A vida depois daquela
* Sibele Oliveira
O acidente aconteceu no dia 11 de fevereiro de 2001, em Iguape. Na época eu trabalhava numa loja no Shopping ABC e peguei folga naquele fim de semana para viajar. Gozado que aconteceram várias coisas antes, parece que eram sinais. Briguei com a minha mãe no dia que ia viajar e ela me disse: “Não vai, você está nervosa, o tempo está fechando”. Acabei indo. No dia do acidente eu não estava nem um pouco a fim de sair. Falei para o meu namorado que estava cansada, que queria descansar. A gente estava querendo brigar, mas foi assim mesmo. Era o finalzinho da tarde de domingo e íamos voltar para São Paulo à noite. Eu, o meu namorado, uma prima dele, a amiga dela e mais três crianças saímos para passear. Fomos para a Ilha Comprida tomar sorvete porque estava muito calor. Na volta, o meu namorado estava dirigindo uma Land Rover – o carro de um amigo nosso que ficou no sítio – atrás de um ônibus. O ônibus deu um sinal errado e ele foi tentar fazer uma ultrapassagem quando viu um carro na outra pista. Ele desviou por causa do susto e puxou muito o volante. Acabou perdendo o controle do carro, que rodou algumas vezes, capotou e caiu na ribanceira.
O que era para ser um fim-de-semana como tantos outros, na companhia de amigos e do namorado, curtindo o sol de verão e o mar do litoral sul paulista, transformou-se no maior pesadelo da vida de Denise Ferreira. Na época, tinha 18 anos e acabara de concluir o ensino médio. Uma jovem de cabelos longos e loiros, traços delicados, olhos amendoados e voz suave. Como a maioria dos adolescentes, enfrentava o dilema de escolher uma profissão, mas também desfrutava da independência conquistada com a maioridade e saboreava cada uma das descobertas que o mundo adulto proporcionava. Num piscar de olhos, na rodovia Régis Bittencourt, Denise viu a rota de seu futuro ser desviada abruptamente.
Quando o carro virou para capotar, fui jogada prá fora, quebrei o pescoço e a minha sétima vértebra cervical comprimiu a medula. Também quebrei o cotovelo direito. O pessoal foi caindo conforme o carro foi rolando e eu fui a que fiquei mais perto da pista. Na hora, já não consegui levantar. Tentava levantar, mas só sentia um formigamento nas pernas. Se eu estivesse de cinto, provavelmente não estaria viva, porque a lataria do teto entrou toda no banco. O carro deu perda total. Foi tudo muito rápido, uma questão de segundos. Não sentia dor porque o meu corpo estava quente. A única coisa que sentia era mal-estar e um formigamento nas pernas. A minha ficha só foi cair no pronto-socorro de Iguape, onde me imobilizaram. Conversei com o médico e fiz exames. Aí vi que o negócio foi sério. Tive que esperar uma ambulância pra voltar pra São Paulo. Continuei acordada. Cheguei no dia seguinte de manhã e fui direto para o hospital fazer mais exames, e depois as cirurgias. Uma no pescoço, pra colocar uma placa no lugar da vértebra que quebrou, e outra no braço, para colocar um fio no cotovelo, onde tive fratura exposta. As outras pessoas só sofreram escoriações leves. O mais grave aconteceu comigo. Fiquei tetraplégica.
A mesma estrada escondia uma encruzilhada que mudou o percurso da vida do ex-goleiro reserva do São Paulo Futebol Clube, Bruno Landgraf das Neves, na madrugada de 11 de agosto de 2006. Bruno e Weverson Safiotti, quarto goleiro reserva, saíram do Centro de Treinamento do time, na Barra Funda, para se encontrar com as jogadoras de vôlei Natália Manfrim, Paula Carbonari e Clarisse Benício, do clube Osasco/Finasa. Bruno não se lembra de mais nada desde então. Era sexta-feira. Eles foram se divertir num barzinho no bairro do Morumbi. As garotas queriam dançar e Bruno lembrou que era o aniversário de São Lourenço da Serra, sempre comemorado com shows na praça da cidade. Ao chegarem lá, descobriram que naquele ano não haveria comemoração. Para não perder a noite, resolveram ir para Juquitiba, cidade vizinha.
