TextoVivo - Narrativas da vida real

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06/07/2009 | enviar a um amigo | imprimir | a-   a+

A Rússia de Lyuba Lulko *


Thatiza Curuci **

 
Noite de reveillon, festa predileta na Rússia. Em alguns minutos, começaria 1993 - um ano de privação, com Boris Yeltsin no poder. Lá fora, o vento frio do inverno de temperaturas negativas, e dentro dos lares, o ronco nas barrigas dos familiares faziam singular sinfonia. A população sabia que as prateleiras do GUM (Glavny Universalny Magazin) e outros mercados soviéticos já estariam praticamente vazios na próxima manhã. Não faltaria batata nem vodca, mas os artigos de “luxo” - como salsichas, frango e leite - desapareceriam como se Ded Moroz (Papai Noel, em russo) tivesse um tomado um pileque e mudado seus planos.

Lyuba Lulko, 31 anos, carregava em seus braços a filha de dois meses. De suas mamas não saía leite e o alimento do bebê estava garantido apenas para as próximas semanas. O marido, Sergey Lulko, enfrentou horas na fila e levou para casa uma caixa com 10 saquinhos de leite em pó.
 
Naquela noite, data religiosa, a família estava unida, mas a preocupação era “o que vamos comer?”. Antes que a meia-noite chegasse, Ded Moroz se recuperou da ressaca e surpreendeu-os. Horas antes da virada do ano, o marido se voluntariou a descarregar os artigos de alimentação do caminhão até o estoque de uma loja. Aquela comida toda seria distribuída para a população nos próximos dias em troca de cartões, pois não haveria mais dinheiro, apenas “vales”. “Pagava-se” o encanador, o eletricista, “comprava-se” tudo com esses talões. Depois de horas de trabalho, ele recebeu o presente de Ano-Novo: duas galinhas. Foi recebido com festa na casa dos Lulko.

Último trimestre de 2008. As prateleiras da casa de Lyuba, 47 anos, estão abastecidas de alimentos. Os russos sofrem a insegurança do desemprego. A crise mundial que começou nos Estados Unidos fez o rublo despencar e a inflação atingir 15% naquele ano. Os russos não tinham mais o adorado Vladimir Putin no poder. Ele era apenas primeiro-ministro. O presidente, o enigmático Dmitri Medvedev, não transmitia a segurança que os russos precisavam.

- Existem 50 soluções para sairmos da crise – anunciou na televisão estatal. Em um milagre desses nem os russos acreditam.

Nessa época de incertezas para Lyuba e seus compatriotas, seria mais fácil se o problema dela fosse político ou econômico. Sem vontade de comer, de sair, de se divertir. Seu corpo lembra o de um experiente bailarino que começa a sentir as dores nas articulações, as quedas e o tímido aplauso do público. Cada apresentação parece a última no Teatro Bolshoi.
 
Na última década, enterrou quatro familiares. A mãe, Lígia Sytnik, sofreu um enfarte, aos 67 anos; a irmã mais velha, também com problema cardíaco, faleceu aos 50 anos; a irmã gêmea não-univitelina suicidou-se aos 39 anos, após a morte do filho mais jovem, de nove anos. Esta deixou um sobrinho, Dmitry, de 19 anos, que vive com o pai dela.

Seu corpo está cansado, sua mente pensa demais. Não fosse o bastante, ainda tem de lidar com outras quedas que lhe rendem o coração partido. O pai, Alexander Sytnik, sofreu um acidente vascular cerebral há seis anos. Tornou-se um homem sujo, doente e resmungão. Arrasta os pés pelo apartamento e liga quase todas as tardes para lembrá-la de passar no supermercado e comprar a comida do gato.

Na mesma época da doença do pai, descobriu que não era a única mulher na vida de seu marido ciumento. O olhar daquele que ela ainda ama não é mais o mesmo que a fez se apaixonar, à primeira vista, na festa de uma amiga, há 20 anos. Agora, os olhos dele fazem-na ter medo de sofrer uma agressão. Sua filha única, Maria Lulko, 16 anos, quer morar sozinha, ter sua própria vida. Lyuba espera a maioridade dela para “resolver a situação” do casamento, espera o amor do marido, espera sobreviver aos ferimentos, espera ser feliz, espera sobreviver. Suspira fundo, solta o ar, enquanto parafraseia o poeta e romancista russo Aleksandr Pushkin:

- Na vida não há felicidade, só há um costume.

