Eu, diante do crime
Renato Helena *
A vida é aqui e agora (doze de fevereiro de dois mil e nove), neste exato instante, em que o branco do papel se forra de letras, lá estão eles. São seis homens, devidamente uniformizados, exceto por um, que através da camiseta regata exibe seus mirrados músculos do braço. O grupo é também composto por uma mulher, brava, que palpita com voz ativa nos afazeres dos rapazes. Ao redor encontram-se alguns curiosos que se põem a observar o assassinato. Em dias de sol a plateia costumava ser maior, ocorre que hoje chove um pouco, a chuva fina que cerrou o verão da cidade. Atenídes, porteiro astuto que observa tudo e todos com olhos infantis, é também cúmplice do assassinato, assim como eu, que, da sacada do quarto andar, disponho de visão privilegiada. A senhora do prédio ao lado costuma também assistir com freqüência o movimento da rua quando a programação da TV não agrada. O assassinato assim ocorre: à luz do dia, diante da impotência dos olhares curiosos. As técnicas de mutilação aplicadas projetam barulho tão horrível quanto o ato. A técnica empregada agora é a machadada. Golpes violentos são aplicados. A vítima encontra-se acorrentada, sem nenhuma condição de mobilidade. Mesmo assim o fio do machado não parece ser afiado suficiente para abalar sua nobre postura. O feito é acompanhado pela batida forte de um besteirol americano que se propaga pelos alto-falantes de um dos carros que aqui vieram para velar a encomenda. Acaba de passar a moça da bicicleta portátil, seus cabelos vão contra as leis de gravitação lunar e da anatomia capilar. Amanhecem cada dia mais curtos. Composição de moça moderna e liberta é sustentada pela leveza da saia que se deixa levar pelo vento. Passa em frente ao assassinato sem ousar desviar o olhar de sua rota, muito embora por alguns instantes fora capaz de poupar a vítima de algumas machadadas. Seu desfilar ciclístico faz com que todos, inclusive a moça palpiteira, parem e acompanhem o traçado retilíneo do trajeto até alcançarem os olhos na meta culturalmente estipulada. A bunda não era lá grandes coisas. O de camiseta regata cutuca o colega e solta um riso que me chega a ser prazeroso de ouvir. O machadeiro da vez logo retorna o ofício. Desço para comprar cigarro. Já na rua, em frente à vítima, paro. O moço de regatas me olha desconfiado. Noto que os que trajam uniformes portam os dizeres do Governo do Estado. A técnica empregada agora conta com o auxílio de um caminhão que, amarrado a um cabo de aço, estremece o chão na tentativa de derrubar a vítima, que resiste bravamente, desconcertando as rodas do gigante de lata. O incessante golpear das machadadas faz com que a vítima ceda lenta e elegantemente. O ato não é comemorado, tampouco compadecido. A chuva fina volta a cerrar o céu da cidade, causando-me a impressão de que alguma coisa vela o corpo tombado da vítima, que é rapidamente retirada do local, mais uma vez com o auxílio da maquinaria, que, agora sob forma de guindaste, ergue a vítima até a caçamba do caminhão. A velha do prédio, e também o velho, retorna novamente à janela, talvez fugindo dos anúncios comerciais que cortam os seus programas da tarde. Sem muita perspectiva de visitas para hoje. Eventualmente a inspeção é acompanhada por seu gato que, metade pra dentro, metade pra fora, crava as unhas na blusa de crochê. Ele morre de medo de altura, ela me contradisse certa vez, sorrindo entre varandas. Dois lances de teto acima de minha cabeça, marteladas anunciam que uma parede esta sendo derrubada. O telefone toca, paro para atender. O remetente não se manifesta, filho-da-puta, desligo. Retorno. A velha leva as mãos ao rosto, se vira, fecha a cortina [retorna para a TV?]. Surge outra na janela acima, espia, breve. Fecha a janela, se adentra. As marretadas no sexto andar acompanharam-me em todo o processo. Só as noto agora, no momento em que cessam e se faz silêncio. Mas logo retornam. Silêncio é estado de espírito. A cerra elétrica zomba na rua cortando a vítima em pedaços chamando a atenção de uma terceira velha, não tão velha quanto as outras, mas de cabelos ainda mais brancos. A polícia passa devagar com ares bisbilhoteiros, os agentes se cumprimentam. As engrenagens do guindaste agora travam, a chuva dificulta. É preciso enrijecer os poucos músculos para desemperrar a geringonça de metal. O defunto está sendo devidamente amarrado na caçamba, nunca tivera nenhuma chance de fugir, mesmo assim deve ser amarrado para chegar inteiro [inteiramente despedaçado] no depósito de lixo da cidade. Os funcionários do governo incumbidos do assassinato já se preparam para a partida. Uns entram na Kombi, outros no caminhão. As velhinhas entocadas mostram por vezes seus vultos por detrás das cortinas. A Kombi tem uma sirene no capô, mas parte sem acioná-la. O motorista do caminhão troca últimas palavras com os três funcionários espectadores que portam em seus uniformes dizeres da Cetesb. O caminhão parte, um indício de sol surge, o som de alguns pássaros se mistura às marretadas. Uma pena bonita paira sobre minha varanda; amarela e azul. A antiga residência da vítima é ocupada por um novo morador, mais jovem e saudável. O sol se revela e se esconde sucessivamente com o intenso movimento das nuvens. Os três funcionários espectadores continuam lá, parados. A polícia passa novamente, com os mesmos ares de outrora. Tudo prossegue normalmente, quase em silêncio.
