TextoVivo - Narrativas da vida real

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05/10/2009 | enviar a um amigo | imprimir | a-   a+

Sobreviventes do Césio 137


Carla Lacerda *


Na alma

Na casa que há um ano evocava fortemente lembranças de um período turbulento na vida de Lourdes das Neves Ferreira, 56, mudanças recentes na sala de estar tentam velar um passado que não se dissipa, não se esvai. Fotos guardadas, reorganizadas, trocadas de lugar. Mas as memórias permanecem. E machucam. “Esquecer, esquecer não tem como. Por isso procuro sempre manter a mente ocupada”, revela a senhora que há vinte anos mora no Setor Cidade Satélite São Luiz, em Aparecida de Goiânia, município da Região Metropolitana.

Hoje, sozinha. Sem o marido, sem uma das filhas e sem esperanças de uma vida melhor. Esperanças que faziam parte de sua rotina em 1987, quando vivia com toda a família na Rua 6, do Bairro Norte Ferroviário, em Goiânia. O lar foi derrubado por um minúsculo pó azul. Uma sobrevivente. Do maior acidente radioativo ocorrido em uma área urbana no mundo. Sobrevivente do césio 137.

Dona Lourdes é a mãe da menina que virou vítima-símbolo da tragédia, a pequena Leide das Neves, morta em 23 de outubro de 1987, com apenas 6 anos, pelos efeitos da radiação. Tem outros dois filhos, Lucélia, 37, e Lucimar, 35, que, agora adultos, têm sua própria família – ou tentam ter. O marido, Ivo Alves Ferreira, morreu em 2003, de insuficiência respiratória. Foi ele quem levou o pó do césio para casa, após uma visita ao irmão Devair Alves Ferreira, que havia comprado uma peça de chumbo há poucos dias.

Não sabia Di, como era conhecido Devair, que o objeto era parte de um aparelho utilizado para tratamento de câncer, no qual estava acoplada uma cápsula da substância radioativa. Muito menos suspeitava que o artefato tinha sido retirado de uma clínica desativada no Centro de Goiânia, o antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), hoje o prédio do Centro de Convenções da capital. E também não imaginava que existia um órgão federal chamado Comis são Nacional de Energia Nuclear (Cnen), responsável pela fiscalização de material radioativo no País, mas que não supervisionava o local há cerca de dez anos.

“A gente nunca tinha ouvido falar em césio, radiação, essas coisas”, pontua dona Lourdes, voz serena, boca fina, olhos grandes castanhos. Que não viram graça no brilho da luz azul. Mas que tremem, tremem, se é que possível, ao avistar um depósito de ferro-velho. Como o que seu cunhado Devair tinha na Rua 26-A, Setor Aeroporto. Como o que seu marido comandava no lote em que moravam no Norte Ferroviário. Como o que existe, ironicamente, ao lado de sua atual casa. Do qual ela diz ter medo. Passado inconveniente. E que ainda insiste em ser presente.


*****

Ele já tentou abrir uma confecção. Um bar. Uma frutaria. Mas nada deu certo na vida profissional de Odesson Alves Ferreira, 53, nas últimas duas décadas. E olha que o ponto era bom – Rua Silva Bueno, Jardim Nova Era, Aparecida de Goiânia. O tamanho era bom – uma sala de aproximadamente 42 metros quadrados. E os clientes... Bem, estes não apareciam. “A ignorância do ser humano não me deixou trabalhar, não me deixou progredir”, desabafa Odesson, 1,72 de altura, 103 quilos, e um peso enorme nas costas. Sobrevivente do césio 137, ele vê o preconceito esmagar suas possibilidades de reinventar o presente e de planejar o futuro. O passado o arrasta. “As pessoas me tornaram um parasita”, arremata.

A discriminação na vida de Odesson - Adelson para os íntimos e familiares – é uma raiz que começou a brotar pouco depois de setembro de 1987, quando ele se tornou personagem da tragédia radioativa em Goiânia. “Até hoje as pessoas me olham desconfiadas, achando que eu posso passar radiação”, comenta ele. “Vivi duas vidas em uma. Os amigos não são mais os mesmos, nem os parentes – muitos morreram depois do desastre e outros se afastaram”, continua o senhor moreno, de fala pausada e articulada.

A pior lembrança que ele guarda de todo o episódio está ligada à fase da internação hospitalar. Sem informação, sem certezas, sem carinho. Um dos constrangimentos que não sai da cabeça de Adelson diz respeito à visita do então presidente da República José Sarney (hoje senador pelo PMDB do Amapá), ao Hospital Geral do Inamps – hoje Hospital Geral de Goiânia (HGG) -, no dia 14 de outubro de 1987. “Há aproximadamente um mês não limpavam a ala do hospital em que estávamos. Naquele dia, lavaram tudo e nos colocaram no fundo do quarto. A comitiva, toda paramentada com roupas especiais, máscaras e luvas, passava olhando pra gente com cara de espanto, pena, medo. Era como se fôssemos animais.”


*****

Wagner Mota Pereira, 40, não era catador de papel. Nunca foi. Mas da história oficial não se foge. Até hoje ele é conhecido como um dos catadores que encontrou uma bomba de césio abandonada num terreno baldio em Goiânia. Na época do acidente, setembro de 1987, tentava se consolidar como motorista da antiga Casa do Colegial. “Olha aqui a minha carteira”, aponta o homem de rosto cumprido e cabelos pretos, enquanto lista outros empregos que já teve: engraxate, entregador de salgado, funcionário de uma cantina, de uma loja de autopeças. Nada que indique que o então jovem de 19 anos flanava pelas ruas de Goiânia.

Da capital, entretanto, ele fez questão de minar as lembranças. Atualmente vive sozinho no Bairro Maracanã, em Anápolis, cidade localizada a 55 quilômetros de Goiânia. O casamento com a primeira esposa foi desfeito em 1998 – a união havia sido selada alguns meses antes do acidente com o césio 137. Sobre os motivos da separação, ele se desvencilha. Não comenta. Prefere também omitir o nome da ex-companheira. “Pode ficar chato pra ela, né”, diz, dando mostras de que ainda é forte o preconceito para quem estabeleceu ou estabelece laços com os radioacidentados. Mas existem as exceções – e um anel dourado na mão direita dele deixa isso claro. “Estou noivo há dois anos”, informa.