Enfrenta campos de batalha diários, no anoitecer. Lyuba visita a casa do pai, onde dorme três dias por semana. Dá comida para o gato, ouve malcriações dele, um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, lava suas roupas e as do sobrinho. Nos outros dias da semana, dorme na casa do marido. A rotina é fazer o jantar, pois “se não tiver batata e carne o marido reclama”. Às vezes, liga o computador, mas gosta mesmo de ficar em silêncio, assistindo televisão até o sono chegar. Frequenta dois apartamentos, mas não se refere como morador de nenhum. Afinal, onde vive? Onde se alimenta?


“Pravda”, seu lar

O cardápio diário é composto por laudas e laudas de tradução de textos do português para o russo e vice-versa. Das 9h às 18h sua morada é a redação da versão on-line do jornal “Pravda” (“Verdade”, em russo), na rua Staraya Basmannaya, grupo 16, número 2, em Moscou. Esta é sua casa nos últimos dois anos e meio, desde que foi convidada pela chefe de redação, Inna Inna Novikova, a integrar a equipe de repórteres. Oficialmente redatora das versões em russo e em português do site. Na verdade, é a geógrafa mais jornalista que conheci, entusiasta da página luso-brasileira e a única que fala a língua latina por lá.

“Ela vibra ‘Pravda’, especialmente a versão em português. Extremamente dedicada, não há ninguém com o coração maior naquilo que faz”, ressalta Timothy Bancroft-Hinchey, diretor da versão e morador de Lisboa.
 
É no Pravda que esta mulher de quase cinquenta anos vive como Lyuba Lulko. Os olhos azuis-escuros, grandes e vibrantes, transmitem o amor que sente pelo que faz. Nesse momento, seu nome não poderia ser outro: em russo, Lyuba (Люба, em alfabeto cirílico) é o diminutivo da palavra amor – Lyubov (любовь).

Seu corpo não alcança os 1,6m. É magra, bem magra, tipicamente russa. A pele alva contrasta com os cabelos negros, que tocam os ombros com leveza. O corte é moderno, repicado com franja irregular, para dar mais volume ao liso. Não usa batom ou qualquer maquiagem. Seu único adereço é um colar prateado com um pingente de crucifixo. As unhas são curtas, ágeis no teclado do computador. Seus seios pequenos e suas pernas esguias fazem-na parecer mais jovem do que é. Anda a passos curtos e rápidos. Discute com os colegas política, futebol, carnaval e é requisitada a todo o momento. O sorriso tímido e agudo parece soluço alegre de criança que ganha um doce. Quando ri, seus olhos fecham e seu queixo eleva-se. Ela não mostra os dentes, só algumas vezes, na espontaneidade, mas geralmente esconde-os com as mãos.

- Thatiza, gosto de você. Você não é brasileira, você é russa. Fique aqui, more aqui. Sem sua presença, voltarei a almoçar sozinha e terei mais trabalho a fazer. - Meu coração fica feliz quando ela diz isso com seu sotaque lusitano, tão engraçado para nós, brasileiros.

A saia um pouco acima do joelho e blusa de mangas curtas de uma cor só não a impedem de sentir calor dentro da redação. Pede licença para abrir um pouco a janela, mas o vento gelado de outono logo invade a sala. A repórter do lado faz cara feia e ela levanta-se para fechar o vidro.

- Sente calor, Thatiza? Aqui está abafado. Já faz meses que prometeram arrumar o ar-condicionado, mas não resolvem – ela reclama, com razão.

Com medo de pegar um resfriado, os russos costumam deixar tudo hermeticamente fechado. Sentia-me dentro de um tuperware nos quase três meses que trabalhei na redação do “Pravda”, um estágio não-remunerado. Um dia, os técnicos foram arrumar o aparelho. Furaram o teto (provavelmente para a saída do ar) e deixaram tudo aberto no horário de almoço.