Dezesseis de março de dois mil e nove
Já se pode melhor passear pelas calçadas daqui. Calçadas novas. Composição de tijolos pretos, vermelhos e brancos, num mosaico ilógico, meio besta. Mas aceitam bem os pés apressados e ainda evitam distrair a atenção do transe dos afazeres diários. Pata de cachorro, salto plataforma, tênis novo [promessa quebrada de vida saudável?], sapato de couro artificial, devidamente lustrado, sandália gasta. São todos eles bem recepcionados. Parece-me que de uns tempos para cá maior número de pernas cruza a rua, rodas também. Principalmente as de ônibus, estas mereceriam também novo piso, de mosaico ornamentado e tudo mais. Os ônibus são sustentados por seis rodas, número ligeiramente superior aos carros, skates e Kombis. Estes todos com duas vezes a quantidade de rodas encontrada na bicicleta que já se declara na origem do termo. Cruza graciosa uma destas, fazendo frente a dois carros e uma Kombi, passam aflitos os quadrúpedes a acompanhar o ritmo ditado pelas pedaladas. Não era a garota emancipada de outrora, esta não mais passou, teria ela comprado uma motocicleta, ou quem sabe uma passagem sem escalas [Londres]? Pesquisas comprovam: na Rua Costa Carvalho, entre oito e dezoito e oito e vinte oito do dia dezesseis de março de dois mil e nove, para cada vinte e três pessoas que passavam de carro apenas três estavam acompanhadas, sendo que um carro da amostragem era uma Kombi carregada de flores. Para os pedestres o índice de solidão urbana da Rua Costa Carvalho é menos preocupante; são sete os pedestres que caminham conjuntamente; em geral, dois, lado a lado, conversando, para nove que caminham a sós, fazendo fila e em silêncio, ou à procura dele. Observação para o fato de que estes são mais apressados. Os veículos de duas rodas que passaram durante o período da amostragem foram dois, sendo uma motocicleta e uma bicicleta, esta gracejou a rua por estar sendo conduzida por um rapaz que leva na garupa de sua bicicleta uma moça, sua moça?, que pode aqui ganhar pronome possessivo fazendo de moça e bicicleta elementos pertencentes à mesma categoria. Os índices de solidão urbana versus número de eixos estão, contudo, favoráveis aos ônibus, que mesmo tendo seis rodas, duas a mais que os carros e quatro a mais que as bicicletas e motos, transportam muitos mais. Infelizmente o número exato de passageiros não pode ser computado pela pesquisa uma vez que passam muito rápido pelo asfalto esburacado. Creio, no entanto, que não estavam tão cheios assim e os que lá se encontravam deviam estar em sua maioria ocupando os acentos distribuidamente, de forma que nenhum passageiro tenha que passar o desconforto de sentar-se ao lado de um estranho. O que faz com que o índice de solidão urbana dos usuários de ônibus seja menor em quantidade e não em qualidade, uma vez que passageiros encontram-se sozinhos mesmo se abarrotados e sacudidos. Um velho japonês, velho porque é adjetivo e japonês por descendência, olhou pra mim. Coça a barba e cruza a rua a passos velhos e japoneses a tempo de dar passagem ao próximo ônibus que mais uma vez sacode. O quase silêncio dos pedestres solitários estimulado pela calçada nova de mosaico besta é atravessado por um aspirador público de barulho horrível. O barulho estrondoso cessa e a calçada nem parece estar ficando mais limpa, nem menos, igual, agora com mosaico. Logo inicia novamente o barulho, e segue seu ofício.
