Minha mãe não é fácil!
Marla Rodrigues *
Aos sete anos chego em casa esbaforida:
- Mããããããeeee! Manhêêêê! Tirei dez!!
- Não fez mais do que a sua obrigação...
- Mas, mãe, quando meus amigos da escola tiram dez, eles ganham dinheiro dos pais!
- E você ganha uma má resposta!
Foi aí que começaram as cobranças. Mamãe sempre foi bastante exigente com tudo. Limpeza, compromisso, trabalho, educação. Tudo tinha que ser impecável. Eu não a culpo, pois tudo que ela teve na vida foi baseado nesse princípio. Tudo o que ela conquistou foi por ter sido muito exigente, muito mais consigo mesma do que comigo, diga-se de passagem.
O fato de ela ser mais exigente com ela do que comigo não significa que minha vida foi água com açúcar. Só quer dizer que ela era mais exigente com ela do que comigo. Entenderam? Que tipo de criança cuidava da movimentação bancária da mãe aos oito anos de idade? Eu. E até hoje não conheci ninguém que possa compartilhar comigo essa “emoção”.
E saber cuidar da movimentação bancária não era uma necessidade extrema. Miinha mãe, mesmo sempre apressada, conseguiria fazer isso sem a minha ajuda. O ponto é que ela realmente achava essencial que eu soubesse fazer isso mesmo tão criança. Então, desde os oito eu sei ficar na fila do banco, pagar as contas, calcular e receber corretamente o troco, calcular os juros e a multa das duplicatas em atraso, compreender o extrato, manipular as máquinas de caixa rápida e controlar os lançamentos dos cheques emitidos. Não é estranho que eu não tenha virado bancária?
Mas por que raios eu tinha que saber de tudo isso aos oito anos de idade? “A gente nunca sabe o dia de amanhã”, ela sempre diz. E nesse ponto ela tinha razão, porque sempre fomos sozinhas e eu tinha de saber me virar se acontecesse algo. Coisas de quem bateu muito a cara quando saiu de casa aos 16 e não fazia idéia do que era a “vida lá fora”.
Tive uma infância bastante feliz, não tenho mesmo do que reclamar. Mamãe não era muito presente porque trabalhava demais, mas me lembro com clareza das brincadeiras que fazíamos e da maneira estranha que ela tinha de me desafiar e punir. Antes mesmo de inventarem a tal Nanny da televisão, ela já me mandava “pensar” no que tinha feito de errado.
Ela era uma mãe muito corajosa. Lembro-me de uma vez, aos quatro anos de idade, quando emburrada disse que iria embora de casa. Ela mais do que depressa pegou a minha bolsinha preferida, colocou um pacote de bolacha, calçou em mim meu tênis da Moranguinho e disse “boa viagem”, ao mesmo tempo em que me colocava da porta pra rua. É claro que uma criança tão pequena não faz idéia do que seja ir embora de casa, mas ela me desafiou. E ganhou.
Por algum tempo eu fiquei sentada no batente pensando onde eu poderia ir, mas logo comecei a chorar e dizer a ela que queria voltar, que ela era a melhor mãe do mundo e que jamais iria embora de casa outra vez. E então quando ela viu que eu aprendera a lição, botou-me pra dentro. Acontece que eu não tinha aprendido a lição direito.
Aos nove, inventei que meu pai era melhor que minha mãe e que eu queria era morar com ele no Rio de Janeiro. Mamãe não era daquelas que pintava o diabo no lugar do ex-marido, ela não queria que eu inventasse uma personalidade pro meu pai, mas que eu mesma visse quem ele era. Aos nove é meio difícil ter toda essa percepção, né? Mas mamãe não pensa o mesmo e me mandou de “mala e cuia” de avião pro Rio de Janeiro.
E, pra variar, ela estava certa. Bastou um mês para que eu percebesse que ele não tinha tipo de pai. A impressão que tive é que ele era um grande adolescente, mesmo tendo 38 anos... Mamãe ficou satisfeita, porque mesmo sem nunca ter aberto a boca pra falar mal do meu pai, eu havia compreendido exatamente que tipo de “cara” era ele. Como eu disse, ela sempre teve maneiras estranhas de me testar.
Paraíso infantil
Quando eu fiz oito anos, ganhei um presente inusitado: minha mãe foi contratada pela Mesbla, aquela gigante, sólida e extinta loja de departamentos. Pra mim, no alto da minha pequenez, aquele lugar era um mundo maravilhoso à parte, do qual mamãe era rainha de seis reinos, quero dizer, gerente de seis departamentos. Entre eles, o mais importante – sem dúvida alguma – era o de brinquedos.
Ah, os brinquedos... Passava horas naquele paraíso infantil quase particular decidindo quais brinquedos gostaria de ganhar, quais eu dispensaria e quais eu daria de presente ou para a caridade. Era como se eu pudesse dar um fim bem útil para todos eles, ao invés de estarem ali, parados na prateleira (crianças não faziam muita idéia do que era capitalismo naquela época).