Passava de meia-noite quando eles pegaram a estrada novamente. A conversa animada foi interrompida assim que Bruno perdeu a direção do seu Golf prata, no km 311 da rodovia Régis Bittencourt. O carro capotou e, posteriormente, caiu num desnível da pista. O que aconteceu em seguida poderia fazer parte do enredo de um filme dramático, mas foi real. Bruno saiu do carro e, desesperado, tentou subir o barranco. Acabou escorregando e, com o impacto da queda, sujou a camisa e os dentes de terra. Na segunda tentativa, conseguiu voltar à estrada. Seus gritos de socorro foram ouvidos por uma amiga da família que mora na região. Ninguém presenciou o que ocorreu entre o momento dos gritos e a chegada da ambulância do SAMU. Quando os pais do ex-goleiro chegaram, ele já estava imobilizado, a caminho do pronto-socorro de Juquitiba. Depois de constatadas fraturas entre a quinta e sétima vértebras cervicais, ele foi transferido para o hospital São Luís, em São Paulo. Lá, passou por duas cirurgias para a fixação de uma haste nas vértebras comprometidas e permaneceu quase nove meses internado. Recobrou a consciência um mês depois. Ficou tetraplégico. Dois de seus amigos, Weverson e Natália faleceram no acidente. Paula e Clarisse tiveram apenas ferimentos leves e contaram como tudo aconteceu.
Recomeço
Só quem é privado de andar reconhece a magia de dar um passo após o outro e assim formar caminhos, ritmos e encurtar distâncias. Pode soar estranho, ou mesmo banal, para quem tem total domínio sobre as pernas. Mas caminhar é o sonho que mantém a vida do ex-goleiro Bruno de pé. “Vou fazer de tudo para voltar a andar. Essa é minha prioridade”, diz convicto. Antes do acidente, ele ostentava porte de atleta, pinta de modelo e não conseguia passar despercebido do alto de seu 1,92m de altura e 86 quilos. Desde cedo, o jovem de pele clara, cabelos pretos, olhos castanhos e sorriso que transcende os limites do rosto foi seduzido pela paixão que a bola desperta na maioria dos meninos brasileiros.
Precoce, ele começou a jogar futebol aos seis anos de idade defendendo o São Lourenço da Serra, time da cidade em que morava. Aos 11 anos, participou de uma peneira com outros quinhentos garotos para treinar no SPFC. Foi selecionado e passou por todas as categorias de base do tricolor paulista: dente-de-leite, infantil e juvenil. Em 2002, no Mundial Sub-17, foi o goleiro titular da seleção brasileira e o menos vazado da competição, quando o Brasil venceu o torneio. Depois de integrar a seleção Sub-20, permaneceu pouco mais de um ano como terceiro goleiro reserva do time profissional. Para ele, o futuro tinha começado mais cedo. Com apenas 20 anos, Bruno havia recebido uma proposta do time inglês Arsenal e era tido por muitos o sucessor natural de Rogério Ceni.
A descoberta de que havia perdido os movimentos do pescoço para baixo não paralisou a vontade dele de viver. Ao contrário, ele tenta vencer as limitações físicas com a mesma obstinação que o fez um herói dos gramados. É feriado, porém a prioridade de Bruno não é o lazer, e sim a reabilitação. Ele está pronto para mais uma sessão de fisioterapia. No lado esquerdo da porta do quarto há um mural com fotos de vários momentos da sua carreira, de antes e depois do acidente. A família está reunida e, vez por outra, tias e primos do ex-goleiro passam pelo quarto para falar com ele, que não desvia a atenção dos exercícios, apesar do barulho da televisão, das conversas, do aroma da comida que está sendo preparada na cozinha e exala por toda a casa. Com a ajuda da fisioterapeuta Débora Rios, Bruno estende as pernas sobre o colchão de casal estendido no chão e une os pés para começar a sessão. A fisioterapeuta coloca caneleiras sobre as costas dele, que sustenta o peso do tronco nos braços.
Os exercícios exigem cada vez mais esforço. Agora ele deita, estende os braços em direção à cabeça e os alonga, enquanto uma expressão de dor invade o seu rosto. Exausto, apoia-se sobre uma bola de Pilates. De repente, apesar da ausência de sensibilidade, as pernas de Bruno começam a tremer. São espasmos que ocorrem quando os membros superiores são muito solicitados. Sentado à beira do colchão, Rogério Reis segura as pernas do primo até que as contrações involuntárias passem. “Como a gente teve muito contato desde criança, não vejo o Bruno assim. É um estágio que, se Deus quiser, vai passar. Ele tem uma força muito grande”, torce Rogério.