*****

A vida de Wagner começava a ser revivida – ou sobrevivida – existiria este termo? – no dia 4 de dezembro de 1987. Ele conseguiu escapar da morte. A história oficial também registrou o fato:

Rio de Janeiro - No boletim médico distribuído ontem pela manhã, os médicos do hospital informaram apenas que um dos pacientes, Wagner Mota Pereira, ainda necessita de cuidados médicos. No entanto, ele não precisa mais ser submetido a atendimento especializado, podendo continuar seu tratamento no Hospital Geral do Inamps, em Goiânia. O documento da Marinha dizia ainda que o paciente está com seu quadro clínico mantido e o hematológico sem alterações em relação aos últimos dias “

Brasília, “Correio do Brasil”, 04/12/1987 - No dia 10 de dezembro de 1987, pousava no aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, o avião da Força Aérea Brasileira (FAB) trazendo os últimos pacientes internados no Hospital Marcílio Dias, para onde haviam sido transferidas as vítimas mais graves do acidente com o césio 137. Geraldo Guilherme da Silva, Edson Fabiano e Wagner Pereira chegaram por volta das 13h30. Das 14 pessoas internadas na unidade carioca, quatro não retornaram com vida à capital goiana: Maria Gabriela Ferreira, 37; Leide das Neves Ferreira, 6; Israel Batista dos Santos, 22; e Admilson Alves de Souza, 18 – os dois últimos, funcionários do ferro velho de Devair.

Em solo goiano, Wagner, vestido com um pijama de hospital na cor verde, desabafava:

- Saí da morte, né. Tava morto, tô vivo graças a Deus. Eu só tenho que agradecer aos médicos lá, a gente foi bem tratado, bem cuidado. Tô de volta, pisando no chão da minha terra.

O olhar do jovem se voltou para baixo, para a pista do aeroporto. Ele continuou, após intervenção de um repórter:

- Acreditei além de tudo em Deus. Se não fosse ele... Ele é o médico dos médicos.

A fé de Wagner, como ele próprio afirma, começou a ser testada exatamente há duas décadas, poucos dias antes do maior acidente radiológico do planeta.


No corpo

- Deus, quero te conhecer. Quero te ver como os discípulos te viram. Se for preciso, estou disposto a passar por um sacrifício. Quero ser provado e aprovado.

Quando disse tudo isso, não imaginava o que estava por vir. Sete, no máximo 15 dias após este pedido, o acidente aconteceu. Era domingo, 13 de setembro e eu reformava o piso do meu barracão junto com um pedreiro – morava na Rua 63, com minha esposa e enteada de 4 anos, no fundo do lote da minha sogra. Por volta das 7 horas, o Roberto apareceu.

- Achei uma peça de chumbo nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia. Vamos lá ver.
- Tô trabalhando, Roberto.
- Vamos, Wagner. Pode ser que esse material dê algum dinheiro.

O Roberto, vestido como de costume – short, camiseta, chinela Havaiana e cabelo penteado impecavelmente para trás, com o auxílio de um gel - ficou me “alugando” até a hora do almoço.

Aí, falou uma frase que pareceu um tiro na minha cabeça:

- Vivo te fazendo favores e você não me retribui - resmungou. Vamos, Wagner. Já passei na casa do Levy, do ‘Borracha’ e do ‘Dão’ e eles não puderam ir - insistiu Roberto.

Fiquei sem jeito; resolvi acompanhá-lo. Antes, porém, chamei o Roberto pra almoçar. Acho que minha esposa tinha feito arroz, feijão, frango e salada. Terminada a refeição, partimos rumo ao IGR, um prédio abandonado, em ruínas, que ficava na avenida Tocantins com a Paranaíba. Eu estava de botina escura, calça jeans e com uma camisa curta, acho que azul clarinha. Foram duas “viagens” ao local: a primeira pra eu conhecer a peça; depois voltamos com um carrinho de mão.

O objeto inteiro – um aparelho utilizado para tratamento de câncer, feito de chumbo e metal – pesava mais de 500 quilos. Tentamos colocar a peça dentro do carrinho, virando ele de lado. Não deu certo; um dos pés do carrinho chegou a quebrar. O Roberto insistiu, levantou uma parte do cilindro e conseguiu puxar um pedaço menor, de aproximadamente 128 quilos. Nesse pedaço, não sabíamos, estava a ‘marmita’ do césio’. Levamos o material para a Rua 57, na casa da mãe do Roberto.

No quintal, debaixo de uma mangueira, começamos a desmontar o objeto. Tentamos tirar o bronze, ou metal me parece, uma coisa de 0,5 centímetros de largura. Como a gente via que não saía, deixamos pra lá. Vamos vender assim mesmo.
Me despedi do Roberto e fui pra casa descansar.


*****

O relógio marcava 2 horas da madrugada quando a costureira e dona de casa Marli da Costa Freire Ferreira, 27, acordou o marido para ir trabalhar.

- Adelson, está na hora.

O motorista da Rápido Araguaia levantou, vestiu o uniforme – uma calça de um roxo bem vivo e uma camisa meia manga bege - e tomou um gole de café. Despediu da mulher e, acompanhado do seu Fuscão Preto, um fila filhote, andou cerca de um quilômetro até chegar no ponto em que o ônibus da empresa passava para pegar os funcionários.

Rumrumrumrumrumrumrumrum.

Adelson entrou no veículo. Fuscão Preto, presente do irmão Ivo, voltou pra casa do dono, no Setor Jardim Veneza, em Aparecida de Goiânia. O animal teria outra missão por volta das 6h30: levar o filho de Adelson, Odesson Filho, 7, à escola. Já o “beterraba”, alcunha colocada por populares nos motoristas dos coletivos por causa da cor do uniforme, começava mais uma jornada diária de dez horas de labuta.

Às 4h30, Adelson saiu da garagem da Rápido Araguaia, no Bairro Santo Antônio, rumo ao setor Cidade Livre, ponto de partida do seu itinerário. Ele trabalhava na linha Setor Pedro Ludovico – Cidade Livre, via BR-153. Tempo de descanso, de conversa jogada fora com os amigos eram poucos. Mas quando parava no Terminal Isidória, por volta das 6h30, não desperdiçava a oportunidade de comer o pão de queijo vendido nas barraquinhas montadas no local. E assim também o fez naquela terça-feira, 22 de setembro de 1987, um dia típico quente goiano, com temperatura média de 29,9ºC.

