TextoVivo - Narrativas da vida real

busca procurar em:
16/11/2009 | enviar a um amigo | imprimir | a-   a+

Um forró de família

Leandro Olimpio *

Dos milhares de motoristas que diariamente cruzam o quilômetro 327 da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, em Itanhaém, litoral paulista, poucos desviam o olhar para um prédio com a pintura amarela gasta que fica nas margens da pista. Os caminhoneiros estão mais preocupados em fazer suas entregas e voltar pra casa o mais rápido possível; os motoristas de ônibus mais preocupados em concluir o itinerário, da mesma forma, o mais rápido possível; e as famílias que viajam a passeio... bem, a ansiedade de pôr os pés na orla da praia é tão grande que seria improvável notarem a presença de um prédio que durante o dia está sempre de portas fechadas.

Prédio que hoje é o reduto de uma espécie de fraternidade, cujas “reuniões” só terminam quando o som efusivo das caixas de som dá lugar ao silêncio absoluto e quando a sombra da noite dá lugar à luz do sol. Para entrar é preciso passar por dois ou três seguranças corpulentos, mas a revista é tão superficial que a impressão é de que a desconfiança a novos visitantes não é tão grande assim e que, claro, você é bem-vindo. Afinal, por mais estranho que possa parecer, um ambiente comandado por uma senhora budista que todos os dias pede paz e prosperidade ao Mundo não deve ser tão ruim assim.

O BERRANTE DE OURO O FORRÓ DA PENHA é um forró-sertanejo de beira de estrada que reúne todos os fins de semana - às sextas e aos sábados para ser mais preciso - gente das mais diversas origens e classes sociais. Os próprios frequentadores - num tom pejorativo, é verdade - afirmam repetidas vezes que “dá gente de tudo quanto é tipo”, certamente uma referência aos bêbados inconvenientes e mulheres de “comportamento duvidoso” que costumam “estragar o ambiente”.

Não dá para afirmar que o baile encontra-se numa área nobre de Itanhaém. Além de ter como paisagem uma rodovia escura cuja trilha sonora é o ruído estridente de automóveis em alta velocidade, está rodeado por ruas de terra que ficam enlameadas ao menor sinal de chuva e tem como vizinhos um posto de molas, uma borracharia e alguns salões comerciais com placas de ‘VENDE-SE’ penduradas há alguns anos.

Seu passado também não é dos mais edificantes. Antes de ser o ponto de encontro de forrozeiros animados, o prédio onde está instalado abrigou um punhado de gente com fome de comida (uma churrascaria) e com sede de fé (uma igreja evangélica). Nem por isso o letreiro luminoso vertical suspenso em um poste deixa de informar o status do baile:

B
E
R
R
A
N
T
E

O MELHOR BAILE
DA REGIÃO

Na parede lateral, pintada em letras garrafais, uma frase encoberta pelos carros no estacionamento resume o que talvez seja o principal mandamento e a regra número um dessa fraternidade: AQUI NÓIS NUM TEIM ISTRÉIS!

Lá dentro a decoração não possui grandes ostentações. Apontadas para um globo prateado, meia dúzia de luzes coloridas iluminam a pista de dança e dão velocidade aos casais mais lentos. Lâmpadas fluorescentes verde-limão adornam as seis colunas que fazem a linha imaginária entre a pista de dança e o espaço destinado às mesas e no teto uma fileira de luminárias miúdas lança sobre o salão uma cor alaranjada parecida com a de lampiões a gás.

A clientela é formada principalmente por homens e mulheres de meia-idade. Eles são velhos conhecidos da casa e nutrem por ela uma fidelidade paradoxal. Sentem-se inteiramente à vontade para criticar os pontos fracos do baile, desde o calor que enfrentam até o repertório musical previsível, mas se testemunham alguém que não o frequenta criticando-o ou, pior ainda, fazendo piadas bem comuns como “o Berrante é um baile risca-faca”, ficam profundamente ofendidos, defendem-no com afinco e o que fora apontado como defeito minutos antes se torna uma qualidade inquestionável no instante seguinte.
Maria da Penha Sales Lopes e Francisca Lopes Ishida, irmãs e proprietárias do baile, estão vacinadas contra essas queixas e não dão muita trela, porque a maioria parte exatamente dos fregueses mais antigos.