Mas, acreditem, o departamento de brinquedos não era a parte mais divertida da Mesbla. A parte mais divertida ficava nos fundos, onde só os funcionários tinham acesso: o galpão dos brinquedos avariados. Acontece que a avaria normalmente consistia num problema irrisório perto da vantagem dos preços simbólicos cobrados pelos mesmos. Lembro-me de uma maquininha de tricô rosa que do lado de fora custava uns R$ 100, mas do lado de dentro custava R$ 10, só porque faltava na caixa uma folhinha de adesivos.
E foi então que um dia mamãe me jogou lá dentro e disse: escolha tudo o que quiser e separe em um canto que já, já eu volto pra te buscar. Existe alguma frase mais feliz do que essa para uma criança? Se fosse um filme, com certeza apareceria aquela cena que gira 360° em torno do lugar – como se fosse a minha própria visão – e termina bem na minha cara com ênfase nos olhinhos que estariam reluzindo e na boca de quem não pode acreditar.
Bonequinha da banheira, carrinho de supermercado, inúmeros quebra-cabeças, carro da Barbie, casa da Barbie, boneca igual a um bebê de verdade, outra que chora e ri, outra que dá beijo e diz “I love you!”, jogos dos mais variados, vários kit’s de recortar e colar, outros de colorir, show de mágicas do Gugu, pescaria, maquininha de tricô, maquininha de pipoca, batedeira, liquidificador (tudo de brinquedo, claro), conjunto de panelinhas, conjunto pra brincar de feira, caixa registradora (plin, plin, plin), um ursinho de pelúcia com gravador. Isso até onde minha memória permite lembrar...
E aí chega a fada-madrinha:
- Então? Já escolheu?
- Já, mãe. Ta tudo aqui, ó!
- Ótimo!
E então, em um daqueles surtos psicóticos maternos de como criar bem uma filha, ela disse:
- Agora que você já escolheu o que quer, você sabe me dizer como é possível levar tudo isso?
- Comprando, ué...
- Muito bem, e pra comprar é preciso...
- Dinheiro! – respondi prontamente.
- E pra ter dinheiro é preciso...
- Trabalhar! – como se estivesse brincando de adivinhar.
- Isso mesmo! Agora vamos, que você vai trabalhar comigo hoje.
Cinco minutos depois eu estava em uma salinha sem graça pintando preços naquelas plaquinhas que vêm originalmente apenas com o número 888,88 e que viram qualquer outro número, desde que você pinte os riscos certos. E foi assim que minha mãe me ensinou que dinheiro nem brinquedos caem do céu.
“Dez, não, eu quero onze!”
Se vocês acham que o primeiro diálogo foi a minha primeira e última tentativa de arrecadar um elogio de minha mãe sobre meus estudos, estão enganados. Em uma das minhas investidas chego em casa com o boletim repleto de dez. Só tinha dez, em todas as disciplinas. Deixei-o em cima da cama dela, sem fazer alarde, só pra ver se ela seria capaz de esboçar uma reação qualquer.
Cansei de esperar:
- Mãe, viu meu boletim?
- Vi.
- E o que achou?
- Bom.
- Mas, mãe, eu só tirei dez e você acha “apenas” bom?
- E por que não tirou onze?
- Porque só dá pra tirar até dez!
- E quantas pessoas na sua sala tiraram dez?
- Ah... Eu, a Rafaela, a Camila... e a Mariah também.
- Pois é, não basta ser boa, é preciso ser a melhor. E até agora você foi só boa.
Mesada
- Mãe, preciso de uma mesada. Já tenho onze anos e preciso de dinheiro pra comprar minhas coisas.
- Mesada? Só se for na sua cabeça!
Se ela fazia uma criança de oito pintar plaquinhas de preço pra ganhar brinquedos, não tenha esperanças de que ela daria uma mesada pra uma de onze. O máximo que consegui foi convencê-la a me pagar uns R$ 50 mensais pra que eu mantivesse a casa em ordem e brilhando. E, naquela época, R$ 50 era uma fortuna! E por esse mesmo motivo, qualquer pia com louças por lavar à noite era uma excelente razão pra que houvesse um belo desconto na oncinha do fim do mês.
Ao trabalho!
Nesta época, a Mesbla já tinha falido e minha mãe resolvera abrir uma loja de cosméticos, em conjunto com um salão de beleza. Então aos 14 anos eu já era uma mini-funcionária com todos os deveres e poucos, bem poucos direitos. Foi aí que eu aprendi o meu primeiro ofício: vender todo tipo de coisas para mulheres de baixa auto-estima. Acreditem, é possível empurrar uma loja inteira de produtos de beleza para uma mulher que foi traída ou que não arruma namorado.