Ao final do expediente, por volta das 16 horas, Adelson decidiu visitar o irmão Devair Alves Ferreira, o Di, que morava na Rua 26-A, Setor Aeroporto. O jovem motorista, o caçula dos cinco filhos de dona Maria Badia Motta, tinha recebido um acerto da empresa há cerca de dois dias. Queria pagar 900 cruzados que devia ao irmão pela compra de dois vitrôs.
Ele passou pelo ferro-velho de Devair – a casa ficava no fundo do lote – e soube da novidade:

- Olha, mano, eu comprei esse material, isto é muito bonito - Di mostrou uma peça de inox, no formato de uma marmita, que estava atrás da porta da sala.
- Desse negócio sai uma luz azul muito linda de noite. Quero fazer uma pedra de anel com o pozinho que está dentro da peça, emendou.

Adelson pegou alguns fragmentos – quantidade menor do que um grão de arroz - e espalhou na palma da mão esquerda com o dedo indicador da direita. O material esfarinhou.

- Não, Devair, isso não nem consistência. Joga isso fora.

O irmão caçula esfregou as mãos, como que batendo palma, para limpá-las.

- Olha, Adelson, por causa disso aí eu tenho de levantar às vezes de madrugada da minha cama para cobrir com alguma toalha ou alguma coisa, senão a gente não consegue dormir, de tão claro que fica a casa – comentou Maria Gabriela, 37, esposa de Devair.

A cunhada de Adelson, assim como o irmão, estava adoentada havia alguns dias. Vômito, náuseas, mal estar. Os dentes de Devair estavam moles e a pele mais escurecida. A sogra de Di, também Maria Gabriela, havia chegado de Inhumas, município a 49 quilômetros de Goiânia, no dia 21 de setembro para cuidar da filha e do genro.

- É por isso que eu não gosto de refrigerante; só de cerveja. Me fizeram tomar uma porcaria de coca-cola no sábado, quando a Maria fez uma feijoada, e agora estou passando mal – reclamou Devair.

A prosa continuou por cerca de 40 minutos. Adelson tomou um café preto. O vizinho Edson Fabiano, que trabalhava como lanterneiro, chegava da oficina mecânica e deu um pulo na casa de Devair. Enquanto isso, Israel e Admilson, funcionários do ferro-velho, desmontavam um peça de chumbo de 98 quilos – 30 quilos a menos do que Wagner calculara - com uma talhadeira. O material havia sido comprado pelo patrão no dia 18, sexta-feira, por 1.800 cruzados. Acoplado a este cilindro veio o objeto de inox que emitia uma luz azul do seu interior, quando no escuro.

Em entrevista a um jornalista sueco, alguns anos após o acidente, Devair relembrou o dia da transação:

O meu contato foi no dia 18 de setembro de 1987. Por volta das 10 horas da manhã, apareceu um rapaz, que eu não conhecia, no ferro-velho. Ele me ofereceu uma peça de chumbo que devia pesar entre 80 e 100 quilos. Eu disse que precisava de documentos por causa da grande quantidade do material. Ele concordou e disse que, à tarde, levava os documentos. Perto das 17 horas, apareceu e pediu um carrinho de mão emprestado e que um funcionário meu o ajudasse a carregar o objeto. Pesei o chumbo e deu 98 quilos. A peça vinha com uma cápsula de inox, que parecia um queijo com um buraquinho na lateral. Por ela não paguei nada; não tinha valor; ficou desprezada lá no depósito.

Desprezada por poucas horas. À noite, por volta das 23 horas daquela sexta-feira, 18 de setembro, quando Devair voltava de um bar, passou pelo depósito e desligou a luz. Viu um foco jogado no muro, percebeu que era o artigo recém adquirido e o levou para dentro de casa, acomodando-o num canto da sala, perto da TV e do cortinado do vitrô.

- É um inferno, Adelson. Já falei pro Devair colocar isso pra fora, mas ele não quer – resmungou
Maria no dia 22, terça-feira, quando da visita do cunhado.

Adelson decidiu que era hora de ir. Queria ainda visitar o irmão Ivo, que morava a poucos metros dali, no Setor Norte Ferroviário.


*****

Era fim de tarde e dona Lourdes já havia cumprido com quase todas as obrigações domésticas. Café da manhã, almoço, roupa lavada à mão, limpeza da casa. O marido Ivo havia viajado e ela cuidava dos filhos e sobrinhos – seis crianças ao todo - junto com a irmã Luiza Odet Mota dos Santos.

- Olá, Lourdes O Ivo tá aí?

Era o cunhado Adelson.

- Ele viajou. Mas volta rápido.

No barracão de paredes azuis moravam Ivo e Lourdes com os filhos Leide, 6, Lucimar, 14, e Lucélia, 16. No fundo do lote, um depósito de material reciclável e pequenos casebres, construídos para acomodar os funcionários do casal e a irmã de dona Lourdes, que havia chegado no início do ano junto com o marido Kardec e os quatro rebentos: Fábio Júnior, 7; Paulo Fernando, 6; Cristiane, 4; e Cássia, 1.

- Pois é, Lourdes. Acabo de sair da casa do Devair e o mano e a Maria estão muito mal, doente, com vômito, diarréia – explicou Adelson.
- Ah, é? Vou avisar o Ivo quando ele chegar.

Eles se despediram. Na quinta-feira, 24, dona Lourdes terminou de ajudar o marido no depósito, como fazia rotineiramente. Estava em frente à pia preparando o jantar quando Ivo entrou na cozinha, tomou um pouco de café e sentou no chão, próximo à porta do fundo, para fumar um Hollywood.

- Nossa, Ivo. Você tem que visitar o Devair. Tem uma semana que ele passa mal e você não vai ver ele...

Ivo deu a última tragada e deixou a cozinha. Após terminar de cortar as verduras, Lourdes preparou a roupa do marido para ele usar após o banho - era sempre assim; ela deixava tudo arrumadinho em cima da cama. Separou a cueca, o pijama, o chinelo.

- Ivo, está pronto. Pode ir banhar.
- Ivo!

Onde está esse homem?