Embora estejam na casa dos sessenta, Penha e Fatinha, como são conhecidas, não se parecem em nada com as velhinhas simpáticas de grupos de Terceira Idade, cuja diversão é participar de bingos e caminhadas matinais. São evidentemente notívagas, vestem roupas extravagantes, tingem o cabelo para esconder os maldosos fios brancos e percorrem o salão em busca de latas de cerveja vazias e certificando-se de que tudo está em ordem.

Fatinha, uma senhora de cabelos vermelhos artificiais, verifica o estoque de bebidas, prepara coquetéis, atende os clientes na beira do caixa e abre o freezer a todo instante com gestos rápidos para retirar as mais de seis mil latinhas de cerveja consumidas num final de semana.

O papel de Penha, uma mulher de boca e olhos miúdos que todos os dias recita o mantra Nam-mioho-kyo, do budismo de Nitiren Daishonin, é divulgar com sua voz rouca e arrastada o baile por toda a cidade. Ela é uma espécie de relações-públicas autodidata, cuja experiência foi passar muitos anos de sua juventude entregando panfletos - missão que, diga-se de passagem, faz pessoalmente e até hoje é o carro-chefe das estratégias publicitárias do baile. Além disso, põe anúncio nas rádios e distribui brindes para mostrar que ali o tratamento é diferenciado, em outras palavras, mais acolhedor. Volta e meia, lá está ela na porta entregando pirulitos, balinhas e preservativos.

Assim como acontece em outras regiões do litoral paulista, a maior parte das casas noturnas de Itanhaém depende do verão para sobreviver e muitas fecham as portas durante o resto do ano. O Berrante é um caso à parte. O baile nunca fecha e, ao contrário das demais, é durante a baixa temporada que vê sua receita aumentar, recebendo aos sábados – a noite de maior movimento - uma média de 800 clientes.

É verdade que muitos relacionam o sucesso do baile ao fato de Itanhaém não ter uma vida noturna das mais movimentadas e tal constatação não chega a ser um exagero. Mesmo com tempo de sobra para se desenvolver - ostenta o título de segunda cidade mais antiga do país com 477 anos - não tem teatro; o único cinema existente põe em cartaz filmes que há mais de dois meses estão fora do circuito nacional; e a diversão dos mais jovens é se encontrar no calçadão.

Por outro lado, desde o dia 13 de outubro de 1997 (data de inauguração do Berrante) muitos concorrentes surgiram e nenhum deles conseguiu quebrar essa hegemonia. Comandados por empresários de postura fria, que nunca tiveram vínculo com os clientes, sucumbiram com a mesma rapidez com que foram erguidos. E embora sobre reclamações como “a coxinha é muito oleosa” e “sempre falta papel higiênico no banheiro feminino”, nada disso parece afetar o movimento do baile. Talvez, porque em nenhum outro lugar eles encontrem o que sobra ali: calor humano.


Corrida contra o tempo

Ao contrário do que acontece nas estações de metrô, o Berrante não é um lugar de gente anônima. Lá, o homem não só tem tempo e oportunidade de aproximar-se, mas também para pedir seu telefone, reverter uma palavra incompreendida e tentar uma nova chance. Todos se conhecem, sabem onde fulano gosta de sentar, o que sicrano gosta de beber, e se alguém deixa de ir ao baile por dois fins de semana seguidos sua ausência não passa despercebida.

É um lugar onde o sábado seguinte provavelmente será igual ao anterior e onde a tal da rotina, tão criticada, é o que na verdade mantém a casa cheia e a sensação de que acolhe “uma grande família”.

É nesse cenário que muitos homens criam um pout-pourri de mulheres que desejam conquistar. Eles trocam figurinhas em rodas de amigos, especulam quais possuem maior valor e após algumas considerações investem naquelas que aos seus olhos são mais atraentes. Invariavelmente, quando o final do baile se aproxima e as escolhas revelam-se frustradas o nível de exigência diminui e as preferências do início da noite dão lugar a uma angustiante corrida contra o tempo, cujo sucesso depende não mais da busca por mulheres sensuais, mas sim por aquelas que ainda estão disponíveis.

A maioria desses homens é avessa a compromissos, não se envolve com mulheres financeiramente instáveis e para evitar constrangimentos escolhe mulheres que não ligarão no dia seguinte. Sabem que criar vínculos é uma escolha traiçoeira, que põe em risco o que mais desejam: manter a liberdade.

