Prova de roupa
Juliana Vargas Ferreira *
O ponto de encontro era em uma casa no bairro Barra Funda, em São Paulo. Faltavam apenas dois dias para o desfile da Tudicofusi na 25ª Casa de Criadores. Kica havia combinado com Stella de levar duas de suas modelos para a prova de roupa às sete e meia da noite daquela terça-feira de maio. Na hora marcada, porém, todas esperávamos na porta e ninguém atendia à campainha.
Era uma porta dupla de madeira pintada, decorada com vidros jateados em estilo antigo de modo que era possível ver luz e uma certa bagunça na sala ampla, mas nenhuma silhueta humana. Acima da porta, uma chapa de madeira entalhada com o perfil de um animal estilizado, que poderia ser tanto um porco como um touro, não deixava claro se era o local correto.
Quando uma certa inquietação começava a tomar conta de nosso pequeno grupo, percebemos que alguém do lado de dentro corria para abrir a porta. Uma moça magra de cabelos escuros, usando roupas modernas, sorriu pedindo desculpas pela demora, enquanto nos convidava para entrar.
— Você é a Stella? – perguntou Kica.
— Não, sou a irmã dela, Alexandra. Também sou estilista da marca. A Stella já deve estar chegando.
Kica aproveitou para apresentar suas modelos Ana Tereza (que usa o nome artístico Any Marques) e Haonê, Sandra, mãe de Haonê, além de mim.
Alexandra pediu desculpas novamente, dessa vez pela bagunça na sala em reforma. Escadas, vigas e uma série de objetos estranhos que pareciam ser as sobras de uma exposição de arte se misturavam. Passamos por um banheiro, também em reforma e sem a porta, até chegarmos a uma pequena sala de costura.
Era aparente que a atividade naquele local foi intensa nos últimos dias, apesar da tentativa de organização em uma estante repleta de caixas transparentes de plástico identificadas por seu conteúdo: botões, miçangas, pequenos cristais de acrílico e zíperes coloridos. Havia poucos lugares para sentar e Haonê preferiu ficar em pé, cedendo o banco para sua mãe.
— Trabalhei o dia todo em pé com esse sapato – justificou Sandra, apontando para o sapato social de bico fino.
Enquanto Alexandra providenciava cadeiras e banquetas para todas sentarmos, uma moça de cabelos coloridos de vermelho alaranjado e roupas semelhantes às de nossa anfitriã entrou no ateliê. Novamente, Kica se adiantou nas apresentações.
— Você é a Stella?
— Não, eu sou a Dani, a stylist.
O desapontamento foi tão claro e espontâneo que quase rimos. Mas Alexandra interveio.
— Dani, acho que podemos começar a prova de roupa sem a Stella.
Any e Haonê, que estavam quietas até então, logo se iluminaram. Haonê foi a primeira a provar um conjunto de minissaia jeans com bolsos enormes nas laterais, que mais pareciam duas alças, e uma blusa alaranjada com estampas psicodélicas, que lembravam olhos azuis e esverdeados. Como estava calada e bastante preocupada em atender aos pedidos das moças da Tudicofusi, imaginei que fosse tímida. Pouco antes, ela tinha pedido para ir ao banheiro para trocar sua camiseta e, mesmo fazendo a prova de roupa na frente de todas, não tirou o sutiã – apesar da blusa que vestia ter sido desenhada para ser usada sem sutiã. Em pé, Alexandra e Dani observavam o caimento das peças na adolescente de dezesseis anos, enquanto Kica tirava fotos, para as quais Haonê sorria com grande alegria.
— Talvez a gente pudesse diminuir a blusa – Alexandra dobrou a camiseta no corpo da menina.
— Você tem um piercing diferente desse? – Dani apontou para a joia no umbigo de Haonê, com pedras cor-de-rosa e um pingente longo.
— Tenho aquele que é só uma bolinha – respondeu a modelo, prontamente concordando em trocar a peça para o desfile.
— Sabe o que eu estava pensando? Ela ficaria linda com a saia derretida!
Diante da cara de interrogação de todas, as moças explicaram que era uma saia drapeada feita em tecido transparente, um tule em tom nude. Mas Dani parecia preocupada.
— Você se importaria em desfilar de biquíni? Assim, com uma calcinha de biquíni larguinha por baixo da saia, mas aparecendo?
— Não – respondeu Haonê já sentada, trocando de roupa. Porém, aquele “não” me pareceu um pouco constrangido. Sandra logo afirmou que para ela também não haveria problemas.