Procurou na cozinha, no depósito, no quintal. Nada. Deve ter saído por aí. A dona de casa finalizou o jantar e fez um ovo cozido para a caçula comer com caldo de feijão. Ah, Leide! Nunca foi muito boa pra comer. A mais velha, Lucélia, estava na casa de uma amiga; não dormiria em casa. Lucimar brincava no quintal com um colega. Uma hora se passou.

- Lucimar, Leide, vem ver o que o pai trouxe da casa do tio Devair.
- Como é que eles estão, Ivo? – perguntou Lourdes da cozinha.
- Tá mal. O cabelo do Devair tá caindo, ele não está sentindo gosto de nada, e parece que tá mais escuro, azulado.
- Mas o que foi isso?
- Estão achando que foi por causa de uma coca-cola que tomaram no sábado quando a Maria fez uma feijoada. Vem cá, Lourdes. Vem ver também.

Ela não deu atenção e foi tomar banho. Ivo levou as crianças para o quarto e sobre o piso vermelho derramou o pozinho que havia trazido da casa do irmão em um pedaço de papel de saco de cimento. A substância veio dentro do bolso da bermuda, dessas bem estampadas que se usavam no fim da década de 1980. O pai apagou a luz. As pedrinhas brilhavam, brilhavam...
Quando saiu do banho, já de camisola, dona Lourdes se deparou com a filha comendo o ovo com as mãos sujas daquele pó azul.

- Leide, não pode comer com a mão suja. Vem cá, minha filha. Vamos lavar a mão.

Tirou a menina que estava sentada na mesa redonda de fórmica e levou para o banheiro. Leide não quis comer mais, deixou de lado o caldo de feijão. Sentaram todos na sala para ver TV. A caçulinha, cujo nome foi escolhido pelo tio Devair, porque ela nasceu um dia depois do casamento da princesa Diana (Lady Di) com o príncipe Charles, em 1981, adormeceu no colo da mãe. Lourdes colocou-a no berço de ferro de telinha rosa – sim, apesar da idade, ela ainda dormia no berço. Voltou a ver a novela das oito, O Outro, cuja estrela principal era o ator Francisco Cuoco. Ouviu um barulho vindo do quarto das crianças. Parecia engasgado, tosse. Foi ver o que era. O colchão de Leide estava molhado. De vômito.


*****

Cheguei em casa exausto depois de pegar aquela peça pesada de chumbo e tentar desmontá-la com o Roberto. Fui descansar. Tentar, porque comecei a passar mal naquele domingo mesmo, dia 13. Vomitei, tinha dor de cabeça, começaram a surgir uns pontinhos na minha mão que pareciam mordida de muriçoca. Deve ser intoxicação alimentar por causa daquela manga verde com sal e da água de coco que tomei.

Uns três, quatro dias depois, não me lembro ao certo, uma de minhas irmãs me avisou que o Roberto também estava doente. Eu tinha melhorado um pouco. Fui visitá-lo. Ele perguntou se eu podia vender a peça em um ferro velho da Rua 26-A, no Setor Aeroporto. Fui, conversei com o dono e fechei o negócio.

Mais tarde, com a ajuda do Eterno – um dos funcionários do Devair –, peguei a peça na casa do Roberto em um carrinho de papelão. Não me recordo da quantia recebida, mas sei que não era muita coisa, não. Na época, eu estava tentando ser motorista da antiga Casa do Colegial. Mas voltei a passar mal. Fiquei ruim mesmo uma semana depois que tive contato com aquela peça. Fui para um hospital da Rua 5, no Centro, e depois para o Hospital de Doenças Tropicais (HDT). Estava internado com pacientes comuns, médico nenhum ainda sabia o que eu tinha.


*****

- Lourdes, cê não há de ver que eu andei a cidade toda de bicicleta e não achei uma farmácia aberta para comprar remédio para a Leide!
- É até engraçado, né, que cada esquina tem um bar, mas uma farmácia..., respondeu a mulher.

Leide já estava na cama dos pais. Vomitou e passou mal durante toda a madrugada do dia 25. Melhorou, cochilou e acordou boa no dia seguinte, uma sexta-feira.

Após o café da manhã, a menina já brincava serelepe pela casa. Lucimar estava mais quieto, sem disposição. Ivo trabalhava no depósito, no fundo do lote. Lourdes tirou o forro de chita da mesa e foi balançá-lo na porta da cozinha. Estranho! Havia um buraco no tecido; o pano apodreceu.

Enquanto a dona de casa cuidava dos afazeres domésticos, Luiza Odet, sua irmã, se preparava para viajar para Anápolis, com o marido e os filhos. Kardec tinha um PIS para receber na cidade, onde havia trabalhado antes de se mudar para a casa da cunhada, no Setor Norte Ferroviário, em Goiânia. Eles retornariam apenas no domingo à noite; a intenção era também visitar os parentes que lá moravam – a mãe de Kardec.

No sábado, entretanto, quando Ivo voltava de uma frutaria com uma sacola cheia de compras – ele havia recebido horas antes da Copel, empresa que recolhia o material reciclável que separava -, apareceu no portão Luiza Odet, Kardec e os filhos.

- Mas, gente, vocês não vinham só domingo?
- Não, Lourdes, tive que vir embora. Não dormi nadinha esta noite.
- Ué, o que que foi?

Odete mostrou o pescoço – estava com bolhas, parecia esfolado. Ivo se lembrou da quinta-feira, 24.

Titia, vem ver a pedrinha lumiante que o papai trouxe. Era Leide chamando Luiza Odet. Vou fazer a Odet ficar bonita. Era Ivo, brincalhão como sempre, pegando o pó azul e passando no pescoço da cunhada.

Ao ver o machucado que causara, o pai de Leide colocou as compras na cozinha e correu para a casa de Devair para ver como o irmão estava. Eram por volta de meio-dia.

- Nossa, mano. Cê não há de ver que o pouquinho que eu levei daqui daquele pó, eu passei no pescoço da Dete, e você precisa ver como tá agora, tudo cheio de bolha, queimou.

Maria Gabriela e Devair continuavam passando mal. Ivo ficou um tempo lá e voltou para casa. Almoçou. Foi para a porta do lote e começou a conversar com um vizinho – era o filho de um senhor que chamava Jacó, que estava cursando Medicina. Contou do mal estar dos familiares e do pó azul.

- Olha, essa pedra pode ser radioativa. Esse tipo de material só tem em universidade, em hospital. Se for radioativo mesmo é muito perigoso, pode causar leucemia, as pessoas não podem mais gerar filhos...