Embora ainda admita compartilhar sua intimidade com uma nova parceira, José Carissa, um homenzinho de cabelos grisalhos a quem a pele rosada e os quilinhos a mais proporcionam um aspecto saudável, faz parte desse grupo e pode ser considerado um dos mais experientes. Raramente dança com desconhecidas; sabe que o sucesso com garotas de 20 anos depende de uma gorda conta bancária (por isso, prefere as mais velhas) e que mulheres que só bebem água “não vira nada”, pois sem o efeito do álcool tornam-se inacessíveis e exigentes.


Em busca do esquema

Sentado à mesa reservada por ele sempre com antecedência, seu Zezinho, como é conhecido, beberica em mais um baile de sábado à noite o que deve ser o seu quinto copo de cerveja. É quase duas da madrugada, o ápice da noite no Berrante. Quem tinha que chegar já chegou e (quase) ninguém foi embora. Quando o relógio apontar quatro da madrugada a música será suspensa e as conversas cessarão. É preciso agir, caso queira sair dali acompanhado.

Nascido 64 anos atrás e divorciado há 15, seu Zezinho é um solteirão convicto. Desde que passou a frequentar o Berrante, há uns seis anos, são raras as noites em que sai dali sozinho e pelas suas contas – entre casos sérios, que duraram alguns meses ou apenas uma noite - já se envolveu “com umas quarenta”.

A noite avança. Movido pela coragem que só o álcool e o desespero de fim de festa proporcionam começa a abordar algumas mulheres. Estica o braço, tenta tocá-las e dizer “oi”, como quem não quer nada. Num espaço curto de tempo, não mais do que trinta segundos, é preciso mostrar-se inteligente, engraçado, gentil. Nem sempre é possível. Na verdade, poucas se dispõem a ouvir o que ele tem a dizer.

Uma loira artificial de cabelos curtos em plena forma para os 40 e tantos anos que aparenta ter chama a atenção. O vestido prateado curtíssimo realça as curvas do seu corpo, banhado de suor.

“Olha, ela está molhadinha”, admira-se seu Zezinho, enquanto observa suas pernas torneadas movendo-se em posições insinuantes.

Impulsionado pelo desejo de conhecê-la decide se aproximar e fazer o convite que, sem exceção, é considerado a porta de entrada para aquele algo mais e um pós-baile bem-sucedido.

“Vamos dançar”, oferece seu Zezinho, não com palavras, mas com suas mãos de unhas bem cortadas, estendidas na direção da mulher desejada. Com um leve aceno de cabeça e o ar entediado, típico de quem está sempre a receber ofertas desse tipo, ela aceita o pedido. As amigas, com idade para ser suas filhas, soltam alguns risos juvenis de cumplicidade, como quem diz: “quanta ousadia...” e “nossaaa, ela aceitou dançar com ele”. Seu Zezinho nem percebe. Preocupado em aproveitar até o último minuto a oportunidade conquistada, avança e passa os braços pela cintura dela.

Finalmente, começam a dançar.

Os primeiros diálogos parecem ser curtos e restritos a curiosidades como “qual o seu nome?” e “onde você mora?”. Já perguntas como “tem filhos?” e “moram com você?”, no caso de seu Zezinho são cruciais. É fazendo perguntas desse tipo que consegue detectar mulheres-problema e prevenir futuras dores de cabeça.

Espremidos por outros casais, dançam timidamente. Mal conversam. Apesar do esforço de seu Zezinho em puxar assunto, a impressão é de que as respostas da parceira são monossilábicas.

A música acaba. Seu Zezinho se despede e ao se aproximar da mesa admite, com franqueza, ser improvável um algo mais com aquela mulher vigorosa. “É difícil rolar alguma coisa, sabe?”, ele comenta enquanto a dupla Pedro e Kauan entoa o refrão Você não vale nada, mas eu gosto de você / Você não vale nada, mas eu gosto de você / Tudo o que eu queria era saber por quê / Tudo o que eu queria era saber por quê. E completa, em tom confidencial. “O importante é fazer amizade. Porque aí, a gente vai pegando intimidade e fica mais fácil conseguir um esquema.”

Esquema. Se existe algo que todo homem que vai ao Berrante deveria saber é que boa parte dos esquemas malsucedidos são influenciados por uma espécie de currículo criado pelas mulheres para selecionar aqueles que merecem uma entrevista, um período de experiência e, quem sabe, um cargo de confiança. Com esse banco de dados elas sabem quais são mais ousados durante a dança; aqueles que lançam cantadas manjadas; os mais tímidos, que têm medo de convidá-las para dançar e levar um não como resposta (são muitos), e os que de tímidos não têm nada e “já saíram com meio mundo”.