Em uma fotografia dos tempos áureos do ex-goleiro são-paulino, ele salta mais de um metro para agarrar a bola, de forma que o seu corpo ultrapassa a trave superior do gol. Enquanto isso, a fisioterapeuta joga uma bola infantil de plástico, que ele recebe e devolve, mesmo com as mãos enrijecidas. Cada progresso, por mais sutil que seja, tem sabor de vitória para Bruno. Quando voltou do hospital, ele ficava sob os cuidados de enfermeiros que se revezavam para acompanhá-lo 24 horas. Não tinha sustentação na coluna e não conseguia realizar nenhum tipo de movimento. Passados três anos, ele mexe os braços, antebraços e punhos e readquiriu parte da força e do equilíbrio.
Quase todo o seu tempo é ocupado com sessões de fisioterapia, hidroterapia, terapia ocupacional, equoterapia, acupuntura, eletroestimulação, além de aulas de natação e vela. “O Bruno sempre foi muito esforçado e a disciplina é 80% do caminho no tratamento. Às vezes a gente faz alguma atividade aqui e, se eu volto quatro ou cinco dias depois, ele já fez várias vezes e todos os dias aquela atividade. Ele já melhorou muito e vai conseguir o máximo que o organismo dele deixar”, afirma Débora. Sem transparecer o cansaço ou perder o bom humor, Bruno conclui a tarefa do dia. O cheiro da comida fica cada vez mais forte. É o almoço que chega ao quarto.
Denise também passou por longos anos de reabilitação e foi submetida a diversos tratamentos. No início, dependia de ajuda para tudo. Entretanto, não era a perda da autonomia o que mais a incomodava, mas a falta de controle sobre o próprio organismo, que feria a sua vaidade de adolescente e mulher. “Como lesada medular, perdi a sensibilidade e o controle de urinar e evacuar. Fiz o cateterismo intermitente, que é uma sonda de alívio, descartável, que coleta a urina e é trocada de 6 em 6 horas, mais ou menos. É o que praticamente todo lesado medular faz. Para evacuar, fazemos algumas manobras. Antigamente eu usava fralda, o que era constrangedor para mim, porque eu não podia vestir uma calça justa, que aparecia. Hoje em dia fico mais à vontade.”
Depois de passar pela AACD, Denise participou de uma reabilitação intensiva de três semanas no Hospital Sarah, em Belo Horizonte, onde aprendeu a se vestir sozinha, tomar banho, passar do sofá para a cadeira de rodas e da cadeira de rodas para a cama com o auxílio de uma tábua de transferência e já consegue dirigir seu carro adaptado. Hoje ela tem traquejo para lidar com os obstáculos impostos pelo próprio corpo.
Pintando sonhos
Tudo o que Eliana Zagui aprendeu na vida foi entre as quatro paredes do seu quarto. Antes de completar dois anos de idade, mudou-se para o endereço em que reside até hoje. Seu “apartamento” localiza-se no primeiro andar, ala A, quarto 123, na UTI do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas. Só entra lá quem obtém permissão para atravessar uma porta branca e larga que permanece sempre trancada. O quarto dela é o primeiro (à direita de quem passa pela porta). No interior do aposento, ouve-se um som abafado e contínuo: Paaa, tum, paaaa, tum, paaa, tum. É do respirador artificial que fica 24 horas conectado à sua traqueia e a mantém viva, pois ela perdeu 50% da capacidade pulmonar.
Eliana está deitada, na mesma posição em que passou os últimos 33 anos, desde que foi acometida por uma poliomielite que provocou danos irreversíveis nos neurônios da sua medula espinhal e córtex motor. Chegou a ser levada para receber vacina, mas na época não vacinavam crianças com febre e garganta inflamada, que era o caso dela. Quando a doença foi diagnosticada, já havia se alastrado pelo organismo de Eliana e só o Hospital das Clínicas dispunha de recursos para tratá-la. Sem hesitar, seus pais resolveram tirá-la de Guariba, sua cidade natal, no interior de São Paulo, e a levaram para o HC. Hoje, Eliana só consegue mexer a cabeça e vive deitada. Ela até tem uma cadeira de rodas, mas não se sente confortável sentada.