Na segunda-feira, 28, dois dias após a conversa com o filho do vizinho Jacó, Ivo não conseguiu levantar cedo para trabalhar, como de costume.

- Nossa, minha mão e perna estão doendo demais, Lourdes. Estão com bolhas. O olho também arde.
- Vamos ao médico, Ivo.
- Não, eu nunca precisei ir em hospital na minha vida. Não vou, não.
- Então vamos fazer o seguinte: eu vou na Maria ver que remédio ela está tomando, e aí eu compro o mesmo pra todo mundo.

Lourdes chamou Leide, a irmã Odet e foi a pé rumo à casa da cunhada. Mal pisou na Rua 26-A e presenciou o rebuliço que lá se formava – dois carros de polícia, uma ambulância, vizinhos xingando o Devair. A esposa de Ivo chamou Lucimar. Foram todos para o Hospital de Doenças Tropicais (HDT) – exceto Devair, que não aceitava ir ao médico. No zunzunzun do corredor da unidade, aguardando a presença de um pediatra para atender os filhos, Lourdes ouviu falar de um paciente internado, cujo nome era Wagner, que estava com problemas na mão; o comentário era que a carne do dedo dele ia cair.

“Disseram que o Wagner tinha pegado uma peça de chumbo no IGR. E que tinha outro rapaz com ele, que agora estava no Santa Maria, chamado Roberto”, detalhou Lourdes das Neves em uma tarde chuvosa de novembro de 2008.

O pediatra demorou a aparecer e Lucimar, o filho do meio de dona Lourdes, não pôde esperar a consulta porque tinha aula no colégio. Após a avaliação de Leide, o comentário do profissional:

- Todas as pessoas que tiveram contato com esse material precisam vir aqui colher sangue.

Lourdes voltou para casa, esquentou o almoço, convenceu Ivo a ir ao hospital com ela. Por conta da dor na coxa, ele não conseguia colocar calça ou bermuda. Vestiu um short e uma camiseta que tinha ganhado de aniversário no dia 20 de setembro.

- Mas, Lourdes, eu vou sair desse jeito?
- Ninguém vai reparar, não. Todo mundo sabe que quem vai ao hospital, não está bem.

A jovem senhora deixou Leide com Odet e rumou para o HDT com Ivo. Chegou por volta das 15 horas; era horário de visita. Enquanto o marido preenchia papéis na recepção, ela procurava o Wagner.

Fui para o pátio que era enorme e cheio de mangueiras. O Wagner tava sentado lá no fundo, eu tava procurando ele pelos dedos, não conhecia ele.

- Como vocês acharam aquela pedra? (se referia à marmita de césio) – questionou Lourdes, movida pela curiosidade, a Wagner.
- A gente foi tirando chumbo, ferro, metal, até que chegou naquela peça.
- E levaram tudo como? Numa mala, carrinho?
- O suporte todo era muito grande. A gente foi batendo, batendo, até soltar uma parte de chumbo.
- E o outro pedaço? Dona Lourdes daria uma boa repórter, pensei.
- O Lucas e o Kardec pegaram o resto da peça; o cabeçote.
Jesus! Esse trem tá lá em casa! Lucas era um dos funcionários de Ivo, e Kardec, o esposo de sua irmã Odet.

Ela nem se despediu de Wagner.

- Ivo, vambora, vambora!
- Que isso, mulher? Parece que tá ficando doida...
- Não, vambora, o outro pedaço da pedra tá lá em casa...

Para chegar no Setor Norte Ferroviário, Ivo e Lourdes passavam pelo Setor Aeroporto. Foi quando viram que a rua do Devair estava novamente lotada. Gente de jaleco branco...
Naquela segunda, 28 de setembro, Maria Gabriela, esposa de Devair, desconfiada de que a peça que emitia a luz azul estava ‘matando o seu povo’, levou o objeto à Vigilância Sanitária junto com um dos funcionários do esposo, Geraldo Guilherme da Silva. Eles se deslocaram de ônibus até a sede da unidade, que também ficava no Setor Aeroporto, Rua 16-A. O trabalhador carregou a “marmita do césio” no ombro e tem até hoje lesões nesta parte do corpo.
Quando chegou perto da casa do cunhado, Lourdes gritou:

- O cabeçote da peça tá lá em casa!

Desceu todo mundo para o Norte Ferroviário. Quando os físicos chegaram perto da menina Leide, o aparelho que media radiação disparou. Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.

- A senhora não pode ter mais contato com ela!
- Como assim?! A senhora não pode ter contato com ela. É minha filha!

Os físicos se entreteram no depósito em busca do cabeçote. Dona Lourdes entrou de fininho em casa, deu banho em Leide e colocou uma roupinha nela.

Eles se envolveram tanto com o cabeçote que acho que esqueceram de mim. Aí foram embora.
Mas a ausência momentânea dos “homens de jaleco branco” que tinham um aparelho que fazia piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii não foi suficiente para desanuviar o ambiente. Lourdes teve uma crise de choro, e não conseguia, de jeito nenhum, amenizar a dor que sentia na cabeça e uma cólica de menstruação. Resolveu ligar a TV.


*****

No dia 29 de setembro, por volta das 19 horas, Marli assistia ao jornal na sala de sua casa, no Jardim Veneza.

- Meu Deus, – comentou a esposa de Adelson com a irmã Carmelita, que morava com eles desde o início de 1987. É o Devair na TV. Estão falando que teve um vazamento de gás, um acidente que pode ter material radioativo.

Assustada e com medo de preocupar o marido, que trabalharia dentro de poucas horas, ela preferiu checar a veracidade da notícia. Decidiu que buscaria mais informações no dia seguinte, uma quarta-feira, 30 de setembro. Mas foi nesta mesma madrugada que Adelson começou a sentir fortes dores na mão esquerda e no dedo indicador da direita.

- Você tem condições de trabalhar hoje? – perguntou o diretor da Rápido Araguaia assim que Adelson o abordou na empresa para contar o problema.
- Tenho, sim.
- Então, quando terminar seu expediente, você entrega o ônibus e pode pegar essa licença de oito dias para ver o que tem na mão. Sem problemas.