É um verdadeiro dossiê, compartilhado em frente ao espelho do banheiro, em conversas ao pé do ouvido ou na privacidade de suas casas no dia seguinte. Antes de frequentar o Berrante, muitas dessas mulheres viviam trancafiadas em suas casas, lamentando a morte do marido ou o casamento de 25 anos que acabou. Hoje, esperam ansiosamente pelo fim de semana que demora a chegar e não vêem a hora de dançar de rosto colado pelo salão, mesmo quando reclamam que os homens “só escolhem as mais novinhas pra dançar”. Algumas chegam a afirmar que o Berrante é uma espécie de terapia, mas ainda melhor porque, em vez de gastar dinheiro com psicólogos, vão ao baile para tomar cerveja, dar risada, fofocar e, vez por outra (porque ninguém é de ferro) arrumar uma paquera.


Orgulho e preconceito

Embora seja uma das poucas casas noturnas de Itanhaém com vida longa, muitos consideram o Berrante um ambiente vulgar. Os mais jovens, por exemplo, o fantasiam como um lugar burlesco, restrito a aposentados solitários e cinquentonas divorciadas. Se alguém os convida para ir ao Berrante interpretam como um disparate ou simplesmente ignoram o assunto, dando de ombros.

Que o Berrante é um lugar apinhado de gente de meia-idade ninguém tem dúvida e nem é preciso ir lá para saber disso, porque muitos pais, parentes e até amigos desses jovens frequentam ou já frequentaram o Berrante. O que eles ignoram e talvez só possa ser conferido com os próprios olhos é que traçar um perfil do cliente típico do Berrante é uma tarefa arriscada. A todo instante surgem no baile figuras que destoam totalmente do que poderíamos chamar de público-alvo. Se o IBGE realizasse um levantamento estatístico ali perceberia de imediato que indicativos como classe social e faixa etária oscilam com a mesma frequência que as previsões meteorológicas da TV.

Lá, existem jovens curvilíneas tão ou mais provocantes que as encontradas em barzinhos de MPB; rapazes com gel no cabelo e camisa baby look; adolescentes com ousadia suficiente para flertar com mulheres vinte anos mais velhas; empresários de sucesso e de fachada; gente feia e bonita... enfim, um verdadeiro mosaico social, uma estirpe de pessoas que tem em comum o desejo de se divertir e esquecer, nem que por um breve instante, infortúnios diários como o filho desempregado ou o feijão que acabou.

E para aqueles que consideram o Berrante um baile risca-faca, vale dizer em sua defesa que os funcionários mais tranquilos em termos de tarefas a cumprir são os seguranças, pois não há brigas. Os próprios clientes, inclusive os mais exigentes, são unânimes em dizer que ali não há agressões físicas; no máximo uma discussão nos arredores do banheiro feminino (nós sabemos como as mulheres são quando mexem com seus namorados) ou algum sujeito meio alto, que com algumas doses a mais de cerveja sente-se o homem mais valente do lugar.

Para que não haja dúvidas de que o Berrante é um forró de família cabe dizer, ainda, que existe uma lista de regras de boas maneiras que devem ser cumpridas por todos os clientes. Não é permitida a entrada de objetos estranhos, o que podemos entender por canivetes, facões e armas de fogo, e muito menos a permanência de pessoas com a camisa aberta - um aviso bem claro aos homens que insistem em abrir suas camisas para exibir peitos nem tão sarados assim, gotejando suor. E, por fim, e talvez o mais importante, as mulheres não podem sentar no colo de seus parceiros. Afinal, “pega mal” e quem está no baile pela primeira vez vai achar que ali é a casa da luz vermelha – se é que você me entende.

“O nível melhorou muito”, recorda Penha. “No começo os homens entravam com arma e canivete no bolso, prontos pra arrumar encrenca. E as meninas vinham tão judiadas que até sandália eu dava, porque elas não tinham pra usar. Hoje, a gente não vê briga e elas vêm todas arrumadinhas e cheirosas. A gente educa, dá uns toques... Eu sempre digo: ‘Forró também é cultura’.”

Fugindo do ostracismo

O homem cuja voz ajuda caras tímidos a fazer declarações ao pé do ouvido é um sujeito visivelmente fora de forma que vive prometendo à esposa que ficará sarado. “Ele fala, fala, fala que vai entrar na academia... mas quero só ver”, comentou certa vez em tom de brincadeira a esposa, como se soubesse que tal promessa fatalmente não será cumprida.