É uma briga de foices entre eu e cadeira. Meu emocional não se moldou a ela porque é muito diferente olhar o mundo deitada e sentada. E eu passei a olhar o mundo sentada há poucos anos e raras vezes. Então, fico assustada, principalmente quando estou na rua. Por mais que eu esteja olhando o que mais gosto – a natureza, de onde ela começa até onde vai – fico meio apreensiva quando vejo carros e ônibus. Não é que eles vão me atropelar, mas fico muito assustada. O meu pânico já foi pior, mas ainda olho os veículos como monstros. Agora, as pessoas não. Eu olho mesmo. Sei que estão me olhando, mas não estou nem aí.
A cama de Eliana fica à direita de quem entra no quarto e, do lado esquerdo, fica a de Paulo, seu companheiro de dormitório durante toda a vida, também vítima de poliomielite. Ele foi o primeiro a chegar e hoje tem 40 anos de “casa”. Ao lado direito da cama de Eliana, há dois porta-retratos, um com uma foto dela aos oito anos, caracterizada de caipira durante a comemoração de uma festa junina, e o outro estampa Eliana já adulta, ao lado de um dentista. Abaixo fica o respirador artificial com um adesivo indicando a data em que a sonda do respirador artificial foi trocada e, no canto direito está o armário dela, entremeado por uma estante, onde há uma televisão, aparelho de DVD, bichos de pelúcia, bonecas, um DVD do filme “Dirty Dancing” e muitos livros, incluindo a bíblia, um dicionário de italiano, A Cabana, que ela está lendo atualmente, e outros romances. O banheiro fica no lado esquerdo e, no outro canto, alguns objetos cobertos por um lençol, entre eles a cadeira de rodas que ela raramente usa, além de um gabinete e um micro-ondas no centro da parede, preso por um suporte. Pouco mais de dois metros quadrados são testemunhas de brincadeiras, risos, choros, traumas, medos, aprendizados, Natais, Reveillons e aniversários. Momentos sempre compartilhados com Paulo e a equipe do hospital.
Eliana sai de “casa” em média cinco vezes por ano para ir a eventos destinados a portadores de necessidades especiais, feiras artesanais, igrejas, shoppings, praias e para comemorar seu aniversário – uma das poucas ocasiões em que vê a família, que não costuma visitá-la mais que quatro vezes durante um ano. De vez em quando, ela recebe convites especiais, como o feito por organizadores de uma exposição com obras de Auguste Renoir, em 2002. “Abriram o Masp só para nós, eu e o Paulo, em plena segunda-feira. Nossa! Babei. Conseguimos visitar o acervo do museu e fiquei impressionada com alguns quadros, principalmente o Rosa e Azul, não só pela pintura, mas pela história das meninas, que é muito triste. Aquilo me tocou”, recorda. Quando sai do hospital, Eliana precisa ser acompanhada por um médico, auxiliar de enfermagem, técnico de gasoterapia e ambulância com cilindros de ar comprimido. Tanto os responsáveis do hospital quanto os acompanhantes precisam assinar um termo de responsabilidade. Essas saídas normalmente acontecem nos finais de semana, quando a equipe cede um dia de sua folga para acompanhá-la.
Embora o corpo de Eliana esteja inerte sobre o leito, seu rosto é expressivo. Ela gesticula com a boca e os olhos azuis, encobertos por uns óculos de armação avermelhada, enquanto os cabelos escuros e levemente cacheados destacam sua pele branca. O sentimento de pesar pelos anos vividos à margem do mundo e pelos sonhos sufocados dentro de um quarto de UTI é denunciado em sua face. Por vezes, ela comprime os olhos e cerra os lábios, expressão que mantém durante alguns segundos, como se esperasse que a compaixão que sente por si mesma fosse compartilhada por todos que conhecem a sua história. Ao mesmo tempo, suas palavras emanam força, sabedoria e ternura, sensibilidade que ela imprime em suas pinturas. Eliana descobriu a paixão pela arte aos oito anos de idade, durante sessões de terapia ocupacional, e não imaginava que esse seria o primeiro passo para desnudar sua alma de artista. “Foi uma tentativa descobrir o que eu podia fazer com a boca. A princípio era mais distração porque eles não me davam muito tempo de vida. No máximo dez anos e hoje eu estou com 35. Passei do prazo, né?”