- Olha Lyuba, hoje o ar-condicionado vai voltar a funcionar – digo animada.
- Que nada! Já fizeram isso outras vezes e nunca consertam.

Rorc, rorc, roooorc,roooooorc. Silêncio. Roooorc, rorc, rorc. Um som abafado vinha do sótão. Olho para o alto e vejo caírem, perto dos meus pés, alguns pedaços de madeira de um dos buracos no teto.

- O que é isso, meu Deus? - pergunto em português. Em poucos minutos, estava em cima de uma cadeira, ao lado do repórter russo Sergey, que me olhava espantado.

Não precisava entender a língua para perceber o meu desespero. Segundos depois as mulheres soltaram gritinhos e também saíram de seus lugares. Só podia ser uma coisa... Um rato... Bem em cima da minha cadeira. Socooooooorro.

Corajosa, uma repórter pegou um pedaço de graveto que estava em um vaso, cutucou, cutucou o buraco no teto e falou algo em russo que não entendi, mas suas palavras fizeram com que as outras mulheres se acalmassem e dessem risada.

- É uma pomba, Thatiza. Não é um rato.
- Mas eu vi o rabo e o pêlo - insisto.

Era uma pomba mesmo. Só sosseguei quando vi a asa e constatei que o rabo do rato nada mais era do que os pezinhos do pássaro. Ufa!


“Pravda” em Moscou

Depois dessa gafe, que tal darmos um passeio pelo jornal “Pravda”? Acho que muitos têm curiosidade de saber o que aconteceu com o memorável jornal socialista. Eu também tinha, mas logo nos primeiros dias fiquei sabendo de algo que faria o revolucionário Lênin arrepiar os cabelos se ainda tivesse entre nós. Essa história fica para daqui a pouco. Primeiro o nosso passeio.

A entrada do “Pravda” confunde-se com a de uma igreja ortodoxa, de cores salmão e branco. O prédio de dois andares e um subsolo é alugado e fica na frente do templo religioso. Depois de passar por um portão que sempre está entreaberto, o visitante depara-se com uma pesada porta de ferro que não deixa o frio entrar, muito útil nos oito meses do ano em que a temperatura geralmente está abaixo de zero. Depois de apertar o interfone, é preciso falar com o segurança, que para minha surpresa, não é um senhor carrancudo, como as senhoras “pouca-informação de cabelo de laquê” da época soviética, que ainda trabalham no metrô.

No primeiro andar, as duas recepcionistas simpáticas também sorriem, em mais da metade dos dias da semana.

- Здравствуйте! (“Olá” em russo, em linguagem formal) - cumprimenta Lyuba.

Assina o livro e anota nele a hora de entrada. Sobe mais dois lances de escada e chega ao segundo andar. Lá, no final do corredor, fica a redação do “Pravda” russo, da versão em língua portuguesa e da versão em inglês. Mais de 50 pessoas trabalham no prédio, mas o jornal tem uma quantidade bem maior de colaboradores que editam e publicam as notícias de suas casas em vários lugares do mundo.

A redação é uma sala cheia de jovens, em geral na faixa dos 20 aos 30 anos. Nas mesas ficam computadores, livros, jornais, papéis com anotações a mão, canetas e sempre, inevitavelmente, uma caneca para tomar chá, que nem sempre foi lavada no dia anterior.

No mesmo corredor, a primeira porta é do pequeno refeitório com microondas e geladeira. A mesa é pequena e dá para ver a cúpula da igreja pela janela. Nos almoços solitários, cada detalhe da cúpula é contemplado. Nos almoços com Lyuba, a comida congelada transforma-se em um típico prato russo preparado com carinho. No corredor do mesmo andar, nas portas do lado direito, duas salas, onde ficam as redações do site para adolescentes e do site de automóveis.