Vinte e três de março de dois mil e nove
Sem sombra nem cores, cruza ela a rua bem centralizada no enquadramento de minha janela. A garota emancipada pela bicicleta portátil continua determinada sobre as duas rodas. Pedala desta vez no sentido contrário do costumeiro, sem desfiles, sem ruídos, voraz, a caminho do silêncio. Assim também o faço. Visto camiseta e shorts de tons combinados pela pressa. Enquanto desço o elevador, imagino algo sensato a ser dito. Monto agressivo no transporte de duas rotas que me espera na garagem. Sou eu também, de uns tempos pra cá, simpatizante das pedaladas. Ao passar pela portaria nem ouso cumprimentar Atenídes [seria ele que abria as portas no momento]. Aproveito bem o resto de portão que fecha e deságuo na rua em voo baixo. É cedo ainda, a luz é boa. A garota surgia-me na janela das idéias ao mesmo tempo em que a janela do quarto atravessou. Muitas coisas se sucedem na rua, apenas algumas, por sei lá eu qual motivo, atravessam a janela até chegarem a mim, o mesmo ocorre na janela das ideias, o turbilhão de pensamentos é paisagem esfumaçada diante daquele único e exclusivo que se manifesta e ilumina as vidraças. Mesmo assim estou certo de que a coincidência é apenas uma coincidência entre o medo do misterioso e a estupidez. Ela estaria dois minutos de pedaladas à minha frente, suas pernas me pareciam ser muito mais bem torneadas que as minhas. Paro, e coço a idiotice que surge por detrás das orelhas. Estava eu meio de pijama à procura de uma garota emancipada que me fascina pela combinação de saia rodada com bicicleta portátil. O senhor viu alguma por aí, pergunto eu ao cara da guarita que, sem tirar os olhos do jornal, quase que responde. Cruzo agora mais contemplativo a vila da rua de trás, me passou pela janela das ideias a imagem de que lá teria um bom encosto para sua bicicleta portátil assim como um armário antigo que comportasse bem sua dúzia de vestidos herdados. O guarita do outro lado da vila me responde cochilando que também não a viu. Volto meio confuso, sem saber por quê. Ao passar pela esquina dos restaurantes vejo que não é tão cedo assim, os candidatos a executivos já almoçam, pois das onze e meia ao meio-dia-e-meio tem promoção.
Dezesseis de abril de dois mil e nove
O tempo está mudando, o vento arrasta as nuvens com maior rapidez fazendo o brilho do sol oscilar na pele. Algum tempo já se passou desde o assassinato, as duas novas inquilinas estão se saindo bem na ocupação dos buracos deixados no chão pela brusca retirada das duas últimas moradoras. Vamos convir que as vítimas do assassinato eram árvores. Tenho refletido muito sobre o termo assassinato uma vez que se trata de uma ação legitimada pela constituição e efetuada por devidos agentes da prefeitura. Dentro da carta constituinte aprovada em sei lá eu quando o termo é falho. No entanto, árvores não se incluem nas leis dos homens. Pode até ser que ocorra algum desdobramento constitucional similar ao que fez Napoleão condecorar ministro seu próprio cavalo ou, quem sabe, um fenômeno incrível, fruto de uma relação comensalista [que é mutualismo com independência das partes] entre a árvore e o poste, numa parceria perfeita entre a matéria e a energia, gerasse uma nova forma de vida igual ou superior à dos homens que seja digna de representação constitucional e de participação efetiva no traçar das diretrizes do planeta Terra ou pelo menos da rua da qual foram expulsas, logo após serem arrancadas, e esquartejadas [em número de partes muito superior a quatro]. Seria difícil conseguir representação parlamentar; uma cadeira no senado, se muito um vaso. No canto, com outro igual no lado oposto, em simetria perfeita que centralizasse as bandeiras empoeiradas situadas atrás das carecas berruguentas. Não há boa luminosidade na câmara dos deputados para a fotossíntese. Luz artificial. Ao olhar para o broto de árvore através da sacada passa pela sacada do pensamento a imagem do assassinato. [Decidi assim continuar me referindo ao ocorrido]. Personificavam-se, as árvores, em dois homens sábios com os braços cobertos por uma bem traçada pelagem, homens cheios de vitalidade e disposição para acordar e caminhar até o posto nove, pois até ao Masp não se caminha. O ato me trouxe à lembrança, que nunca tive, de dois comparsas militantes sendo torturados um depois o outro. Primeiro