Alexandra e Dani ajudaram a menina a vestir a saia pela cabeça e, logo que Haonê se levantou para ajeitar a peça em seu corpo, ficou evidente que o contraste entre o tom bege claro do tecido e sua pele negra era lindíssimo. Mas Sandra me tirou de meus pensamentos dando um grito.
— Haô, vira um pouquinho de costas para elas verem!
A menina girou o corpo e todas repararam, com espanto, na calcinha fio dental que ela usava por baixo da saia transparente. Uma explosão de risos se seguiu enquanto comentários divertidos saíam entre as mulheres.
— Se a calcinha do desfile não for menor que essa, não tem problema nenhum, né?
— Ah, mas com certeza não será menor do que essa!
Percebi que Haonê se sentia mais à vontade conosco, bem como sua mãe que, mais uma vez, roubou a cena.
— Agora conta para elas qual é o seu sonho quando você fizer dezoito anos!
Haonê parou por um instante para olhar nos rostos ansiosos por uma resposta antes de soltar a frase com um sorriso entre lábios e um leve balançar na cabeça.
— Eu quero ser capa da Playboy.
Naquele instante, enquanto todas riam, apenas uma pergunta se passava na minha cabeça. Afinal, quem é essa menina?
Haonê Thinar tem a vida típica de uma adolescente. Divide os dias da semana entre a escola, a lição de casa e as noites na internet conversando com as amigas pelo Orkut e pelo MSN. Negocia com os pais as horas de uso do computador e tenta convencê-los a deixá-la sair no final de semana e a ter um namorado. Aos domingos, passa a tarde no curso de teatro.
Ela gosta de ir para a escola a pé, mas seu irmão quase sempre a convence a ir de ônibus. Cauê estuda na escola vizinha, no Ensino Fundamental, enquanto Haonê cursa o Médio. Como ela sai mais tarde, volta a pé para casa, acompanhada das amigas. Assim, pode conversar mais um pouco com as colegas de classe e não fica presa no trânsito do final da tarde. Na porta do colégio, o grupo de meninas se divide entre elogiar o penteado, a roupa ou a maquiagem de uma delas, criticar as “rivais”, comentar o que fizeram no final de semana e combinar o que farão no próximo. Quase sempre precisam correr para não ficarem do lado de fora quando o portão é fechado.
Haonê é uma líder nata e tem sua capacidade reconhecida pela escola. Está sempre envolvida nos projetos da sala, representando sua turma junto à diretoria e mesmo fora da escola. Foi escolhida pelos professores para representar as turmas do 1º ano do Ensino Médio na VI Conferência Lúdica Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, promovida pela Prefeitura de São Paulo. Também foi incumbida pela diretora da missão de reunir um grupo da sala para conversar com a professora de química e resolver o conflito que a turma tem com a docente. De fato, ela é uma boa aluna, madura e disciplinada, e só apresenta algumas dificuldades com química, justamente por conta das discussões da turma com a professora durante as aulas.
O maior sonho de Haonê é ser modelo internacional. Ela adora desfilar e, quando tinha televisão a cabo em sua casa, costumava assistir aos desfiles e imitar o caminhar das modelos. Ainda criança, fez comerciais e campanhas publicitárias, sendo um “bebê Procter” [& Gamble], ou seja, uma das crianças selecionadas para os comerciais das fraldas descartáveis Pampers.
Em busca de seu sonho, já cometeu algumas loucuras. A maior delas foi participar do concurso Menina Fantástica. Foram dois dias de fila e, mesmo sabendo que suas chances eram mínimas, ela ficou firme aguardando sua vez na seleção. Não foi selecionada e pensou em desistir da carreira, mas então mudou de ideia.
— Não posso. Eu tenho que mostrar pra eles que eu consigo – frase que repete com convicção sempre que conta sua história.
E não desistiu. Continua esperando o dia em que morará em Nova York, desfilará como “floquinho de neve” para a grife de moda íntima Victoria’s Secret e andará cercada de seguranças como Gisele Bündchen e Naomi Campbell.
Ao receber o convite de Kica para fazer um book profissional, Haonê não teve dúvidas. Ela já fez mais de setecentas fotos, que foram vendidas por toda a Europa por meio da agência Visable, empresa alemã parceira de Kica de Castro. O sucesso foi tão grande, que Haonê recebeu um convite para ir até a Alemanha posar para campanhas publicitárias. Ela teve de adiar a viagem para 2010, quando completará 18 anos.
Apesar de estar feliz com as fotos profissionais, Haonê gosta mesmo de desfilar. Tanto que o trabalho que mais lhe marcou até o momento foi participar do desfile da grife Tudicofusi.