A única porta do lado esquerdo é a da sala da chefe Inna, uma ruiva bem-vestida que sempre chega por volta das 17h, depois de ter enfrentado o trânsito das ruas de Moscou, pronta para começar as muitas reuniões de pauta do dia. Geralmente, não deixa os repórteres falarem muito, ela gosta de comandar a conversa. Mas é capaz de ouvir as queixas dos funcionários. Dá valor para a versão portuguesa, ainda que esta não lhe dê lucros, pois quase não há publicidade na página. A maioria dos leitores é do Brasil e de Portugal, apenas 10% da Rússia.

O possível fechamento da página em português é uma das maiores preocupações de Lyuba. Ler e escrever na língua latina é a razão de ela estar lá. “Se não tiver a versão portuguesa, saio nos próximos cinco minutos”, assegura. Infelizmente, este é o objetivo de um dos sócio-fundadores do holding pravda.ru, Vadim Gorshenin, também editor-chefe e marido de Inna.

Agora, é melhor contar por que me surpreendi com o jornal. O Pravda on-line, conhecido como pravda.ru, não é o mesmo “Pravda” socialista liderado pelos bolcheviques, principal jornal da União Soviética e órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista entre 1918 e 1991. A história do jornal no formato digital não é comentada entre os repórteres e nem pode ser publicada na página russa ou portuguesa. Os diretores não gostam de falar sobre isso publicamente porque, atualmente, brigam na justiça com outro grupo que também diz ser “dono” da marca. Ou seja, por enquanto, existem dois Pravdas e duas verdades... E parece que a briga vai longe.
 
O “Pravda” socialista foi fechado pelo então presidente russo Boris Ieltsin, através de um decreto que confiscou todas as propriedades do Partido Comunista. Na ocasião, alguns jornalistas que trabalhavam na redação não protestaram, mas decidiram agir. Simplesmente abriram outro jornal com o mesmo nome. Meses depois, este periódico foi vendido para uma família de empresários gregos, mas a maior parte da redação não gostou nada disso e pediu demissão. Liderados por um dos ex-diretores do Pravda socialista, Vadim Gorshenin, eles fundaram a própria versão do jornal, com o famoso logotipo e nome, mas desta vez, ao invés da cor vermelha, a marca era preta.
 
Tempos depois, mais uma vez, o jornal foi fechado por pressão do governo. A saída foi lançar, em janeiro de 1999, o pravda.ru, primeiro jornal digital russo, visitadas mensalmente por 4 milhões de internautas. Apesar da marca ser a mesma da época soviética, a versão da web tem abordagem nacionalista, inclusive com artigos pagos pelo partido governista Rússia Unida (que elegeu Putin), publicados na versão russa. A página na versão portuguesa “tem mais liberdade” e nela ainda podemos ler notícias de ponto de vista esquerdista.

“Meu ‘Pravda’ é o verdadeiro”, afirmou Gorshenin, em 2003, quando a batalha judicial começou, para a Radio Free Europe (que se define como uma agência que fornece notícias e informação em países onde a liberdade de imprensa é proibida pelo governo ou não completamente estabelecida). Ele alega que o título legitimamente pertence àqueles que trabalharam na redação na época soviética e não a um conselho editorial “que visa objetivo político”. Gorshenin diz que seu interesse em assegurar os direitos do "Pravda" é meramente comercial. “O nome Pravda vende”, justifica. O que diria Lênin? Já não basta um McDonald’s a poucos metros de seu túmulo, na Praça Vermelha?

Mas, afinal, quem é o outro “Pravda”? A outra “verdade” mantém o símbolo em vermelho e é publicado em papel apenas nas épocas de eleições. É órgão jurídico do Comitê Central do Partido Comunista da Rússia, com artigos políticos longos incentivando a volta ao socialismo.

Enquanto estive na Rússia, não consegui um exemplar do jornal impresso, mas conversei com Lyuba sobre isso. A opinião dela não era o que esperava ouvir de uma russa.

- Putin derrotou os comunistas e o jornal comunista. É seu mérito e gosto disso, sim? Os comunistas nunca mais vão atingir tais posições que tiveram porque a juventude e aqueles que sobreviveram (ao socialismo) não gostam deles. Existem os que gostam, mas eu não.