o primeiro. Exposto com os membros abertos em víscera chegava a sangrar o sangue branco, que é seiva elaborada. Enquanto isso o segundo assistia a tudo com a destreza de não esboçar reação que entregasse algum companheiro, mesmo sabendo que seria o próximo. [Foram duas, as árvores assassinadas, não sei se já disse antes.] O pronome feminino de tratamento passa a me incomodar. Não vejo as árvores puxando com facilidade bolsinhas pequeninas de dentro de bolsas maiores de forro mais coloridos do que a estampa do lado de fora. Acertaram sim na definição masculina de gênero para o guarda-chuva, que poderia ser também nome para designar rapaz classe media não muito adepto da monogamia freqüentador de happenings da década de vinte do século passado, seria assim a nuvem uma daquelas virgens lânguidas que só existem nos poemas da primeira geração do romantismo. Uma paixão tão intensa quanto impossível deposita a esperança na probabilidade de uma gota do pranto dos céus atingir o tecido negro e impermeável do guarda-chuva. Hoje as gotas não ameaçam, a donzela alva nem se quer faz graça na janela e os modernistas foram deixados em casa perto da estante de livros não lidos. Ninguém mais nas calçadas, tirando as árvores que estão todos os dias lá, distribuídas a nove passos de distância umas das outras [dado possibilitado pelo surgimento de pernas]. Um guri parece voltar da escola acompanhado de sua mãe e de sua mochila, ambos, mãe e mochila, encaixam-se na categoria propriedades, para o guri. Tomado por capetices, defronta quase que de igual para igual com as novas inquilinas da rua, sacudindo-as com malícia. É, enfim, arrastado pela moral da mãe. Não ousa ele encostar os dedinhos nas outras árvores de cascas grossas. O guri, pretinho até no escuro, é prova vivinha de que a pureza das crianças não se exime das tentações que nos coçam as idéias. A lembrança imaculada de infância angelical mora em algum canto empoeirado da memória de quem já se esqueceu do quão bom é não ter que ser bom. Dos tempos em que nem mesmo se sabe o nome dos deuses existentes dentro da gente, ainda assim, já se sucumbe às demonices. Faz frio agora, entro para pegar um casaco, estamos mais longe do inverno do que do verão, este rendeu quase quatro graus a mais do que o esperado, expresso em boas marcas de biquíni que de algum modo guardam relação estreita com a retirada das árvores da rua. O clima aqui é temperado cada vez mais por ações desmedidas de uma concepção de progresso estabanado. Quem sabe dia desses neve, deve ter sido assim com os dinossauros, de repente, um floco de neve, belíssimo! Aí então não mais neve, nem mais nada, ou melhor, não mais tudo, pois deve ser difícil contemplar o mundo sendo um fóssil. [E sendo árvore?]
Sete de maio de dois mil e nove
Aconteceu há dois dias. Acordei e me deparei com novo defunto. Passo agora a documentar lembranças; o dia nasceu claro, as pernas se cruzavam com entusiasmo, mesmo estando fardadas à movimentar os anseios de seus donos que movimentavam também anseios de outros donos que tinham a regalia de não precisar movimentar tanto as próprias pernas. Havia, no entanto, um par de pernas que, por motivo que nunca será revelado, já não mais obedecia, cedia inerte ao apoio horizontal da calçada nova de mosaico besta. Não sei ao certo a quem pertenciam tais pernas, sei que trajavam calças sociais baratas de barra malfeita. Sei também que há pouco sustentavam um corpo que a espera do ônibus dedicava a atenção às notícias de jornal, um corpo que carregava consigo certa quantidade desnecessária de gordura na região da pança, de certo tinha compromisso marcado, talvez alguma conta a ser paga no banco, afazeres corriqueiros de mais um dia que só se diferenciava dos outros por ser o último. As pernas estavam, enfim, livres para retornar à condição de matéria, mesmo assim zelavam por ela as autoridades, mostrando serviço simbólico. Foram as pernas cobertas por uma lona cuja cor já não importava mais e a utilidade me faz levantar hipóteses. Penso primeiro nas moscas e outras espécies que também não têm representação constitucional, mas mesmo assim conseguem se adaptar ao modelo proposto por aqueles que têm o encéfalo desenvolvido. Estariam tais formas de existência perambulando pela calçada no momento em que se depararam [contentes de acordo com o tipo