Adelson não voltaria para a empresa em oito dias. Nem em um mês. Nem no fim do ano. Simplesmente não voltaria. A nebulosa perspectiva começava a ser desvelada ao meio-dia do dia 30. Quando estava no ponto final do Terminal Isidória, chegou o marido de Creusa, sua irmã, e falou:

- O Devair mandou te avisar que aquele material lá na casa dele que você viu e tocou é radioativo. Você deve procurar um médico da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), que já está lá no Hospital do Inamps. O nome dele é Alexandre.

Adelson relutou. Estava com medo de ser isolado, se-pa-ra-do, segregado. Já corria a notícia de que várias pessoas estavam sendo avaliadas no Estádio Olímpico por técnicos da Cnen. O que aconteceria a todas elas? O que faziam com elas dentro do Estádio? Que tipo de tratamento? Não, não falaria que havia tocado na peça. Mas, de qualquer forma, iria ao HDT ver os irmãos.

Ele pegou o ônibus de um companheiro de serviço mais cedo, voltou para o ponto do Cidade Livre, e entregou o veículo para outro parceiro da empresa. Saiu na sua Kombi bege, ano 1982, rumo ao hospital. Quando chegou na unidade, por volta das 16 horas, Ivo e Devair estavam entrando na ambulância para serem transferidos para o HGG. Adelson os seguiu. Recebeu um recado do Ivo:

- Mano, eu queria que você pegasse meus porcos porque eles estão lá em casa sozinhos. Leva pra sua casa pra tratar deles, senão eles vão morrer de fome.

O motorista perguntou ao médico presente se poderia levar os animais.

- Sim, só não pode comê-los antes de 120 dias. Mas é bom você perguntar ao pessoal da Cnen.

Adelson foi ao Estádio Olímpico junto com seu cunhado Divino, que horas antes havia lhe avisado sobre a tal da “radioatividade”, para consultar o chefe da operação Donald Binns. Ele disse que não haveria problemas em pegar os animais. Mais uma vez, o motorista não comentou que havia tocado na “pedra da luz azul”. Saiu de lá, pegou os porcos e levou-os para sua casa. (Posteriormente, os porcos e outros animais domésticos foram sacrificados pelos técnicos da Cnen porque também estavam contaminados pelo césio).

Primeiro de outubro. A mão ainda ardia. Adelson não agüentou. Por volta das 5 horas, voltou ao Hospital do Inamps. Queria falar com o doutor Alexandre Rodrigues de Oliveira. Os irmãos estavam a caminho do aeroporto Santa Genoveva. Ivo e Devair seriam transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, unidade que recebeu os radioacidentados em situação mais grave. Junto com os irmãos, mais quatro pacientes deixavam Goiânia num avião da Força Aérea Brasileira (FAB): a menina Leide, Wagner, Roberto e Ernesto Fabiano, que havia ganhado do irmão Edson Fabiano, vizinho de Devair, fragmentos do pó azulado.

Adelson só seria internado definitivamente no Inamps – ou HGG - no dia 3 de outubro. Foi o último paciente a concluir o processo de descontaminação. Saiu de lá em 26 de dezembro e foi encaminhado para o abrigo Bom Samaritano, perto da rodoviária, um dos locais provisórios para onde as pessoas que tiveram contato com a substância eram levadas após tratadas – nesta época as casas contaminadas estavam sendo demolidas; os rejeitos radiativos foram transportados para Abadia de Goiás, a 24 quilômetros de Goiânia.

O outro local que recebia pacientes com menor grau de radiação era um abrigo da Febem, no Jardim Europa. Lá ficou dona Lourdes depois que foi separada da família. Ela ainda se recorda dos detalhes:

“Eram duas, três horas da madrugada. Ouvi um barulho no portão, fiquei de joelho na cama e vi pelo vitrô um ônibus da polícia bem grandão. Os últimos que faltavam pegar era nós. Sentei na cama e comecei a chorar. Quando chegamos no Estádio Olímpico, o pessoal do Exército já montava umas barracas.”

Ela continua: “Quem tinha lesão ficava no ônibus para seguir no hospital. Da minha família só eu e meus quatro sobrinhos pequenos desceram. Levaram o Ivo, o Lucimar, a Leide, a Odet, o Kardec”.

Sobre o último contato com a filha: “Desci com a Leide no braço e, na entrada do estádio, tinha uma muretinha. Coloquei ela lá e abracei seus pés. Os técnicos da Cnen voltaram a medir ela e falaram que a Leide tinha de ir. Ela subiu no ônibus e foi internada no hospital com o pai”.

Lourdes não voltaria a ver a filha viva. No dia 23 de outubro, a menina morreu poucas horas após o óbito da primeira vítima fatal da tragédia, Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair. Os dois funcionários de Di, Israel e Admilson, que haviam desmontado a peça no dia em que Adelson visitou o irmão, no dia 22 de setembro, também não resistiram. O primeiro morreu no dia 27 de outubro; o segundo; no dia 28 de outubro de 1987.

Já Devair, após o acidente, teve problemas com bebidas alcoólicas. Ele faleceu em 1994 de cirrose. Embora não divulgado na época, o laudo também apontava câncer em dois órgãos: na próstata (um adenocarcinoma focal) e no esôfago superior (um carcinoma epidermóide micro-invasivo).


Na mente

Depois do desastre radioativo, Wagner Mota Pereira “virou cigano”. Morou no Parque Ateneu, em Goiânia, em Anápolis (levou um irmão para tratar de esquizofrenia na cidade), Pirenópolis (município onde seu pai mora), e novamente Anápolis, onde está desde 2005. “O que me sustentou psicologicamente foi ficar longe das lembranças do acidente”, revela o homem de 40 anos que, no olhar e no jeito, ainda carrega resquícios daquele menino franzino de 19 anos.

“Mas hoje vi que fui bobo de ter ‘corrido’ das pessoas. Porque se a minha cabeça ficou legal por um lado, por outro me prejudicou. Mas eu não tinha estrutura naquela época. Eu só tinha 19 anos! E ainda tive de lidar com o fato das pessoas acharem que eu era o culpado”, desabafa.
Wagner continua: “E aí veio o problema nas mãos (a esquerda com quatro dedos atrofiados e um amputado) e no pé (o esquerdo ficou lesionado). Eu já era tímido, e com esse defeito físico, aumentou o meu isolamento. Eu tinha vergonha de comer num restaurante, por exemplo. Mas eu podia ter virado o jogo, né?”