A tia de Lyuba, 70 anos, é uma que não desiste. É comum ver idosos fazendo pequenas manifestações nas ruas de Moscou, distribuindo botões de rosa vermelha para os apressados moscovitas.

- Ela me diz “Lyuba, vota também (no Partido Comunista). Eu digo “sim, minha tia, vou votar”, mas não voto. Ela fala “Lyuba, por favor leia este artigo. Aqui é verdade”.

Não gostar do Partido Comunista é uma questão de família para ela. O pai tinha cinco anos quando ele, seus quatro irmãos, pai e mãe foram expulsos do lar por autoridades em “nome de Stalin”. Perambularam por vias sujas e frias durante 24 horas até encontrarem um abrigo.

- Ele odeia os comunistas desde criança. Na Segunda Guerra, teve outra decepção. Combateu contra os alemães, sim? Lutou por quase três anos em batalhas onde a cada dez homens, apenas um sobrevivia. Sabe o que ganhou? Nada. Estava em um campo neutro, lutando entre as florestas e não foi reconhecido como oficial.


Matrioshka em busca de aventura

A nossa geógrafa jornalista também já esteve em uma guerra, afinal está no sangue russo, Да (sim)? Lyuba é como aquelas famosas bonecas russas, as matrioshkas. A cada peça de madeira que abrimos - uma menor do que a anterior - mais surpresas temos. Abri uma dessas matrioshkas de sua personalidade e descobri porque a língua latina a conquistou.

Tinha 15 anos, em 1976 - ano em que Fidel Castro Castro se tornou presidente de Cuba depois de mudanças na Constituição -, quando mudou-se para Havana com os pais e as duas irmãs. Os pais lecionavam a língua russa para filhos de especialistas que foram enviados ao país. Nessa época, as forças cubanas apoiavam o comunista Movimento Pela Libertação de Angola (MPLA) e receberam apoio da União Soviética. Lyuba frequentou a escola de língua espanhola, onde fez um curso primário de língua para estrangeiros. Daquele país, Lyuba gostou do mar e adaptou-se bem ao clima quente.

- Podia entrar no mar e andar por cem metros sem afundar...

Visitava a casa de senhoras russas casadas com cubanos e levava o melhor presente da Rússia. Quando chegava à casa delas com peixe seco e pão preto, elas arregalavam os olhos e agradeciam muito.

Quando retornou à Rússia, em 1978, era tempo de iniciar a faculdade. Optou por Geografia devido à influência de sua prima Quenia. Interessou-se em “estudar o solo, os rios”. Desde a década de 1960, quando em Angola teve início a luta armada de libertação nacional, a União Soviética enviava tropas ao país para auxiliar na estratégia de uma das organizações, o MPLA. Quando Lyuba entrou na faculdade, ficou sabendo da existência de um grupo de estudos de língua portuguesa que formava alunos com intuito de enviá-los a Angola como tradutores. Foram quatros anos de estudo até receber o convite do governo russo.

- Não tínhamos dinheiro. Eu e minhas irmãs usávamos por cinco anos as mesmas botas e casacos de inverno. Quando comentei sobre a oportunidade de ir para Angola, meus pais não negaram.

Malas prontas, Lyuba foi enviada juntamente com quatro engenheiros para a companhia nacional de saneamente e água, em Luanda. Ficou alojada em um dos apartamentos, mas quase nunca podia dormir à noite ou a qualquer hora do dia.

- Quando não era o barulho de bombas, era alguém batendo à minha porta. “Lyuba, vamos”, “Lyuba, precisamos de você”, “Lyuba isso”, “Lyuba aquilo”, o tempo todo.

Quando os guerrilheiros explodiam as estações de água – fato muito comum – o grupo se dirigia ao local. Sentiu medo dos ataques no início, mas aos poucos seus ouvidos e sua mente foram se acostumando aos caos.

 - Uma vez, em Huambo (no centro de Angola), um guerrilheiro da Unita (União Nacional pela Independência Total de Angola) tentou nos matar com uma metralhadora.
-  Achou que fosse morrer nesse dia?
- Não, não. Nós nos jogamos na terra e ficamos esperando. Ele atirava e queria matar qualquer um, mas me pareceu um louco que não sabia o que fazer.