Eu estava sentada de frente para Any, conversando sobre cabelos, quando precisei interromper o papo para avisá-la que era sua vez de fazer a prova de roupa. Como ela é deficiente auditiva, não percebeu que Dani a chamava em outro canto da sala. A jovem de pele clara e cabelos pretos vestia um vestido cinza claro quando finalmente Stella chegou. Pouco antes, Márcia, outra designer do quarteto que forma a marca, também havia aparecido – porém, como ela é descendente de japoneses, ninguém ousou perguntar se era a irmã de Alexandra.
Stella entrou animada e perguntando por Kica. As duas logo se entenderam. Trocaram informações sobre os preparativos para o desfile, o horário em que as modelos deveriam aparecer, convites e credenciais. Com o fim da prova de roupa, Stella aproveitou para explicar o conceito da marca para este desfile.
— Nós sempre fizemos desfiles mais alegres, safadinhos. As meninas até faziam uma brincadeira na passarela, uma reboladinha. Mas agora queremos uma coisa mais séria. Queremos falar sobre aquecimento global, a adaptação do homem aos novos tempos. O tema vai ser “meu mundo diminuiu”. Por isso pensamos em colocar algumas modelos fora do padrão. Vamos ter uma grávida e uma cadeirante também.
— Ah, vocês conseguiram a cadeirante? – perguntou Kica.
— Sim. Ela vinha hoje, mas parece que teve algum problema com o carro, então fará a prova de roupa amanhã.
O interesse de Kica não era mera curiosidade. A verdade é que ela queria ter indicado uma de suas modelos cadeirantes. Mesmo sabendo que a participação no desfile não renderia cachê, a fotógrafa tentava aproveitar ao máximo esta oportunidade de divulgar sua agência e seu casting.
Kica de Castro é formada em Publicidade, mas, desiludida com o trabalho nas agências de propaganda, decidiu se dedicar à Fotografia. Em 2002 encontrou um anúncio de jornal e acabou contratada por uma instituição de amparo a deficientes físicos. Acostumada com as produções para o mercado publicitário, passou a fotografar pacientes para prontuários médicos. A frieza do procedimento, que muitas vezes envolvia pessoas emocionalmente fragilizadas e nu total, despertou-lhe a necessidade de humanizar sua relação com os fotografados. A solução inicial foi circular pela instituição com uma câmera portátil e clicar os pacientes e funcionários em situações diversas, como uma forma menos agressiva de se aproximar.
Aos poucos, Kica equipou seu estúdio com pentes, presilhas e outros acessórios esperando fazer com que os pacientes se sentissem mais a vontade durante as sessões. Para sua surpresa, conforme desenvolvia um relacionamento mais próximo com as pessoas que frequentavam a instituição, ela começou a receber pedidos de retratos profissionais. Assim que Kica começou a fazer um e outro pequeno trabalho com funcionários, suas fotos se tornaram conhecidas nos corredores. Mais e mais pessoas a procuravam para pedir um book fotográfico profissional.
O que diferenciava as fotos de Kica das que os demais fotógrafos faziam em estúdios particulares é que ela não tinha medo de mostrar a deficiência das pessoas e fazia isso revelando a beleza e a sensualidade do fotografado, não suas dificuldades.
— Para mim, aparelhos ortopédicos, próteses e cadeiras de rodas são acessórios de moda.
Com as fotos em mãos, pacientes da instituição começaram a pedir a ajuda de Kica para conseguirem atuar profissionalmente como modelos fotográficos, uma vez que ela tinha experiência anterior com publicidade. No entanto, Kica se recusou a agenciar as meninas. Ela estava centrada em seu trabalho de pós-graduação, sobre o que ela chamou de Fototerapia.
Com o auxílio de uma colega psicóloga que trabalhava na mesma instituição, Kica percebeu que suas fotos colaboravam na melhora da autoestima daquelas pessoas. Elaborou um projeto e o apresentou como tese em sua pós-graduação em Fotografia.
— Depois da sessão, dava pra ver a melhora nos pacientes. Muitos se sentiam constrangidos, feios, incapazes de namorar, sair... Se escondiam do mundo. Mas, ao verem suas fotos, eles percebiam sua beleza.
Durante a apresentação do projeto final, Kica foi bastante elogiada, porém a banca lhe negou a nota máxima. Inconformada, quis saber o porquê. Era justamente porque faltou a aplicação daquele trabalho na prática, com a criação de uma campanha publicitária usando as fotos tiradas em estúdio. Foi apenas nesse momento que Kica começou a pensar mais seriamente no seu trabalho como uma profissão e não apenas um hobby ou um exercício para melhorar a autoestima de uma amiga ou um paciente da instituição.