Ele tenta virar o jogo. “Acho que agora, aos 40, estou assimilando o acidente. Hoje, sim, entro e saio em qualquer lugar, converso”.

- Wagner, você é mesmo pastor?
- Na verdade, não fui consagrado pastor. Mas meu chamado é de pastor e missionário.
- Como começou sua relação com Deus?
- Conheci Deus no acidente. Eu poderia estar pregando tudo o que Ele fez por mim, poderia estar firme, rocha, mas... Eu vacilo muito. Eu acho que Ele está esperando eu ficar mais velho, amadurecer...
-... eu reconhecer realmente que pra fazer o que eu tenho que fazer pra Ele, preciso anular a minha vida.

Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me. (Mateus 16:24)

- Acho que é isso. Preciso ficar firme numa igreja, né. Pregando, dando testemunho, falando o que Ele fez.

Wagner se lembra de 87: "Eu ia morrer, tinha infecção generalizada, ouvi o médico dizer que não tinha jeito. Mas vi quando uma fumaça entrou no meu estômago. Fui curado por Deus. Tinham levado cinco caixões de chumbo para o Marcílio Dias (hospital). Eu seria a quinta vítima".

A conversa, que enveredou pelo lado da fé, também teve teor material. Na verdade, começou por aí. Wagner está ansioso para que se torne realidade a decisão da 6ª Turma do Tribunal Regional Federal (TRT), de outubro de 2007, que determinou aos sete réus responsabilizados civil e criminalmente pelo acidente que paguem uma pensão a ele e a Roberto, no valor de quatro salários mínimos mensais (R$ 1.660). A decisão vale até o aniversário de 70 anos das vítimas e é retroativa a 1987, ano em que eles encontraram a cápsula do césio abandonada entre os escombros do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR).

Segundo explica, o processo foi dividido em dois – um corre em Brasília e o outro em Goiânia. “De Brasília tenho a receber R$ 198 mil e, de Goiânia, cerca de R$ 1.150.000. São os valores das pensões atrasadas”, comenta. Ele diz que o dinheiro ainda não saiu porque os réus entraram com recurso.

A responsabilidade criminal da tragédia foi julgada na década de 90, quando os médicos Orlando Teixeira, Criseide Dourado e Carlos Bezerril, donos do antigo IGR, bem como o físico responsável pelo manuseio da bomba de césio 137, Flamarion Barbosa Goulart, foram condenados a três anos e dois meses de prisão em regime semi-aberto por homicídio culposo (sem intenção de matar). Em 2000, a Justiça apontou os réus do processo civil: Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), o Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Goiás (Ipasgo), o médico Amaurillo Monteiro de Oliveira – antigo sócio do IGR – e o físico hospitalar Flamarion Barbosa Goulart.

Enquanto aguarda a decisão da Justiça, Wagner continua com sua rotina: acorda por volta das 10 horas, almoça em casa, toma seu suco de rapadura e de raízes, resolve pendências da casa ou do carro – além de um Uno, tem um Tempra. Ele, que já foi dono de um lavajato e de uma fábrica de fogão, vive das três pensões que recebe: uma do governo estadual, no valor de R$ 950; outra do federal, no valor do salário mínimo (R$ 415); além da aposentadoria de R$ 415, referente à época em que trabalhava antes do acidente.

“Eu tenho sonhos. Quero ter uma casa própria, um carrão – ‘já pensou? vítima, todo mundo te deu como um zero à esquerda e, de repente, vê você... num Bora, ou Fusion, ou C-4 Palace’. Mas também quero fundar um Centro de Recuperação para Drogados e Loucos”. Wagner diz que recebeu um recado sobre este montante em dinheiro. “O Senhor, por meio de um profeta, já me avisou: ‘Ai de ti se não cumprir o que você me prometeu. Ai de ti’”.


*****

Em uma das mesas, uma pilha de papéis. Na outra, o computador. Na parede, um mapa do Estado de Goiás. Na minha frente, o Odesson, o Adelson, o presidente do Conselho Estadual de Saúde (CES) e da Associação das Vítimas do Césio 137 (AVC-137), tio da Leide das Neves, irmão de Ivo e Devair, um dos poucos sobreviventes da família Ferreira. O homem, que já em 1987, ainda internado no HGG, sabia dos seus direitos – e lutava por eles, mesmo que precisasse ser duro.


Hospital Geral do Inamps – 11/12/1987

Prezado Maurício Vicente Rosa,

Maurício, eu gostaria de poder contar com a tua compreensão e dignidade de um homem capaz de entender a desgraça da gente.

Meu caro, o que você está fazendo não é nada humano. Pôxa deixa de ser mesquinho e me dê o que é direito e me pertence, o que me foi tirado, não estava a venda, era tudo coisa de estimação.

Minha Kombi não estava a venda muito menos era para fazer presente para pessoas irresponsáveis e incompetentes como vocês do governo, sim, roubaram! Nossos votos.

Prezado, chega de sujeiras, minha Kombi vale mais do que esta miserável quantia que você ofereceu. Eu estou sendo justo com vocês, só quero que consertem uma coisa que por negligência de vocês marajás da vida, que não vigiaram e não guardaram de maneira adequada aquela bomba que causou tanta desgraça a minha família, e que você nem imagina o que temos passado nos últimos 60 dias.

Até para escrever estou tendo dificuldades, pois estou com as mãos queimadas e me sacrifico muito. Porém para poder exigir, ainda tenho forças para cobrar o que me é de direito.

Eu poderia até mesmo exigir uma Kombi nova, porém me contento apenas com os reparos que devem ser feitos naquela que por culpa de negligentes está toda desmontada e estourada.

Sim é um carro velho, mas que me custou o suor da cara e foram muitos meses de trabalho para poder pagá-la.

Só tempo e saúde que perdi, estou perdendo e ainda vou perder vale muito dinheiro, talvez não mais vou conseguir recuperar tudo isso.

Portanto você tem três alternativas:

1º - consertar a Kombi

2º - trocá-la

3º - me pague os 195, que foi o orçamento feito; e tem que ser rápido porque a inflação está aí.

Para você e família um bom Natal e um feliz ano novo, cheio de realizações são os votos deste irradiado, contaminado, discriminado, queimado, condenado, lesado, radiodermitado e desgraçado.

Odesson Alves Ferreira.