Como trabalhava na companhia de abastacimento, percorria regiões próximas aos rios e estações de água, onde ficam os mosquitos. Uma tarde, passou mal e desmaiou. Acordou no hospital, com malária. Os remédios não faziam efeito, pois nada parava estômago.

- Dormi e acordei uma semana depois. Estava em coma.
- Pensou em largar tudo e voltar para a Rússia?
- Não, pelo contrário. Estava contente por descansar um pouco no hospital. Sim, Thatiza, sim. Um mês inteiro descansando.

Em 1982, a Rússia perdeu um de seus governantes mais adorados, Leonid Brejnev (1964 a 1982). Russos e angolanos choraram. Segundo Lyuba, 60% dos russos acham que ele foi o melhor líder da União Soviética porque em sua época havia estabilidade. Não faltava assistência médica, educação e o salário dos trabalhadores não atrasava. Por outro lado...

- E você? Gostou do governo dele?
- Eu não gostei porque havia a ditadura do Partido Comunista. Os russos eram быдло, gente-gado na sua língua. Quer dizer, sem direito de pensar, de ter sua própria opinião. Se alguma pessoa se atrevesse a falar, era colocado em um hospital psiquiátrico ou na prisão.

A experiência em Angola durou um ano e Lyuba retornou à pátria em 1983 para ingressar como militar no Ministério da Defesa, onde ficou até sua aposentadoria, em 2006. Desse período, ela não conta nem sob efeito de vodca. Todas as atividades são sigilosas e ela não pretende se arriscar, ainda mais para uma jornalista.

Tudo bem, posso sobreviver sem essa informação, mas não podia deixar a Rússia sem saber de duas coisas. A primeira delas:

- Lyuba, por que os russos amam Putin?
- Por que amamos Putin? Ele devolveu a estabilidade. Se me perguntar qual tipo, não sei dizer, mas é estabilidade. Novamente, sentimos que estamos protegidos pelo governo. Ele começou a realizar programas sociais, como o Lula. Depois de nascer o segundo filho, a mulher recebe 10 mil dólares. E o terceiro também. E tem o direito de receber quase de graça um apartamento.

Anna Politkovskaya, jornalista do “Novaya Gazeta”, assassinada em outubro de 2006, conseguiu resumir, na minha opinião, o fascínio dos russos pelo ex-presidente e atual primeiro-ministro. Está na página 105 de seu livro “A Rússia de Putin”, o último dela: “O seu apego aos velhos tempos (de Putin) é tão forte, que a ideologia que faz mover o capitalismo de rosto putinista lembra cada vez mais o do pensamento na URSS no auge do Período de Estagnação, nos últimos anos da era Brejnev (...)”.

Há alguns atributos que fazem as russas suspirar ao ver o líder na televisão ou em revistas. Quero deixar bem claro que estou falando das russas, ok?

- Ele (Putin) tem energia, tem inteligência, tem planos. Além de tudo é carismático.

Ao ouvir estas palavras, uma imagem se formou na minha mente. Lembrei-me do episódio, em 2008, bastante comentado pela mídia. O então presidente posou de herói ao salvar jornalistas indefesos do ataque de um tigre siberiano de quase 500 quilos. Putin teria atirado um dardo com tranquilizante no animal, que corria em direção às presas.

Por falar em presidentes salvando jornalistas, será que os russos pensam que existe cipó e macacos nas ruas do Brasil? Que o Lula precisa andar armado para proteger os repórteres das feras? Essa era a segunda pergunta-que-não-quer-calar.

- Lyuba, o que os russos pensam do Brasil?

Antes da resposta dela, um parêntese. Os russos têm um sonho que nasceu na época soviética e dura até os dias de hoje, e Lyuba não poderia ser diferente. Andar de calças brancas na praia de Copacabana. Hã? Trata-se do sonho do herói de um dos livros mais populares na Rússia: “Doze Cadeiras”, escrito na década de 1920 pela dupla de autores Illa e Ilf Petrov. O personagem Ostap Bender parte à caça de um tesouro, sonhando, quando o encontrasse, conhecer o Rio de Janeiro e percorrer Copacabana de calças brancas. O livro tornou-se filme com versões em russo e em português.