Deve ser da natureza feminina, não sei, mas o fato é que mulheres desejam ser desejadas. E é aí que os vendedores entram: “esse shampoo é afrodisíaco.”; “esse hidratante tem perfume de champagne com morangos” (!!!). Alguém sabe, de fato, qual é o cheiro de champagne com morangos? Eu só sei por que conheci o hidratante, caso contrário jamais poderia tê-lo guardado em minha memória olfativa.
Percebam o lúdico: só se toma champagne com morangos quando se está acompanhada, logo o hidratante leva você a imaginar que pode conseguir alguma companhia com ele. Só se for a conta do cartão de crédito...
Toda vendedora de produtos de beleza é um pouco psicóloga. Se associada a um salão de cabeleireiros, então... “Ah, não sei, acho que esse cabelo está te deixando muito pálida, abatida. Vamos colocar uma cor superviva, fazer um corte supermoderno e você leva um shampoo e um creme que vão deixar seu cabelo super-hidratado e brilhante. Você vai se tornar uma outra mulher!”
E não é que dava certo? Na semana seguinte lá estava ela de novo pra gastar mais um pouco e ganhar muitos elogios. Mulheres são assim. Pelo menos a maioria delas é. E eu descobri isso cedo demais – e acabei me tornando uma delas.
A filha da dona
Esse era o meu cargo: a filha da dona. “Quem é aquela menininha?”, perguntavam sempre. “É a filha da dona”, respondiam de pronto. Como eu só trabalhava nos fins-de-semana, poucos me conheciam e esta eram a pergunta e a resposta padrão.
Eu sei o que você está pensando. Ser a filha da dona é ótimo: ganha mais, trabalha menos, vem quando quer, é protegida pela mãe e manda nos funcionários. Há-há. Ledo engano. Eu sou filha daquela mulher que é superexigente, lembram? Pois bem, ser filha da dona – quando a dona era a minha mãe – significa: trabalhar aos sábados e domingos, limpar a loja quando não havia clientes, atender aos clientes mais difíceis (leia-se: chatos), fazer as escovas nos cabelos mais crespos, levar trabalho burocrático pra casa e ganhar muitas, muitas mais broncas do que as outras funcionárias.
Como era de se esperar, ela cobrava muito mais de mim do que delas. Resumindo: elas podiam errar, eu não. Elas podiam perder uma venda, eu não. Elas podiam dar um troco errado, eu não. Elas podiam queimar a orelha das clientes, eu não. E a bronca não era lá em casa, era na frente de todo mundo. Reclamar? Eu, não. Hoje agradeço.
Malhação
Minha adolescência com a geração Malhação foi um saco. Eu era um saco, sério mesmo, insuportável. Por que todo adolescente acha que é tão independente? Hoje eu acho adolescente um bicho tão intolerável que eu nem gosto de lembrar desta minha fase. Por isso, depois de ter sido patricinha, metaleira, punky, hippiezinha e maculelê, eu me reservo o direito de não gastar seu tempo com parágrafos tão inúteis.
Cortando laços
Na faculdade, inventei que precisava fazer uma mobilidade acadêmica fora do país. E ela achava que eu tinha resolvido isso tarde demais, que eu decidisse logo um destino e fosse imediatamente viver uma experiência internacional. Então ela te bancou? Sim e não. Ela mandava uma grana, mas eu tinha que inteirar pra sobreviver.
Foi a partir daí que eu comecei a agradecer todas as exigências de mamãe e as experiências estranhas a que ela me submetia. Enquanto todos os brasileiros em Portugal conseguiam empregos ruins em restaurantes, eu consegui um part-time de fim-de-semana em uma loja de bijuterias no shopping, afinal eu só tinha vinte anos de idade, mas já tinha seis de experiência com vendas – e vendia mais que qualquer uma das vendedoras que ela tinha.
Viver sete meses tão longe de casa foi fácil. Eu sabia cozinhar, cuidar de uma casa, andar em qualquer tipo de condução, chegar a qualquer lugar mesmo sem um mapa, negociar preços e alugar apartamentos com contratos em português de Portugal. E claro, se minha mãe não tivesse me preparado durante anos, eu jamais conseguiria vencer esses desafios.
Caindo na real
Só agora é que a mãe conta os truques pra me ter feito virar gente. Hoje ela ri e chora das coisas pelas quais me fez passar. Ela diz que a pior foi ter me mandado pro Rio aos nove, que era muita coragem pra uma mãe entregar uma filha pro pai e acreditar que ela fosse querer voltar pra casa. Mas ela confiou na filha que criou, no poder de discernimento que eu tinha. E se deu bem. Ou melhor, eu me dei bem.
Eu faço questão de dizer a ela sempre que consigo algo baseado nos ensinamentos estranhos que ela me passou. E ela fica toda orgulhosa.
- Mas você não se tornou uma pessoa muito exigente? – perguntou ela uma vez.
- Acho que intolerante é a palavra correta.
- É... Nem tudo podia sair perfeito.
* Jornalista; responsável pelo site Vestibular do Portal Brasil Escola.
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