Segundo Odesson, Maurício Vicente Rosa foi uma das pessoas responsáveis pelo governo estadual de cuidar das indenizações das vítimas. Muitos objetos, animais de estimação, casas, tudo o que foi contaminado pelo césio 137 virou lixo radioativo. “Mas nunca queriam pagar o que realmente nos era devido. Sofremos muita humilhação”, diz Odesson.

Hoje, os percalços ainda são muitos. O principal deles diz respeito à distribuição de medicamentos às vítimas – em fevereiro de 1988, o governo de Goiás criou a Fundação Leide das Neves (hoje uma superintendência, conhecida como Suleide), que tem entre suas atribuições a de prestar atendimento médico, psicológico e social, além de garantir remédios gratuitos a 169 pessoas, integrantes dos grupos 1 e 2.

“Usamos medicamentos de uso contínuo para pressão, coração, depressão. Cada vítima tem uma necessidade diferente”, destaca, ao revelar que a última vez que recebeu toda a medicação completa foi no início de 2008. Atualmente, ele tira do próprio bolso cerca de R$ 200 para combater uma prostatite (inflamação na próstata). “O remédio na Suleide está em falta”, complementa.

Adelson continua: “O novo superintendente tem até se esforçado (o cirurgião Zacharias Calil assumiu no fim de 2007) e realizou dois pregões para a compra de medicamentos, mas não aparecem vendedores. As empresas não estão interessadas em comercializar poucos produtos de um mesmo tipo; querem vender por atacado”, explica. Mas ele não exime o governo da falta de interesse em resolver o problema. “Para mim falta vontade política. Porque se existe uma lei proibindo que o Estado gaste mais de R$ 8 mil com remédios sem licitação, a lei também existe para ser questionada. Pode se fazer um adendo, alguma coisa, porque este é um grupo específico, não existe radioacidentado por aí, só existe aqui em Goiânia.”

Sonhos, apesar das intempéries, ele ainda os tem. Odesson espera que dois projetos se tornem realidade: a construção de um Memorial do Césio, no lote da Rua 57, onde morava um dos jovens que encontrou a cápsula, Roberto Santos Alves; e a inclusão do grupo 3 no benefício da assistência médica. O Memorial do Césio seria um grande Centro de Referência Internacional, com pesquisas e estudos sobre os efeitos da radiação.


*****

Ela acorda cedo, por volta das 4 horas da manhã, para ouvir o programa do Barbosinha, na Rádio Nativa. Todos os dias. Levantar da cama, mesmo, só depois das 8 horas, quando vai à padaria Satélite, que leva o mesmo nome do setor onde mora há duas décadas. Toma café, arruma a casa, muda os objetos de lugar: a sapateira vai para o local do guarda-roupa, a estante com fotos e enfeites ‘migra’ para a outra sala, a geladeira ganha um novo cantinho na cozinha. Isso, quando não sente dores nas juntas. “Às vezes, parece que o nervo da minha perna está puxando”, comenta Lourdes das Neves.

À tarde, depois de arrumar a louça do almoço, a jovem senhora, de 1,40 m de altura, gosta de passar as horas no quintal, onde cuida de suas plantinhas. Tem pé de limão, de jiló, chuchu, jabuticaba. “É a minha terapia”, confessa. Mas ela também faz acompanhamento psicológico na Suleide. “Agora que o atendimento voltou para lá – antes ocorria no HGG -, eu vou toda quinta-feira conversar com a psicóloga.”

- E antes, dona Lourdes? – pergunto.
- Antes eu não ia, não. É porque lá no HGG a procura era grande, aí eu preferi dar espaço para outras pessoas, que vêm do interior. É mais difícil pra elas, são pessoas mais sofridas, com problemas de saúde.

Eu, estupefata. Dona Lourdes foi protagonista involuntária da maior tragédia radiológica no planeta, perdeu uma filha de 6 anos, um marido, que, por causa do sentimento de culpa, fumou até morrer, perdeu casa, o passado, e em alguns momentos a liberdade de ir e vir por conta da discriminação. E, mesmo assim, conserva um sentimento de altruísmo invejável. Abria mão do seu horário para pessoas que, como diz ela, “não têm nada a ver com o acidente” Ah, só para esclarecer: o HGG é um hospital estadual e, durante algum tempo, após o ano de 1987, recebia os pacientes radioacidentados para acompanhamento
– os integrantes dos grupos 1 e 2. Mas sua principal função era absorver a demanda da população em geral. O atendimento médico das vítimas do césio só voltou a ser feito na Suleide no segundo semestre de 2008. “Essa sim foi uma vitória”, pontua o presidente da Associação das Vítimas, Odesson Alves Ferreira. “Mas ainda precisamos de um psiquiatr a”, diz, referindo-se ao profissional em falta na unidade.

- A Suleide agora está melhor. Só tem o problema da falta de remédio.
- Quando foi a última vez que a senhora conseguiu todos os medicamentos lá?
- Foi na época do aniversário de 20 anos do acidente. Tem mais de um ano...

Dona Lourdes toma remédio para pressão e precisa de hormônio e cálcio. “O hormônio eu não posso ficar sem não, eu tô comprando. Tá 25 reais a caixinha”. Ela acrescenta: “Agora, o pra pressão eu, às vezes, pego com a minha vizinha, que consegue no Cais (unidades básicas de saúde da rede municipal). Mas é bem mais fraquinho que o meu. Aí eu tomo dois comprimidos ao invés de um. Mas não comentei com o médico, não”, emenda, com jeito de menina arteira, sem ter noção da gravidade da imperícia que comete.

O mais recente problema que as vítimas enfrentam, entretanto, está estampado no contracheque. Além da pensão estadual que recebem - cujo valor é variável dependendo do grupo a que pertencem  -, desde 2006, elas têm direito a uma quantia extra de R$ 100, por conta da lei 15.581, de 2006. “Essa lei concedeu aumento ao servidor público, e como a nossa pensão está atrelada à lei, também recebemos o benefício”, ressalta Odesson. “Mas por causa da reforma administrativa deste ano (2008), estão cortando esse abono”, completa.

Mais um entrave. Um problema. O holocausto goiano. Assim como as vítimas fatais que morreram em 1987, ele jaz esquecido na memória do povo brasileiro. Os sobreviventes definham de dor: no corpo, na mente e na alma.

* Jornalista e pós-graduada em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (www.abjl.org.br), turma Goiânia 2008.
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