Célio Silva apresenta-se no Berrante desde o dia em que foi inaugurado. Tem 45 anos e há mais de 30 não tem feito outra coisa senão cantar nos forrós da cidade, sendo que muitos nem existem mais. Apesar de não ser um homem especialmente bonito – faltam-lhe alguns dentes e tem o rosto redondo marcado por algumas erupções – sempre carregou a fama de mulherengo. Quando era jovem e tinha mais fôlego chegou a se relacionar com oito mulheres ao mesmo tempo – sem contar a esposa – e até quatro anos atrás, mesmo sem a vitalidade de outrora, sustentava três famílias e, obviamente, uma mulher desconhecia a existência da outra.

De oficial são três casamentos (contando o atual) e uma prole que por pouco não forma um time de futebol: dez filhos. Hoje, tenta levar uma vida tranquila ao lado da esposa, Soraya, uma mulher de 27 anos que não parece se importar com o passado libertino do marido. “Trate de arranjar bastante espaço pra essa matéria, pois o que não falta é história dele com mulher”, ela sugeriu.

Histórias como quando anos atrás, embriagado, Célio marcou um encontro na Gruta Nossa Senhora de Lourdes, um ponto turístico que fica em frente ao mar, com duas mulheres para o mesmo dia e o mesmo horário. “Só quando cheguei é que fui me dar conta da besteira que tinha feito. Nem tive tempo de pensar quando a primeira delas chegou. A primeira coisa que fiz foi levar ela pras pedras. Fiquei com ela e todo hora eu dava uma espiada pra ver se a outra chegava. Não demorou muito e ela chegou. E como eu estava toda hora erguendo a cabeça, logo a menina que estava nas pedras comigo percebeu.”

- O que é que você tanto olha pra lá, heimmm Célio?
- Sabe o que é, eu tô vendo uma menina que eu conheço sentada ali na mureta da gruta, e eu acho que é a namorada de um amigo meu. Eles devem ter marcado de se encontrar aqui.

A garota aparentemente não entendeu nada e, percebendo que ela engoliu a história, Célio foi ainda mais ousado.

- Faz o seguinte. Fica quietinha aqui, que eu vou lá conversar com ela ver se tá tudo certo. Eu tô preocupado. Vai saber né? Mas não sai daqui, por que ela conhece minha noiva e se ela te ver eu tô ferrado!
- Ahhh... tá bom, vai lá.

Célio usara essa tática em muitas ocasiões. Sempre que estava enrascado com uma de suas amantes, dizia estar sob a mira dos olhos da noiva, que na verdade já era esposa.

- Céliuuuu!! Eu estou mais de uma hora te esperando aqui, onde você se meteu? - disse a moça solitária enquanto Célio vinha em sua direção.
- Ahhh... você não sabe o que aconteceu. Minha noiva tá me caçando em tudo quanto é canto, sabia? Eu tô com medo dela me achar... vim rapidinho só pra te avisar que não vai dar pra gente ficar hoje não.
- Ahh, e agora?
- Me passa seu telefone!
- Mas onde você vai anotar?
- Och, eu gravo música na cabeça, não vou gravar seu telefone? Pode falar!

Ela então soletrou os números e, provavelmente, esperou por muitos dias o telefone tocar. Ao contrário do que Célio dissera sua memória não era tão boa assim e, afinal, estava muito apurado para prestar atenção em números. Quanto à moça que estava nas pedras, voltou pra lá e explicou à sua maneira o que havia acontecido.

- E aí, o que aquela moça estava fazendo aqui?
- Pois é, você não acredita que ela marcou com o meu amigo e ele não apareceu.
- Nossaaaa, não acredito! Como tem homem filha-da-puta, né?
- Oh... se tem.

Ao contrário do que acontece com muitos clientes, criar raízes no Berrante não é saudável e tampouco serve de terapia para Célio. Sabe que está nessa fraternidade por necessidade e não por opção. Em meados da década de 90, quando formava a dupla Célio & Celino com um sujeito “que não era só parceiro, mas um irmão”, teve duas oportunidades de se tornar cantor profissional e ambas fracassaram.

Celino, que nem bom cantor era, só enganava, abandonou a carreira. Já Célio permaneceu sua odisséia noturna e hoje canta às sextas no Berrante e aos domingos numa pizzaria. Não ensaia. Decora as letras em casa e a melodia fica a cargo do tecladista, que já sabe qual é o seu ritmo e tom de voz. Trabalha assim há mais de vinte anos, numa eterna repetição interrompida, apenas em 2008, quando viajou ao sul de Minas Gerais e fez, como recorda com precisão de detalhes e num tom um tanto nostálgico, “um dos melhores shows da minha vida”.

