eu amei vocês todas. Ai, que ruim ir embora!

Entre um abraço e outro falo com a Fernanda sobre a complexidade da autonomia, questionamos se somos ou não autônomas diante de tantas influências da mídia e do mundo. E se pensarmos na noção de liberdade, então, como ficamos? Até a pouco havia em cada uma das professoras presentes uma busca: como construir em crianças de um a seis anos a capacidade de agir de maneira autônoma, com liberdade e consciência? Precisamos ir embora e nem chegamos a um real consenso sobre autonomias e liberdades. A Fernanda e eu estamos em carros separados, mas há tantas idéias... Saímos da escola com a mente cheia de novidades para trocar. Fernanda liga no meu celular e vamos conversando durante todo o caminho entre São Caetano e São Paulo.


Elenco

Ana Claudia Rocha é fundadora do Movimenta junto com a sócia Mariana Breim. Ela gosta de canetinhas bem organizadas nos estojos e não aceita qualquer coisa. É exigente com uma pitada de açúcar.

Cris Tavares é autora de Quintais e capacitadora do DICA. Escrever é sua brincadeira favorita. Gosta de Amós Oz e da rede cor laranja que enfeita seu quintal e alimenta suas idéias.

Eliane Maria Gomes é professora auxiliar da EMI Maria Simonetti Thomé. Conquistou Fernanda durante os encontros de auxiliares pelo seu jeito livre, questionador e rebelde.

Fernanda Glaessel Ramalho é pedagoga, capacitadora do DICA e minha amiga há uns 17 anos. Sabe combinar duas pessoas - a Fernanda menina e a Fernanda mulher - fazendo uma mistura encantada.

Heloísa Magri é pedagoga e capacitadora do DICA. Além de camisetas pretas com nuvens brancas, Heloísa gosta de tortas de marzipan com chocolate meio amargo e pretende encher seu quintal de crianças.

Marcia Regina Pan Zucchetto é professora da EMEI Marilene de Oliveira Larocca. Tem uma voz doce povoada de segurança que faz seus três filhos e os bebês de um a dois anos entrarem no mundo da Meg sem nenhum receio.
Sibélia Schuler Zanon sou eu, a jornalista que escreveu essa matéria. Já trabalhei com crianças e gosto do tema educação porque combina com transformação. Meus textos são apaixonados por iniciativas que geram sementes de mudança.

Bibliografia

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

DE VRIES, Rheta.; ZAN, Betty. Quando as crianças fazem. Revista "Pátio Educação Infantil", Artmed, Ano II, nº 4, p.6-9,abr/jul 2004

* Jornalista e pós-graduada em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (www.abjl.org.br), turma São Paulo 2008.
r. general jardim, 618 / 51 - são paulo / sp + 55 11 3129-8320