Desde 1996, a artista plástica e voluntária, Úrsula Carvalhaes, a auxilia na pintura dos quadros, desenhando, preparando tintas, virando as telas ou fazendo pequenos retoques. Eliana não titubeia ao falar sobre sua fonte de inspiração. “O meu pintor favorito é Deus. Ele tem a paleta e me dá as cores”, filosofa. O que ela mais gosta de pintar são paisagens, objetos que simbolizam seus desejos e imagens vindas de manifestações oníricas, como o mar, pássaros, crepúsculos, alianças e dançarinas. Seus olhos cintilam um brilho de diamante quando ela se imagina livre da tetraplegia. “Nos meus sonhos, nunca estou deitada. Penso que se eu andasse, gostaria de dançar. No estilo do filme ‘Dirty Dancing’ ou ‘Flashdance’, sabe? Com todo aquele sincronismo.”
À esquerda do travesseiro, a tela desenhada é amparada por um suporte de madeira que a deixa em posição vertical. Apoiada na tela há uma pequena paleta de cores com tintas acrílicas, um pedaço de pano, um copo com água e um desenho utilizado como referência. Uma espátula de madeira – daquelas usadas para examinar a garganta – é acoplada ao pincel que, por sua vez, é agilmente manobrado dentro da boca de Eliana. Ela mistura as cores, forma matizes e tateia a tela com pinceladas suaves que se transformam em luzes, sombras, relevos e nuances. O cacho de uvas parece ganhar vida à medida que é delineado com contornos perfeitos. Quase dá para sentir o aroma. Úrsula me mostra as obras recentes de Eliana e comento sobre a precisão dos detalhes quando a artista nos interrompe para salientar que gosta de minúcias. Parte dos quadros de Eliana é comercializada pela ONG Pintores com a Boca e os Pés e o restante é guardado em seu acervo pessoal.
Velejar é preciso
Manhã de domingo. O frio na Represa de Guarapiranga faz os funcionários e associados do clube da Associação dos Servidores do Banco Central vestir agasalhos pesados. As araucárias e eucaliptos formam uma espécie de portal às margens da represa e o píer flutuante de madeira mais parece um tapete que conduz às águas abundantes. Nenhuma embarcação à vista. Apenas alguns biguás deslizam debaixo do teto de nuvens acinzentadas. Bruno chega cedo para velejar. O barco à vela Poli 19, da USP, adaptado artesanalmente com uma cadeira de resina e apoios laterais para os braços, está ancorado a espera dele e de Penélope Charmosa, como é carinhosamente conhecida sua companheira de treino. Acompanhado pelos pais, ele é conduzido ao píer, e o treinador, Vitor Hugo Marcelino, o ajuda a entrar no veleiro.
Começa a regata. Enquanto Penélope Charmosa controla a vela da frente e Vitor, a do meio, Bruno é responsável por guiar o barco. O sol emerge das nuvens e, no interior do veleiro, o trio conversa descontraidamente sobre competições de vela, futebol e assuntos variados, mas Bruno não perde a concentração herdada dos treinos de futebol. “Preciso prestar atenção para não errar, porque basta uma erradinha de nada para o barco virar com tudo para o outro lado. Aí tenho que fazer tudo de novo.”
O cenário é bem diferente dos seus tempos de goleiro. No lugar do gramado, pequenas ondas ritmadas, orquestradas pelo vento. Em vez da explosão de gritos da torcida, um silêncio quebrado apenas pelo barulho dos motores dos carros que estão competindo na Stock Car, no autódromo de Interlagos. Ao invés de impedir que a bola balance a rede, suas mãos repousam sobre as duas alavancas que determinam o norte da embarcação. O treinador o orienta a girar a popa em volta da pequena Ilha dos Amores e eles estão prontos para voltar. Em um futuro breve, Bruno e sua parceira planejam integrar a equipe paraolímpica de vela.
À luz da noite
Denise descobriu uma maneira de mostrar ao mundo que a vida de um tetraplégico não se restringe aos limites de uma cadeira de rodas. Por indicação de uma amiga, ela se matriculou em um curso de teatro musical para portadores de necessidades especiais, tornou-se atriz e está em cartaz em sua segunda peça. Ela transmite emoção e arte através do canto, interpretação e movimentos acrobáticos feitos em sua cadeira de rodas. Denise é a única tetraplégica do elenco de “Noturno Cadeirante”, peça originalmente criada por Osvaldo Montenegro para “andantes” e, posteriormente, adaptada para cadeirantes. Além dela, há outros quatorze atores paraplégicos e amputados.