de manifestação que lhes cabe], com um corpo inerte de matéria alheia, o corpo já não pertence a mais ninguém, encontra-se esvaziado da energia vital, retorna ao nível de pura matéria extremamente sedutora para qualquer tipo de minhoca ou verme que por lá estivessem a desviar-se dos solados de couro. Primeiro nota-se o cheiro, ou algum outro estímulo que possa ser captado por receptores tão simples quanto sofisticados, em seguida o trajeto se altera automaticamente [decisão unânime no grupo], a velocidade se intensifica, e, por fim, a lona, é uma decepção escorregadia. Deixando de lado a hipótese da minhoca, me vem à janela das idéias o medo da morte, e assim, de uma forma menos escorregadia sou também interceptado pela lona. Ouve-se por aqui, que o ataque foi fulminante, suficiente para assustar as outras pernas que cruzavam nas calçadas, quanto às rodas; não houve quatro, nem duas, nem sequer uma que interrompesse seu movimento rotatório para prestar socorro. E eu? Dormia. Ao abrir a janela vi que o dia era de boa luz, um dia lindo de morrer. O velho japonês atravessa a rua em estado de entrega ao ato de atravessar a rua, e atravessa bem, despretensioso. Coexistimos no hall do elevador dia desses, o esperei, ele sentou-se, subi. Fiz algumas dessas coisas que se tem que fazer todos os dias. Desci. E lá estava ele sentado no sofá de couro preto do hall do elevador, fazendo coisas que também deve costumar fazer todos os dias, não sei se posso compreendê-las tão cedo, pois, afinal, punha-se a fazer nada. Puxei um papo ocidental, e ele, sem desviar os olhos do infinito [técnica mais bem proporcionada pelos providos de diafragmas fechados] me conta que veio jovem do Japão, nunca voltou e que aqui e lá tanto faz. E assim continua atravessando ruas, com plenitude suficiente para manter longe os ônibus desgovernados. Não olha para trás, tampouco vê que a calçada está hoje interditada. As outras pernas prosseguem, sustentando idéias distantes, aí deparam-se com a fita de segurança laranja, aí assustam-se e voltam, e espiam arregaladas, e aí sentem um pouco de dó com culpa com medo e chamam de piedade ou então é só curiosidade, mas olham, na maioria. Uns evitam, estendem as próprias lonas. E a polícia também veio, chegaram um pouco tarde, por isso chamaram logo três carros, fosse um há meia-hora, ou então que não fosse nenhum nunca. Mas ali estão, de óculos Ray-Ban e tudo, às vezes, e calam-se, fazem cara de sérios, noutras contam casos e acham graça. Manobram os carros, acendem, as sirenes, tudo sobre controle, ele já está morto e longe das moscas. O vento de outono sopra forte, estiando no ar uma porção de vezes a lona como quem insiste em descobrir o corpo e permitir as moscas e os olhos curiosos. Assim que ocorre, um dos homens invade a zona de proteção e o embala novamente. Hoje não há platéia fixa, o espetáculo macabro não a sustentaria como o fez em outra ocasião de morte na rua. Passa a moça da bicicleta portátil, mais uma vez não ousa desviar o olhar, nem mesmo as velhas do prédio velho ao lado se põem à janela para assistir. Talvez seja o medo, talvez algum tipo de respeito. De qualquer forma desço do meu apartamento [que está se assemelhando muito ao Montparnasse] e me aproximo do defunto. Uma policial de traços delicados e com uma pistola automática na cintura inspeciona o corpo com maior autoridade que os outros, os carrancudos de Ray-Ban. Com delicadeza, ela retira a lona da face do defunto. Ele sorri, faz um dia bonito. O resto é saudade e sonho.
Making Of
A proposta desta narrativa é explorar as fronteiras existentes entre o documentário e a literatura. Sendo assim, a elaboração do texto divide-se em duas etapas. A primeira consiste na observação e anotação factual dos ocorridos. Corresponderia à captação de material bruto análoga ao processo do documentário.
A segunda etapa consiste na edição desse material em uma trama narrativa que explora recursos da literatura. Trata-se, portanto, de um documentário sem câmera, uma forma de captação que esvazia todo o aparato cinematográfico, reduzindo-o a um papel e um lápis; estes, por sua vez, investigam despretensiosamente os fatos que ocorrem ao redor de uma árvore sendo derrubada.
*Renato Helena é estudante de Audiovisual e realizador de projetos na área.
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