 O show aconteceu em Alagoa – cidade com pouco mais de três mil habitantes, onde foi contratado para abrir o show da dupla Milionário & José Rico, numa tradicional festa de gado. Acostumado a cantar em cima de caixas de cerveja improvisadas como palco e em festas de aniversário, dessa vez Célio experimentou a sensação de ser um cantor profissional e percebeu, talvez pela primeira vez, que durante a vida toda se contentara com pouco.

Além de cantar para quase dez mil pessoas, vindas de diversas cidades da região, foi bajulado pelo prefeito, apresentado aos comerciantes e como há muito não acontecia deu autógrafos, tendo inclusive que arranjar desculpas para o fato de não ter levado seu CD - sendo que nem CD tem. “Só de lembrar fico todo arrepiado”, lembra Célio, alisando o braço. “Brinquei com o público, dei entrevista na rádio da cidade... olha, nunca vou esquecer.”

Depois de experimentar o gosto do sucesso e ter de voltar a cantar em Itanhaém não é de se surpreender que Célio esteja insatisfeito com o rumo que a sua carreira tomou. É como se ele tivesse sido contratado para jogar futebol num grande clube, fizesse um golaço no jogo de estréia e, de repente, sem mais nem menos, rescindissem seu contrato, confiscassem a camisa dez que tanto lhe fez bem e tivesse que, sem escolha, voltar a jogar na várzea, num time cuja torcida não pede autógrafos e nem grita seu nome.

Sentado no sofá de três lugares de sua casa - alugada por R$ 500 mensais com muito esforço - Célio atende o celular. A esposa, que preparava o café na cozinha, pára por um instante tentando adivinhar quem está do outro lado da linha.

“Se eu combinei, eu vou”, afirma Célio ao celular, caminhando pela sala de mobília simples. “Não, tudo bem, eu vou, só que eu não conheço o cara. Isso não dá certo... Ó, daqui uma meia hora eu tô aí, tá bom? Beleza. Té mais.”

“Não gosto dessas coisas”, diz Célio, com uma expressão de desapontamento ao desligar o celular. “O cara quer que eu cante no bar dele e só agora avisa que o tecladista mudou. Vai ser outro. Não dá certo. A gente nem se conhece. E sabe o que é pior? Eu nem queria ir, é um barzinho no fim do mundo. Mas se eu disser não, vão falar: ‘Ah, o Célio é metido, não toca em qualquer lugar’. Então, eu tenho que ir. Canto algumas músicas e vou embora.”


Fim de noite

Sábado, quatro da madrugada. Como já era de se esperar, ao som da última música a pista de dança se torna espaçosa e abriga uma meia dúzia de casais. Numa das extremidades do salão, a garçonete que sempre ouve gracinhas dos clientes descansa as pernas, sentada numa cadeira de plástico. Perto do bar, um senhor de cinquenta e poucos anos dorme pesado.
A cena poderia ser de qualquer casa noturna, não fosse um detalhe aparentemente corriqueiro. Na porta de saída, quase na área de estacionamento, uma mulher de cabelos castanhos avermelhados conversa com os clientes que deixam o lugar.

Essa mulher é Penha. A todos que deixam o baile, ela se despede com um sorriso no rosto e deseja: “Boa noite, até sexta”.
“Faço isso desde o dia em que inauguramos o baile”, comenta Penha, se referindo ao já tradicional costume de se despedir dos clientes no final do baile. “E a gente não faz isso pra angariar mais clientes, não. É uma coisa nossa. Que nasce com a gente.”

O Berrante não tem site, e-mail, blog e muito menos twiter – a última sensação da internet. Apenas uma comunidade no Orkut, com (por enquanto) 73 membros. O contato com os clientes é feito à moda antiga. Se você quiser reservar uma mesa basta discar os números do celular ou do telefone residencial de Penha estampados nos panfletos que ela distribui. Há mais de uma década é através dessa logística que o Berrante funciona.

E embora não haja receita para o sucesso, como Penha mesma diz, um cartaz fixado na entrada do forró mais popular da região mostra um aviso importante àqueles que quiserem ingressar nesse mercado: “Sapo tem olho grande, mas vive na lama”.

* Jornalista e pós-graduando em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (www.abjl.org.br), turma São Paulo 2009.
r. general jardim, 618 / 51 - são paulo / sp + 55 11 3129-8320