Nos fundos de uma galeria da rua Domingos de Moraes, localiza-se o teatro Dias Gomes, onde, antigamente, era uma sala de cinema. É noite de sábado e há um congestionamento de cadeirantes e andantes no pequeno saguão do teatro. No balcão da lanchonete, um deficiente auditivo conversa usando a linguagem dos sinais e a balbúrdia não desvia a atenção do enorme cartaz com a foto dos atores em frente à sala. Estou na oitava fileira central e, antes de começar o espetáculo, enquanto o telão exibe propagandas, ouço dois jovens na fileira de trás comentarem sobre seus acidentes. Eles lamentam que poucos lesados medulares fazem “uso” de suas capacidades. Tenho a impressão de que os 400 lugares da sala estão ocupados. O espaço dos corredores está praticamente todo preenchido por cadeirantes e todos parecem formar um enorme grupo de amigos. O diretor Deto Montenegro fala sobre o texto, inspirado na noite paulistana, e anuncia que a peça irá começar.
Escuro total. Flashes de luzes com os atores em cena. Escuro novamente e não há mais vestígios dos atores no palco. As cadeiras de rodas correm em direção à plateia e as luzes se apagam. Nem sinal do vaivém da coxia. Música, expressão, coreografias ágeis, movimentos sincronizados, humor, encontros, boemia e abandono. São cenas arrancam risos e lágrimas. A mobilidade do elenco desafia os olhos e o relógio, e as canções carregadas de significados dão um recado para andantes preconceituosos e cadeirantes incrédulos. “Entre o neon e as sombras, acorda!”
Cada performance é aplaudida efusivamente e os gritos de “U-hu” ameaçam desmontar o teatro. Denise e os outros hipnotizam a plateia ao som de “I still haven't found what I'm looking for”, do U2. Fim do espetáculo. Denise sai de cena cansada, com a sensação de dever cumprido.
Para mim, todo mundo tinha que assistir à peça porque as pessoas não conseguem perceber que quem tem deficiência vive, estuda, trabalha, namora, casa, tem filhos, tudo. Só tem um pouco mais dificuldades do que a pessoa que tem os movimentos. É bom até para as pessoas que reclamam da vida, que têm tudo para ser feliz e não enxergam. Elas se surpreendem quando veem a gente numa cadeira de rodas com um sorriso no rosto.
Vida normal
Quem tem o domínio de todos os movimentos do corpo, muitas vezes vira o rosto, lança olhares de comiseração ou subestima a capacidade dos tetraplégicos de ter uma vida produtiva. “As pessoas até querem ajudar, mas pensam que se você está na cadeira, não consegue nem falar. Em vez de falar comigo, perguntam para a minha mãe, para o meu pai. Às vezes, elas pensam que sou meio retardado. Mas eu não esquento”, resigna-se Bruno, que já recuperou parte de sua autonomia. Nas atividades do dia-a-dia, ele só precisa de ajuda para se vestir, fazer transferências da cama para a cadeira de rodas e para o banco do carro, lavar-se dos joelhos para baixo e de alguém que o impulsione em subidas ou descidas íngremes.
Denise se vale dos “anos de cadeira” para provar que a vida não termina com um golpe certeiro na medula. Além de atriz e modelo de campanhas filantrópicas, ela ainda encontra espaço para a solidariedade. É vice-presidente da ONG Viva as Diferenças, entidade que tem por missão comprar cadeiras de rodas sob medida para tetraplégicos de baixo poder aquisitivo, com o dinheiro arrecadado em eventos beneficentes como churrascos, bingos e festas. Ela acredita que seu exemplo serve de estímulo para quem está revoltado com o destino e se dispõe a conversar com as vítimas de acidentes e suas famílias. “O principal objetivo de tudo o que eu faço, seja pela ONG ou no teatro é ajudar quem acabou de sofrer um acidente a ver que pode seguir uma vida normal e ser feliz.” O próximo passo de Denise é se preparar para ministrar palestras em escolas e empresas e debater questões como a acessibilidade dos portadores de necessidades especiais.