Conforme o trabalho paralelo de Kica ganhava fama, ela ganhava desafetos. Alguns médicos e dirigentes ficaram contra as fotos não-convencionais, com medo que isso prejudicasse a imagem do hospital. Cansada dos conflitos e confiante no potencial daquele mercado, em 2007 ela decidiu sair da instituição e abrir sua própria agência, montando um casting apenas com modelos com deficiência física. Para manter o novo negócio, ela também faz fotos de casamentos e eventos em geral, mas seu plano é um dia poder manter a agência apenas com os trabalhos de seu casting.
Atualmente são mais de cinquenta modelos, de ambos os sexos, entre crianças, adolescentes, jovens e adultos. Uma das formas encontradas por Kica para montar seu casting é procurar por candidatos em comunidades relacionadas a deficientes físicos no Orkut. Foi assim que o destino de Kica e o de Haonê se cruzaram.
Aos oito anos de idade, Haonê foi diagnosticada com um câncer ósseo bastante agressivo. Foram dois anos no hospital, fazendo tratamentos de quimioterapia, que a fizeram perder os cabelos e ter três paradas cardiorrespiratórias, até que a perna direita fosse completamente amputada. Após a amputação, a menina de dez anos ainda passou por mais algumas sessões de quimioterapia e outra parada cardiorrespiratória. Sobreviveu, mas perdeu muito pelo caminho, inclusive amigas que tinham quase sua idade, mas não resistiram ao câncer. Sandra conta, com pesar, que nesses dois anos em que Haonê ficou internada, ela viu mais de cento e cinquenta crianças morrerem vítimas dos mais diversos tipos de câncer infantil.
Seis anos depois, Haonê está totalmente reabilitada. Apesar de não gostar de usar prótese, ela está bastante adaptada com as muletas canadenses, que oferecem apoio aos antebraços. As suas são cor-de-rosa e ela anda com desenvoltura por ruas, rampas, terrenos acidentados e escadas. No entanto, é quando desfila que Haonê mostra todo seu potencial.
O desfile da Tudicofusi já havia começado quando Haonê deu seu primeiro passo na passarela. Na primeira fila, jornalistas conhecidos no mundo da moda, como Gloria Kalil e Lilian Pacce, observavam atentamente e faziam anotações. No meio da passarela, a banda Pamplona tocava segurando um cartaz com a frase “Meu mundo diminuiu” em letras garrafais, enquanto o vocalista gritava em um megafone os mesmos dizeres. Haonê olhava para frente bastante séria, o pescoço perfeitamente alinhado, vestindo um top jeans, o piercing mais discreto, a saia derretida e uma calcinha de biquíni amarelo fluorescente. Pelo corpo e nas muletas, decalques azuis completavam o visual.
As passadas eram firmes e aceleradas, conforme solicitado pelas estilistas da marca. Ela não havia chegado na metade do estreito corredor quando começaram tímidas palmas. Conforme Haonê caminhava, os aplausos irromperam no ar, o que é não comum acontecer durante a passagem individual dos modelos. No entanto, Haonê não é uma modelo comum e sua recepção também não seria. Ela confessou depois que quis rir, ficou bastante emocionada, mas se conteve, pois precisava manter a expressão séria e seguir as orientações que tinha recebido no ensaio.
A modelo cadeirante não apareceu. Soube depois que ela desistiu de participar no dia do desfile, provavelmente porque ficou encabulada. Kica comemorava o sucesso do desfile quando perguntei a ela se a desistência por esse motivo era comum.
— Muitos sentem vergonha – ela respondeu – Mas se fosse uma modelo minha, não a deixava desistir. Tem que ter profissionalismo.
Pouco depois, Sandra me disse algo semelhante, enquanto caminhávamos em um parque no trajeto entre a estação de metrô e a escola onde Haonê estuda.
— Ao mesmo tempo que existe preconceito, de quando a veem por aí pensarem que ela deveria estar em casa ou em um hospital e não na rua ou no parque, também muitos deficientes têm vergonha de sair de casa.
Haô concordou. Ela acredita que seu trabalho os ajuda a recuperar a autoestima e aceitar o próprio corpo. Por isso, está convicta de que não pode desistir de seu sonho.
— Acho que quando eles me veem desfilando, na TV ou em uma revista, se sentem melhor. Eu posso ser a primeira, posso até ser a única, mas eu vou conseguir ser uma modelo famosa.
* Produtora editorial e pós-graduanda em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (www.abjl.org.br), turma São Paulo 2009.
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