- Gosto do Brasil, de conhecer e estudar a língua portuguesa. É um país de milagres, de mistérios, onde todos os russos podem andar de calças brancas na praia. Quando pequena, imaginava na Amazônia viverem animais que ninguém conhece, índios que aqui não há. Para mim, o Brasil é um país de Deus. Não é como a Rússia que está na terra. Todos os russos devem lutar pela vida. Antes de te conhecer, pensava que no Brasil não era preciso trabalhar, aquecer a casa com lenha. Para comer algo bastava bater na palma para recolher banana, só dançar, descansar e gozar a vida.
- E depois que me conheceu?
- Agora sei que lá vivem pessoas parecidas aos russos. Temos semelhanças, obrigações, necessicades. Mas sabe uma coisa? No Brasil, as novelas têm sempre final feliz. Na Rússia não.


Adeus, camaradas

Última semana de novembro, meu último dia no “Pravda”. No meio da tarde, vejo Lyuba pensativa, quieta, distante. O olhar dela fixa-se no alto, em algum ponto, e sua mente é tomada por imagens. Por alguns segundos, ela não está mais na redação do “Pravda”. Está usando um vestido longo de tecido flutuante. Seu corpo roda e dança ao som da Bossa Nova. Em um giro, cai nos braços do seu adorado José Wilker (do filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos). Seu vestido é esvoaçante e ela gosta de rodar para sentir-se leve. Nesta noite, as horas passam e ela não se preocupa. Esta noite ela não vai cuidar do pai, nem do marido, da filha ou do sobrinho. São só os dois. Pouco conversam, mas nem é preciso porque ela quer bailar.

Exausta, mas feliz, Lyuba está pronta para realizar seu maior sonho. Veste calças brancas e vai até a praia de Copacabana. Com os pés na areia, admira o mar e caminha lentamente. Sente o frescor do clima tropical e seu peito se enche de satisfação.

De repente, seu olhar desce e percebe que estou olhando-a. Expira com certa melancolia e diz:

- Vamos tomar café?
- Lyuba, te espero no Brasil. Quanto ao José Mayer, não sei (risos), mas vamos passear de calças brancas na praia. Que tal?
- Não sei, Thatiza, não sei. Quem sabe...

E por mais alguns segundos, antes de pegar a caneca em cima de sua mesa e andarmos até o refeitório do “Pravda”, seus olhos brilham novamente e seus pés querem tirar as botas para ficarem livres.

* Consegui um estágio na Rússia no jornal “Pravda” por três meses. Adivinha para quem mandei o e-mail pedindo emprego? Ela mesma. Sempre profissional e prestativa, Lyuba analisou meu caso e me ajudou até a tirar o visto para entrar no país. As entrevistas informais foram no refeitório do “Pravda”; e marcamos três entrevistas – no shopping, em um café e em um restaurante. Em todas elas levei o gravador e anotei frases dela, comportamento e outros, com uma caneta de quatro cores. Escrevi algumas anotações na Rússia que me fizeram toda a diferença na hora de escrever o texto no Brasil. Percebi as cores, os cheiros, o olhar da personagem, suas expressões, seu estado de espírito. Foram quase três meses em sua companhia, pelo menos três vezes por semana, pois trabalhávamos juntas e conversávamos muito. Aos poucos, ela foi abrindo seu coração. Os russos são mais frios e precisam confiar nas pessoas para falar até mesmo sobre coisas do dia-a-dia. Mas Lyuba é um pouco brasileira. Ela me abraçou e beijou quando nos conhecemos. Mas não deixou que eu conhecesse a casa dela (nem a do pai ou a do marido). Também não pôde falar muito da sua época militar. Achei melhor não insistir.

* * Jornalista pós-graduada em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (www.abjl.org.br), turma São Paulo 2008.
r. general jardim, 618 / 51 - são paulo / sp + 55 11 3129-8320