Mesmo morando em um hospital, a rotina de Eliana não é monótona. Além de pintar quadros três vezes por semana, ela produz artesanatos, lê, assiste televisão, passa horas no notebook, conversa nos telefones fixo e celular, mantém um site, está concluindo o ensino médio e ainda está escrevendo sua autobiografia com a ajuda de uma jornalista. “Comecei a escrever o livro em 2002. Não sei o que esperar desse livro. Só sei que dá medo porque a porcentagem de quem me conhece é mínima. Só que o livro vai abrir a Eliana para o mundo. Isso assusta.”
Corações sem amarras
A fatalidade pode calar os movimentos do corpo, mas não sucumbe o desejo de amar. Os sentimentos dos tetraplégicos são imunes aos estragos provocados por qualquer doença ou acidente. Permanecem intocados. Mesmo não sendo possível exibirem uma silhueta perfeita com músculos torneados, não podendo preparar um jantar a dois ou riscar um salão com passos de uma dança romântica, eles podem ter uma vida amorosa plena.
Eliana não usa eufemismos para mascarar as armadilhas com as quais se deparou durante a sua busca pelo amor. Ela se cadastrou no site Grandes Encontros e conheceu várias pessoas, mas enfraqueceu-se diante dos preconceitos contra sua limitação física.
Acho que cansei de procurar. Não quero um super-homem. Procuro encontrar - se é que existe - alguém que ande comigo mesmo eu estando parada. A pessoa pode andar, mas o meu andar é sem sair do lugar. E não vejo um homem que esteja disposto a isso. Se apaixonar pelo virtual é complicado porque você não vê, mas as palavras encantam. É aí que está o perigo. Já conheci muita gente no real. Já me apaixonei. Já vieram aqui. Independente de ser pela internet ou não, para o homem é mais difícil aceitar uma mulher deficiente. Vejo isso nitidamente no segundo andar, na parte de lesados medulares. Lá, muitos são casados ou namorados. E a mulher está sempre do lado. São raras as que fogem. Agora, quando é o contrário, o homem some. Ele não consegue bancar isso por n motivos. É claro que para o homem o que fala muito alto é o sexo. Muitos não acreditam que uma deficiente tem desejos, vontades. Mas se houver uma cumplicidade, com certeza haverá amor e prazer dos dois lados. Eu acredito nisso. Às vezes penso: ‘Por que eu não tenho alguém?’ Mas não vejo um cara que se disponha a falar: ‘Olha, mãe. Hoje eu vou tirar o domingo para ficar com a minha namorada no terraço do hospital’ ou ‘Ah! Vamos dar uma volta, vamos passear. Pede para te colocarem na maca e me apresenta alguns lugares do hospital.’ Porque eu não posso sair só com um homem. As pessoas falam ‘Tem tantos exemplos aí’. Tá. Legal. Mas eu estou cansada de exemplos. Eu quero viver. Já gostei de algumas pessoas, sofri bastante e ainda sofro. É claro que hoje não é tão dolorido como já foi, mas eu sofro. Quero, sonho. Às vezes busco, às vezes não. Não sei se um dia vai aparecer alguém.
Ao contrário de Eliana, Bruno não tem problemas com a vida amorosa. Focado na reabilitação, o que falta para ele é tempo para namorar. “Só não posso andar, porque o resto, com ajuda eu consigo. Quando o acidente aconteceu, eu tinha outra namorada. Ela ficou comigo no hospital, o tempo todo. Quando saí de lá, a gente terminou. Agora comecei a namorar uma menina com quem fiquei quando tinha 15 anos. Já faz cinco meses que estamos juntos. O tempo dela é corrido porque ela trabalha direto e quando ela não está trabalhando eu estou fazendo alguma terapia. Então a gente fica igual Tom e Jerry”, conta com um sorriso maroto.
Denise continua com o mesmo namorado que estava ao seu lado no acidente. Juntos, eles descobriram outras maneiras para manter o relacionamento intenso e completo, como o de qualquer casal.
A gente se aproximou mais e teve que aprender tudo de novo. O meu namorado me ajudou a me reabilitar sexualmente também. Como não tenho sensibilidade nos membros inferiores, a gente acaba aprendendo a estimular outros sentidos. Nós dois fomos descobrindo, juntos, o que era legal ou não. Temos uma relação normal como era antes. A única diferença é que não tenho movimentos. O meu sonho agora é casar e, no futuro, talvez ter um filho. É só a gente se estabilizar financeiramente.
Encouraçados pela esperança
Eliana, Bruno e Denise são donos de uma fé que remove limites. E é a fé que encoraja Eliana a seguir em frente.
Não é fácil viver aqui, por mais que o hospital tenha abraçado a minha causa. Eles me educaram ao modo deles. E é assim. Você tem duzentas mães e cada uma fala uma coisa. Então são duzentas leis que você tem que obedecer. Para colocar um papel aqui, preciso de alguém que coloque. Isso cansa? Cansa. Dá raiva? Dá. Tenho oscilações de humor, às vezes. Antes era pior. Pensava: ‘Ah! meu Deus, nunca vai passar’. Mas Ele me ajuda. Pelos anos que estou deitada, pela graça de Deus eu nunca tive uma ferida. E são aaa-nos. Já Passei por fases piores. Não vou dizer que às vezes não bate aquela vontade de sumir. Bate, bate, sim. Algumas pessoas me falam que estou sempre sorrindo, que parece que não tenho problemas. Cada um olha de um jeito. Acredito que se eu não tivesse a fé que tenho e às vezes esmorece, não estaria viva. Não mesmo. Procuro tentar não me abater tanto, não entregar os pontos, por mais que às vezes dê vontade de dar o grito de guerra, sabe? Eu fico triste, mas que isso não seja duradouro a ponto de me afundar numa depressão. Às vezes me sinto deprimida, mas eu evito que isso me deixe ainda mais paralisada. Porque se eu deixar, não vai ser só o corpo paralisado, vai ser a mente também. E aí vai tudo por água abaixo. Sei que não estou aqui sozinha. Toda essa vontade de ir prá frente não é só minha. É a Eliana junto com Deus, sempre, sempre, sempre.
Voltar a andar não é uma esperança perdida na vida de Denise. Ela acompanha as pesquisas com células-tronco, mas não tem coragem de participar de tratamentos experimentais. “Acredito que ainda vão descobrir alguma coisa. Eu tenho medo de ser cobaia, de voltar a ter sensibilidade e sentir muita dor ou de piorar o meu estado. É melhor esperar mais um pouquinho”, avalia, com um ar de cautela.
Bruno contrariou os diagnósticos médicos que afirmavam que a sua paralisação seria completa e irreversível. Além de não se enxergar totalmente paralisado e lutar incansavelmente contra suas limitações físicas, ele encontrou no otimismo uma nova forma de sustentar a sua vida. Ao invés de se entregar à revolta, aprendeu a valorizar mais as coisas simples.
O que muitas vezes a gente acha besteira, como comer, pegar um copo, é uma coisa bem difícil para quem não pode. Então você se põe no lugar das pessoas que antes só via e agora sente na pele o que elas passam. É outra visão. Às vezes, você fala: ‘Ah! não estou conseguindo andar e isso é ruim’. Aí vai ao hospital e vê crianças, pessoas que não têm as duas pernas, os dois braços e fazem um monte de coisas. Cada dia você tem uma lição e tira que o seu problema não é nada perto dos outros. Isso dá mais força, vontade para estar sempre buscando um algo mais. Para mim, o pior é ficar parado. Fico o dia todo me mexendo, fazendo alguma coisa. Ficar parado, com a cabeça vazia, só traz pensamentos ruins.
Limites tanto podem significar o fim quanto um novo começo. É uma questão de perspectiva. Foi essa mensagem que a mãe de Bruno, Neide Landgraf das Neves, me passou quando a conheci, no píer da Represa de Guarapiranga. Com um olhar sereno e maternal, ela me disse: “Se for da vontade de Deus, até futebol o Bruno vai voltar a jogar. Mas não tenho pressa. Não fico desesperada. Como mãe, o meu coração não me fala para ficar desesperada. Tenho que ter calma para ajudá-lo da melhor maneira possível, fazer o que posso e ir em frente. É Deus em primeiro lugar. Deus é o médico dos médicos. Só Ele decide o que tem que ser. Eu nunca vou perder a esperança”.
* Jornalista e pós-graduanda em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (www.abjl.org.br), turma São Paulo 2009.
r. general jardim, 618 / 51 - são paulo / sp + 55 11 3129-8320
